2 de fevereiro de 2018

Capítulo 59

Nós estávamos sentados debaixo de uma lua cheia em volta da fogueira do acampamento. Estava quente, o que fortalecia os fortes cheiros de pinho e da grama da pradaria no ar. Eles tinham trazido cobertores e travesseiros para fora para que pudéssemos comer nossa ceia em volta do fogo crepitante. Terminados o último dos bolos de sálvia, não hesitei em lamber as migalhas dos meus dedos. Esses nômades comiam bem.
Olhei para Kaden, que estava à minha frente, do outro lado, com os cabelos de um dourado cor de mel cálido à luz do fogo. Eu havia cometido um erro terrível ao beijá-lo. Ainda não sabia ao certo por que tinha feito isso. Eu ansiava por alguma coisa. Talvez por ser abraçada, por ser confortada, sentir-me menos sozinha. Talvez fingir, por um instante. Mas fingir o quê? Que estava tudo bem? Porque não estava.
Talvez eu só estivesse em dúvida. Eu precisava saber.
O brilho do fogo acentuava o maxilar duro de Kaden, assim como a veia saltada em sua têmpora. Ele estava frustrado. Seu olhar se encontrou com o meu — raivoso, em busca de algo. Olhei para o outro lado.
— Está na hora de descansar, meu anjinho — disse uma das jovens mães ao filho, um menino chamado Tevio. Muitos dos outros já tinham ido para a cama.
Tevio protestou, disse que não estava cansado, e Selena, apenas um pouquinho mais velha, juntou-se a ele como se na expectativa de que seria a próxima a ser arrastada para longe dali.
Sorri. Eles me lembravam de mim mesma naquela idade. Eu nunca estava pronta para ir para o meu quarto, talvez porque fosse mandada para lá com bastante frequência.
— Se eu contar uma história — falei — vocês concordam em ir dormir?
Ambos assentiram, entusiasmados, e notei que Natiya se aninhou mais próximo dos dois, esperando pela história também.
— Era uma vez — comecei — há muito, muito tempo, em uma terra de gigantes, deuses e dragões, havia um pequeno príncipe e uma princesinha que se pareciam muito com vocês. — Eu alterei a história, do jeito como meus irmãos fizeram quando a contaram para mim, do modo como minhas tias e minha mãe tinham feito, e contei a eles a história de Morrighan, uma jovem e valente menina especialmente escolhida pelos deuses para guiar sua carvachi púrpura pelos lugares inóspitos e conduzir os Remanescentes sagrados até um local seguro. Fiquei mais inclinada em contar a versão do meu irmão, falando dos dragões que ela havia domado, dos gigantes que enganara, dos deuses que visitara e das tempestades que puxava do céu com uma conversa e as punha na palma da mão, para depois soprá-las para longe com um sussurro. Enquanto eu contava a história, notei que até mesmo os adultos estavam dando ouvidos, mas especialmente Eben. Ele havia se esquecido de agir como o bruto endurecido que era e se transformou numa criança de olhos tão arregalados quanto as outras. Ninguém nunca tinha contado uma história a eles antes?
Acrescentei algumas aventuras que até mesmo meus irmãos nunca tinham conjurado para levar a história até seu fim, de modo que, até que Morrighan chegasse à terra do renascimento, um grupo de ogros já tinha puxado sua carvachi e ela havia cantado para que as estrelas cadentes da destruição voltassem ao céu.
— Que foi onde as estrelas prometeram ficar para todo o sempre.
Tevio sorriu e bocejou, e a mãe dele o pegou em seus braços, sem mais nenhum protesto. Selena também acompanhou a mãe até a cama, sussurrando que ela era uma princesa.
Uma imobilidade pesada se assentou depois que eles se foram. Vi que aqueles que permaneceram ali ficaram fitando o fogo, como se a história permanecesse em seus pensamentos. Então uma voz quebrou o silêncio.
Espere.
Griz soltou um grunhido, ecoando os sentimentos de Kaden, mas Malich acenou com a mão no ar.
