16 de fevereiro de 2018

Capítulo 53

Aconteceu quando tirei minhas botas. O pesado som dos calcanhares batendo no chão. O sussurro. A memória. O calafrio conhecido que havia se assentado em meus ombros da primeira vez em que ouvi as passadas deles. Reverência e constrição.
Aquilo me atingiu repentina e violentamente, e eu achei que fosse vomitar.
Inclinei-me sobre o pote da câmara, com um suor úmido vindo até o meu rosto.
Eles haviam trocado tudo, menos os sapatos.
Engoli em seco o nauseante gosto salgado da minha língua e soprei o fogo de minha raiva em vez disso. Raiva esta que flamejava até virar fúria e que me propelia a seguir em frente. Evadi os guardas e usei a passagem secreta. Aonde eu estava indo, não poderia ter uma escolta.

* * *

Dessa vez, quando cruzei a passos largos as catacumbas e depois desci pra dentro da caverna onde pilhas de livros esperavam para serem queimados, não dei importância para o quão ruidosas estavam sendo minhas passadas. Quando lá cheguei, ninguém estava na sala externa separando livros e a sala mais afastada estava parcamente iluminada. Eu vi uma silhueta trajando uma túnica lá dentro, curvada por cima de uma mesa.
A sala interna era quase tão grande quanto a primeira, com diversas pilhas próprias esperando para serem arrastadas para longe e queimadas. Havia oito silhuetas trajando túnicas ali dentro. Fiquei na entrada, observando-os, mas eles estavam tão consumidos em suas tarefas que não me notaram. Seus capuzes estavam abaixados, conforme era prática deles, supostamente um símbolo de humildade e devoção, mas eu sabia que o propósito era também o de bloquear os outros, de modo que eles pudessem permanecer focados em seu trabalho difícil. Seu trabalho mortífero.
O sacerdote que eu tinha conhecido em Terravin havia sentido que alguma coisa estava errada, embora ele não soubesse exatamente o que era. Não falarei aos outros sacerdotes sobre esse assunto. Pode ser que nem todos concordem em relação a quem devemos ser leais. Eu percebia agora que ele estava tentando me avisar, mas, se o Komizar havia seduzido esses homens para que viessem até aqui com promessas de riquezas, eu poderia conseguir influenciar seus corações gananciosos com tesouros ainda maiores.
Olhei para baixo, para os pés deles, quase escondidos por seus robes marrons. Eles pareciam deslocados aqui em vez de estarem enfiados atrás de escrivaninhas polidas.
Eu havia apanhado um grande volume de uma das pilhas de descartes enquanto entrava, e agora joguei-o no chão. O forte som do livro batendo no chão ecoou pelo recinto, e tanto os eruditos que estavam sentados quanto aqueles que estavam de pé se viraram para me ver. Eles não demonstraram qualquer alarme, nem mesmo surpresa, mas os eruditos que estavam sentados deixaram suas cadeiras para postarem-se em pé junto com os outros.
Parei na frente de um deles, cujas faces ainda estavam ocultas nas sombras de seus capuzes.
— Eu esperaria pelo menos uma breve reverência dos súditos de Morrighan quando sua princesa se dirige a eles.
O mais alto deles, que estava no meio, falou por todos:
— Eu estava me perguntando quanto tempo demoraria para que você nos encontrasse aqui embaixo. Lembro-me muito bem de suas andanças em Civica. — A voz dele era vagamente familiar.
— Mostrem suas faces traidoras — ordenei. — Como sua única soberana neste reino devastado, ordeno que façam isso!
O erudito alto deu um passo à frente.
— Você não mudou nada, nem um pouquinho, não é?
— Mas vocês, certamente, mudaram. Seus novos trajes são decididamente mais simples.
Ele soltou um suspiro.
— Sim, eu realmente sinto falta de nossos robes bordados de seda, mas tivemos que deixar aquilo pra trás. Eles são muito mais práticos por aqui.
