16 de fevereiro de 2018

Capítulo 57

Eu não senti a dor imediatamente. Fiquei com o olhar fixo no chão, a visão lateral borrada, minha bochecha ainda pressionada na pedra, o fedor de cerveja ale derramada erguendo-se até mim. Então, ouvi o Komizar gritando para que eu me levantasse.
Estava no meio da manhã e eu havia ficado tomando um café da manhã tardio no Saguão do Sanctum, devido às provas de última hora do vestido. Calantha e dois guardas estavam lá comigo quando ouvimos as pungentes passadas descendo pelo corredor ao sul. O Komizar entrou tempestuosamente e ordenou que o restante das pessoas saísse dali.
Eu tentei me orientar, focar-me no aposento que estava inclinado para mim.
— Levante-se! Agora! — ele me ordenou.
Eu me empurrei para cima, para sair do chão, e foi então que a dor me atingiu. Meu crânio latejava como se um punho cerrado gigantesco o estivesse esmagando. Eu me forcei a ficar em pé e equilibrei-me, apoiando na mesa. O Komizar estava sorrindo. Ele deu um passo à frente, tocou com gentileza a bochecha em que ele havia acabado de bater, e então me bateu de novo. Dessa vez eu me apoiei e apenas tropecei, mas parecia que meu pescoço seria aberto ao meio. Fiquei cara a cara com ele, endireitando meus ombros, e senti alguma coisa quente e úmida escorrendo pelo meu rosto.
— Bom dia para você também, sher Kornizar.
— Você achou que eu não descobriria? — Eu sabia exatamente do que ele estava falando, mas fingi confusão. — Falei a você precisamente o que dizer e, ainda assim, você contou histórias de irmãs mortas e dragões que despertam do seu sono?
— Eles gostam de ouvir histórias sobre a mulher que tem o mesmo nome do seu reino. Era isso que eles queriam ouvir — foi minha resposta.
Ele agarrou meu braço e me puxou na sua direção. Seus olhos dançavam com a fúria.
— Não me importo com o que eles querem ouvir! Me importo com o que eles precisam ouvir! Me importo com minhas ordens para você! E não quero nem saber se os próprios deuses entregaram as palavras deles a você em cálices de ouro! Todas as suas idiotices sobre ouvir sem ouvidos, ver sem olhos, isso tudo não importa. Os guardas falaram, rindo, todas as palavras para mim... mas nenhuma menção a batalhas e vitória! É isso que importa, Princesa! Isso é tudo que importa.
— Peço seu perdão, Komizar. Fui levada pelo momento, pela bondade das pessoas e pelo seu desejo fervente por uma história. Certificarei-me de contar a sua da próxima vez.
Ele olhou para mim, com o peito ainda subindo e descendo. Esticou a mão para cima e limpou a maçã do meu rosto, e depois esfregou o sangue entre os dedos.
— Você dirá a Kaden que tropeçou nas escadarias. Repita.
— Eu tropecei nas escadarias.
— Assim está melhor, minha passarinha. — Ele esfregou o sangue em seu dedo pelo meu lábio inferior e então se curvou para me beijar, empurrando o gosto salgado do meu próprio sangue para minha língua.
Nem o guarda, nem Calantha falaram qualquer coisa enquanto eles me conduziam de volta ao meu quarto. No entanto, antes de virar-se para ir embora, Calantha fez uma pausa para olhar para a minha face. Pouco tempo depois, uma bacia de água com ervas flutuando foi entregue no meu quarto por uma criada. A moça também trouxe uma fatia de raiz fresca e polpuda.
— Para o seu rosto — disse ela, sob cílios abaixados, e saiu apressada, antes que eu pudesse perguntar quem havia me enviado aquilo, mas eu podia ter certeza de que fora Calantha. Essa ofensa havia chegado um pouco perto demais da própria situação dela.
Mergulhei um tecido macio na água e bati com ele suavemente na minha bochecha para limpar o machucado. Encolhi-me com a pungência. Eu não tinha espelho, mas podia sentir o machucado e o arranhão ardente de bater no chão. Cerrei os olhos e mantive o tecido ensopado junto à minha pele. Valeu a pena. Cada palavra que falei tinha valido a pena. Eu não podia deixá-los sem algum tipo de conhecimento deles próprios. Vi isso nos rostos deles, pesando minhas palavras e o que elas poderiam significar. Eu tinha forçado as coisas a irem até mais longe do que me atrevia, pois nem todo mundo na praça havia vindo ouvir o que eu tinha a dizer. Alguns estavam ali para fazer relatórios do que eu diria. Eu avistara os guardas do Sanctum, e os lordes dos quadrantes não estavam apenas me escrutinizando, como também observavam aqueles que haviam se reunido para me ouvir.
