2 de fevereiro de 2018

Capítulo 58

Sentei-me na grama da margem do rio, observando a corrente que formava ondas, meus pensamentos pulando entre o passado e o presente. Nos últimos dias, conservei o máximo de energia que pude, tentando recuperar meu peso. Fiquei sob os olhares atentos de Eben ou Kaden a maior parte do tempo que passei no campo, mas os bloqueei, como Dihara havia ensinado a fazer, tentando escutar. Era tudo que me restava: uma prece para encontrar meu caminho para casa de novo.
Quando eu inclinava a cabeça para o lado, cerrava os olhos ou erguia o queixo para o ar, Kaden achava que eu estava continuando a atuar para os outros, mas Eben olhava para mim maravilhado. Certo dia, ele me perguntou se eu tinha realmente visto abutres comendo a carne de seus ossos. Minha resposta foi um dar de ombros. Era melhor mantê-lo na dúvida, deslumbrado e longe de mim. Eu não queria sua faca em minha garganta de novo e, segundo as palavras do próprio Kaden, o fato de acreditarem no dom era o que me mantinha viva. Quanto tempo isso poderia durar?
Depois do desjejum desta manhã, Kaden me disse que tínhamos mais três dias para passarmos aqui antes de partirmos, o que significava que eu precisaria seguir meu caminho mais cedo. Todos estavam ficando preguiçosos em me vigiar, visto que eu não tinha feito nenhuma tentativa de fuga. Eu estava lentamente preparando minha oportunidade. Tinha dado voltas no acampamento em busca de armas que pudesse roubar dos nômades, mas, se eles possuíam alguma, elas pareciam estar bem guardadas em suas carvachis.
Um pesado espeto de ferro, uma machadinha e uma grande faca de açougueiro eram o melhor que o acampamento tinha a oferecer, e seria fácil sentir falta de tudo isso, além de serem coisas pesadas e grandes se eu tentasse colocar alguma delas sorrateiramente nas dobras da minha saia. O arco de Kaden, assim como sua espada e minha adaga, estavam dentro da tenda. Entrar lá sorrateiramente era uma tarefa impossível.
Além da arma, um cavalo seria essencial para minha fuga, e eu tinha bastante certeza de que o cavalo mais rápido era o de Kaden, então seria esse o que eu precisaria pegar. E isso trazia mais um problema à tona. Eles deixavam os cavalos sem sela ou rédeas. Eu poderia cavalgar um lombo nu se fosse necessário, mas poderia ir muito mais rápido com uma sela, e velocidade seria essencial.
Avistei Kaden ao longe, parado, em pé ao lado de seu cavalo, escovando-o, aparentemente absorto em sua tarefa, embora eu me perguntasse com que frequência ele olhava na minha direção.
Ainda estava ponderando sobre algo que ele havia me dito na noite passada. Eu tinha passado a maior parte do dia de ontem tentando entender o antigo idioma vendano, e perguntei a Kaden se ele tinha alguma vez ouvido falar da Canção de Venda. Ele a conhecia, mas me explicou que havia muitas canções do tipo, cantadas em diversas versões. Dizia-se que todas eram as palavras provenientes daquela que dera nome ao Reino.
Ele disse que Venda tinha sido o nome da esposa do primeiro regente. Ela enlouquecera e passou a ficar sentada na muralha da cidade o dia todo, cantando canções para o povo. Umas poucas ela escreveu, mas a maioria era memorizada por aqueles que ouviam. Ela era reverenciada por causa de sua bondade e sabedoria, e, até mesmo depois de ter ficado louca, as pessoas iam até ela para ouvir suas canções chorosas, até que, por fim, ela caiu do muro e morreu. Muitos acreditavam que fora seu marido quem a havia empurrado, por não aguentar mais ouvir as coisas sem sentido que ela cantava.
Seus balbucios ensandecidos continuaram vivos, apesar dos esforços do Rei em bani-los. Ele queimou todas as canções transcritas que conseguiu encontrar, mas as outras ganharam vida própria quando eram cantadas pelas pessoas enquanto realizavam suas tarefas cotidianas. Perguntei a Kaden se poderia ler para mim uma passagem em vendano, e ele disse que não sabia ler. Declarou que nenhum deles sabia ler e que a leitura era algo raro em Venda.
Aquilo me deixou confusa. Tinha certeza de que lá em Terravin eu o tinha visto ler várias vezes. Berdi não tinha cardápios na taverna, então recitávamos os pratos do dia, mas havia notificações pregadas do lado de fora da taverna, e eu estava certa de que o vira parar e dar uma olhada nelas. É claro que isso não significava que ele entendia o que via, mas, nos jogos do festival, achei que ele tinha lido o quadro de eventos junto com o restante de nós, apontando o placar das lutas. Por que mentiria em relação a saber ler?
Fiquei observando enquanto ele dava uns tapinhas de leve no traseiro de seu cavalo, fazendo com que fosse para o campo com os outros, e então ele desapareceu dentro da tenda. Voltei novamente minha atenção para o rio, jogando uma pequena pedra lisa dentro dele e observando enquanto afundava e se aninhava ao lado de uma outra. Meu tempo no acampamento com Kaden tinha se tornado constrangedor diversas vezes, ou talvez apenas agora eu estivesse mais ciente das minhas ações.