Ele empurrou seu capuz para trás, e meu estômago revirou-se com náusea. Ele era meu tutor de dez anos, Argyris. Um por um, os outros também empurraram seus capuzes para trás. Estes não apenas alguns eruditos de regiões remotas. Eles eram o círculo interno da elite, treinados pelo próprio Erudito Real. O segundo assistente do Erudito Real, o ilustrador-chefe, meus tutores do quinto e do oitavo ano, o arquivista da biblioteca, dois dos tutores dos meus irmãos, todos eruditos que haviam deixado suas posições, presumidamente para outros trabalhos Sacristas por todo o reino de Morrighan. Agora eu sabia aonde eles realmente haviam ido, e talvez, o pior de tudo, eu já sabia bem antes que eles não eram confiáveis. Lá em Cívica, eu havia sentido agitação na presença deles. Estes eram os eruditos que eu sempre havia odiado, aqueles que me enchiam de temor, aqueles que enfiavam os Textos Sagrados nas nossas cabeças com toda a graça de um touro, longe da ternura e da sinceridade que eu ouvia na voz de Pauline, enquanto ela entoava as memórias sagradas. Estes que estavam diante de mim transformavam os textos em dilacerados pedaços de histórias.
— O que foi que o Komizar prometeu que faz valer a pena voltar as costas para seus compatriotas?
Argyris sorriu com a mesma arrogância que eu me lembrava dos dias em que ele olhava por cima do meu ombro, respondendo-me pelo espaçamento da minha escrita.
— Nós não somos exatamente traidores, Arabella. Estamos simplesmente emprestados ao Komizar por ordem do Reino de Morrighan.
— Mentiroso — falei com desprezo. — Meu pai nunca enviaria o que quer que fosse a este reino, menos ainda eruditos da corte, para... —
Olhei para as pilhas de livros que nos cercavam. — Em que nova ameaça vocês estão trabalhando agora?
— Somos apenas eruditos, Princesa, fazendo o que fazemos — foi a resposta de Argyris. Ele e os outros eruditos trocaram largos e presunçosos sorrisos. — O que os outros fazem com nossas descobertas não é da nossa conta. Simplesmente descobrimos os mundos contidos nesses livros.
— Nem todos os mundos. Vocês queimam uma pilha de livros atrás da outra nos fornos do Sanctum.
Ele deu de ombros.
— Alguns textos não são tão úteis quanto outros. Não podemos traduzi-los todos.
O modo como ele formulava suas palavras e distanciava os eruditos de sua traição fazia com que eu ansiasse por arrancar a língua dele, mas me controlei. Eu ainda precisava de respostas.
— Não foi meu pai quem emprestou vocês a Venda. Quem foi? — exigi saber.
Eles olharam para mim como se eu ainda fosse a aluna impetuosa deles e mostraram sorrisos forçados.
Passei por eles empurrando-os para fora do caminho, ignorando suas bufadas de raiva cheias de indignação, e fui até a mesa onde eles estavam trabalhando. Revirei os livros e os papéis tentando achar alguma evidência daquele que os havia enviado a Venda. Abri um dos livros de registros, e um braço com uma vestimenta áspera alcançou além de mim e fechou com tudo o bloco de papel.
— Acho que não, Vossa Alteza — disse ele, cujo hálito estava quente ao meu ouvido.
Ele estava pressionado tão junto de mim que eu mal podia me virar para ver quem era, que me prendeu contra a mesa e sorriu, esperando que o reconhecimento ficasse por completo estampado no meu rosto.
O que aconteceu.
Eu não conseguia respirar.
Ele ergueu a mão e tocou no meu pescoço, esfregando a pequena marca branca onde o caçador de recompensas havia me cortado.
— Apenas um cortezinho? — ele franziu o rosto. — Eu sabia que deveria ter enviado outra pessoa. Seu sensível nariz real provavelmente o sentiu chegando a mais de um quilômetro de distância.
Era o condutor do pátio do estábulo. E agora eu tinha certeza, era o hóspede da taverna que Pauline havia mencionado para mim. Você não o viu? Ele entrou logo depois dos outros dois. Um homem magro desmazelado. Ele olhou bastante de esguelha para você.
