2 de fevereiro de 2018

Capítulo 54

Eu estava deitada de bruços na campina, virando com cuidado as páginas frágeis do antigo manuscrito. Tinha afastado Eben de mim, ameaçando a vida dele. Agora o menino se mantinha a uma distância segura, brincando com os lobos e banhando-os com algo que eu não sabia que ele tinha: afeto.
Ao que parecia, ele ficara encarregado da tarefa de me observar enquanto Kaden pagava seus respeitos ao Deus do Grão. Esse Deus deveria ser muito importante para que Kaden me confiasse a Eben, embora eu tivesse certeza de que Kaden sabia que eu não era nenhuma tola. Eu precisava recuperar um pouco da minha força antes de me separar deles. Esperaria a hora certa chegar.
Por enquanto.
Também senti a atração de alguma outra coisa.
Havia mais de que eu precisava aqui além de comida e descanso.
As palavras do antigo manuscrito eram um mistério para mim, embora eu pudesse adivinhar algumas, devido à sua frequência e às suas posições. Muitas das palavras pareciam ter as mesmas raízes que o morrighês, mas eu não sabia ao certo, porque várias das letras eram formadas de um jeito diferente. Uma simples chave teria ajudado, e muito — o tipo de chave que o Erudito tinha em abundância. Mostrei o livro a Reena e às outras, mas o idioma era tão estranho para elas quanto para mim. Um idioma antigo. Até mesmo na página, eu podia ver que era escrito de um jeito diferente de como as pessoas falavam. As palavras delas eram respiradas e suaves. Estas tinham uma cadência mais dura.
Fiquei maravilhada com a forma como as coisas podiam ser rapidamente perdidas, até mesmo as palavras de um idioma. Isso pode ter sido escrito por um de seus ancestrais, mas não era mais entendido pela Tribo de Gaudrel. Toquei nas letras, cuidadosamente escritas à mão com uma pena.
Esse livro foi feito para durar eras. O que o Erudito queria com ele? Por que o havia escondido? Tracejei as letras com os dedos mais uma vez.

Meil au ve avanda. Ve beouvoir. Ve anton.
Ais evasa levaire, Ama. Parai ve siviox.
Ei revead aida shameans. Aun spirad. Aun narrashen. Aun divesad etrevaun.
Ei útan petiar che oue, bamita.

