16 de fevereiro de 2018

Capítulo 58

Um leve cair de neve começou a rodopiar ao vento, mas isso não foi o bastante para me fazer parar. Encontrei Griz no curral cercado com Eben e o potro.
Subi no corrimão em um pulo e desci para dentro do curral.
— O que foi que aconteceu ai? — perguntou-me Griz, fazendo um movimento desajeito para um lugar em sua própria bochecha que espelhava à minha. Seus cabelos voavam selvagens ao vento.
Olhei com ódio para ele, mas não respondi. Em vez disso, eu me virei para Eben.
— Como vai o treinamento, Eben? — respondi.
Eben olhou para mim com ares de suspeita, sentindo que havia algo errado, e não apenas por causa do machucado e do corte em meu rosto.
— Ele aprende rápido — foi a resposta. — Logo, logo estará andando.
Eben esfregou o focinho do animal, e o jovem cavalo acalmou-se sob o seu toque. A conexão deles já estava evidente. O jeito do Eben, era como Dihara havia se referido a isso. Há um saber entre eles, um modo de confiança, misterioso, mas não mágico... Um modo que requer um tipo diferente de olhos e ouvidos. Estiquei a mão e fiz carinho na estrela na cabeça do potro.
Griz mexia os pés, impaciente.
— Você já deu um nome a ele? — perguntei ao menino, que ficou hesitante, olhando de relance para Griz. — Não dê ouvidos a conselhos de tolos, Eben. — Pressionei meu punho cerrado bem abaixo das minhas costelas. — Se você sente isso aqui, então confie.
— Spirit — disse Eben baixinho. — Dei a ele o mesmo nome.
A paciência de Griz estava exaurida, e ele fez um movimento em direção ao corrimão.
— Você deveria ir...
Olhei com ódio para ele, com a voz alta e pungente.
— Vou embora quando estiver pronta para ir, está me entendendo?
— Eben — disse Griz — deixe-nos a só por um minuto. Eu e a princesa...
— Fique aqui, Eben! Você também precisa ouvir isso, porque vai saber com que outra bobagem esses tolos encheram a sua cabeça. — Fui andando até Griz e o cutuquei no peito. — Permita-me deixar isso perfeitamente claro para você. Embora alguns possam buscar fazer com que as coisas pareçam diferentes, eu não sou uma noiva a ser chutada para um outro reino, nem um prêmio de guerra, nem uma porta-voz para o seu Komizar. Eu não sou uma ficha em um jogo de cartas para ser jogada impetuosamente no centro da pilha de apostas, nem a ser mantida no punho apertado e cerrado de um oponente ganancioso. Eu sou uma jogadora que está sentada à mesa junto com todo o restante do pessoal e, deste dia em diante, vou fazer minhas jogadas conforme eu julgar adequado. Você está me entendendo? Porque as consequências podem ser feias se alguém pensar que as coisas são diferentes.
Eben olhou para mim, boquiaberto, mas Griz ficou ali parado, com toda a sua massa ameaçadora e volumosa, parecendo mais um menino na escola que fora disciplinado do que um guerreiro feroz. Ele contorceu os lábios e voltou-se para Eben.
— Vamos dar umas voltas com Spirit.
Eu vi a surpresa estampada no rosto de Eben com o fato de que Griz havia chamado seu cavalo pelo nome.
Eu achava que Griz havia entendido a minha mensagem. Agora ele apenas teria que se lembrar dela.

