2 de fevereiro de 2018

Capítulo 55

Observei Dihara durante quase uma hora da janela antes de pular sobre um Kaden adormecido e sair da carroça para me aproximar dela, que estava sentada em uma banqueta perto da fogueira no centro do acampamento, escovando seus longos cabelos prateados e trançando-os para trás. Em seguida, ela esfregou um bálsamo amarelo em seus cotovelos e nas juntas de seus dedos. Seus movimentos eram lentos e metódicos, como se tivesse feito isso todas as manhãs durante mil anos, que era quase o quão velha ela parecia, mas seus ombros não eram corcundas, e ela, com certeza, ainda parecia forte. Ontem ela havia carregado uma roca de fiar por todo o caminho do acampamento até o descampado. Um pequeno talho de grama estalava no canto de sua boca enquanto ela o mascava.
Uma coisa que percebi ao observá-la era que havia algo de diferente em relação a ela. Era o mesmo diferente que eu vira em Rafe e em Kaden logo que entraram na taverna. A mesma diferença que vi quando olhei para o Erudito. Algo que não podia bem ser escondido, fosse bom ou ruim. Algo que nos invadia de forma tão leve quanto uma pluma ou talvez ficasse preso em nosso estômago como se fosse uma pedra pesada, mas cuja presença percebíamos de qualquer maneira. Havia algo incomum o bastante em Dihara para que isso me levasse a pensar que ela poderia realmente saber mais sobre o dom.
Dihara ergueu os olhos na direção dos meus quando me aproximei.
— Obrigada pelo livro — falei. — Foi útil.
Ela pressionou os joelhos com as mãos e se levantou. Parecia que estava esperando por mim.
— Vamos até a campina. Vou ensinar a você o que sei.
Nós paramos no meio de um canteiro de trevos. Ela ergueu uma mecha dos meus cabelos, deixou-a cair, e então deu a volta em mim. Sentiu o cheiro no ar e balançou a cabeça.
— Você é fraca com o dom, mas também, teve muita prática em ignorá-lo.
— Você consegue perceber isso no ar?
Ela sorriu pela primeira vez, e uma bufada escapou por seus lábios enrugados em uma quase risada. Ela segurou minha mão.
— Vamos dar uma volta. — O campo se estirava pela extensão do vale, e nós circulamos por ele, sem nenhum destino específico. — Você é jovem, criança. Sinto que é bastante forte em outros dons – talvez naqueles que queira nutrir, mas isso não significa que seja tarde demais para que aprenda algo sobre este também. É bom ter muitas forças.
Conforme caminhávamos, ela apontou para as finas nuvens acima de nossas cabeças e sua marcha lenta sobre os topos das montanhas. Ela apontou para o gentil reluzir de longos salgueiros ao longo da margem do rio, e então me fez virar e olhar para nossas pegadas na grama do campo, já se desfazendo conforme a brisa as bagunçava como se fosse a mão de alguém passando por elas.
— Esse mundo, ele nos inspira, ele nos cheira, ele nos conhece, e depois nos exala de novo, nos partilha. Você não está contida aqui nesse único lugar somente. O vento, o tempo, ele circula, repete, ensina, revela, alguns golpes de ceifeira cortando mais a fundo do que outros. O universo sabe. O universo tem uma longa memória. É assim que o dom funciona. No entanto, há aqueles que são mais abertos a compartilharem as coisas do que outros.
— Como o mundo pode nos inspirar?
— Existem alguns mistérios que até mesmo o mundo não revela. Nós todos não precisamos de nossos segredos? Sabemos por que duas pessoas se apaixonam? Por que um pai haveria de sacrificar um filho ou uma filha? Por que uma mulher jovem fugiria no dia de seu casamento? — Eu parei, sugando um leve suspiro, mas ela me puxou para si. — As verdades do mundo desejam ser conhecidas, mas elas não se forçam sobre a gente como as mentiras fazem. Elas vão nos cortejar, sussurrar para nós, brincar por trás de nossas pálpebras, deslizar para dentro de nós e aquecer nosso sangue, dançar ao longo de nossas colunas e acariciar nossos pescoços até que a pele fique toda arrepiada.
Ela pegou minha mão e cerrou-a em punho, pressionando-a com força no meio da minha barriga, logo abaixo das costelas.
— E, às vezes, ela espreita bem aqui, pesada nas suas entranhas. — Ela soltou minha mão e voltou a caminhar. — Esta é a verdade desejando ser conhecida.
— Mas eu sou uma Primeira Filha e, segundo os Textos Sagrados...
— Você acha que o caminho da verdade se importa com seu nascimento ou com palavras escritas em papel? — ela me perguntou. Se Pauline estivesse aqui, ela estaria rezando uma prece como penitência pelo sacrilégio de Dihara, e o Erudito teria batido nos nós dos dedos da velha senhora por sequer pensar em tal coisa. O dom que ela descrevia não era aquele sobre o qual eu havia aprendido.
— O dom deveria simplesmente vir até nós, não é?
— Ler veio simplesmente do nada para você? Ou precisou devotar algum esforço em relação a isso? A semente do dom pode vir, mas uma muda que não é nutrida morre rapidamente. — Ela se virou, conduzindo-me para baixo, mais para perto do rio. — O dom é uma forma delicada de saber. É escutar sem usar os ouvidos, ver sem usar os olhos, perceber sem ter o conhecimento. Foi como os poucos Antigos que sobraram sobreviveram. Quando não tinham mais nada, eles tiveram que voltar à linguagem do saber enterrada profundamente neles. É um modo tão antigo quanto o próprio universo.
— E os deuses? Onde estavam em tudo isso? — perguntei a ela.
— Olhe a seu redor, menina. Que árvore da floresta eles não criaram? Eles estão onde você escolher por vê-los.
Fomos andando e descendo até o ponto em que o rio fazia uma curva abrupta de volta à montanha e nos sentamos em uma margem cheia de cascalhos. Ela me contou mais sobre o dom e sobre si mesma. Nem sempre fora uma nômade. Havia sido filha de um flecheiro no Reino Menor de Candora, mas as circunstâncias de sua vida mudaram quando seus pais e sua irmã mais velha morreram de febre. Em vez de ir morar com um tio de quem tinha medo, Dihara fugiu. Na época, ela era uma criança de sete anos de idade e se perdeu nas profundezas da floresta. Provavelmente teria sido comida por lobos, se uma família de nômades que estava de passagem não a tivesse encontrado.
— Eristle disse que me ouviu chorando, o que teria sido impossível de se ouvir da estrada. Ela me ouviu de outra maneira.
Dihara partiu com eles naquele dia e nunca mais voltou.
— Eristle me ajudou a aprender a ouvir, a me fechar para o ruído até mesmo quando os céus tremiam com o trovão, até mesmo quando meu coração tremia de medo, até mesmo quando os ruídos das coisas do dia a dia enchiam minha cabeça. Ela me ajudou a aprender a ficar em silêncio e ouvir o que o mundo queria compartilhar. Ela me ajudou a aprender a ficar imóvel e a saber. Deixe-me ver se consigo ajudar você.