— Eben está certo — disse. — Deixem que ele fale. Pelo menos nós terminamos o trabalho que tínhamos que fazer, você não pode dizer o mesmo.
Eben se apressou em descrever o que eles haviam feito em Morrighan antes que Kaden pudesse interrompê-lo. Ele descreveu estradas que bloquearam com deslizamentos de terra, ravinas e cisternas que poluíram e as muitas pontes que destruíram.
Dei um passo à frente.
— Vocês destruíram o quê?
— Pontes — repetiu Finch, e então abriu um sorriso. — Isso mantém o inimigo ocupado.
— Não somos tão feios ou idiotas assim para algumas tarefas, Princesa — disse Malich, zombando.
Minhas mãos tremiam e senti a minha garganta se fechar. O sangue chegou às minhas têmporas com tanta violência que fiquei zonza.
— O que há de errado com ela? — quis saber Eben.
Dei a volta na fogueira até que estava parada acima deles.
— Vocês derrubaram a ponte em Chetsworth?
— Aquela foi fácil — disse Finch.
Eu mal conseguia falar acima de um sussurro.
— Exceto pela carruagem que vinha por ela?
Malich deu risada.
— Eu cuidei da carruagem. Foi fácil também — disse ele.
Ouvi os gritos de um animal, senti carne debaixo das minhas unhas, a quentura do sangue em minhas mãos, as mechas de cabelos entre os meus dedos enquanto eu o atingia repetidas vezes, afundando seus olhos, chutando suas pernas, dando joelhadas em suas costelas e socando sua face com meus punhos cerrados. Os braços de alguém me agarraram pela cintura e me puxaram para longe dele, mas continuei a gritar e a chutar e a afundar as unhas em qualquer coisa que estivesse ao meu alcance.
Griz prendeu os meus braços, mantendo-os juntos ao meu corpo. Kaden conteve Malich. Fios de sangue cobriam seu rosto, e ainda mais sangue escorria de seu nariz.
— Me solte! Eu vou matar essa vadia! — gritou ele.
— Seus canalhas desprezíveis e inúteis! — gritei.
Eu não sabia ao certo quais palavras voavam pela minha boca. Uma ameaça juntava-se à outra em uma batalha com as ameaças que Malich jogava de volta para mim, enquanto Kaden gritava para que todo mundo calasse a boca – até que, por fim, eu me engasguei e tive que parar. Engoli em seco, sentindo o gosto do sangue quente na minha bochecha, no lugar onde eu a havia mordido. Meu peito tremia, e abaixei o tom de voz, minhas próximas palavras saindo até mesmo sem som.
— Vocês mataram a esposa do meu irmão! Ela só tinha dezenove anos. Ela estava grávida, e vocês, seus miseráveis covardes, colocaram uma flecha na garganta dela.
Olhei feio para eles, com a cabeça latejando, observando-os juntarem os pontos em suas próprias mentes. Eu sentia tanta repulsa por mim mesma quanto sentia por eles. Eu vinha jantando e contando histórias com os assassinos de Greta.
Quem quer que tivesse ido para a cama em suas carvachis ou em suas tendas havia saído de novo. Eles se reuniam, em silêncio, com suas roupas de dormir, tentando entender o furor. Finch tinha fios de sangue em seu maxilar também, e Kaden no pescoço. Eben deu alguns passos para trás, com os olhos arregalados, como se olhasse para um demônio ensandecido.
— Ved mika ara te carvachi!  berrou Griz.
Finch e um dos nômades seguraram Malich, que ainda se debatia para me pegar, e Kaden veio e me agarrou bruscamente pelo braço, arrastando-me para a carvachi. Ele me jogou para dentro dela, batendo a porta atrás de si.
— Qual é o seu problema? — perguntou ele, aos gritos.
Encarei-o, descrente do que estava ouvindo.
— Você espera que eu dê os parabéns a eles por a matarem?
O peito dele arfava, mas ele se forçou a inspirar lenta e profundamente. Estava com os punhos cerrados ao lado do corpo. Ele abaixou o tom de voz.