* * *

Na hora em que voltei ao Sanctum, o vento estava uivando, e a neve que caía fracamente havia dado lugar a uma nevasca potente que se lançava contra o meu rosto. Era, mais uma vez, exatamente como tia Bernette o havia descrito, o cruel lado ardente da neve. Beijei dois dedos e ergui-os aos céus pela minha tia, pelos meus irmãos e até mesmo pelos meus pais. Para mim, não era mais tão difícil acreditar que a neve poderia ter lados tão diferentes. Puxei meu manto mais para junto de mim enquanto ele tentava se soltar. O inverno vinha marchando com uma vingança. Não haveria memórias sagradas na parede esta noite.
No meu retorno, um guarda estava esperando por mim com uma mensagem.
Vista o marrom.
Até mesmo com toda a ocupação de suas reuniões com o Conselho, o Komizar ainda conseguira me enviar uma mensagem. Nenhum detalhe era pequeno ou grande demais para que ele não o controlasse.
Eu sei por que ele escolhera o marrom. Era o mais sem graça dos meus vestidos, certamente banal aos olhos, mas melhor ainda para contrastar com o vermelho que ele me faria vestir e exibir amanhã. Eu não tinha a menor dúvida de que ele havia ordenado a presença da própria neve, como o fundo perfeito de cenário, e certamente havia mandado que o sol brilhasse pela manhã, de modo a não desencorajar as multidões.
Eu me vesti conforme ele me instruíra; no entanto, havia mais a ser trajado além do simples vestido marrom.
Ergui a bainha de ombro de Walther até os meus lábios, com o couro macio e quente junto a eles, a dor em mim tão plena quanto no dia em que eu havia fechado os olhos dele e lhe dera um beijo de despedida. Coloquei a bainha no ombro e pressionei-a junto ao peito.
Em seguida vinha o cordão de ossos, cheio e pesado com gratidão. Deixei meus cabelos soltos e fluindo em volta dos meus ombros. Não havia qualquer necessidade de exibir o kavah esta noite. A essa altura, todo mundo no Sanctum sabia que ele estava ali.
Coloquei o amuleto comprado na jehendra, um anel de cobre forjado que me havia sido oferecido pelo clã dos Arakans, um cinto de thannis seca tecido por uma menina nas altas planícies de Montpair. O acolhimento de Venda veio até mim de tantas formas, cada uma com um grande peso de esperança.
Nada havia que eu quisesse mais do que deixar este lugar, desaparecer com Rafe para um mundo só nosso e fingir que Venda nunca havia existido, fingir que estes poucos últimos meses nunca haviam acontecido, começar nosso sonho uma vez mais, para termos o melhor final pelo qual Rafe esperava. Eu ansiava pelo meu lar de uma forma que não tinha achado que fosse possível, e sabia que, de alguma maneira, eu teria que ir até lá para avisá-los. Mas eu não conseguia negar uma agitação em mim também. Ela me pegava em momentos inesperados, quando uma criada, envergonhada, baixava as pálpebras trêmulas; quando eu captava um raro vislumbre da criança em Eben; quando Effiera ecoava as palavras de sua mãe: a garra, rápida e feroz; a vinha, lenta e firme. Quando uma dezena de mulheres mediam, provavam e abraçavam-me com suas roupas, e eu sentia a expectativa sendo costuradas nelas. Eles vestem os seus próprios, mesmo se tiverem que juntas retalhos para fazerem isso.
E talvez as agitações tomassem mais conta de mim quando eu estava com Aster. Como foi que eu havia vindo a amá-la em tão pouco tempo? Como se, no momento oportuno, ela bateu à minha porta e entrou. Ela estava com uma carreta e seu exército escolhido junto dela: Yvet e Zekiah. Eles eram pequenos demais para serem empurradores de carrinhos, mas eram capazes de ganhar uma refeição na cozinha fazendo outras tarefas.
— Nós devemos pegar suas coisas para você, senhorita, e colocá-las lá nos seus novos aposentos. Quer dizer, se estiver tudo bem para você. Mas eu acho que tem que estar tudo bem, porque foram ordens do Komizar, então eu espero que você não se importe se dobrarmos suas roupas e as colocarmos aqui dentro deste... — o rosto dela ficou cheio de preocupação, e ela veio correndo na minha direção. — O que foi que aconteceu com a sua bochecha?
Estiquei a mão, tocando minha maçã do rosto. Eu achava difícil mentir para Aster, mas ela era jovem demais para ser trazida para dentro disso.
— Foi só uma queda desajeitada — foi minha resposta.
Ela franziu o rosto, como se não estivesse convencida disso.
— Por favor — falei — sigam em frente e levem as minhas coisas. Fico muito agradecida.
Ela murmurou como uma velha mulher, e eles continuaram fazendo seu trabalho. Se tudo saísse bem, eu ficaria em meus novos aposentos apenas por uma noite. Eles pegaram os cintos e as roupas de baixo que Effiera havia me dado em primeiro lugar, e depois foram buscar os vestidos. Aster apanhou a toalha de cima da cama, aquela que Calantha havia trazido, mas, quando ela a levantou, alguma coisa pesada caiu dela, ruidosamente, no chão.
Todos nós sugamos rapidamente o ar. Minha faca incrustada com joias! Aquela que eu tinha achado que estava perdida para sempre! Calantha estivera com ela o tempo todo. Aster, Yvet e Zekiah ficaram boquiabertos com a lâmina, recuaram um passo e então olharam para mim. Até mesmo em toda a sua inocência, eles sabiam que eu não deveria estar em posse de qualquer arma.
— O que nós devemos fazer com isso? — perguntou-me Aster.
Ajoelhei-me rapidamente, pegando a faca enquanto apanhava também a toalha com Aster.
— Isso é um presente de casamento do Komizar — falei, e embrulhei a faca novamente. — Ele não ficaria feliz se eu fosse tão descuidada com ela. Por favor, não mencionem isso a ele. — Ergui o olhar para os três rostinhos com seus olhos arregalados. — Nem a qualquer outra pessoa.
Todos eles assentiram, e empurrei a toalha com a faca para o fundo da carreta.
— Quando vocês levarem essas coisas para o meu aposento, por favor, descarreguem a faca com cuidado e coloquem-na debaixo de todas as minhas roupas. Podem fazer isso?
Aster olhou para mim com a expressão solene. Ela nada estava acreditando em relação isso. Nenhum deles estava. Sua inocência e suas infâncias haviam sido roubadas havia muito tempo, como as de Eben.
— Não se preocupe, senhorita — disse Aster. — Tomarei cuidado e vou colocá-la em um lugar realmente bom.
Comecei a levantar, mas Yvet me interrompeu e inclinou-se para frente, para beijar minha bochecha machucada, com seus lábios molhados junto à minha pele.
— Não vai doer por muito tempo, senhorita. Seja valente.
Engoli em seco, tentando responder sem me transformar em uma tola dizendo tolices.
— Vou tentar, Yvet. Vou tentar ser tão valente quanto você.

Um comentário:

  1. Eu acho que komizar já sabe q ela vai tentar fugir.

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!