16 de fevereiro de 2018

Capítulo 59

Traída pelos seus,
Espancada e desprezada,
Ela haverá de expor os perversos,
Pois o Dragão de muitas faces
Não conhece limite algum.
— Canção de Venda —



KADEN

Eu estava sentado à mesa do Conselho, ouvindo, assentindo, tentando acrescentar uma palavra quando podia. No entanto, uma vez mais, Lia havia tomado posse dos meus pensamentos. Com cada gota de sangue dentro de mim, eu tinha certeza de que precisava dela aqui. De que ela precisava estar aqui. Mas isso parecia quase impossível agora.
Eu sabia.
Eu sabia o que ele estava planejando, e nada disse porque isso era tudo que eu achava que queria, “os passos para a justiça”, como se ele referia a isso, e eu queria justiça. Era assim que eu me referia a isso também. Mas eu sabia que estávamos distorcendo as palavras. Era vingança, pura e simples. Isso era tudo que importava. Eu tinha certeza de que, no dia em que olhasse nos olhos do meu pai e o levasse até seu último suspiro, minhas próprias respirações ficarão mais plenas. Que as cicatrizes que eu carregava milagrosamente desapareceriam e seriam esquecidas. Qualquer preço parecia valer a pena por esse prêmio. Inocentes morrem na guerra, Lia. Eu havia dito essas palavras inúmeras vezes para mim mesmo, como justificativa, até mesmo quando fiquei sabendo da morte de Greta. Inocentes morrem. Mas agora eu visualizava Berdi servindo porções extras de cozido, eu mesmo dançando nas ruas de Terravin com Gwyneth e Simone... e lá estava Pauline, uma moça tão bondosa e gentil quanto era possível para alguma pessoa desta terra ser. Elas tinham nomes agora. Suas faces eram pungentes e claras, enquanto a face da justiça ficara indistinta.
Ao mesmo tempo, eu não conseguia me esquecer das pessoas de Venda que haviam me recebido. Eles haviam me adotado como se fosse um deles. Haviam me nutrido. Eu era vendano agora, e sabia que a necessidade deles era grande. Nós éramos um reino que lutava todos os dias nas mãos daqueles que não demonstravam qualquer compaixão. Será que esta terra não merecia um pouco que fosse de justiça? E eu sabia que a resposta a essa pergunta era um inegável sim.
Não permitirei que nenhum mal venha até elas.
Eu havia feito uma promessa a Lia que não sabia ao certo se era capaz de manter.
As reuniões estavam sendo longas. O governador Obraun foi notavelmente fácil de ser influenciado, concordando em dobrar as cargas de suas minas em Arleston. Quase conveniente demais. Os outros governadores ficaram hesitantes, clamando que não teriam como tirar leite de pedra. O Komizar garantiu a eles que eles poderiam, sim, fazer isso.
Vocês tem um acordo. Que maravilhoso para você.
— Você não tem nada a dizer, Assassino?
Ergui o olhar, e Malich exibia um sorriso afetado para mim do outro lado da mesa, deleitando-se por me pegar com outros pensamentos em mente.
— Todos nós temos prática em tirar leite de pedra. Fazemos isso há anos. Podemos fazer por mais um inverno.
O sorriso dele esvaneceu-se, enquanto o do Komizar ficava maior, satisfeito porque eu havia forçado a causa. Ele assentiu; nosso entendimento de longa data estava restabelecido.

3 comentários:

  1. Traída pelos seus,
    Espancada e desprezada,
    Ela haverá de expor os perversos,
    Pois o Dragão de muitas faces
    Não conhece limite algum.
    — Canção de Venda —



    Ou eu to enlouquecendo, ou isso se parece mt com Calantha?

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  2. Para mim parece com Lia, traída pelos eruditos, pela família, Kaden, machucada pelo Komizar.

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  3. Pra mim ela vai ser traída pelo Rafe.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!