Como eu algum dia aprenderia o que o livro queria dizer se o próprio povo de Gaudrel não sabia? A Tribo de Gaudrel. Por que eu nunca tinha ouvido falar desse livro antes? Para nós, eles eram apenas nômades, pessoas sem raízes ou história, mas estava claro que tinham uma história — e o Erudito queria que ela ficasse escondida. Fechei o livro e me levantei, limpando pedaços de grama da minha saia, observando o campo passar de verde a dourado enquanto uma última faixa de sol caía atrás de uma montanha.
Fui pressionada por um silêncio assombroso. Aqui.
Cerrei os olhos, sentindo um misto de dor e ânsia que me eram familiares. A amarga necessidade aumentava dentro de mim. Eu me sentia como se fosse uma criança de novo, fitando um céu negro e pontilhado de estrelas, com tudo que eu queria fora do meu alcance.
— Então você acha que tem o dom.
Eu me virei e dei de cara com a face profundamente marcada por linhas da velha Dihara. Pisquei, pega desprevenida.
— Quem disse isso?
Ela deu de ombros.
— As histórias... elas viajam. — Ela carregava uma roca de fiar e um saco de estopa pendurado em um dos ombros. Passou por mim, com a alta grama tremeluzindo aos seus passos, e carregou a roca até onde o campo se encontrava com o rio. Ela se virou para uma direção e depois para outra, como se estivesse tentando ouvir alguma coisa, e colocou a roca de fiar no chão, em uma clareira, onde a grama era menos alta. Ela deixou o saco cair de seu ombro no chão.
Aproximei-me devagar, mas ainda mantinha certa distância, não sabendo ao certo se minha presença seria bem-vinda. Mantive o olhar fixo em suas costas, notando que suas longas tranças prateadas quase tocavam o chão quando se sentava.
— Você pode chegar mais perto — disse ela. — A roca de fiar não vai morder você. Nem eu.
Para uma mulher idosa, ela tinha uma excelente audição.
Sentei-me no chão, a uns poucos passos de distância. Como ela sabia do meu suposto dom? Será que Finch ou Griz tinham falado de mim para ela?
— O que você sabe sobre o dom? — perguntei.
Ela soltou um grunhido.
— Que você sabe pouco sobre ele.
Ela não tinha conseguido aquela informação com Griz ou com Finch, visto que eles estavam completamente convencidos das minhas habilidades, mas eu não tinha como discutir com a conclusão dela. Soltei um suspiro.
— Não é culpa sua — disse a velha, enquanto empurrava o pedal da roca de fiar. — Aqueles que ficam enclausurados entre muralhas passam fome, assim como aconteceu com os Antigos.
— Enclausurados pelas muralhas? O que quer dizer com isso?
Ela parou com o pé no pedal e virou-se para olhar para mim.
— Seu povo. Vocês ficam cercados pelos ruídos que vocês mesmos fazem e cuidam apenas daquilo que conseguem ver, mas não é assim que o dom funciona.
Olhei para os olhos afundados dela, cujas íris azuis estavam tão esvanecidas que eram quase brancas.
— Você tem o dom? — perguntei a ela.
— Não fique surpresa. O dom não é mágico nem raro.
Dei de ombros, não querendo discutir com uma mulher idosa, mas sabendo, pelo que aprendi pelos ensinamentos de Morrighan e pela minha própria experiência, que não era bem assim. O dom era mágico, um presente dos deuses para os Remanescentes escolhidos e seus descendentes, o que incluía muitos nos Reinos Menores, mas não nômades desprovidos de raízes.
Ela ergueu uma sobrancelha, perscrutando-me. Levantou-se, afastando a roca de fiar, e voltou o rosto para o acampamento.
— Levante-se — ela ordenou. — Olhe para lá. O que está vendo?
Fiz conforme ela me instruía e vi Eben brincando de lutar com os lobos.
