2 de fevereiro de 2018

Capítulo 57

RAFE

— Você vai nos contar ou não? — Jeb mascava um osso, saboreando cada pedacinho de sabor da primeira carne fresca que comíamos depois de vários dias, e então jogou-o no fogo. — Ela tem o dom?
— Eu não sei.
— Como assim, não sabe? Você passou metade do verão com ela e não descobriu se ela tem ou não o dom?
Orrin deu uma bufada.
— Ele estava ocupado demais colocando a língua pela garganta dela para fazer perguntas.
Todos riram, mas olhei com ódio para Orrin. Eu sabia que eles falavam isso de brincadeira; de certa forma, eles me aprovavam, considerando-me um homem que tinha caçado uma menina e feito com que ela se curvasse à minha vontade. Mas eu sabia da verdade. Não era nada disso. Se alguém tinha sido dobrado e quebrado, esse alguém era eu. Não queria que eles ficassem falando dela daquele jeito. Um dia, ela seria a rainha deles. Pelo menos eu rezava para que fosse.
— Como ela é, essa menina que vamos trazer de volta? — quis saber Tavish.
Eu devia a eles pelo menos isso, umas poucas respostas que fossem, um vislumbre de quem era Lia. Eles estavam arriscando suas vidas, vindo comigo sem fazer muitas perguntas, embarcando na jornada mais exaustiva pela qual já passaram. Essas respostas, eles fizeram por merecê-las. Eu também estava grato pela forma como Tavish havia colocado as coisas — trazer de volta —, sem nem por um momento questionar se seríamos bem-sucedidos em nosso propósito. Eu precisava daquilo agora. Mesmo que estivéssemos em número menor, Sven havia conseguido os melhores de uma dúzia de regimentos. Eles eram treinados em todos os deveres e armamentos de um soldado, mas cada um tinha suas forças especiais.
Embora Orrin bancasse o bruto, sua habilidade com o arco era refinada e inquestionável. Sua mira, mesmo com o vento e a distância, era precisa, e ele conseguia matar por três. Jeb era habilidoso com ataques silenciosos. Ele tinha um sorriso impressionante, e seus modos não eram imponentes, mas essa era a última coisa que quaisquer de suas vítimas notava antes de ele quebrar seus pescoços. Tavish falava de forma mansa e certeira. Enquanto outros se gabavam, ele diminuía o valor de seus feitos, que eram muitos. Não era o mais forte ou o mais rápido dos soldados, mas era o mais engenhoso e calculista. Fazia com que todos os movimentos contassem em direção à vitória. Todos tínhamos nos conhecido e treinado juntos como candidatos a soldados.
Eu também tinha meus talentos, mas as habilidades consumadas deles eram testadas e comprovadas em campos de batalha, ao passo que tinham visto as minhas apenas nos treinos. Com a exceção de Tavish. Dividíamos um segredo: a vez em que matei oito homens num espaço de dez minutos. Saí dessa com um imenso talho na coxa, no qual o próprio Tavish teve que fazer pontos, visto que o machucado também precisava permanecer em segredo.
Nem mesmo Sven tinha conhecimento daquela noite, e ele sabia quase tudo sobre mim.
Analisei as quatro faces que esperavam que eu dissesse alguma coisa. Até mesmo Sven, que tinha trinta anos a mais do que todos nós e geralmente demonstrava pouco interesse no falatório ocioso de soldados em volta de uma fogueira de acampamento, parecia estar esperando por alguns detalhes de Lia.
— Ela não é nem um pouco como as damas da corte — falei. — Não se preocupa com roupas. Na maior parte do tempo, se não estivesse trabalhando na taverna, ela vestia calça. Uma calça esburacada.
— Calça? — disse Jeb, duvidando. A mãe dele era a Costureira Mestre da corte da Rainha, e ele mesmo desfrutava os deleites da moda quando não estava de uniforme.
Sven sentou-se para a frente.
— Ela trabalhava em uma taverna? Uma princesa?
Eu sorri.
— Atendendo a clientes e lavando louça.
— Por que você não me contou isso antes? — quis saber Sven.
— Você nunca perguntou.
Sven resmungou alguma coisa para si e se sentou, relaxado.
— Eu gosto dela — disse Tavish. — Conte-nos mais.
Falei sobre o nosso primeiro encontro e sobre como queria odiá-la, e sobre todos os bons momentos que passamos juntos depois disso. Bem, sobre quase todos os bons momentos. Contei a eles que ela era pequena, uma cabeça menor do que eu, mas que tinha um temperamento forte e parecia tão alta quanto um homem quando estava com raiva, e que a tinha visto fazer com que um soldado de Morrighan ficasse no seu devido lugar com umas poucas e pungentes palavras. Contei a eles sobre como havíamos colhido amoras silvestres e como ela flertara comigo, e, embora ainda achasse que a odiava, tudo que queria fazer era beijá-la, mas então, depois, quando por fim nos beijamos... fiz uma pausa em minha descrição e exalei o ar devagar e por um tempinho.