* * *

Fiquei sentada, sozinha, no campo, com a grama na altura do ombro roçando em meus braços, e pratiquei o que Dihara havia me ensinado. Fechei meus pensamentos, tentando inspirar o que me cercava, a grama oscilante da campina, o ar, bloqueando os ruídos de Griz correndo atrás de seu cavalo, os gritos das crianças brincando, os uivos dos lobos. Logo, todas essas coisas foram sumindo com a brisa.
Quietude.
Minha respiração e meus pensamentos se acalmaram. Essa era apenas uma manhã de quietude. Uma manhã de ficar escutando. Dihara havia me dito que eu não poderia invocar o dom. Isso era exatamente o que era, um dom. No entanto, era necessário estar pronta, preparada. Era preciso prática para ouvir e confiar.
O dom não veio para mim de forma conhecida ou clara, e eu ainda tinha muitas perguntas, mas, ainda assim, hoje, quando me sentei na campina, parecia que as pontas dos meus dedos haviam tocado a cauda de um cometa. Minha pele formigava com a poeira das possibilidades.
Quando me levantei para voltar ao acampamento, o formigamento deu lugar a algo que parecia dedos frios e pungentes agarrando meu pescoço, e minhas passadas ficaram hesitantes. Algo que Dihara havia dito saíra de onde estava e tomara conta de mim. Você teve muita prática em ignorá-lo. Parei, com o peso pleno das palavras dela enfim se assentando.
Era verdade. Eu tinha ignorado o dom, mas não tinha feito isso sozinha.
Não há nada a saberdoce criança. É só o frio da noite.
Eu havia sido treinada para ignorar o dom.
Pela minha própria mãe.

3 comentários:

  1. Caramba o que mais essa mãe dela fez? Tipo que nem a tatuagem?
    To curiosa em ralação à isso.

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  2. Nossa, acredito que ela seja alem de uma primeira filha, talvez seja um romance entre sua mae e alguem de outro reino.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!