— Os lobos não agem com os outros da mesma forma que fazem com Eben — disse ela. — A necessidade dele é profunda, e há um entendimento entre eles. Eben o nutre até mesmo agora, fortalecendo-o, mas é um modo que não tem nome. É um modo de confiança. É misterioso, mas não é mágico.
Observei o menino, tentando entender o que ela estava dizendo.
— Há muitos modos que podem ser vistos ou ouvidos apenas com um tipo diferente de olhar ou ouvir. O dom, como vocês se referem a ele, é uma maneira similar à de Eben.
Ela voltou ao trabalho, como se sua explicação estivesse completa, embora ainda fosse um quebra-cabeças para mim. Ela puxou lã bruta, não preparada para o tear, de seu saco, e depois algo com fibras ainda mais longas e retas.
— O que você está tecendo? — perguntei.
— A lã das ovelhas, o pelo das lhamas, o linho dos campos. Os dons do mundo. Eles vêm em muitas cores e forças. Feche os olhos. Escute.
— Escutar a senhora tecendo?
Ela deu de ombros.
Aqui.
As últimas pontas de luz do sol haviam desaparecido, e o céu acima das montanhas tingia-se de púrpura. Cerrei os olhos e fiquei ouvindo o tecer dela, o girar da roca, o clique do pedal, o farfalhar da grama, o gorgolejo do riacho, o baixo zumbido do vento passando pelos pinheiros, e isso era tudo. Eu estava em paz, mas não em uma paz profunda, e fiquei impaciente. Abri os olhos.
— A senhora disse que as histórias viajam. Você espera que eu acredite que a minha história viajou até aqui, até o seu povo?
— Espero que você acredite no que quer acreditar. Sou apenas uma mulher velha que precisa voltar a tecer. — Ela cantarolava, virando a face em direção ao vento.
— Se você acredita nesses modos, assim como acredita que minha história que viajou até aqui seja verdadeira, então sabe que era verdade quando disse ter sido trazida até aqui contra minha vontade. A senhora não é vendana. Vai me ajudar a fugir deles?
Ela olhou por cima do ombro, de volta para o acampamento e para as crianças que brincavam em frente a uma carroça. As sombras do crepúsculo aprofundavam as linhas em sua face.
— Você está certa. Não sou vendana. Mas também não sou morrighesa. Você ia querer que eu interferisse nas guerras dos homens e trouxesse a morte dos jovens? — A mulher acenou em direção às crianças. — É assim que nós sobrevivemos. Não temos nenhum exército, e nossas poucas armas são apenas para a caça. Somos deixados em paz porque não ficamos do lado de ninguém, mas damos as boas-vindas a todos com comida, bebida e uma fogueira quentinha. Não posso dar o que você está me pedindo.
Eu estava grata pela comida e pelas roupas limpas, mas ainda tinha esperanças de conseguir mais. Precisava de mais. Eu não era simplesmente uma viajante em uma longa jornada. Eu era uma prisioneira. Puxei os ombros para trás e me virei para ir embora.
— Então os modos de vocês não são úteis para mim.
Já estava a vários metros de distância quando ela me chamou.
— Mas posso ajudar você de outras formas. Venha aqui amanhã, e lhe contarei mais sobre o dom. Prometo que vai achar útil.
Será que eu realmente tinha tempo para as histórias de uma velha? Eu tinha muitas de minhas próprias histórias de Morrighan. Nem mesmo sabia ao certo se estaria aqui amanhã. Até lá eu teria descansado e minha oportunidade de ir embora poderia surgir. Não pretendia ser arrastada para muito longe desse lugar desolado. Minha oportunidade viria com ou sem a ajuda dela.
— Vou tentar — eu disse e voltei andando em direção ao acampamento.
Ela me parou de novo, falando mais baixo.
— As outras, elas não podem lhe dizer o que seu livro diz porque não sabem ler. Ficaram com vergonha de dizer isso. — Ela apertou os olhos claros. — Até mesmo nós somos culpadas de não nutrirmos os dons, e os dons que não são alimentados encolhem e morrem.