Peguei o pedaço de raiz que a moça havia trazido e cheirei-a. Thannis. Havia algo que essa erva rasteira não fosse capaz de fazer? Mantive-a junto ao machucado e senti-a aliviando o latejar.
Do outro lado do quarto, meu olhar contemplativo pousou no vestido de casamento que estava disposto em cima do baú de Kaden. Ele tinha sido finalizado quase em cima da hora. A Lua do Caçador seria amanhã. O casamento deveria começar ao crepúsculo, enquanto a lua se erguia acima dos contrafortes. Não haveria qualquer procissão, nenhuma flor, nem sacerdotes, nem festas, nada do alarde que acompanhava um casamento em Morrighan. As tradições dos casamentos vendanos eram simples, e testemunhas eram o maior dos requisitos. O casamento seria realizado no adarve a leste, que dava para o Pavilhão do Falcão. Um voluntário escolhido pelo Komizar ataria nossos pulsos com uma fita vermelha. Quando erguêssemos nossas mãos atadas perante eles, exibindo nossa união, as testemunhas evocariam uma bênção... atados pela terra, atados pelos céus... e seria isso. O banquete de bolos de frutas secas que viria em seguida era o maior dos luxos, mas sua simplicidade não tornava as expectativas menos febris. A Lua do Caçador e meu vestido vermelho do clã eram enfeites que adicionavam algo mais ao fervor. Fui andando em frente e toquei no vestido, tão cuidadosamente feito de retalhos, o resultado de muitas mãos e de muitos clãs. Um vestido de boas-vindas, não de despedidas. Um vestido de permanência, não de partida.
Será que esse seria meu fim? Eternamente uma cativa de um reino e desprezada pelos outros? Eu me perguntava se os cavaleiros vendanos já estariam em Morrighan, espalhando a notícia da minha suprema traição para com meus compatriotas. Visualizei aqueles que iriam me amaldiçoar: o gabinete, a Guarda Real, minha mãe e meu pai. Cerrei os olhos, tentando conter as lágrimas. Mas, certamente, não meus próprios irmãos nem Pauline.
Um soluço mesclado com choro pulou à minha garganta.
Esta não era a história que eu havia escrito para mim mesma. Não era a história de Terravin, de brisas salgadas e asnos. Eu esmagava o tecido no meu punho cerrado e segurava-o junto à minha face, maculando a bainha com o vermelho mais intenso do meu próprio sangue. Com a imagem de Pauline ainda se agigantando nos meus pensamentos, uma preocupação mais horrível me sobrepujou: ninguém em Morrighan consideraria meu ato traidor por muito tempo, porque ou eles estariam desse lado do inferno, arrastando-se para pegar baratas, ou estariam mortos.
O sucesso do Komizar parecia garantido, a menos que eu conseguisse, de alguma forma, fazer com que eles soubessem do que estava acontecendo. A promessa de Kaden de proteger Berdi, Gwyneth e Pauline não era o bastante. Toda Terravin não era o bastante. Havia tão mais em Morrighan, e nenhum deles merecia esse fim. O Komizar havia mencionado um último inverno. Isso deveria querer dizer que eles não marchariam até depois disso? Quando? Na primavera? No verão? Quanto tempo será que Morrighan teria? Não muito mais do que eu.
Dei um pulo quando ouvi uma batida à porta. Eu não queria mais surpresas, e cautelosamente abri uma fresta.
Era Calantha.
— Eu estou com uma outra toalha para você. — Ela foi para o lado. — E trouxe isto.
Rafe entrou em meu campo de visão. O sangue juntou-se friamente nos meus pés.
— Eu posso ter um olho só — disse Calantha — no entanto, percebo bem mais com um olho do que a maioria percebe com dois. Dispensei os guardas no fim do corredor, mandando que fossem cuidar de uma outra questão, e o Conselho ainda está em sessão. Você tem quinze minutos antes que os guardas retornem aos seus postos. Não mais do que isso, e estarei de volta antes tempo acabar.