— Foi bom? — prontificou-se a dizer Jeb, ansioso para saber dos detalhes do que vivenciei.
— Foi bom — respondi, simplesmente.
— Por que não disse a ela quem você é de verdade? — perguntou Tavish.
Imaginei que eles precisavam saber disso também, antes cedo do que tarde, pelo menos antes que a conseguíssemos de volta.
— Eu contei a vocês que nós não nos dávamos tão bem assim no começo. Depois fiquei sabendo que ela não gosta exatamente de Dalbreck nem de ninguém vindo de lá. Não os consegue tolerar, para falar a verdade.
— Mas nós somos de Dalbreck — disse Jeb.
Dei de ombros.
— Ela não admira as tradições e responsabiliza Dalbreck por seu casamento arranjado. — Bebi um gole do meu cantil de couro. — E ela desprezava especialmente o Príncipe de Dalbreck por permitir que seu papai arranjasse um casamento para ele.
Vi Tavish se encolhendo.
— Mas essa pessoa é você — disse Jeb.
— Jeb, eu sei quem é quem! Não precisa me dizer nada disso — eu disse, irritado. Reclinei e falei, em um tom de voz mais baixo: — Ela disse que nunca seria capaz de respeitar um homem assim.
E agora eles sabiam exatamente com o que eu estava lidando e com quem eles também lidariam.
— Do que ela sabe? — quis saber Orrin, erguendo uma perna de frango na mão. Ele chupava um pedaço de carne entre os dentes. — Ela é só uma menina. Esse é o jeito como as coisas são feitas.
— Quem ela achou que você fosse? — quis saber Tavish.
— Um fazendeiro de passagem para o festival.
Jeb deu risada.
— Você? Um fazendeiro?
— Isso mesmo, um bom menino de fazenda que foi para a cidade para suas alegrias anuais — disse Orrin. — Você já colocou um bebê na barriga dela?
Meu maxilar ficou rígido. Nunca lembrei meus soldados de quem eu era, mas naquele momento não hesitei em fazer isso.
— Tome muito cuidado, Orrin. É da sua futura rainha que você está falando.
Sven olhou para mim e assentiu sutilmente.
Orrin sentou-se, relaxado, com uma expressão fingida de medo nos olhos.
— Bem, que me enforque! Parece que nosso Príncipe finalmente poliu suas joias.
— Já estava na hora — acrescentou Tavish.
— Eu tenho pena do vendano que levou a menina embora — disse Jeb, entrando na conversa.
Aparentemente, nenhum deles estava ligando para a minha imposição de autoridade. Parecia que estavam até mesmo esperando por isso.
— A única coisa que não entendo — disse Jeb — é por que aquele vendano simplesmente não deixou que o caçador de recompensas cortasse a garganta dela, que fizesse o trabalho por ele.
— Porque eu estava parado, em pé, bem atrás dele. Mandei ele atirar.
— Mas então por que levá-la por todo o caminho até Venda? Para pedir um resgate? — questionou Tavish. — Qual era o propósito dele ao pegá-la?
Lembrei-me de como Kaden havia olhado para ela naquela primeira noite, uma pantera observando uma corça, e de como ele havia olhado para ela todos os dias depois disso.
Não respondi a Tavish, e talvez meu silêncio tivesse sido resposta suficiente.
Seguiu-se uma longa pausa, e então Orrin soltou um arroto.
— Vamos pegar a minha futura rainha de volta — disse ele — e então vamos arrancar as malditas coisas preciosas deles e colocar em uma vara.
Havia momentos em que a língua bruta de Orrin parecia mais refinada e eloquente do que a de qualquer um dos outros.

13 comentários:

  1. Só eu que na hora que eles falaram "jóias preciosas" lembrou do Maxon e as suas jóias reais que a Meri chutou?

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    1. Eu li Manon
      ... acho q to muito viciada em trono de vidro

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  2. nem me fala tanto que Maxon sofreu nas maos da Mere
    kkkkkkkkk
    mas acabou por valer a pene nao e mesmo ?

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  3. Então... Eles transaram mesmo ou não?

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  4. Eu tô rindo muito, eu amo os dois. Pode isso ????? Nas outras sagas eu sempre tenho um favorito, mas aqui ? Essa autora me pegou de jeito

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  5. Tem horas que eu acho o Rafe tão fofo!!!

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  6. Esses caras tão parecendo mais menininhas em uma festa do pijama que querem saber do namorado da amiga, do que soldados rastreadores e assassinos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!