* * *

Quando voltei para o acampamento, Eben ainda me observava, fiel em sua tarefa até mesmo enquanto estava lá, deitado com os lobos como se fosse um deles. Ouvi conversas e risadas ruidosas vindas da grande tenda no centro do acampamento. Os respeitos pareciam ter escalado e chegado a uma variedade jovial. Fui cumprimentada por Reena e Natiya.
— Você quer entrar na carvachi para descansar primeiro ou quer se juntar aos outros para comer? — perguntou Reena.
— Carvachi? O que quer dizer?
Natiya falou gorjeando, como se fosse um ávido passarinho:
— O homem loiro, o que chamam de Kaden, ele comprou a carvachi da Reena, para que você pudesse dormir em uma cama de verdade.
— Ele o quê?
Reena me explicou que Kaden havia apenas alugado a carvachi pelo tempo que eu passasse ali, enquanto ela dormiria na tenda ou em outra carvachi.
— Mas a minha é a melhor. Ela tem um colchão grosso. Você vai dormir bem lá.
Comecei a protestar, mas ela insistiu, dizendo que a moeda que ele havia lhe dado seria útil quando viajassem para o sul. Ela precisava mais da moeda do que de uma carvachi para si, e teria muito mais noites a passar sozinha pela frente.
Eu não sabia ao certo o que queria mais: uma boa refeição ou um colchão de verdade com um teto sobre a cabeça, longe dos roncos e dos ruídos corporais dos homens. Escolhi a refeição primeiro, lembrando-me de que minha força era importante.
Entramos em fila na tenda, junto com outras três mulheres que tinham acabado de trazer algumas bandejas com costelas do fogo. Meus acompanhantes vendanos sentaram-se em almofadas no meio, ao lado de cinco homens do acampamento. O banho demorado deles nas águas termais tinha limpado toda sua sujeira e trouxe cor de volta às suas peles. As bochechas de Griz brilhavam de tão rosas que estavam. Eles bebiam de cornos de carneiros e comiam com os dedos, embora eu já tivesse visto que havia talheres disponíveis. Pode-se oferecer civilização aos bárbaros, mas isso não quer dizer que eles farão uso dela.
Nenhum dos homens pareceu notar minha entrada, e então me dei conta de que eles não me reconheceram. De banho tomado, com um xale de contas na cabeça e com as roupas coloridas, eu não era a menina imunda que chegara no acampamento mais cedo. As mulheres colocaram duas bandejas na frente dos homens e levaram a terceira até um canto, onde havia uma pilha alta de almofadas, sentando-se lá juntas. Continuei em pé, observando meus captores, que banqueteavam-se e davam risada, jogando as cabeças para trás aos berros, como se estivessem na corte de um rei sem terem que se preocupar com nada no mundo. Isso me incomodava. Eu tinha algo com que me preocupar — uma pequena coisa chamada minha vida. Eu queria que eles se preocupassem com algo também.
Soltei um gemido e as risadas pararam. Cabeças viraram. Bati os cílios, como se estivesse tendo uma visão. Kaden me encarou, tentando recuperar o foco, e, por fim, percebeu quem eu era. Ele ficou ruborizado e inclinou a cabeça para o lado, como se para olhar uma segunda vez e decidir se era eu mesmo.
— O que foi? — quis saber Finch.
Revirei os olhos para cima e fiz uma careta.
— Osa azen te kivada — disse Griz para o homem que estava ao seu lado. O dom.
Malich não disse nada, mas passou os olhos pelas novas roupas que eu estava vestindo.
Kaden fez uma cara feia.
— O que foi agora? — ele me perguntou, com a paciência curta.
Esperei, segura de mim, até que todos se sentassem um pouco mais endireitados.
— Nada — falei, sem convencer ninguém, e fui sentar-me junto com as mulheres.
Senti como se estivesse de volta na taverna, usando um novo conjunto de habilidades para controlar clientes desordeiros. Gwyneth adoraria isso. Meu desempenho foi bom o bastante para diminuir a animação deles de modo considerável, pelo menos por um curto tempo, e isso me deixou animada.
Comi minha porção, lembrando-me de que cada bocada poderia ser aquela que haveria de me sustentar por mais um quilômetro no descampado assim que eu estivesse livre deles.
Tentei parecer engajada na conversa das mulheres, mas, assim que os homens recomeçaram a tagarelar, ouvi com atenção o que eles diziam. Eles continuavam a comer e beber — sobretudo beber —, e seus lábios foram ficando mais soltos.
— Ade ena ghastery?
— Jah! — disse Malich, acenando a cabeça na minha direção. — Osa ve verait andei achaya sah kest!
Todos riram, mas depois a conversa ficou mais baixa e reticente, com apenas algumas poucas palavras sussurradas alto o bastante para que eu pudesse ouvi-las.
— Ne ena hachetatot chadaros... Mias wei... Te ontia lo besadad.
Falavam sobre trilhas e patrulhas, e eu me inclinei na direção deles, esforçando-me para ouvir mais do que diziam.
Kaden me pegou ouvindo a conversa, fixou o olhar contemplativo em mim e disse, em um tom alto, aos outros:
— Osa’r e enand vopilito Gaudrella. Shias wei hal... le diamma camman ashea mika e kisav. — Os homens assoviaram, erguendo seus cornos para Kaden, e depois voltaram para suas conversas, mas os olhos deles continuaram focados em mim, sem pestanejar, esperando pela minha reação.