— Não foi a intenção deles, Lia.
— Você acha que a intenção deles importa? Ela está morta.
— A guerra é feia, Lia.
— Guerra? Que guerra, Kaden? Essa guerra imaginária que você está travando? Aquela para a qual Greta não havia se alistado? Ela não era um soldado. Ela era inocente!
— Muitos inocentes morrem na guerra. A maioria deles é de Venda. Inúmeros vendanos morreram tentando montar moradias no Cam Lanteux.
Como ele se atrevia a comparar Greta com pessoas que infringiam as leis?
— Existe um tratado que proíbe isso, um tratado com centenas de anos!
O maxilar dele ficou travado.
— Por que você não diz isso a Eben? Ele só tinha cinco anos quando viu o pai e a mãe morrerem tentando defender seu lar de soldados que o incendiavam. A mãe dele morreu com um machado no peito, e o pai morreu incinerado junto com a casa.
A raiva ainda socava dentro da minha cabeça.
— Não foram soldados morrigheses que fizeram isso!
Kaden se aproximou, uma careta entortando sua face.
— Será mesmo? Ele era novo demais para saber de onde os soldados eram, mas realmente se lembra de muito vermelho... a cor do estandarte de Morrighan.
— Deve ser muito conveniente colocar a culpa nos soldados de Morrighan quando não há nenhuma testemunha e apenas a lembrança de uma criança. Olhe para seus próprios selvagens sangrentos e o sangue que derramam pelos culpados.
— Inocentes morrem, Lia! De todos os lados! — disse ele, aos gritos. — Enfie isso na sua cabeça real e se acostume!
Olhei para ele, incapaz de falar.
Ele engoliu em seco, balançando a cabeça, e depois passou a mão pelo ar.
— Eu sinto muito. Não quis dizer isso. — Seus olhos focaram o chão, e depois ele voltou-os para mim outra vez, sua raiva agora subjugada por sua irritante calma bem treinada. — Mas você tornou as coisas bem mais difíceis. Será ainda mais complicado mantê-la a salvo de Malich agora.
Inspirei, fingindo estar chocada.
— Mil perdões! Eu não ia querer tornar nada mais complicado para você, porque tudo é tão fácil para mim! Isso aqui são férias, certo?
Minhas últimas palavras saíram indecisas e minha visão ficou turva.
Ele soltou um suspiro e deu um passo na minha direção.
— Deixe-me ver suas mãos.
Baixei meu olhar para elas, que estavam cobertas de sangue e ainda tremiam. As pontas dos meus dedos latejavam onde três unhas tinham sido quebradas, e dois dos dedos na minha mão esquerda já estavam inchados e azulados — eles pareciam estar quebrados. Eu atacara Malich e os outros como se meus dedos fossem feitos de aço temperado. Eles eram as únicas armas que eu tinha.
Voltei a olhar para Kaden. Ele sabia o tempo todo que haviam matado Greta.
— Quanto sangue você tem em suas mãos, Kaden? Quantas pessoas matou?
Eu não conseguia acreditar que não tinha feito essa pergunta antes. Ele era um assassino. O trabalho dele era matar, mas ele escondia isso bem demais.
Kaden não respondeu, embora eu tenha percebido seu maxilar ficar enrijecido.
— Quantas? — perguntei de novo.
— Muitas.
— Tantas que você perdeu a conta.
Pequenas rugas aprofundaram-se nos cantos de seus olhos.
Ele esticou a mão para pegar na minha, mas eu a afastei.
— Saia, Kaden. Posso ser sua prisioneira, mas não sou sua meretriz.
Essas palavras deixaram nele uma ferida mais profunda do que as que tinha em seu pescoço. A raiva passou como um lampejo pelos olhos dele e estilhaçou sua calma. Ele se virou e foi embora, batendo a porta quando saiu.
Tudo que eu queria era cair no chão e chorar, mas, apenas segundos depois, ouvi uma batida leve à porta, que se abriu lentamente. Era Dihara. Ela entrou carregando um balde pequeno de água aromatizada com folhas flutuando em cima.