E também o jovem homem magro que eu tinha visto em uma noite com o Chanceler.
— Garvin, ao seu serviço — disse ele, com um assentir gentil, em tom de escárnio. — É adorável ver as engrenagens girando na sua cabeça.
Nada havia em relação a ele que fosse se destacar. Constituição mediana, cabelos cinza despenteados. Ele poderia mesclar-se a qualquer multidão. Não fora sua aparência que havia deixado uma impressão em mim. Fora a expressão alarmada do Chanceler quando eu me deparei por acaso com ele e dois eruditos em um recesso escuro do pórtico ao leste. A culpa havia inundado as faces deles, mas eu não havia registrado isso na época. Estávamos no meio da noite, e eu tinha acabado de voltar sorrateiramente de um jogo de cartas e estava tão preocupada com a minha própria detecção que não havia questionado aquele comportamento estranho.
  Olhei com ódio para ele.
— Deve ter sido um tremendo de um desapontamento para o Chanceler saber que eu não estava morta.
Ele sorriu.
— Eu não o vejo há meses. Até onde eu sei, ele acha que você está morta. Nosso caçador nunca falhou conosco antes, e o Chanceler foi notificado de que o Assassino também estava seguindo sua trilha. Havia poucas dúvidas de que um dos dois acabaria com você. Espere até ele descobrir a verdade. — Ele deu risada. — Mas a guinada de sua traição maior a Morrighan ao se casar com o Komizar pode servir ainda melhor aos propósitos dele. Muito bem, Vossa Alteza.
Os propósitos dele? Pensei em todas as bugigangas em forma de joias que agraciavam os nós dos dedos do Chanceler. Presentes, era assim que ele se referia a eles. O que mais ele estaria recebendo em troca de entregar vagões de vinhos e os serviços de eruditos ao Komizar? Uns poucos cintilantes ornamentos para seus dedos mal poderiam valer o custo da traição. Seria essa uma manobra para conseguir mais poder? O que mais haveria o Komizar prometido a ele?
— Eu diria ao Chanceler para não gastar suas riquezas antes que estejam na palma de sua gananciosa mão. Devo lembrar a vocês que ainda não estou morta.
Garvin deu risada, e sua face agigantou-se mais perto da minha.
— Aqui? — disse ele em um sussurro. — Sim, aqui é como se você estivesse morta. Você nunca sairá daqui... pelo menos, não viva.
Eu tentei passar por ele, empurrando-o, mas ele apertou sua pegada na mesa. Ele não era um homem grande, mas era rijo e durão. Ouvi as risadinhas abafadas dos eruditos, mas eu podia ver somente a barba por fazer no queixo de Garvin e sentir a pressão de suas coxas perto das minhas.
— Devo lembrar-lhe também de que, embora eu possa ser prisioneira do Komizar, também sou sua noiva, e, a menos que você queira ver sua fina e amarga pele servida em uma bandeja, eu sugeriria que você mexesse seus braços agora.
O sorriso dele desapareceu, e ele deu um passo para o lado.
— Siga seu caminho. Devo aconselhá-la a não vir mais aqui. Estas catacumbas têm muitas passagens esquecidas e perigosas. Alguém poderia ficar perdido para sempre aqui.
Passei roçando por ele e pelos eruditos, sentindo a amargura de sua traição, mas, quando eu estava a alguns metros de distância deles, parei e lentamente os escrutinizei.
— O que você está fazendo? — perguntou-me Argyris.
— Memorizando as faces de cada um de vocês e qual é a expressão nelas neste momento... e imaginando como estarão daqui a um ano, quando estiverem cara a cara com a morte. Porque, como todos vocês bem sabem, eu tenho realmente o dom, e vi cada um de vocês mortos.
Eu me virei e saí dali, e não ouvi um arrastar de pés ou um sussurro que fosse na minha trilha. Era a segunda vez em menos de uma hora que eu havia perpetrado um engodo.
Talvez.
Porque, em um breve e frio segundo, eu vi cada um deles pendurado em uma corda.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!