20 de fevereiro de 2018

Capítulo 54

Eu observei Kaden sair batendo os pés em direção ao moinho para ver como estavam os animais. Eu quase podia ver o vapor erguendo-se dos ombros dele.
É mentira! Eu não tinha parentes. Minha mãe era filha única. As pessoas que me receberam eram mendigos.
Eu vi a fúria estampada no rosto dele, mas também me lembrei do pesar genuíno nos olhos do Vice-Regente. Ele tinha apenas oito anos de idade, uma criança que estava sofrendo com o luto, que havia acabado de perder a mãe.
Se havia uma coisa que eu tinha aprendido era que o tempo era capaz de distorcer e retalhar a verdade como se fosse uma folha de papel esquecida e acabada ao vento. Agora eu tinha que juntar os pedaços rasgados novamente.
Eu disse a Natiya que tinha um outro trabalho para o sacerdote, e na primeira aliviada no tempo, ela precisaria ir até ele. Um registro de governantas treinadas era mantido nos arquivos. Em algum lugar lá, tinha que haver alguma informação a respeito de uma governanta chamada Cataryn.

* * *

Dieci mexia as orelhas com satisfação enquanto eu fazia cócegas entre elas. Dei igual afeto a Nove e me perguntava se eles também sentiam falta de Otto. O moinho estava seco, mas uma parede fora derrubada fazia um bom tempo, deixando o antigo prédio frio e com ventos muito fortes. Corujas dormiam empoleiradas nas vigas altas. Natiya sentou-se em um campo afastado, passando uma pedra de amolar por sua espada. Nós havíamos lutado para treinar essa manhã. Foi ela que me lembrou da necessidade de mantermos as habilidades aguçadas. Os hábitos que eu havia ensinado a ela ao cruzar o Cam Lanteux permaneciam profundamente arraigados.
Pauline ficara nos observando com o que eu achava que era um olhar duvidoso, e depois ela me questionou sobre o exército do Komizar.
— Eles vão destruir Morrighan — falei — e os traidores aqui vão ajudá-los com isso. Nós temos que estar preparados.
— Mas, Lia... — ela deu de ombros, a expressão cheia de ceticismo. — Isso é impossível. Nós somos os Remanescentes favorecidos. Os deuses ordenaram isso. Morrighan é grande demais para cair.
Olhei para ela, não sabendo ao certo o que dizer, não querendo abalar ainda mais o mundo dela, mas não tinha escolha.
— Não — falei. — Nós não somos grandes demais. Nenhum reino é grande demais para cair.
— Mas os Textos Sagrados dizem...
— Existem outras verdades, Pauline. Verdades que você precisa saber. — E contei a ela sobre Gaudrel, Venda e a menina Morrighan, que foi roubada de sua família e vendida a Aldrid, o abutre, por um saco de grãos. Contei a ela sobre as histórias das quais nunca antes tivemos conhecimento e sobre os ladrões e os abutres que foram fundamentos do nosso reino, e não um Remanescente escolhido. Os Guardiões Sagrados não eram nem um pouco sagrados. Dizer isso em voz alta a ela parecia cruel, como seu tivesse roubado um querido pedaço de cristal da mão dela e o tivesse esmagado sob os meus pés, mas isso precisava ser dito.
Pauline levantou-se, pasma, dando a volta na cabana, tentando absorver essas novidades. Eu via que ela estava verificando mentalmente os textos sagrados.
Ela se virou em giro.
— E como você sabe que as histórias que descobriu são verdadeiras?
— Eu não sei. E essa é a parte mais difícil. Mas eu sei que existem verdades que foram escondidas de nós, Pauline. Verdades que cada pessoa tem que encontrar nos nossos corações. A verdade é tão livre quanto o ar, e todos nós temos o direito de respirar tão a fundo quanto desejarmos. A verdade não pode ser contida na palma da mão de um único homem.
Ela desviou o olhar e fitou o palheiro onde as corujas dormiam empoleiradas. Com cada balançar da cabeça dela, eu sabia que ela estava tentando dispensar essas novas informações, pesando as minhas verdades em comparação com a única outra verdade que ela sempre conhecera: os Textos Sagrados Morrigheses.
Abutres.
Se isso fosse verdade, essa história nos privava da nossa posição privilegiada entre os reinos. Enquanto eu a observava, eu entendia com clareza por que o Erudito Real havia escondido a história de Gaudrel. Essa história minava quem nós éramos. O que eu não entendia era por que ele simplesmente não destruíra o livro. Alguém tinha tentado fazer isso uma vez.
Pauline respirou fundo e limpou as mãos na saia, alisando-a.
— Eu tenho que voltar para a cabana — disse ela. — Está na hora de dar de mamar ao bebê.

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