16 de fevereiro de 2018

Capítulo 56

KADEN

Fui andando com o Komizar ao longo do adarve da Torre de Jagmor. Malich, Griz e dois irmãos, Jorik e Theron, seguiam a trilha atrás de nós. Agora que o Conselho inteiro estava presente, nossa primeira sessão oficial se reuniria amanhã. No entanto, as sessões não oficiais já haviam começado. O Komizar havia reunido os Rahtans em particular para certificar-se de que amanhã estaríamos sentados ao lado dos governadores que provavelmente iriam empacar. Os Rahtans eram seu círculo interno, os dez que nunca falhavam em seu dever nem estremeciam em sua lealdade uns para com os outros e para com Venda. Não se tratava apenas de dever; era um modo de vida que todos nós abraçamos, um fazer parte de que nunca se deveria duvidar. Nossos passos, nossos pensamentos, tudo em relação a nós apresentava tuna força unificada que fazia com que até mesmo os chievdars medissem suas palavras conosco.
Ainda assim, o vasto exército estava causando perdas e danos nas províncias. Mais um inverno, disse o Komizar, apenas mais um para garantir os planos, os suprimentos e as armas que os arsenais estavam fazendo e acumulando. O Komizar e os chievdars haviam calculado exatamente o que era necessário. No entanto, a perda de dois governadores em uma estação era sinal de descontentamento, e vários dos outros governadores murmuravam entre si. Os Rahtans deveriam fazer com que mudassem de ideia, deveriam acalmar seus medos, lembrá-los das recompensas que estavam por vir, e, se isso os influenciasse, deveriam lembrá-los das consequências. Todavia, a peça decisiva do jogo era Lia. Ela era uma estratégia nova, estratégia esta que chamava a atenção deles, um ataque para encorajar a mesma massa de pessoas de quem os governadores teriam que se espremer sangue para que fosse dado apenas mais um pouco. Se os clãs estivessem apaziguados, os governadores também o ficariam, e veriam os alvos em suas costas diminuindo.
O Komizar estava me trazendo de volta para a comunidade, e segundas chances não eram típicas dele. Meu ataque insano para com ele já estava diminuído pela minha vitória fácil sobre o emissário, prova de que eu era um Rahtan até os ossos e que seguia suas ordens como que por reflexo. Ninguém mencionara meu ataque verbal para cima de Lia, mas eu sabia que isso era tão responsável quanto qualquer outra coisa pela dispensa da minha transgressão, não apenas por parte do Komizar como também por parte dos meus irmãos. Quando surgiam problemas, o Assassino, acima de tudo e de todos, sabia a quem deveria ser leal. O som de nossas passadas combinadas no passadiço de pedra era um ruído reconfortante, cheio de propósito e força, e, ultimamente, eu havia tido pouco do precioso conforto.
Enquanto nos aproximávamos da Torre do Sanctum, o Komizar avistou Lia sentada na parede da galeria.
Ele abriu um largo sorriso.
— Lá está minha Siarrah agora, exatamente conforme as minhas ordens. E veja como as multidões na praça aumentaram.
Eu já havia notado a quantidade de pessoas ali reunidas.
— Os números dobraram desde ontem — disse Malich, em um tom cauteloso.
— O ar está amargo e, ainda assim, eles vêm — acrescentou Griz.
O rosto do Komizar estava tomado por uma expressão satisfeita.
— Sem dúvida devido à visão desta noite.
— Uma visão? — perguntei.
— Vocês acham que eu deveria permitir que ela ficasse vomitando aquelas coisas sem sentido para sempre? Lembrando-se de pessoas morreram faz tempo e de tempestades esquecidas? Não quando estamos cozinhando nossa própria e magnífica tempestade. Nesta noite ela falará a eles sobre uma visão de um campo de batalha onde Venda é vitoriosa. Ela contará a eles sobre uma vida inteira de verão e plenitude a ser dada como presente aos valentes vendanos pelos deuses, fazendo com que todos os seus sacrifícios valham a pena. Isso deverá tranquilizar as preocupações tanto dos governadores quanto dos clãs. — Ele ergueu a mão para as multidões e chamou-os, como se para tomar o crédito por essa virada de fortuna, mas nenhum deles se voltou na direção dele.
— Eles estão longe demais para ouvi-lo — disse Jorik. — E um murmúrio cresce entre eles.
A expressão do Komizar ficou sombria, e seus olhos analisavam a massa de pessoas, pela primeira vez parecendo avaliar os vastos números.
— Sim — disse ele, estreitando os olhos. — Deve ser isso.
Jorik tentou apaziguar o ego do Komizar ainda mais, acrescentando que ele também não conseguia ouvir as palavras de Lia, por causa da distância. Mas eu podia ouvi-la muito bem, sua voz era carregada pelo ar, e ela não estava falando de vitórias.

8 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!