Meu coração parou de bater por um instante. Lutei para não apresentar reação alguma, para manter meu olhar fixo, inocente e indiferente e fingir que não sabia o que ele havia dito, mas por fim, tive que desviar o olhar, sentindo que meu rosto ficava quente e vermelho. Quando alguém acaba de anunciar que acha que você está linda vestida de nômade que quer te beijar, fica difícil fingir ignorância. Ele escolheu as palavras perfeitas em seu pequeno teste para confirmar suas suspeitas. Voltei a olhar para minha comida, tentando fazer sumir a cor das minhas bochechas. Terminei minha refeição sem olhar na direção dele e então perguntei a Reena se ela poderia me mostrar a carroça dela.
Conforme nos aproximávamos da carvachi no fim do acampamento, notei que Dihara se afastava. Nos degraus, havia um pequeno livro, um livro muito velho, e, com uma rápida olhada de relance, vi que era totalmente manuscrito.
Peguei-o e deixei que Reena me levasse e mostrasse sua colorida carroça. Parecia bem maior por dentro do que por fora. Reena me mostrou todas as conveniências que tinha ali, mas a maior atração era a cama nos fundos. Exuberante com as cores, os travesseiros, as cortinas e os adornos com franjas, parecia algo saído de um livro. Empurrei o colchão para baixo e minha mão desapareceu em meio a uma macia e mágica nuvem.
Reena abriu um largo sorriso. Ela estava contente com a minha reação.
Não consegui resistir e deslizei a mão pelas franjas douradas que pendiam dali, vendo-as se mexerem ao meu toque. Passei os olhos por todos os detalhes da cama, como se fosse uma ovelha faminta que fora solta em um pasto de trevos. Ela me deu uma camisola para vestir e saiu, oferecendo-me sua própria bênção enquanto descia os degraus, batendo no batente da porta com os nós dos dedos.
— Que os Deuses lhe concedam um coração calmo, olhos pesados e anjos guardando a sua porta.
Assim que ela foi embora, joguei-me no colchão, prometendo a mim mesma que nunca mais deixaria de dar o devido valor a uma cama macia e a um teto sobre minha cabeça. Eu estava para lá de exausta, mas ainda não queria dormir, preferindo, em vez disso, me jogar no luxo da carvachi. Fiquei olhando para as inúmeras quinquilharias que Reena tinha penduradas nas paredes, incluindo diversas das estranhas garrafas cheias de fitas dos Antigos, um dos poucos artefatos que ainda eram encontrados em abundância.
Eu pensava em todas as terras pelas quais esse pequeno bando de nômades havia viajado, muito mais lugares do que eu poderia imaginar, embora parecesse que eu tinha visto metade do continente até agora. Pensei em meu pai, que nunca saía de Civica. Ele nem mesmo visitava metade do próprio Reino de Morrighan, muito menos os vastos territórios além dele. É claro, ele tinha seus Olhos do Reino para trazer o mundo até ele. Espiões. Eles estão por toda parte, Lia.
Não por aqui. Uma coisa boa em relação a estar nesse inóspito fim de mundo era que pelo menos eu estava longe das garras do Chanceler e do Erudito. Era improvável que um caçador de recompensas algum dia me encontrasse aqui.
Mas Rafe também não me encontraria.
Ocorreu-me com força renovada que eu nunca o veria de novo. Os bons não fogem, Lia. Ele não havia exatamente fugido, mas parecia que estava preparado para seguir com sua vida. Não precisei de muita coisa para convencê-lo de que eu precisava ir. Eu já refletira sobre a reação dele por muito tempo. Estava entorpecida e sofrendo demais na época para absorver tudo, mas tive muito tempo para pensar nisso desde então. Reflexão, minha mãe costumava dizer quando nos mandava para nossos quartos por alguma infração descoberta. Minhas reflexões diziam-me que ele também estava sofrendo. Deixe-me pensar. Mas então, com a mesma rapidez ele disse: Vou me encontrar com você para um último adeus. O pesar dele durou pouco. O meu, não.
Tentei não pensar em Rafe após deixar Terravin, mas não podia controlar meus sonhos. No meio da noite, sentia os lábios dele roçando nos meus, seus braços fortes em volta de mim, seus sussurros ao meu ouvido, nossos corpos pressionados um no outro, próximos um do outro, os olhos dele fitando os meus como se eu fosse tudo o que mais importasse no mundo para ele.
Balancei a cabeça e me sentei direito. Como dissera Kaden, não é bom viver no talvez. O talvez pode ser distorcido e transformado em coisas que nunca existiram de verdade. Para Rafe, eu provavelmente já era uma memória distante.
Eu tinha que me concentrar no presente, que era real e verdadeiro.
Apanhei a fina e macia camisola que Reena havia me emprestado e coloquei-a. Uma camisola era outro luxo cujo valor eu nunca mais deixaria de notar.
Folheei o livro que Dihara havia deixado para mim e me aninhei na cama com ele. Parecia ser um manual infantil, em gaudriano, para ensinar diversos idiomas dos reinos, incluindo o morrighês e o vendano. Comparei-o com o livro que eu tinha roubado do Erudito. Os idiomas não eram exatamente os mesmos, como eu havia suspeitado. Ve Feray Daclara au Gaudrel era centenas, talvez até mesmo milhares de anos mais velho, mas o livro de instruções revelou o que eram algumas das estranhas letras, e havia similaridades suficientes nos idiomas de modo que eu pudesse traduzir algumas palavras com confiança. Eu deslizava meus dedos com gentileza pela página enquanto lia, sentindo os séculos nela contidos.