Eu sabia que ele gostava de mim. Isso não era exatamente um segredo. Era esse o motivo pelo qual eu ainda estava viva, mas não tinha exatamente captado o quanto ele gostava de mim. E, mesmo sem querer, eu sabia, do meu próprio jeito, que também gostava dele. Não de Kaden, o assassino, mas sim do Kaden que conhecera lá em Terravin, aquele que me prendeu a atenção no instante em que cruzou a porta da taverna. Aquele que era calmo e que tinha olhos misteriosos, mas bondosos.
Eu me lembrei de quando dancei com ele no festival, de seus braços puxando-me mais para junto, e da forma como ele lutava com seus pensamentos, contendo-os. Ele não se segurou na noite em que estava bêbado. A bebida soltara sua língua e ele havia colocado as coisas às claras de um jeito bem direto. Com palavras arrastadas e sujas, mas claras. Ele me amava. Isso vindo de um bárbaro que fora enviado para me matar.
Fiquei deitada de costas, fitando o céu sem nuvens, em um tom mais azul e brilhante do que o de ontem.
Será que ele sequer sabia o que era amor? A propósito, será que eu sabia? Até mesmo os meus pais pareciam não saber. Cruzei os braços atrás da minha cabeça, como se fossem um travesseiro. Talvez não houvesse nenhuma forma de definir o sentimento. Talvez houvesse tantos tons de amor quanto existem tons de azul no céu.
Eu me perguntava se o interesse dele tinha começado quando cuidei de seu ombro. Lembrei-me de sua estranha expressão de surpresa quando toquei nele, como se nunca ninguém tivesse demonstrado bondade a ele antes. Se Griz, Finch e Malich fossem algum indicativo do passado de Kaden, talvez isso fosse verdade. Eles demonstravam uma certa devoção uns em relação aos outros, mas isso, de forma alguma, se parecia com bondade. E havia também aquelas cicatrizes no peito e nas costas de Kaden. Apenas selvagens cruéis poderiam ter sido responsáveis por fazer aquelas coisas. Ainda assim, em algum lugar ao longo do caminho, Kaden tinha aprendido a bondade. Até mesmo a ternura.
Isso vinha à tona em pequenas ações. Parecia que ele era duas pessoas separadas, o intensamente leal assassino vendano e alguma outra pessoa muito, mas muito diferente, alguém que ele tinha trancado, um prisioneiro, assim como eu.
Levantei-me para retornar ao acampamento e estava limpando a sujeira da saia quando o avistei, caminhando na minha direção. Fui andando até o campo para encontrar-me com ele.
— Reena preparou esses daqui hoje de manhã — disse ele. — Ela me disse para trazer um para você.
Reena mandando que Kaden fizesse uma entrega? Improvável. Ele estava um tanto conciliador desde que invadiu minha carvachi e desmaiou lá, em um estupor de bebedeira. Talvez estivesse com vergonha daquilo.
Ele me entregou uma cesta com três bolinhos crocantes.
— É de maçã silvestre — disse ele.
Eu estava prestes a esticar a mão e pegar um dos bolinhos quando um cavalo que estivera pastando ali por perto de repente avançou contra outro cavalo. Kaden me segurou e me puxou para fora do caminho. Nós dois cambaleamos para trás, incapazes de recuperarmos nosso equilíbrio, e ambos caímos no chão. Ele rolou sobre mim em um movimento protetor, abraçando-me para o caso de o cavalo chegar mais perto, mas o animal já tinha ido embora.
Num estalo, o mundo ficou em silêncio. A grama alta ondulava acima de nós, nos ocultando. Ele baixou seu olhar contemplativo para mim, seus cotovelos um de cada lado do meu corpo, seu peito roçando o meu, seu rosto a poucos centímetros de distância. Vi a expressão nos olhos dele. Meu coração batia com tanta força que martelava em minhas costelas.
— Você está bem? — A voz dele estava baixa e rouca.
— Sim — sussurrei em resposta.
O rosto dele pairava mais próximo do meu. Eu ia me afastar, desviar o olhar, fazer alguma coisa, mas não fiz e, antes que soubesse o que estava acontecendo, o espaço entre nós desapareceu. Os lábios dele eram quentes e gentis junto aos meus, e sua respiração tamborilava aos meus ouvidos. O calor me atravessava com rapidez. Era exatamente como eu imaginei naquela noite com Pauline em Terravin, há tanto tempo. Antes de... Empurrei-o para longe.
— Lia...
Pus-me de pé, meu peito arfando, e me ocupei com um botão solto da minha blusa.
— Vamos esquecer que isso aconteceu, Kaden.
Ele também ficara de pé em um pulo. Agarrou a minha mão e tive que olhar para ele.
— Você queria me beijar.
Balancei a cabeça, negando, mas era verdade. Eu queria beijá-lo.
O que foi que eu fiz? Eu me soltei e saí andando, deixando-o parado no campo, sentindo seus olhos me seguindo durante todo o caminho até minha carvachi.

6 comentários:

  1. AAHH como eu gosto destes dois <3

    Achei que a batida na cabeça dela tinha despertado o dom! Talvez seja isso que esteja faltando! 😬😂

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  2. Eu queria que ela fica- se com o Ralfe, porém meus shippers nunca ficam juntos.

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  3. Era exatamente como eu imaginei naquela noite com Pauline em Terravin, há tanto tempo. Antes de... ...
    Como assim com Pauline?

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  4. KKKKKK. Gente só risos. A cena classica. Affs que coisa. Eu achei que o Kaden no início ficou meio apagadinho. E agr tem essa ;-;

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  5. Também achei o Kaden no início bem sem gracinha, bonzinho demais.. Agora ele tá mais interessante, nem parece o mesmo kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!