2 de fevereiro de 2018

Capítulo 56

KADEN

Acordei no chão da carroça de Lia e achei que ela tivesse finalmente cravado um machado em meu crânio. Então me lembrei de pelo menos uma parte da noite passada, e minha cabeça doeu ainda mais. Quando vi que ela havia saído, tentei me levantar rapidamente, mas esse foi um erro tão grande quanto beber a bebida vagabunda dos nômades, para começo de conversa.
O mundo se despedaçou em milhares de luzes ofuscantes, e meu estômago deu um salto até minha garganta. Agarrei-me à parede para obter apoio e puxei as cortinas de Reena no processo. Consegui sair da carroça e me deparei com Dihara, que me disse que Lia tinha acabado de voltar andando até a campina.
Ela me colocou sentado e me deu um pouco de seu repulsivo antídoto para que eu bebesse e um balde d’água para que eu lavasse o meu rosto.
Griz e os outros riram do meu estado. Eles sabiam que eu geralmente não bebia mais do que um gole educado, por causa de quem eu fora treinado a ser, um assassino preparado. O que fizera com que eu perdesse meu bom senso na noite passada? Mas eu sabia a resposta a essa pergunta. Lia. Eu nunca estive em uma jornada cruzando o Cam Lanteux que fosse tão agonizante quanto esta.
Eu me limpei e fui encará-la. Ela me viu chegando, cruzando o campo, e levantou-se. Estaria olhando com ódio para mim? Eu gostaria de poder me lembrar mais da noite passada. Ela ainda estava usando as roupas dos nômades, que lhe caíam bem até demais.
Parei a alguns passos de distância.
— Bom dia.
Ela olhou para mim, com a cabeça inclinada e uma das sobrancelhas levantadas.
— Você sabe que já não é manhã, certo?
— Boa tarde — eu me corrigi.
Ela ficou com o olhar fixo em mim, sem dizer nada, quando eu tinha esperança de que ela preenchesse as lacunas. Pigarreei.
— Sobre a noite passada...
Eu não sabia muito bem como abordar o assunto.
— Sim? — prontificou-se ela a dizer.
Dei um passo mais para perto.
— Lia, espero que saiba que não paguei a carroça porque pretendia dormir lá com você.
Ela permaneceu calada. Esse não era o dia em que eu queria que ela adquirisse a habilidade de controlar a língua. Eu me rendi.
— Fiz alguma coisa que...?
— Se tivesse feito, ainda estaria no chão daquela carroça, só que não estaria respirando. — Ela soltou um suspiro. — Você foi, na maior parte do tempo, um cavalheiro, Kaden – bem, tanto quanto um tolo bêbado que vai entrando sem permissão pode ser.
Inspirei profundamente. Uma preocupação a menos.
— Mas posso ter dito algumas coisas...
— Você disse.
— Coisas que eu deveria saber?
— Imagino que, se você as disse, é porque já tem conhecimento delas. — Ela deu de ombros e voltou seu olhar contemplativo para o rio. — Mas você não revelou nenhum segredo vendano, se é com isso que está preocupado.
Fui andando até ela e peguei sua mão. Ela ergueu o olhar para mim, surpresa. Ergui a mão dela com gentileza, de modo que Lia poderia tê-la puxado, se quisesse, mas não fez isso.
— Kaden, por favor, vamos...
— Não estou preocupado com segredos vendanos, Lia. Acho que você sabe disso.
Ela apertou bem os lábios e seus olhos pareciam estar em chamas.
— Você não disse nada que eu conseguisse entender. Certo? Só bobagens sem sentido... coisa de gente bêbada.
Não sabia se podia realmente acreditar nela. Eu sabia o que aquela bebida fogosa era capaz de fazer com a língua de alguém, e também sabia das palavras que tinha dito em minha mente uma centena de vezes por dia contra minha vontade quando olhava para ela. E então havia as coisas sobre mim mesmo que eu não queria que ninguém soubesse.
O olhar dela se deparou com o meu, contemplativo, a determinação nos olhos dela, o queixo erguido da forma como ela sempre fazia quando sua mente estava a mil por hora. Eu havia estudado cada gesto, cada piscadela, cada nuance, toda a linguagem que era Lia em todos os quilômetros que havíamos viajado, e com toda a força que eu tinha restante, voltei a mão para o lado. Um latejar perfurava minhas têmporas, e apertei os olhos.
Um sorriso travesso ergueu os cantos da boca de Lia.
— Que bom. Fico feliz de ver que você está pagando pelos seus excessos. — Ela acenou em direção ao rio. — Vamos pegar um pouco de chiga para você, a erva que cresce ao longo das margens. Dihara disse que é boa para a dor. Isso será meu agradecimento pela carvachi. Foi muita bondade sua.
Observei enquanto ela se virava, vendo a brisa apanhar seus cabelos e erguê-los. Observei enquanto ela se afastava. Eu não odiava todos os membros da realeza. Eu não odiava Lia.
Segui atrás dela e caminhamos ao longo das margens, primeiro subindo por um dos lados, depois cruzando rochas escorregadias e descendo pelo outro. Ela me mostrou a erva chiga e colheu vários talos enquanto caminhávamos, tirando as folhas de fora e partindo um pedaço de uns dez centímetros.
— Mastigue isso — disse ela, entregando-o a mim. Olhei para aquilo com ares de suspeita. — Não é veneno — disse Lia, em tom de promessa. — Se estivesse tentando matar você, encontraria uma forma muito mais dolorosa de fazer isso.
Sorri.
— Sim, imagino que sim.

8 comentários:

  1. vai dar casamento
    pelo menos é o que espero #LiaKaden

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  2. AFF nem sei.mais.pra quem torcer. Gosto dos dois :(

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  3. Eu também n sei mais com quem shipar ela... Gostava dela com Rafe e agora gosto dela com Kaden, mesmo q seha contra todo o bom senso... Nas com quem ela vai ficar no final??? Eu n faço a mínima idéia!!!

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  4. "Muita bondade sua"...ele te sequestrou Lia, não tem bondade nenhuma não!!!! Kkkkk eu ein

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    1. Porra, finalmente alguém dr bom senso! ELE TE SEQUESTROU MINHA FILHA, E EM BREVE VAI TE LEVAR PRA VENDA! ABRE OZÓIO!

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  5. Acho q eu e Lia temos síndrome de Estocolmo, porque apesar de tudo eu ainda amo o Kaden.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!