20 de fevereiro de 2018

Capítulo 57

Sobe e desce.
Sobe e desce.
Joguei de lado o meu cobertor e me sentei ereta, com a pele quente e fria ao mesmo tempo. Os cânticos sincronizados, os guinchos de engrenagens, o nauseante clangor metálico ainda soava nos meus ouvidos. Olhei ao redor, tranquilizando-me de que ainda estava na cabana. Estava escuro e silencioso, exceto pelos leves roncos de Berdi. Apenas um sonho, disse a mim mesma, e me deitei, lutando para voltar a dormir. Finalmente cochilei nas horas logo antes da alvorada e dormi até tarde, mas, quando finalmente acordei, eu soube: os sons e os cânticos eram reais. A ponte estava consertada. Eles estavam vindo.
Olhei ao meu redor. A cabana estava vazia, exceto por Gwyneth, que cochilava na cadeira de balanço com o bebê nos braços. Notei que a melodia das gotas caindo em baldes e tigelas havia finalmente parado. Eu finalmente podia voltar a entrar de forma sorrateira na cidade. As ruas estariam cheias de novo, e eu poderia passar despercebida, além de que Bryn e Regan poderiam estar de volta. Eu me vesti em silêncio, colocando os meus couros protetores de cavalgada e prendendo em mim todas as armas que eu tinha. Se tudo saísse bem, eu poderia estar conduzindo os meus irmãos e os seus camaradas para dentro do Saguão de Aldrid nesta tarde. Primeiramente, faria uma busca completa na cidadela uma última vez atrás de evidência, mas, com a ponte consertada, eu não podia mais para confrontar o gabinete. Joguei o meu manto em cima de mim e fui na ponta do pé ver os outros. Encontrei Pauline na extremidade do pórtico, erguendo um engradado e pendurando-o em um prego em uma madeira no pórtico.
— Você tem certeza de que deveria estar fazendo isso?
— Eu tive um bebê, Lia, não sofri um acidente. Para falar a verdade, estou me sentindo muito bem. Pela primeira vez em semanas eu não tenho um pé pressionando a minha bexiga. Além disso, limpar um engradado é um trabalho bem fácil. Kaden conseguiu isso para mim no moinho. Ele acabou de voltar para lá para soltar os animais. A aveia acabou. Eles precisam pastar.
Eu esperava que isso fosse tudo que ele estivesse fazendo. Eu sabia que Kaden ainda queria confrontar o pai.
Olhei ao meu redor, andando até a outra ponta do pórtico.
— E quanto a Berdi e Natiya? Onde estão elas?
— Elas foram até a cidade enquanto temos tempo bom para buscar mais suprimentos. — Pauline passou a mão ao longo de um dos lados do engradado. — Isso dará um berço decente por ora... pelo menos para quando não houver braços para segurar o bebê.
— Parece que sempre teremos braços disponíveis. Gwyneth mal soltou o seu filho.
Pauline soltou um suspiro.
— Eu notei. Espero que isso não seja doloroso para ela. Tenho certeza de que aviva suas memórias sobre todas as vezes em que ela não pôde segurar o próprio bebê.
— Ela contou a você? — perguntei, surpresa que Gwyneth tivesse dividido o que achava que fosse um segredo muito bem guardado. Eu só adivinhara porque tinha visto a maneira como ela olhava para Simone lá em Terravin. Uma ternura se assomava à sua face, a qual ela não tinha por qualquer outra pessoa.
— Em relação a Simone? — Pauline balançou a cabeça. — Não, ela se recusa a falar sobre isso. Ela ama aquela menininha mais do que o próprio ar que respira, mas, ao mesmo tempo, aquele amor é o que a deixa com medo. Creio que seja por isso que ela mantenha distância segura da garota.
— Medo de quê?
— Ela não quer que nem mesmo o pai descubra que Simone existe. Ele não é um bom homem.
— Ela contou a você quem é pai?
— Não exatamente, mas eu e Gwyneth encontramos esse estranho lugar da verdade. Há muita coisa que partilhamos sem nunca dizermos uma palavra que seja. — Ela desatou o avental molhado que usava e o pendurou ao lado do engradado. — O Chanceler é o pai de Simone.
