20 de fevereiro de 2018

Capítulo 53

Era quase como se fosse uma taverna cheia, com tanta gente apinhada em um único lugar.
Tentei imaginar que ali fosse Terravin.
Só que não tinha cerveja. Nem cozido. Nem risadas. Mas tinha um bebê.
Um bebê bonito e perfeito. Berdi estava sentada em uma ponta da cama, cantando para ele enquanto Pauline dormia. Eu, Gwyneth e Natiya estávamos sentadas à mesa, e Kaden estava adormecido no chão, na frente da lareira. Ele estava sem camisa, com uma bandagem recém-feita no ombro, e repousando a cabeça em um cobertor dobrado que Natiya havia trazido.
A chuva caía implacavelmente. Tivemos sorte de o telhado aguentar a chuva. Um balde recebia a água de uma única goteira no canto.
Quando tentei rastrear e descobrir onde ficava o quarto ao qual Pauline havia me instruído a ir no vilarejo, eu o encontrei vazio e saqueado, com as janelas escancaradas apesar da chuva. Elas fugiram, pensei, por uma janela. Isso era um sinal muito ruim. O dono da estalagem clamava que não vira nada e que não sabia onde elas teriam ido, mas ouvi o terror na voz dele, e então vi a temerosa curiosidade enquanto ele espiava pelas sombras do meu capuz. Na minha pressa, eu havia deixado o lenço de luto para trás.
Puxei o capuz mais para baixo por cima da face e fui correndo até a propriedade da abadia. Instruí Natiya a ir até a cabana com os nossos cavalos e suprimentos enquanto eu procurava Berdi e Gwyneth. Fiz uma busca nas ruas e espiei em janelas de tavernas, na esperança de avistar um vislumbre delas em algum lugar, mas então o terror do dono da estalagem passou pela minha cabeça de novo. Ele estava com tanto medo de mim quanto de quem quer que fosse que tinha saqueado o quarto, e estava ansioso para que eu fosse embora. Voltei correndo para a estalagem. Berdi e Gwyneth nunca teriam ido embora sem Pauline. Encontrei-as escondidas na cozinha.
Foi uma reunião lacrimosa, mas apressada. Gwyneth disse que ela havia visto o Chanceler e soldados do lado de fora da sua janela e que ouvira demandas enérgicas deles ao dono da estalagem para que fossem conduzidos até o quarto de Pauline. Elas ficaram pasmas com a forma como o Chanceler ficara sabendo que Pauline estava lá, e confirmaram que o dono da estalagem era digno de confiança. Ele havia enrolado enquanto pôde, dando a ela e Berdi uma oportunidade de fugirem. Quando contei a elas sobre o estado de Pauline, o dono da estalagem nos mandou voltar com comida e suprimentos, que foram empacotados e colocados em Nove e Dieci.
Natiya havia conseguido encontrar a cabana, mas disse que Kaden já havia feito o parto do bebê na hora em que ela lá chegou e que o tinha envolvido na sua camisa. Ela havia feito uma bandagem no corte que ele tinha no ombro, que eu sabia que fora infligido por Pauline, mas ela também resolveu cuidar de um talho que ele tinha nuca. Ele dissera a Natiya que tinha recebido um golpe pesado de bule de ferro. Eu me perguntava de quem. Era por isso que ele não havia aparecido no nosso ponto de encontro, e talvez também explicasse o sono pesado dele agora. Kaden não se mexeu em momento algum quando entramos na cabana.
Fiquei observando as respirações regulares dele. Era estranho, mas eu não sabia ao certo se tinha visto Kaden dormir antes. Sempre que eu estava acordada, ele estava acordado. Até mesmo naquela única noite chuvosa meses atrás, quando nós dormimos em uma ruína e os olhos dele estavam fechados, eu sabia que uma parte dele ainda me observava. Mas não nesta noite. Esse era um sono profundo que me preocupava. Que o fazia parecer mais vulnerável. Eu nem mesmo tinha tido um instante para expressar o meu alívio quando ele entrara na cabana pela manhã, mas agora eu o fitava, com a emoção me enchendo. Beijei dois dedos e ergui-os aos deuses. Obrigada. Ele estava machucado, mas estava vivo.
— Eu acho que eu ainda tenho umas poucas folhas de thannis na minha bolsa, Natiya. Você pode colocá-las em infusão e preparar um cataplasma para a cabeça dele?
— Thannis? — disse Berdi.
— É uma erva com um gosto horrendo que tem alguns usos úteis além de ser bebida. Só cresce em Venda. É boa para o coração, para a alma e para estômagos ruidosos quando a comida está escassa... exceto quando produz sementes, quando ela passa de púrpura a dourada. Então, ela se transforma em veneno. É a única coisa que eles têm em abundância em Venda.