Ela colocou em cima da cama a toalha que tinha trazido e saiu.
Os olhos de Rafe voltaram-se imediatamente para a minha bochecha, e eu vi uma fúria gélida passar por eles.
— Não foi Kaden. Ele não pôs as mãos em mim. Estou bem — falei tom de súplica. — Nós só temos uns poucos minutos. — Eu não queria desperdiçar esses minutos com raiva e acusações. Havia dias desde que eu e Rafe não ficávamos sozinhos, podendo trocar uma palavrinha que fosse em particular.
Ele engoliu em seco sua raiva como se pudesse ler meus pensamentos. Ele começou a falar, mas eu o interrompi.
— Beije-me — falei. — Antes que você diga mais alguma coisa, simplesmente me beije, me abrace e me diga que valeu a pena, não importando o que aconteça.
Ele tirou os cabelos do meu rosto.
— Eu prometi a você que nos tiraria dessa, e farei isso. Nós vamos ter uma longa vida juntos, Lia.
Ele deslizou os braços à minha volta, puxando-me para si como se nada pudesse jamais ficar entre nós novamente, e então sua boca veio para junto da minha, gentil, faminta, com o doce sabor que eu sempre tinha imaginado, todos os meus sonhos firmes e vivos novamente em um único e curto beijo.
Relutantes, nós nos afastamos um do outro, porque o tempo era curto. Rafe falou rapidamente.
— Vista suas roupas de cavalgada pela manhã. Diga suas memórias sagradas do Terraço de Blackstone. Você sabe onde fica?
Assenti. O Terraço de Blackstone era um dos muitos que davam para a praça, mas raramente era usado porque o acesso a ele pouco mais complicado.
— Que bom — disse ele. — Diga as memórias sagradas logo depois do primeiro sino. A essa hora, o Conselho estará intensamente imerso  em suas sessões. Prenda-se à sua rotina para que os guardas que ficam observando você da praça não sejam alertados. Quando for sair, pegue a escadaria externa, desça até o segundo nível e passe pelo portal que fica ali. Trata-se de uma trilha deserta que apenas uns poucos criados usam. Estarei esperando por você, com Jeb.
— Mas como...?
— Você sabe nadar, Lia?
— Nadar? Você está falando do rio?
— Não se preocupe. Nós temos uma jangada. Você não precisará nada.
— Mas o rio...
Ele me explicou por que esse era o único jeito, que a ponte era impossível de ser erguida sem um pequeno exército e que o baixo rio ficava longe demais.
— Tavish já pensou em todos os detalhes. Eu confio nele.
— Eu sei nadar — falei, tentando acalmar o meu coração.
Uma jangada. Amanhã de manhã. Eu não me importava que aquele fosse o plano mais louco do mundo. Estaríamos indo embora daqui antes que eu tivesse que me casar com o Komizar. Rafe me perguntou se havia alguma coisa que eu precisava levar. Se houvesse, ele daria isso a Jeb agora, para que ele prendesse as coisas na jangada, pois não haveria tempo para isso amanhã. Apanhei meu alforje e enfiei algumas coisas dentro dele, inclusive os livros dos Antigos. Segurei no braço de Rafe.
— Mas, Rafe, se as coisas não saírem conforme o planejado, se você tiver que ir embora sem mim, jure que fará isso.
Eu podia dizer que ele estava prestes a protestar contra isso, mas então ele fez uma pausa, mordendo o lábio.
— Farei isso — disse ele. — Se você jurar que fará o mesmo.
— Você é um mentiroso terrível.
Ele franziu o rosto.
— E eu costumava ser tão bom. Você é minha derrocada, mas, ainda assim, tem que jurar que fará isso.
Eu nunca iria embora sem ele. Se ele não tivesse a mim como ponto de vantagem, ele voltaria para casa, para Dalbreck, aos pedaços. Provavelmente ele já era capaz de ver a mentira na minha língua.
— Farei isso — foi a minha resposta.
Ele soltou um suspiro, e seus lábios roçaram os meus, sussurrando junto a eles.
— Suponho que nós dois teremos que sair daqui, então.
— Imagino que sim — sussurrei em resposta. Meu corpo moldou-se ao dele, e os segundos passavam-se rapidamente. Tudo que eu queria era mais tempo com ele. Seus lábios vieram até o meu pescoço. — Valeu a pena, Lia — disse ele. — Todos os quilômetros, todos os dias. Eu faria tudo de novo. Eu a perseguiria por três continentes se fosse necessário para ficar com você.
