2 de fevereiro de 2018

Capítulo 53

Era apenas meio-dia, mas eu sentia que estávamos chegando perto de alguma coisa, e isso me deixava nervosa. Finch estivera assoviando sem parar, e Eben continuava cavalgando em frente, para depois voltar logo em seguida. Talvez estivessem revigorados por causa da mudança no tempo. Estava consideravelmente mais fresco, e a chuva torrencial de molhar os ossos da noite passada havia levado embora uma camada de imundice de todos nós.
Malich estava mal-humorado, como de costume, apenas mudando sua expressão para desferir a mim ocasionais e sugestivas olhadas de relance, mas Griz começou a cantarolar. Apertei a pegada em minhas rédeas. Griz nunca cantarolava. É cedo demais para chegarmos em Venda. Eu não poderia ter perdido o registro de tantos dias assim.
Eben voltou galopando.
— Le fe esa! Te iche! — gritou ele, várias vezes.
Não tentei esconder o fato de estar alarmada.
— Ele está vendo um acampamento? — perguntei.
Kaden olhou para mim de um jeito que achei estranho.
— O que foi que você disse?
— De que acampamento Eben está falando?
— Como você sabe disso? Ele falou em vendano.
Eu não queria que ele soubesse o quanto do idioma eu tinha captado, mas acampamento fora uma das primeiras palavras que eu aprendera.
— Griz resmunga a palavra iche todas as noites quando está pronto para encerrar o dia — expliquei. — O entusiasmo de Eben me disse o resto.
Kaden ainda não tinha respondido a minha pergunta, o que só me deixava mais nervosa. Estaríamos chegando a um acampamento bárbaro? Será que agora eu ficaria cercada por milhares de vendanos?
— Vamos parar por vários dias. Há uma boa pradaria aqui e isso dará uma oportunidade aos nossos cavalos de se recuperarem e descansarem. Não somos os únicos que perderam peso — e ainda temos um longo caminho pela frente.
— Que tipo de acampamento? — eu quis saber.
— Estamos quase lá. Você vai ver.
Eu não queria ver. Eu queria saber. Naquele instante. Forcei-me a pensar no lado bom de qualquer tipo de acampamento. Além de estar fora do alcance do calor causticante, a próxima e maior bênção seria ser capaz de descer das costas desse cavalo gigante por alguns dias que fosse. Sentar em algo que não fosse uma sela dura feito pedra era um prazer que eu imaginara mais de uma vez. E talvez fôssemos até mesmo conseguir comer mais do que uma refeição por dia. Uma refeição de verdade. Não um roedor ossudo e meio cru que tinha gosto de sapato fedido. Tinha me esquecido de como era ficar com a barriga cheia. Era verdade, todos nós havíamos perdido peso, e não só os cavalos. Eu podia sentir minha calça escorregando pelos quadris, deslizando cada vez mais a cada dia, sem nenhum cinto para mantê-la no lugar.
Talvez eu pudesse até ter um momento de privacidade para mim, de modo a estudar os livros que eu roubara do Erudito. Eles estavam guardados no fundo da bolsa da minha sela, e eu ainda queria saber por que eram importantes o bastante a ponto de fazer com que ele me quisesse morta.
Eben deu a volta de novo, com um largo sorriso estampado no rosto.
— Estou vendo os lobos!
Lobos? Minhas fantasias do acampamento desapareceram, mas chutei o cavalo e fui galopando à frente, junto com Eben. Havia duas maneiras de aproximar-se do inevitável: ser arrastada de encontro ao destino ou tomar a ofensiva. Quem quer que fosse que estivesse prestes a encontrar, eu não podia deixar que percebessem meu medo. Isso fora algo que eu precisei aprender cedo em minha vida na corte. Eles vão comer você viva se deixar que vejam seu medoRegan tinha dito a mim. Até mesmo minha mãe fazia disso uma arte, confrontar com austeridade o gabinete, mas com a mais gentil das línguas. Eu só não tinha dominado essa parte da gentileza ainda.
Eben riu por eu estar galopando ao seu lado, como se estivéssemos participando de um grandioso jogo. Ele é só uma criança, pensei novamente, mas, se ele não tinha medo de lobos, eu também não teria, mesmo com meu coração me dizendo o contrário.
— É logo ali, logo depois daquelas árvores — Eben disse. As montanhas escarpadas ao nosso redor haviam se aberto um pouco mais, e a floresta recuava para dar espaço a um amplo prado e a um lento rio que se enroscava em meio a ele. Demos a volta no bosque denso, e Eben galopava mais rápido, mas eu puxei as rédeas e parei. Meu estômago se revirou. O que eu estava vendo?
Pisquei. Vermelho, laranja, amarelo, púrpura, azul — tudo isso aninhado em um oceano de verde tremeluzindo na brisa. Paredes de tapeçaria, fitas ondeando ao vento, bules gentilmente fumegantes, uma colcha de retalhos de cores vibrantes. Terravin. As cores vibrantes de Terravin.
A brisa que despenteava o gramado passava pela campina, chacoalhava os álamos, e serpenteava ao redor para tocar minha face. Aqui. Empoleirava-se cálida e certeira nas minhas entranhas.
Kaden ficou ao meu lado.
— É um acampamento de andarilhos.
Eu nunca tinha visto um, mas tinha ouvido falar das carroças coloridas e elaboradas que eles chamavam de carvachis, de suas tendas feitas de tapeçarias, tapetes e quaisquer pedaços de pano que os agradassem, os sinos pendurados em suas carroças feitos de pedaços de vidros coloridos, as crinas cheias de contas de seus cavalos, suas roupas de cores berrantes ornamentadas com cobre e prata moídos, seus modos misteriosos que não conheciam lei ou fronteira.
— É lindo — sussurrei.
— Achei que você poderia gostar, Lia.
Virei-me para observá-lo, perguntando-me sobre a forma como ele havia incluído meu nome na frase. Era a primeira vez em que ele o dizia sem angústia desde que deixamos Terravin.
— Eles sempre acampam neste local? — perguntei.
— Não, eles mudam de lugar a cada estação. Os invernos são muito duros por aqui. Além do mais, não fazem isso de ficar em um único lugar.
Griz, Finch e Malich passaram por nós, dirigindo-se até o acampamento. O cavalo de Kaden pisou duro no chão e puxou suas rédeas ansioso para acompanhar os outros.
— Devemos ir? — perguntou ele.
— Eles têm cabras? — indaguei.
Um sorriso aqueceu seus olhos.
— Acho que eles podem ter uma ou duas cabras.
— Que bom — respondi, porque tudo em que conseguia pensar era que, se não fizessem queijo de cabra, eu mesma o faria para eles. Queijo de cabra. Isso era tudo que importava no momento. Eu toleraria até mesmo lobos para conseguir queijo de cabra.

