20 de fevereiro de 2018

Capítulo 55

PAULINE

Durante a noite, depois de alimentar o bebê, eu ficara deitada de lado por um bom tempo, observando quanto Kaden dormia, ainda pensando nas cicatrizes dele. Agora, quando ele olhasse no espelho, veria outra marca, aquela que eu havia deixado, junto com as infligidas pelo pai. Lá em Terravin, uma simples camisa e umas poucas palavras bondosas encobriram tudo sobre quem eu acreditara que ele fosse. Mikael havia feito o mesmo, mas ele cobria a sua verdadeira natureza com algumas poucas palavras floreadas. Eu deixei que essas palavras me seduzissem e entrassem em mim até que elas eram tudo que eu enxergava.
Seria possível algum dia conhecer de fato alguém, ou será que eu era a pior julgadora de caráter de toda a história? Rolei na cama, olhando para as sombras que tremeluziam no teto. O fato de que ele vira minhas partes íntimas era a menor das minhas aflições. Eu ainda estava assombrada pela expressão dele logo que ergueu o bebê nas mãos. Aquilo parecia real. Os olhos dele estavam cheios de deslumbramento, mas então, quando esticou a mão e colocou o bebê no meu peito, Kaden ficou hesitante, como se já soubesse que eu nunca permitiria que ele tomasse a criança nos braços outra vez. Uma parte de mim sabia que eu precisava agradecer a ele por me ajudar, mas outra parte ainda estava com raiva e uma parte maior ainda estava com medo. Como eu poderia ter certeza de que qualquer bondade vinda dele fosse real dessa vez? E se ele ainda estivesse nos usando para outro propósito, da forma que fizera antes? Eu sabia que Lia confiava nele. Isso deveria ter sido o bastante para mim, mas a confiança estava fora do meu alcance.
Ajoelhei-me no pórtico, limpando o engradado que ele encontrara no moinho. Isso pode servir como um berço passável por enquanto, ele havia dito quando o ofereceu a mim nessa manhã. O olhar dele não se encontrou com o meu. Ele só o colocou no pórtico e saiu andando. Estava quase longe o suficiente para não me ouvir quando o chamei. Quando ele se virou, eu disse:
— Obrigada.
Kaden ficou lá, parado me estudando, e então, por fim, assentiu e partiu.
Havia chovido durante quatro dias seguidos, e rios de água desciam pelas encostas das colinas, com mais vazamentos surgindo no telhado da cabana. Eu não sabia ao certo se o dilúvio fora uma benção ou uma maldição, deixando-nos presos em aposentos tão pequenos, mas isso também forçara Lia e Kaden a resolverem a discussão que rolava entre eles: Kaden queria ele mesmo ir ter com o Vice-Regente. Confrontá-lo. Lia disse que não. Não até que fosse o momento certo. Eu fiquei surpresa com o fato de que ele dera ouvidos a ela. Havia um estranho elo entre os dois que eu ainda não entendia. No entanto, quando ela disse que existia a possibilidade de que o Vice-Regente houvesse mudado, que onze anos poderiam fazer com que um homem mudasse, e ela indicara Enzo como prova disso, Kaden ficou enfurecido. Tive um vislumbre do assassino que ele fora. Talvez o assassino que ele ainda fosse, e eu entendi que, quando ele falou “confrontar”, ele não estava querendo dizer “conversar”.
— As pessoas não mudam tanto assim! — berrou Kaden, e saiu tempestivamente na chuva. Voltou uma hora depois, ensopado, e os dois não falaram disso de novo.
Eu havia dito a mim mesma que as pessoas não mudavam, mas ponderei a possibilidade. Lia mudara. Ela sempre fora destemida, ignorando as ameaças quando alguma coisa a irritava muito, impulsiva, às vezes com um elevado custo para si mesma, mas eu via um aço calculista e mais frio nela agora que não estava lá antes. Ela tinha sofrido. Todos os meses que passei me preocupando com ela não foram infundados. Ela tentou passar de leve pelos detalhes, mas vi as cicatrizes onde flechas haviam perfurado a coxa e as suas costas. Ela quase morreu. Eu vi a linha fina na têmpora onde o Komizar havia batido nela. Mas havia outras cicatrizes que não podiam ser encontradas na pele. Era com essas cicatrizes que eu me preocupava: um olhar fixo e vazio, um punho cerrado e enrolado, um lábio torcido em desafio com alguma recordação, cicatrizes mais profundas por ver as pessoas que ela amava assassinadas e por saber que mais pessoas haviam morrido depois que Lia fugira. Eu via que ela se importava com o povo vendano. Com frequência, ela falava no idioma deles com Kaden, e as memórias sagradas dela incluíam as tradições deles também.
— Você é um deles agora, Lia? — perguntei a ela.
Lia olhara para mim, surpresa a princípio, mas depois alguma memória tremulou nos seus olhos, e ela não me respondeu. Talvez nem ela mesma estivesse certa disso.
Eram as memórias sagradas o que mais havia mudado. Ela não as dizia por uma obrigação cheia de ressentimentos, não mais, e sim com um poder apaixonado que tornava o ar imóvel, chamando não apenas os deuses — parecia que chamava as estrelas e as gerações também. Uma plenitude crescia no ar como se as respirações do mundo estivessem sincronizadas com as nossas, e eu via Lia fitar a escuridão, com os olhos focados em alguma coisa que o restante de nós não conseguia ver.