Ouvi um leve suspiro e ele recuou.
— Mas pode ser que haja um empecilho para os nossos planos — disse ele. — Griz.
— Griz? Ele parece ser a menor de nossas preocupações. Ele encobriu a verdade para nós uma vez.
Uma dobra aprofundou-se entre suas sobrancelhas como se Griz fizesse a cabeça dele doer.
— Ele sabe quem eu sou e parece que conhece bem um dos meus homens também. Quando Griz o avistou, ele percebeu que estávamos planejando fazer alguma coisa, e ele deixou claro que não quer que você vá embora. Ele é um membro do povo dos clãs e espera que você permaneça aqui. Meu soldado explicou que estava aqui somente para me levar embora, e Griz pareceu acreditar nisso, mas ele está de olho em nós.
Balancei a cabeça, não acreditando no que estava ouvindo.
— Deixe-me ver se estou entendendo isso direito. Ele não se importa com o fato de que soldados de Dalbreck estejam deste lado do rio nem com conspirações ou planos de fuga, contanto que ele consiga me manter aqui?
— Isso mesmo. Nós planejamos acabar com ele silenciosamente em seus aposentos se tivermos que fazer isso, mas, como você pode ter notado, ele é um grande bruto... isso pode não ser fácil.
Meu sangue fervia em silêncio. Manter a mim. Como um menino com um sapo no bolso.
— Não — falei. — Vou cuidar de Griz...
— Lia, ele é muito...
— Estou confiando em você, Rafe. Você precisa confiar em mim em relação a isso. Vou cuidar de Griz.
Ele abriu a boca para argumentar.
— Rafe — falei com firmeza.
Ele soltou um suspiro e assentiu relutante.
— Hoje à noite, no Saguão do Sancrum, certifique-se de falar sobre planos futuros. Sobre o que acontecerá daqui uma semana, um mês. Pergunte sobre o clima, qualquer coisa, a de modo que faça parecer com que você espere estar aqui. Não é só o Komizar que nada deixa passar. Os Rahtans, os chievdars, e especialmente Griz, observam cada palavra.
            Seguiu-se um leve bater à porta. Nosso tempo acabou.
— Seu ombro — falei. — Como está sendo a cura?
— É só um pequeno corte. A cozinheira me deu um cataplasma fétido para tratar dele. — Ele se curvou para baixo e beijou de leve o corte na maçã do meu rosto. — Olhe para nós. Somos uma dupla e tanto, não?
Mas então um beijo levou a mais beijos, como se ele tivesse esquecido que tinha que ir embora.
— Ninguém nos reconheceria — respondi. — Nós mal somos mais um príncipe e uma princesa propriamente ditos.
Ele deu risada em meio ao beijo e então se reclinou para olhar para mim.
— Você nunca foi uma princesa propriamente dita. — Ele aninhava meu rosto em suas mãos, e seu sorriso desapareceu. — Mas você é tudo que eu quero. Lembre-se disso. Amo você, Lia. Não um título. E não porque um pedaço de papel me diz que eu deveria amá-la. Mas porque amo.
Não havia mais tempo para palavras nem beijos. Ele apanhou meu alforje e foi correndo até a porta.
— Espere! — falei. — Eu tenho mais uma coisa a dar a você. — Fui até o baú e tirei de lá um pequeno e vedado frasco de um liquido claro. — Esta é uma coisinha que roubei nas minhas viagens. Isso poderia nos fazer ganhar mais tempo. — Falei a ele exatamente o que fazer com aquilo.
Ele abriu um largo sorriso.
— Não é uma princesa propriamente dita, de jeito algum. — Com cuidado, ele enfiou o frasco no meu alforje e partiu.

8 comentários:

  1. Caracaaaaa. Genteeee. Ai gente. Muitos comentários. Primeiro, imaginei o sorriso do Rafe 😍😍

    Segundo, eu tô com o maior cagaço do final desse livro!!!

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  2. Cara esse Rafe se acha eu quero mas q ele morra. Ñ gosto dele. E romance deles dois e tão frio.

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  3. Não tenho paciência para esses dois, sei que é uma escolha difícil, mas esse rafe está me dando nos nervos, se ele morresse eu não iria sentir falta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!