Fim da jornada. A promessa. A esperança.
Conte-me de novo, Ama. Sobre a luz.
Busco em minhas memórias. Um sonho. Uma história. Uma lembrança indistinta.
Eu era menor do que você, criança.
O limite entre verdade e sobrevivência se fortalece. A necessidade. A esperança. Minha própria avó contando-me histórias, porque não havia mais nada além disso. Olho para esta criança, fraca, de estômago sempre vazio, mesmo em seus sonhos. Esperançosa. À espera. Puxo seus finos braços e coloco seu corpo leve como uma pluma em meu colo.
Era uma vez, minha criança, uma princesa que não era maior do que você. Ela tinha o mundo ao alcance de seus dedos. Ela ordenava, e a luz obedecia. O sol, a lua e as estrelas ajoelhavam-se e erguiam-se ao seu toque. Era uma vez...
Foi-se. Agora há apenas esta criança de olhos dourados em meus braços. E é o que importa. Assim como o fim da jornada. A promessa. A esperança.
Venha, minha criança. Está na hora de partir.
Antes que venham os abutres.
As coisas que duram. As coisas que permanecem. As coisas que não me atrevo a dizer a ela.
Contarei mais a você enquanto caminhamos. Sobre outrora. Era uma vez...

Parecia mais um diário ou uma fábula para ser compartilhado em volta de uma fogueira de acampamento — uma história floreada de uma princesa que comandava a luz? Mas também era uma história triste, sobre a fome. Seriam Gaudrel e esta criança residentes temporários? Os primeiros nômades? E quem ou o que seriam os abutres? Por que o Erudito teria medo de um contador de histórias? A menos que Gaudrel contasse mais do que histórias a essa criança.
Talvez isso fosse o que o restante do livro revelaria.
Por mais que eu quisesse continuar estudando as palavras que me deixavam perplexa, meus olhos estavam se fechando contra minha vontade. Coloquei os livros de lado e já estava me levantando para apagar o lampião quando ouvi alguém tropeçar nos degraus lá fora. Logo depois, Kaden irrompeu com tudo porta adentro. Ele tropeçou e segurou-se na parede para recuperar o equilíbrio.
— O que você está fazendo? — exigi saber.
— Certificando-me de que você está confortável. — Ele balançava a cabeça para cima e para baixo enquanto falava, e suas palavras saíam lentas e arrastadas.
Fui para a frente, de modo a empurrá-lo para fora, o que parecia uma tarefa simples, mas ele bateu a porta com tudo, fechando-a, e me empurrou contra ela. Ele se inclinou junto à porta, prendendo-me entre seus braços, e olhou para mim, com as pupilas grandes, os olhos tentando achar o foco.
— Você está bêbado — eu disse.
Ele piscou.
— Talvez.
— Não tem nada de talvez em relação a isso.
Ele abriu um largo sorriso.
— É a tradição. Eu não posso insultar meus anfitriões. Você entende bem de tradição, não é, Lia?
— Você sempre fica bêbado assim que nem um gambá quando vem até aqui?
Seu largo e desleixado sorriso se foi, e ele se inclinou mais para perto de mim.
— Não sempre. Nunca.
— Qual é o problema? Está se sentindo culpado dessa vez e tem esperanças de que o Deus do Grão possa absolvê-lo?
Ele franziu o rosto.
— Não me sinto culpado em relação a nada. Sou um soldado, e você é... uma... uma... você é um deles. Membro da realeza. São todos iguais.
— E você conhece muitos membros da realeza.
Um rosnado avançou pelo lábio dele.
— Você e suas visões. Você acha que não sei o que está fazendo?
Eu estava fazendo exatamente o que ele faria se estivesse no meu lugar: tentando sobreviver. Ele esperava que fosse me arrastar pelos continentes e eu fosse segui-lo educadamente?
Sorri.
— Eles não sabem o que estou fazendo. Isso é tudo que importa. E você não vai contar a eles.
Ele aproximou seu rosto do meu.
— Não tenha tanta certeza disso. Você... eu sou um deles. Eu sou vendano. Não se esqueça disso.
Como poderia esquecer? Mas parecia inútil discutir com ele. Kaden mal conseguia falar sem tropeçar em suas palavras, e sua face estava chegando perto demais da minha.
— Kaden, você precisa...
— Você é espertinha demais para o seu próprio bem, sabia? Você entendeu o que eu disse lá. Sabe tudo o que nós dizemos...
— A baboseira bárbara de vocês? Como eu ia saber? Eu nem mesmo me importo com isso. Saia daqui, Kaden! — Tentei afastá-lo, mas ele caiu sobre mim, com a face enterrada em meus cabelos, todos os músculos de seu corpo fazendo pressão no meu. Eu não conseguia respirar.