Fiquei de queixo caído. Eu sabia que Gwyneth tinha algumas conexões repugnantes, mas nunca suspeitei que uma delas estivesse tão alta na cadeia do poder. Gwyneth tinha bons motivos para sentir medo. Eu me virei, xingando em vendano para poupar os ouvidos de Pauline e uma penitência.
— Você pode xingar em morrighês — disse ela. — Sem necessidade de penitência. Eu mesma disse a mesma coisa provavelmente. Ou até pior.
— Você, Pauline? — abri um largo sorriso. — Brandindo facas e xingando? Meus deuses, como você mudou!
Ela riu.
— Engraçado, eu estava pensando o mesmo em relação a você?
— Para melhor ou para pior?
— Você é aquilo que precisa ser, Lia. Nós duas mudamos por necessidade. — Uma ruga se formou no rosto dela. Pauline notou os meus couros de cavalgada debaixo do meu manto pela primeira vez. — Está indo a algum lugar?
— Agora que a chuva diminuiu, as pessoas vão estar nas ruas novamente. Eu posso passar despercebida e certamente Bryn e Regan já devem ter voltado a essa altura. Eu quero...
— Eles não voltaram ainda.
— A Cidade dos Sacramentos fica apenas a uns poucos dias de caminhada, e dedicar uma pedra memorial não leva mais do que um dia. Bryn e Regan não vão...
— Lia, eu acho que você entendeu errado. Eles estão indo a mais cidades depois de lá, e depois seguirão para os Reinos Menores. Regan vai para Gitos, e Bryn, para Cortenai. Eles estão em uma missão diplomática ordenada pelo Marechal do Campo.
— Do que está falando? Príncipes não saem em missões diplomáticas. Eles são soldados.
— Eu também questionei isso, especialmente com o seu pai doente. Isso não segue o protocolo. No entanto, Bryn achou que fosse importante, e seu pai aprovou.
Todo aquele caminho até os Reinos Menores? Meu coração afundou no peito. Isso poderia significar semanas de espera que nós poderíamos nos dar ao luxo de ter. Além disso, eu não podia marchar conclave adentro sem eles.
Balancei a cabeça em negativa. Uma missão diplomática. Eu sabia como Bryn e Regan odiavam essas coisas. Eu podia visualizar Regan revirando os olhos. A única parte de que ele gostava era cavalgar a céu aberto...
Senti a garganta apertar.
Eles estavam fazendo muitas perguntas, tentando chegar à verdade. Exatamente como Walther fizera. Vou tentar descobrir as coisas secretamente.
O que os tornava uma desvantagem.
— Qual é o problema? — perguntou-me Pauline.
Eu me segurei na coluna do pórtico para me equilibrar. Uma visita a um Reino Menor significaria dias viajando pelo Cam Lanteux. Eles seriam alvos fáceis e pegos de surpresa. Meu coração ficou frio. Eles não estavam em uma missão. Estavam se dirigindo a mais uma emboscada. Os príncipes estavam sendo eliminados... juntamente com as suas perguntas.
Meu pai nunca teria aprovado isso. Não se ele soubesse.
— É uma emboscada, Pauline. Bryn e Regan estão indo para uma emboscada, a mesma coisa que aconteceu com Walther. Eles têm que ser impedidos antes que seja tarde demais. Eu preciso contar isso ao meu pai. Agora.
E saí correndo em direção à cidadela, rezando para que já não fosse tarde demais.

5 comentários:

  1. Essa rainha é cruel hein.

    To achando essa história muito enrolada, que tá acontecendo?

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  2. Quando acho que to entendendo me perco. Mas sei que tá feio o negoço. Kkkk. Mas achei msm q eles ia mandar matar os irmãos dela. Tirar os dois e matar o rei.aí o chanceler vira rei

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  3. Quem é o mais velho dos irmão dela? Qual a ordem de nascimento? Eu entendi q eles estão se livrando de todos os filhos do rei p n ter ninguém p tomar o trono aí a rainha vai conspirar contra todo mundo p ficar sendo a única comandante do reino!

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  4. Nossa mas eu estou com um rançooooo dessa rainha, e do Chanceler também.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!