A mera menção da erva fez com que um anseio inesperado crescesse em mim. Memórias que eu enterrara soltavam-se aos tropeços. Pensei em todas as xícaras de thannis que me foram oferecidas: presentes humildes de um povo humilde.
Gwyneth inclinou a cabeça para Kaden, que estava dormindo perto da fogueira, e franziu o rosto.
— Então... como foi que... — ela fez um floreio com a mão no ar — isso tudo aconteceu? Como que é que alguém passa de Assassino a seu cúmplice?
— Não sei bem se cúmplice é a palavra certa — falei, partindo vagens e colocando-as em uma panela. — É uma longa história. Depois de comermos. — Olhei para Berdi por cima do ombro. — O que me faz lembrar que prometi a Enzo que eu diria a você que ele ainda não queimou cozidos nem colocou a estalagem abaixo. Os hóspedes estão alimentados e a louça, limpa.
Berdi ergueu as duas sobrancelhas.
— Cozido?
Assenti.
— Sim, até mesmo cozido. E não estava tão ruim assim.
Gwyneth revirou os olhos com uma surpresa genuína.
— Os deuses ainda fazem milagres.
— Ninguém ficou mais surpresa do que eu quando o vi na cozinha usando um avental e limpando um peixe — falei.
Berdi soltou uma bufada, e seu rosto reluzia com orgulho.
— Estou impressionada. Eu disse a ele que ele precisava progredir. Ele poderia ter seguido um rumo ou outro, mas eu não tinha escolha. Precisei me arriscar e confiar nele.
— E quanto àquele fazendeiro? — Gwyneth perguntou. — O que foi que aconteceu com ele? Ele nunca mais voltou à estalagem conforme prometeu. Ele está morto?
Aquele fazendeiro. Eu ouvia a suspeita na forma como ela o descrevera. Tanto Berdi quanto Natiya olharam para mim, esperando por uma resposta. Endureci a minha expressão, acrescentando uma posta de porco salgado à panela antes de tampá-la e colocá-la no fogo. Sentei-me à mesa de novo.
— Ele voltou ao reino dele. Presumo que esteja bem. — Eu esperava que sim. Pensei no general que o desafiara em Dalbreck. Eu não conseguia imaginar Rafe não sendo bem-sucedido, mas me lembrava da gravidade da expressão dele, das linhas que ficavam entalhadas perto dos seus olhos todas as vezes em que um dos oficiais trazia esse assunto à tona. Não havia garantias em tais coisas.
— Dalbreck. É de lá que ele é — interpôs-se Natiya. — E ele não é nenhum fazendeiro. Ele é o rei. Ele ordenou que Lia...
— Natiya — falei, e suspirei. — Por favor, eu explico.
E expliquei, da melhor forma que achei possível. Passei por cima dos detalhes, enfatizando os eventos principais em Venda e o que eu ficara sabendo lá. Havia algumas coisas que não queria reviver, mas era difícil não falar sobre Aster. Ela ainda era um machucado profundo dentro de mim, púrpura, inchado e doloroso ao toque. Eu tive que parar e recompor os pensamentos quando cheguei ao papel dela nisso.
— Muitas pessoas morreram naquele último dia — falei, simplesmente. — Exceto a única pessoa que merecia morrer.
Quando terminei, Gwyneth reclinou-se na sua cadeira e balançou a cabeça.
— Jezelia — disse ela, ponderando sobre a Canção de Venda. — Eu sabia que aquela garra e aquela vinha estavam lá para ficar. Nenhuma escova de cozinha seria capaz de tirá-la das suas costas.
Berdi pigarreou.
— Escova de cozinha?
Gwyneth levantou-se, como se finalmente entendesse as ramificações.
— Doce misericórdia, estamos totalmente envolvidas nisso agora! — falou ela, andando em círculos pelo aposento. — Da primeira vez em que pus os olhos em você, princesa, sabia que traria problemas.
Balancei a cabeça, como que pedindo desculpas.
— Eu sinto muito...
Ela se aproximou de mim e deu um apertãozinho no meu ombro.
— Eu não disse que era do tipo de encrenca que eu não gosto.
Fiquei com a garganta inchada.
Berdi levantou-se, com o bebê ainda aninhado em um dos braços, veio andando até mim e beijou o topo da minha cabeça.
— Ai, meus deuses! Vamos resolver isso. De alguma forma.
Eu me reclinei na lateral do corpo de Berdi e fechei os olhos. Tudo dentro de mim parecia um rompante de lágrimas, enjoativo e febril, mas, por fora, eu estava seca e entorpecida.