* * *

Havia cinco carvachis e três pequenas tendas espaçadas em semicírculo, e, em frente a elas, havia uma única tenda relativamente grande. A disposição era a única coisa organizada em relação ao pequeno acampamento. Todas as cores, todas as texturas, todas as formas das carvachi, todas as quinquilharias oscilando de uma árvore ali perto pareciam nascer do momento e do capricho.
Os outros já haviam descido de seus cavalos, e os ocupantes do acampamento estavam se aproximando para cumprimentá-los. Um homem acertou Griz com força nas costas e ofereceu-lhe um pequeno frasco. Griz jogou a cabeça para trás, tomou um gole generoso, e depois limpou a boca com as costas da mão, e ambos deram risada. Griz riu. Mais de uma dúzia de andarilhos de todas as idade nos cercavam. Uma velha mulher com longas tranças prateadas passavam de sua cintura surgiu da grande tenda e foi em direção aos recém-chegados.
Eu e Kaden puxamos nossos cavalos para trás deles e paramos. Cabeças viraram-se para nos observarem, e sorrisos desapareceram momentaneamente quando me viram.
— Abaixe-se — Kaden disse em sussurro para mim. — Tome cuidado com a velha.
Tomar cuidado com uma velha mulher quando eu tinha como companheiros assassinos cruéis? Ele não podia estar falando sério!
Deslizei do meu cavalo, fui andando e me pus de pé entre Griz e Malich.
— Olá — falei. — Meu nome é Lia. Princesa Arabella Celestine ldris Jezelia, Primeira Filha da Casa de Morrighan, para ser precisa. Fui raptada e trazida até aqui contra minha vontade, mas posso colocar tudo isso de lado se vocês tiverem um pedaço de queijo de cabra e uma barra de sabão para me emprestar.
Eles ficaram boquiabertos, mas então a velha mulher com as tranças prateadas passou pressionando os corpos que se aglomeravam.
— Vocês ouviram a menina — disse a mulher, com sotaque pesado e tom impaciente. — Alguém arrume um pouco de queijo de cabra para ela. O sabão pode ficar para depois.
Eles irromperam em gargalhada com minha apresentação, como se fosse alguma história selvagem, e senti mãos no meu cotovelo e nas minhas costas, uma criança puxando e empurrando minha perna, todos me levando até a grande tenda no centro do acampamento. Eu me lembrei de que eles eram nômades, e não vendanos; não tinham aliança com reino algum. Ainda assim, eram mais do que amigáveis com esses bárbaros. Eles os conheciam bem, e eu não sabia ao certo se tinham acreditado ou não em mim. Eles podem ter dado risada, mas notei a longa e sem graça pausa antes de a risada vir. Deixaria isso para depois, por ora, exatamente como falei que faria. Comida vinha em primeiro lugar. Comida de verdade! Meus deuseseles têm mesmo queijo de cabra! Beijei meus dedos e ergui-os aos céus.
A parte interna da tenda estava disposta da mesma forma que a parte externa. Era um apanhado de tapetes e tecidos floridos cobrindo o chão e as paredes, com almofadas de tamanhos diferentes ladeando o perímetro. Cada uma delas era única em termos de cor e padrão. Vários lampiões de vidro, todos diferentes entre si, pendiam de postes nas tendas, e dúzias de ornamentos estavam pendurados nas paredes de tecido. Eles fizeram com que eu me sentasse em um travesseiro macio e cor-de-rosa, e meus cílios se agitaram, pois minhas nádegas tinham esquecido o que era conforto. Soltei um suspiro e cerrei os olhos por um instante, deixando que a sensação tivesse minha atenção completa.
Senti meus cabelos sendo erguidos e abri os olhos com tudo. Duas mulheres os examinavam, erguendo mechas e balançando as cabeças, empáticas.
— Neu, neu, neu — disse uma delas, como se alguma grave injustiça tivesse sido perpetrada contra meus cabelos.
