16 de fevereiro de 2018

Capítulo 55

E então Morrighan conduziu os Remanescentes pela terra inóspita,
ouvindo os deuses para trilhar o caminho seguro.
E quando por fim chegaram a um lugar,
onde frutos pesados do tamanho de punhos
cerrados pendiam de árvores,
Morrighan prostrou-se de joelhos,
fazendo agradecimentos e proferindo memórias sagradas
por todos aqueles que foram perdidos ao longo do caminho,
e Aldrid caiu no chão ao lado dela.
Agradecendo aos deuses por Morrighan.
— Livro dos textos sagrados de Morrighan, vol. V —



Mais uma vez eu estava sozinha e congelando, e o fogo na galeria há muito havia se transformado em cinzas frias. Eu os ouvia me chamando lá fora: Jezelia. Uma história, Jezelia. O quarto ficou cor-de-rosa com o crepúsculo. Ele havia deixado as coisas bem claras.
Está na hora agora. Você dirá minhas palavras. Verá estas coisas.
Eu seria seu peão.
A sua cidade-exército nadava na minha visão, e então Civica, destruída, em cinzas, as ruínas da cidadela erguendo-se como presas quebradas no horizonte, grandes nuvens de fumaça obscurecendo o céu, minha própria mãe, uma poça no meio dos escombros, chorando, sozinha e arrancando os cabelos. Eu piscava repetidas vezes, tentando fazer com que as imagens desaparecessem.
Ela está vindo.
As palavras aninhavam-se, plenas e cálidas, sob as minhas costelas.
Ouvi as passadas de Aster. Elas tinham um peso que eu conhecia, um som que dançava com necessidade e esperança, som este tão antigo quanto as ruínas que me cercavam. Ela está vindo. Eles estão vindo. Mas agora havia mais passadas, urgentes. Passadas demais. Meu peito ficou apertado, e eu me sentei na lareira, olhando para o chão, tentando discernir de onde os sons estavam vindo. Do corredor? Dos passadiços do lado de fora? Parecia que me cercavam.
— Senhorita? O que você está fazendo aqui? O que aconteceu como fogo? Você vai morrer aqui dentro sem seu manto.
Ergui o olhar, e a galeria estava cheia. Aster estava ali parada, em pé, apenas a poucos metros de distância, mas, atrás dela, corriam centenas, milhares de pessoas, uma cidade de uma outra espécie espalhava-se. A galeria não tinha paredes, não tinha fim, era um horizonte infinito, com milhares aproximando-se, observando, esperando, gerações e, em pé no meio deles, apenas à distância de um braço atrás de Aster, estava Venda.
— Eles estão esperando por você, senhorita. Lá fora. Você não os ouviu?
Meus cabelos foram levantados dos meus ombros; o vento passava como uma brisa pela galeria, girando, fazendo cócegas no meu pescoço.
Siarrah.
Jezelia.
Suas vozes erguiam-se, cortando em meio ao vento as lamentações de mães, irmãs e filhas de gerações passadas, as mesmas vozes que ouvi no vale quando enterrei meu irmão, memórias que rasgavam o céu distante e a terra que sangrava. Preces não tecidas de sons, apenas de estrelas e poeira, e para sempre.
Sim, eu os ouço.
— Aster — falei em um sussurro — vire-se e me diga o que você está vendo.
            Ela fez o que pedi e então balançou a cabeça.
— Estou vendo um grande e poderoso chão que precisa de uma boa vassoura. — Ela curvou-se para baixo e apanhou um retalho de tecido vermelho deixado para trás pelas costureiras. — E este remanescente aqui.
Ela trouxe o retalho até mim, colocando os fios irregulares nas minhas mãos.
E então a galeria era apenas a galeria outra vez. As paredes, sólidas; as milhares de pessoas não estavam mais lá. Segurei o tecido em meu punho cerrado. Todos os modos pertencem ao mundo. O que é a magia senão o que ainda não entendemos?
— Você está bem, senhorita?
Levantei-me.
— Aster, você apanharia o manto para mim? O terraço da galeria vai me prover uma vista melhor da praça.
— Não aquela parede, senhorita.
— Por que não?
— Aquela é a parede... eles dizem... — Ela baixou a voz para o tom de um sussurro: — Eles dizem que foi daquela parede que caiu Lady Venda.
Aster olhou ao redor, como se estivesse esperando ver o espírito dela à espreita.
Essa revelação me fez hesitar, e empurrei e abri a porta que dava para o terraço. As dobradiças gritaram com seu próprio aviso. A parede além da porta era espessa e baixa, exatamente como qualquer outra no Sanctum.
— Eu não vou cair, Aster. Eu juro.
As contas no lenço de pescoço de Aster tiniam enquanto ela assentia, e então ela saiu correndo porta afora.

* * *

Envolvi confortavelmente meu manto em volta de mim enquanto me assentava na parede. O terraço da galeria era largo e se projetava para fora, por cima da praça. Primeiramente, disse as minhas memórias sagradas.

Para que não repitamos a História,
as fábulas serão passadas
de pai para filho, de mãe para filha,
assim como para todos os meus irmãos
e para todas as minhas irmãs em Venda,
pois, com apenas uma geração,
a história e a verdade são perdidas para sempre.
Ouçam as histórias dos fiéis,
Os sussurros do universo,
As verdades que cavalgam no vento

Cantei sobre atos de coragem e mágoas e esperança, vendo sem olhos, ouvindo sem ouvidos, os modos de confiança e uma linguagem de saber enterrados profundamente neles, um modo tão antigo quanto o próprio universo. Contei a eles sobre as coisas que duram, as coisas que permanecem e sobre um dragão que estava despertando.

  Pois devemos estar não apenas preparados
para o inimigo do lado de fora,
mas também para o inimigo de dentro.
E que assim seja,
irmãs do meu coração,
irmãos da minha alma,
família da minha carne,
para todo o sempre.

Um baixo. Para todo o sempre vindo da multidão ergueu-se de encontro a mim, e eles começaram a dispersar-se para a calidez de seus lares.
— E que os deuses possam manter os perversos longe de vocês — sussurrei para mim mesma.
Eu havia pegado o meu manto para descer da parede quando, de repente, a brisa se acalmou. O mundo ficou estranhamente silencioso, abafado, e os flocos brancos começaram a cair do céu, salpicando os parapeitos, as ruas e o meu colo, com uma chispa branca enquanto flutuavam para baixo em círculos preguiçosos, mágicos. Neve. Era uma pena macia, fresca, que roçava a minha bochecha, exatamente como minha tia Bernette a descrevera. Enquanto os flocos suaves caíam na minha mão estirada, uma dor pesada crescia no meu peito pelo meu lar. O inverno estava aqui. Eu sentia como se uma porta estivesse se fechando.

2 comentários:

  1. Winter is here.
    Sempre que a Aster aparece é o rosto da Arya que vem na minha mente

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    Respostas
    1. Cada vez mais acredito que ela é a versadeira rainga deles; que descende direto Venda.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!