— Tudo bem, chega disso — disse Gwyneth, e sentou-se em frente a mim. Berdi sentou-se na cadeira que sobrou. — Este é um jogo totalmente diferente agora. Os Olhos do Reino parecem estar voltados para mais do que a ordem. Qual é o seu plano?
— Você está presumindo que eu tenha um.
Ela franziu o rosto.
— Você tem um plano.
Eu nunca o havia falado em voz alta. Era perigoso, mas era a única maneira como eu poderia garantir que a minha voz seria ouvida por toda a corte e por aqueles que ainda eram leais a Morrighan... mesmo que fosse por apenas uns poucos minutos.
— Uma coisa que já fiz antes, mas que não foi bem-sucedida. Um golpe de estado — falei. Expliquei que havia conduzido uma rebelião junto com os meus irmãos dentro do Saguão de Aldrid quando eu tinha catorze anos de idade. Aquilo não tinha acabado bem. — Mas eu estava armada somente com a minha indignação moral e com reclamações. Dessa vez, pretendo ir com dois pelotões de soldados e evidências.
Berdi engasgou-se com o chá.
— Soldados armados?
— Meus irmãos — respondi. — Eu sei que, quando eles voltarem, eles e seus pelotões irão me apoiar.
— Dois pelotões contra todo o exército morrighês? — questionou-me Berdi. — A cidadela seria cercada em poucos minutos.
— Motivo pelo qual preciso de evidências. O saguão é defensável por um curto período de tempo com o gabinete mantido como refém. Tudo de que preciso são uns poucos minutos, se eu conseguir expor ao menos um dos traidores com evidências. Então o conclave poderia dar ouvidos a tudo o que eu tenho a dizer.
Gwyneth deu uma bufada.
— Ou você receberia uma flechada no peito antes de ter uma chance de dizer qualquer coisa.
Era bem sabido que, durante as sessões do conclave, guardas totalmente vestidos com trajes de gala, armados com arcos e flechas, ficavam postados em duas torres da galeria que davam para o Saguão de Aldrid. Eles nunca haviam disparado uma flecha que fosse. Aquele era o protocolo, uma outra tradição mantida desde tempos primevos, quando lordes do outro lado de Morrighan se reuniam, mas as flechas dos guardas eram de verdade, e eu presumia que eles sabiam como atirá-las. Da última vez em que eu havia entrado tempestivamente, eu sabia que eles não atirariam na filha do rei. Dessa vez, eu não tinha essa garantia.
— Sim, é possível que eu receba uma flechada — concordei. — Não consigo pensar em tudo de uma vez. Nesse momento, preciso encontrar evidências. Eu sei que o Chanceler e o Erudito Real estão envolvidos, mas quando fiz uma busca nos escritórios deles, não encontrei nada. Os lugares estão tão limpos que nem mesmo uma partícula de poeira se atrevia a pairar no ar. Também há...
Parei de falar. Minha mãe. Essas duas pequenas palavras que eu não conseguia forçar a saírem. Não. Não ela. Havia uma muralha dentro de mim, impossível de ser escalada até mesmo depois do que eu testemunhara. Eu não conseguia dizer o nome dela junto com os nomes dos outros traidores de uma só vez. Ela nunca teria colocado Walther em risco. Ela o amava demais para fazer uma coisa dessas. Algumas coisas eram verdadeiras e reais. Tinham que ser. Cerrei os olhos, procurando o céu cheio de estrelas e o telhado para longe do qual ela havia me levado. Não há nada a saber, doce criança. É só o frio da noite.
Eu mesma a tinha visto com o Erudito Real, e sabia que ele estava atolado nisso tudo. Seus eruditos prediletos trabalhavam nas cavernas no Sanctum. Berdi e Gwyneth esticaram as mãos na mesa e apertaram as minhas, e abri os olhos.
— Posso ficar um pouco com ele?
Ergui o olhar. Pauline estava acordada. Fui até o lado da cama dela e sentei-me na beirada, e todas nós nos alternamos, beijando-a e dando-lhe os parabéns antes que Berdi aninhasse o bebê nos braços dela.
Gwyneth ajudou Pauline a segurar o bebê e alimentá-lo no seu seio, e depois recuou e ficou ali, parada, em pé, com as mãos nos quadris.
— Olha isso, ele toma leite como um campeão.
— Já tem um nome para ele? — perguntou-lhe Berdi.
Uma breve nuvem passou pelos olhos de Pauline.
— Não.
— Você tem muito tempo para pensar nisso — disse Berdi. — Verei se temos alguma coisa melhor do que essa velha camisa rasgada para envolvê-lo.