— Cha lou útor li pair au entrie noivoix — disse a outra.
O que elas falavam não era bem vendano, mas também não era morrighês. Parecia reminiscente de ambos, pontilhado de outros dialetos, mas, bem, eles eram nômades, andarilhos, e obviamente reuniam coisas, só de ver a tenda deles. Parecia que também colecionavam idiomas e os costuravam, usando todos juntos.
Balancei a cabeça em negativa.
— Sinto muito. Não estou entendendo.
Elas voltaram prontamente a falar em um idioma que eu entendesse, sem pestanejar.
— Seus cabelos precisam de muitos cuidados.
Ergui a mão e senti o emaranhado do que uma vez foram meus cabelos. Eu não os penteava havia dias. Não parecia ser importante. Fiz uma careta, pensando que devia provavelmente ter a aparência de um animal selvagem. Como uma bárbara.
Uma delas esticou a mão para baixo e abraçou meus ombros.
— Não precisa se preocupar. Vamos cuidar de você depois, como Dihara mandou... depois que você tiver comido.
— Dihara?
— A velha.
Assenti e notei que ela não tinha vindo até a tenda com as outras. Kaden e o restante dos homens também não tinham entrado ali, e quando perguntei onde estavam, uma mulher belamente redonda e com grandes olhos negros como um corvo disse:
— Ah, os homens... eles pagam seus respeitos ao Deus do Grão primeiro. Nós não os veremos tão cedo.
Todas as outras deram risada. Era difícil para mim imaginar Griz, Malich e Finch pagando seus respeitos a alguém. Kaden, por outro lado, tinha prática no engodo. Ele cortejaria o deus com palavras doces em um instante, enquanto tramava roubar seus olhos pagãos no instante seguinte.
A aba da tenda se abriu e uma menina da idade de Eben entrou com uma grande bandeja e colocou-a a meus pés. Engoli em seco. Meu maxilar doía só de olhar para a comida. Em pratos. Pratos de verdade! E os mais minúsculos e belos garfos com padrões de flores circulando seus cabos. Eles viajavam surpreendentemente bem. Fitei um prato de queijo de cabra, um pequeno dedal de porcelana com mel, uma cesta com tortas amanteigadas, uma grande tigela de sopa de cenoura, e um montinho de fatias crocantes de batatas salgadas. Esperei que alguém se servisse primeiro, mas todas ficaram ali sentadas, com os olhares fixos em mim, e por fim me dei conta de que aquilo tudo era para mim.
Entoei um rápido memorial, por respeito, e comecei a comer. Elas ficaram conversando enquanto eu comia, às vezes no próprio idioma delas, às vezes no meu. A jovem menina que havia me trazido a comida me disse que se chamava Natiya e me fez uma dúzia de perguntas, que eu respondi entre uma mordida e outra. Eu estava faminta e não tentei esconder isso, lambendo os dedos e suspirando a cada bocado delicioso que comia. Em determinado ponto, achei que pudesse chorar de gratidão, mas o choro teria interrompido meu banquete.
As perguntas de Natiya variavam de quantos anos eu tinha até de que comida eu mais gostava, mas, quando me perguntou “Você é mesmo uma princesa?”, a conversa na tenda parou e todas olharam para mim, esperando.
Será que eu era mesmo uma princesa?
Eu abdicara desse papel havia semanas, quando saí de Civica e bani “Sua Alteza Real” do vocabulário de Pauline. Certamente agora eu não me parecia com uma princesa e nem agia como uma. Ainda assim, prontamente retirara meu título do exílio quando este me serviu. Lembrei-me das palavras de Walther: Você sempre será vocêLia.
Peguei o queixo dela e o segurei com a mão em concha, assentindo.
— Não mais do que você por me trazer essa refeição. Estou realmente grata por isso.
Ela sorriu e abaixou seus longos e escuros cílios, com um rubor aquecendo suas bochechas. A conversa recomeçou, e voltei para minha última torta amanteigada.