Lia não mais temia o dom; agora, abraçava-o. Ela persuadia com paciência, exigia, confiava. Falava do dom de formas que eu nunca havia ouvido antes, das suas formas de ver e saber, e de confiar, formas estas que faziam com que eu tentasse alcançar mais a fundo de mim mesma.
Eu tivera um vislumbre da devastação dela também. Lia escondia bem o sentimento, mas, quando Natiya começou a descrever para Berdi e Gwyneth como eram o exército de Dalbreck e o posto avançado e fez uma mera menção ao nome de Rafe, ela saíra andando até o pórtico como se não conseguisse aguentar aquilo. Eu fui atrás e a encontrei reclinada em uma coluna observando a chuva torrencial.
— A menina parece fascinada pelo exército dalbretchiano — falei. — Ela é muito nova para estar carregando todas aquelas armas. Eu não achei que nômades...
— Eles não portam armas — disse Lia. — Natiya tentou me ajudar, costurando uma faca na bainha do meu manto. O acampamento dela pagou um alto preço por isso.
— E agora ela quer justiça.
— As mesmas pessoas a quem ela dera as boas-vindas no seu acampamento a traíram. Seu modo de vida... e sua inocência... foram roubados. Uma dessas coisas ela pode conseguir de volta; a outra, nunca.
Tentei gentilmente forçar a conversa para outro caminho.
— Ela tem uma alta consideração pelo rei de Dalbreck.
Lia não respondeu.
— O que foi que aconteceu entre vocês dois? — perguntei.
As têmporas dela reluziam com a luz da janela da cabana, e ela balançou de leve a cabeça.
— O que quer que tenha acontecido, foi melhor assim.
Toquei no ombro dela, e o olhar de Lia se encontrou com o meu. O que eu via nos olhos dela não era o melhor.
— Lia, sou eu. Pauline. Pode me contar — falei, baixinho.
— Deixe isso para lá. Por favor.
Ela tentou desviar o olhar e segurei nos braços dela.
— Não vou fazer isso. Fingir que você não está sentindo dor não vai fazer com que ela desapareça.
— Não posso — disse ela. A voz soava rouca. Seus olhos ficaram marejados, e ela, com raiva, bateu nos seus cílios. — Não posso pensar nele — disse ela com mais firmeza. — Há coisas demais em jogo, incluindo a vida dele. Não posso me dar ao luxo de ter distrações.
— E isso era tudo o que ele era? Uma distração?
— Você, acima de todas as pessoas no mundo, sabe que essas coisas nem sempre são certo.
— Lia — falei, com firmeza na voz, e fiquei esperando.
Ela cerrou os olhos.
— Eu precisava dele. Mas o reino dele também precisava. Essa é uma realidade que nenhum de nós pode mudar.
— Mas...
— Achei que ele fosse vir — sussurrou ela. — Contra toda a razão. Eu sabia que ele não podia fazer isso. Ele nem mesmo deveria fazer uma coisa dessas, mas eu ainda me encontrava olhando por cima do ombro, pensando que ele mudaria de ideia. Nós nos amávamos. Trocamos votos. Juramos que reinos e conspirações não ficariam entre nós... mas ficaram.
— Conte-me tudo desde o início. Conte-me da forma que lhe contei sobre Mikael.
Conversamos durante horas. Ela me contou coisas que não contara antes, sobre o momento em que se deu conta pela primeira vez de quem ele de fato era, os tensos minutos antes que eles cruzassem a fronteira e entrassem em Venda, o bilhete que ele tinha carregado no colete todos aqueles meses, a forma como ela precisou fingir que o odiava quando tudo que ela queria era abraçá-lo, a promessa dele de um novo começo, a forma como a voz dele a mantinha presa a este mundo quando Lia se sentia escorregando para dentro de outro mundo, e então a discussão amarga dos dois ao se separarem.
— Quando eu o deixei para trás, marcava todos os dias que estavam entre nós escrevendo as últimas palavras dele no solo: é melhor assim... até que eu finalmente acreditei que elas eram verdadeiras. Então, encontrei meu vestido de casamento no lugar onde ele o havia escondido no palheiro na estalagem e isso fez com que todas as emoções aflorassem em mim de novo. Quantas vezes tenho que deixar isso para lá, Pauline?
Olhei para ela, sem saber como responder. Até mesmo depois de tudo que Mikael tinha feito, todos os dias eu precisava deixar isso para lá mais uma vez. Ele era um hábito nos meus pensamentos, não mais bem-vindo do que brotoeja, mas constantemente me encontrava pensando nele antes de até mesmo me dar conta do que estava fazendo. Bani-lo dos meus pensamentos era como aprender a respirar de um jeito novo. Era um esforço consciente.
— Eu não sei, Lia — foi o que respondi. — Porém, por mais tempo que isso leve, você sempre vai poder contar comigo.
Eu me sentei relaxada e olhei para o engradado. A madeira era macia e robusta. Eu me levantei e pendurei-a na viga do pórtico para secar. Sim, Kaden está certo. É só colocar um cobertor macio aqui que esse será um berço bem passável.

3 comentários:

  1. Shippo Poliana e kaden 😍😍

    ~MIRELLE

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  2. tem um olho na minha lágrima, aaaaaaa ele não chega logoooo

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  3. Ahh não!! Não dá não shippo esse casal.. chega a ser pior que Lena e Jimmy em Supergirl ..

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Boa leitura, E SEM SPOILER!