— Talvez um daqueles suéteres de duas cabeças que você tricotou? — disse Gwyneth, piscando, e ela e Berdi foram até o canto oposto do quarto e começaram a desempacotar a bolsa que haviam trazido.
Estiquei a mão e toquei em um minúsculo dedo do pé cor de rosa do menino, que estava aparecendo, saindo da camisa de Kaden, o que lhe servia como cueiro.
— Ele é bonito — falei. — Como está se sentindo?
— Bem o bastante — ela respondeu, revirando os olhos — considerando que acabei de exibir as minhas partes íntimas para um bárbaro assassino. — Ela soltou um suspiro. — Mas imagino que, em comparação com aquilo pelo que você passou, essa seja uma indignidade pequena a suportar.
Sorri para o bebê.
— E olhe para o prêmio. Valeu a pena, não foi?
Ela olhou radiante para o filho, passando com gentileza o dedo pela bochecha dele.
— Sim — disse ela. — Eu ainda não consigo acreditar muito bem nisso. — Ela olhou para Kaden, e o sorriso desapareceu. — O que foi que aconteceu com ele? — disse ela em um sussurro. — As cicatrizes?
Kaden estava deitado de lado, curvado, com as costas voltadas para nós. Eu havia me acostumado com as cicatrizes dele, mas tinha certeza de que elas deveriam ser chocantes para as outras pessoas.
— Traição — respondi.
E contei a ela sobre quem ele fora e o que havia suportado.

* * *

Quando Kaden acordou, ele se levantou, desajeitado, roçando a mão pelo peito desnudo, e disse olá para Berdi e Gwyneth.
Berdi franziu o rosto, com as mãos nos quadris.
— Bem, você é cheio de surpresas, não é, mercador de peles?
— Imagino que sim — ele respondeu, com um leve rubor tingindo as têmporas.
Gwyneth soltou uma bufada.
— Uma das quais é fazer partos.
Kaden se virou, olhando para Pauline.
— Como ele está?
— Bem — Pauline respondeu, baixinho.
Ele foi andando até ela, com um sorriso puxando o canto da sua boca, e gentilmente cutucou o cobertor para o lado, de modo que pudesse ver a face do bebê. Pauline reclinou-se, erguendo o bebê de forma protetora junto ao seu peito. Kaden notou que ela havia recuado, e o seu sorriso desapareceu. Ele se afastou dela, em um pequeno movimento que ardia com desapontamento, e meu coração doía por ele. Mas eu também entendia Pauline. Depois de tudo pelo que ela passara, a confiança era algo tão escorregadio quanto a esperança.
— Alguma outra coisa com que você planeja nos surpreender? — perguntou-lhe Berdi.
Kaden olhou para mim.
— Lia, preciso falar com você em particular.
— Espere um pouco, soldado — interpôs-se Gwyneth. — Qualquer coisa que você tiver que dizer a ela, pode dizer a todas nós.
Assenti. Em algum momento, nós tínhamos que começar a confiar uns nos outros.
Ele deu de ombros.
— Como quiserem. Eu tenho o nome de outro dos seus traidores. Meu pai não é mais lorde do condado de Düerr. Ele assume uma posição no gabinete do rei.
Pauline inspirou a fundo e com pungência. Kaden não tinha que dizer um nome. Ficou imediatamente aparente para ela, muito como o havia sido para mim. Não havia outra pessoa no gabinete cujos cabelos eram de um loiro-branco como os de Kaden, nem com seus cálidos olhos castanhos. Até mesmo o som da sua voz, firme e calmo, era o mesmo. Tudo que deveria ter sido óbvio escapara a nós, e eu me dei conta de que havia suposições que fazíamos sobre as pessoas e, uma vez que fazíamos isso, o que supúnhamos era tudo que conseguíamos ver: Kaden era um bárbaro assassino, o Vice-Regente era um respeitado lorde que descendia dos Guardiões Sagrados e com certeza um não poderia ter nada em comum com o outro.
Berdi e Gwyneth não conheciam o Vice-Regente e permaneceram em silêncio, mas Kaden olhou de relance para mim e para Pauline, perguntando-se qual seria a relação dela.
— Lorde Roché — disse ele ainda, para confirmar a afirmação.
Por um instante, planejei mentir para ele, dizer que não havia qualquer lorde Roché no gabinete, temendo que ele fosse sair em um rompante tempestuoso e ser atingido na cabeça de novo, mas ele já estava lendo os meus olhos.
— Não minta para mim, Lia.
Eu me preparei, sabendo que ele não receberia bem aquilo.
— Eu sei quem ele é. Encontrei-me com ele há dois dias. Ele é um membro do gabinete, como você disse. Ele pode ter sido um pai terrível, Kaden, mas não há provas de que seja um traidor.

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