— Eu ouvi vocês — ele sussurrou ao meu ouvido. — Naquela noite. Eu ouvi você dizendo a Pauline que me achava atraente.
Ele esticou a mão e levou-a aos meus cabelos. Pegou as mechas e apertou-as, e depois sussurrou ao pé do meu ouvido as mesmas palavras que havia dito lá na tenda... e mais ainda. Minhas têmporas latejavam. A respiração dele estava quente em minha bochecha enquanto ele falava, e seus lábios roçavam o meu pescoço, demorando-se.
Ele se reclinou e prendi o fôlego.
— Você não é... — Ele oscilou, e seus olhos estavam perdendo o foco. — Para o seu próprio bem também... — Ele se debruçou para um dos lados, segurando-se à parede. — Agora eu tenho que dormir no... de tocaia — disse ele, empurrando-me para o lado. — Vou dormir ali, bem em frente à sua carroça. Porque eu não confio em você. Lia. Você é muito... — Ele baixou as pálpebras. — E agora, o Malich...
Ele caiu de costas para a porta, de olhos fechados, e foi deslizando até o chão, ainda sentando-se direito. Tudo que eu tinha que fazer era abrir a porta, e ele cairia para trás aos tropeços, mas, com a minha sorte, ele quebraria o pescoço descendo os degraus, e eu teria que lidar sozinha com Malich.
Observei-o desmaiado, com a cabeça pendendo para o lado. Ele seria de alguma proteção contra Malich, porém, todos estavam provavelmente tão estupidamente bêbados quanto ele a essa altura.
Puxei a cortina de renda para o lado e abri a janela que estava fechada com persianas. Agora poderia ser um momento oportuno para sair correndo, se todos estivessem daquele jeito, mas vi Malich, Griz e Finch lá adiante, perto dos cavalos. Eles ainda pareciam bem o bastante de pé. Talvez Kaden estivesse falando a verdade e não fosse acostumado a beber tanto assim. Na taverna, ele sempre fora cuidadoso e mantinha a compostura, nunca bebendo mais do que duas cidras. Eu poderia beber aquele tanto sem sentir nada. O que fizera com que ele bebesse tanto assim esta noite?
Fechei a persiana e voltei a olhar para Kaden, cuja boca pendia aberta.
Sorri, pensando em como estaria a cabeça dele pela manhã. Apanhei um travesseiro da cama de Reena e joguei-o no chão ao lado dele, e depois empurrei seu ombro por cima. Ele se ajustou no travesseiro, sem se agitar em nenhum momento.
Era verdade. Eu tinha dito a Pauline que o achava atraente. Ele tinha um corpo bonito, era musculoso, e como Gwyneth ressaltara mais de uma vez, bem agradável aos olhos. Eu também tinha dito a ela que achava o comportamento de Kaden cativante, grave e pacificador ao mesmo tempo. Ele havia me deixado intrigada, mas eu e Pauline estávamos dentro da cabana enquanto falávamos dele. Será que estivera nos espionando? Ouvindo à janela? Ele é um assassino, recordei.
O que mais eu poderia esperar de alguém como ele? Tentei me lembrar das outras coisas sobre as quais eu e Pauline tínhamos conversado. Meus deuses, o que será que ele ouviu além disso?
Soltei um suspiro. Não podia me preocupar com aquilo agora.
Fui rastejando para o denso colchão e puxei uma das colchas coloridas de Reena sobre mim. Virei-me de lado, olhando para Kaden, perguntando-me por que ele odiava tanto assim os membros da realeza. Estava claro que ele não me odiava, e sim a ideia de quem eu era, assim como eu odiava a ideia de quem ele era: isso fazia com que eu pensasse em como as coisas poderiam ter sido se nós dois tivéssemos nascido em Terravin.

9 comentários:

  1. KALIA MEUS AMIGOS, SÓ DIGO ISTO. (ops virei a noite)

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  2. Liafe ou kalia? Parece que o jogo virou n e mesmo? Até depois de descobrir q ele é assassino ela ainda fica meio mexida por ele kkkkkkk... Esse livro é só p me matar do coracao

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  3. Eu não posso shippar! Não vou!
    Rafe está chegando, Liaaaa!!

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  4. Não consigo gostar dele, no máximo uma leve simpatia por ele não machuca-la

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  5. Nada a ver, Lia e Rafe, melhor casal!!!!

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  6. Eu shippo ela com o Rafe...
    Mas não tem como não se apaixonar pelo Kaden.😣

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