— Para suas mãos. Dedos ficam rapidamente inflamados.
Mordi o lábio e assenti. Ela me mandou sentar na única cadeira que havia na carvachi e puxou uma banqueta baixa para si. Mergulhou minhas mãos na água e limpou-as, com gentileza, com um pano macio.
— Sinto muito se deixei as crianças assustadas — falei.
— Você perdeu alguém que lhe era próximo.
— Duas pessoas — sussurrei, porque eu não tinha certeza se algum dia teria o Walther que conhecia de volta. Aqui eu não podia fazer nada por ele. Por ninguém. Quão pouco valor parecia ter minha própria felicidade fugaz agora. Até mesmo os bárbaros teriam tido o bom senso de recuar diante da força conjunta de dois exércitos. A perspectiva havia deixado os bárbaros amedrontados o bastante para que quisessem se livrar de mim. Seria essa a maneira com que Kaden havia planejado me eliminar? Com uma flecha na garganta, como aconteceu com Greta? Seria disso que ele tinha se arrependido tão profundamente naquela noite em que dançamos? A perspectiva de me matar? As palavras dele — não podemos viver no talvez — vieram de novo à minha cabeça, amargas e pungentes.
Dihara puxou um pedaço de unha que estava pendurada, e eu me contraí de dor. Ela colocou minhas mãos de volta no balde, lavando e limpando o sangue.
— Os dedos quebrados também vão precisar de bandagem — disse ela. — Mas vão sarar logo. Rápido o bastante para que você faça o que quer que precise fazer.
Observei as ervas flutuando na água.
— Eu não sei mais o que é isso.
— Você saberá.
Ela tirou minhas mãos de dentro do balde e secou-as com cuidado, e depois aplicou um bálsamo espesso e pegajoso na carne viva das unhas arrancadas, o que, de imediato, aliviou a dor com um frescor entorpecente. Ela envolveu os três dedos em faixas.
— Inspire fundo — disse ela, e puxou os dois dedos que estavam azuis, fazendo com que eu gritasse. — Você vai querer que eles curem sem demora.
Ela os amarrou juntos com mais pano até que estivessem rígidos e não pudessem ser dobrados. Olhei para eles, tentando me imaginar colocando a sela em um cavalo ou segurando suas rédeas agora.
— Quanto tempo vai demorar? — eu quis saber.
— A natureza é confiável quanto a essas coisas. Geralmente umas poucas semanas, mas, às vezes, a magia vem, e ela é maior do que a própria natureza.
Kaden havia me avisado para tomar cuidado com ela, e agora eu me perguntava se alguma coisa do que ela me disse era verdade... ou será que eu vinha simplesmente me agarrando a falsas esperanças quando não tinha mais nada além disso?
— Sim, sempre há a magia — falei, com o cinismo pesado na língua.
Ela colocou minhas mãos cheias de bandagens sobre meu colo.
— Todos os caminhos pertencem ao mundo. O que é a magia senão aquilo que ainda não entendemos? Como o símbolo da vinha e do leão que você carrega em seu corpo?
— Você sabia disso?
— Natiya me contou.
Soltei um suspiro e balancei a cabeça em negativa.
— Isso não foi magia. É apenas o resultado do serviço de artesãos descuidados, de tintas fortes demais e do meu azar infinito.
A velha face dela se enrugou com um largo sorriso.
— Talvez. — Ela pegou seu balde de água medicinal e se colocou de pé. — Mas lembre-se, criança, de que todos nós podemos ter as nossas próprias histórias e os nossos próprios destinos e, às vezes, uma sorte aparentemente ruim, mas todos também fazemos parte de uma história maior. Uma história que transcende o solo, o vento, o tempo... e até mesmo nossas próprias lágrimas. — Ela esticou a mão e limpou debaixo do meu olho com o polegar. — Histórias mais grandiosas terão sua vez.

Um comentário:

  1. Já desconfiava que foram eles que mataram a Greta. Odiando o Kaden nesse momento!!! ������

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Boa leitura! E SEM SPOILER!