* * *

Ao ficar satisfeita, elas me levaram para outra tenda e, conforme prometido, lidaram com meus cabelos. Foi preciso muito trabalho para ajeitá-los, mas elas foram gentis e pacientes. Enquanto duas das mulheres penteavam cada mecha, outras preparavam um banho, enchendo um grande tonel de cobre sobre uma fogueira. Notei suas olhadelas de esguelha e para mim. Para elas, eu era uma curiosidade. Provavelmente nunca tiveram visitantes do sexo feminino antes. Quando o banho ficou pronto, não me importei que me vissem nua. Tirei as roupas e me molhei, fechei os olhos e deixei que esfregassem seus óleos e ervas na minha pele e nos meus cabelos, e rezei para que, se era para eu morrer naquela jornada, que fosse naquele exato instante.
Elas ficaram curiosas em relação ao meu kavah, referindo-se a ele como sendo uma tatuagem, o que percebi que era mesmo àquela altura. Não havia mais nada de temporário. Elas tracejaram o desenho com os dedos, dizendo o quão incrível era. Sorri. Fiquei feliz por alguém pensar assim.
— E as cores... — disse Natiya. — Tão bonitas!
Cores? Não havia nenhuma cor. Apenas profundas linhas cor de ferrugem formavam o desenho, mas presumi ela estava se referindo a isso.
Ouvi gritos do lado de fora da tenda e comecei a me levantar. A mulher que atendia pelo nome de Reena puxou-me com gentileza para trás.
— São só os homens. Eles voltaram das águas termais e estão pagando seus respeitos, embora seus tributos provavelmente terão continuidade no interior da tenda noite adentro.
Eles eram tipos mais reverentes do que eu havia pensado. Os barulhos ruidosos pararam, e voltei ao luxo do meu banho. Odiava a ideia de colocar meus trapos imundos de volta, mas, depois de me secar, as mulheres começaram a me vestir com suas próprias roupas, erguendo várias saias, xales, blusas e contas como se estivessem vestindo uma criança. Quando terminaram, eu me senti como uma princesa de novo — uma princesa nômade. Reena colocou um xale azul sedoso com um elaborado trabalho de contas prateadas na minha cabeça, centralizando-o para que um V de contas pendesse de minha testa.
Ela deu um passo para trás, com as mãos nos quadris, para analisar seu trabalho.
— Você agora parece menos uma loba e mais uma verdadeira membro da Tribo de Gaudrel.
A Tribo de Gaudrel? Virei a cabeça, baixando o olhar para o tapete florido. Gaudrel... Parecia tão familiar, como se o nome tivesse passado pelos meus lábios antes.
— Gaudrel — sussurrei, testando a palavra, e então lembrei.
Ve Feray Daclara au Gaudrel.
Era esse o título de um dos livros que eu tinha roubado do Erudito.

5 comentários:

  1. Nossa uhauuuuuuu....

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  2. O EPIGRAFE É ESSE LIVRO AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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  3. Pq será que ele guardava esse livro???

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  4. Ve Feray Daclara au Gaudrel= OS Últimos testemunho de Gaudrel

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!