20 de fevereiro de 2018

Capítulo 52

KADEN

Eu vi a lâmina antes de ver a mulher. A faca passou por mim em um lampejo, fatiando o meu ombro no exato momento em que eu a jogava contra a parede.
E, então, vi que se tratava de Pauline.
Lia estava gritando conosco.
— Largue a faca, Pauline! Largue-a! Kaden! Solte Pauline!
A faca ainda estava firme na pegada dela, cuja mão estava tensa lutando com a minha.
— Pare! — berrei.
Ela estava fervendo.
— Não desta vez, bárbaro!
Eu senti a picada onde a lâmina havia me ferido e a quentura do sangue espalhando-se pelo meu ombro.
— Qual é o seu problema? Você poderia ter me matado!
Não havia qualquer pedido de desculpas nos olhos dela, apenas um ódio que eu não tinha pensado que fosse possível para Pauline sentir.
— Pare! — disse Lia com firmeza, e puxou a faca da mão da amiga.
Ela assentiu para que eu soltasse Pauline. Arrisquei-me e a soltei, saindo do alcance dela, esperando que viesse para cima de mim de novo. Lia interpôs-se entre nós.
— Eu falei para ele vir, Pauline — disse ela. — Ele está aqui para ajudar. Podemos confiar nele.
No entanto, Pauline estava muito enfurecida e ainda não dava ouvidos a Lia.
— Você mentiu para nós! Nós o tratamos com bondade, e então...
Lia continuou a tentar explicar as coisas e acalmar Pauline.
Eu fiquei lá, parado, sem saber o que dizer, porque todas as palavras que ela lançava para cima de mim eram verdadeiras, tão verdadeiras quanto Pauline sempre fora. Eu tirara vantagem da sua bondade e da sua confiança.
— Ele mudou, Pauline! Você precisa parar e me ouvir!
Pauline me encarou, com os olhos vítreos, o peito subindo e descendo, e, de repente, ela se curvou, agarrando a barriga. Lia segurou no braço da amiga para estabilizá-la. Água vazou no chão envolta dos pés dela. Pauline soltou um gemido e depois foi tomada por um espasmo ainda mais forte. Fui correndo até o outro lado dela, e tanto eu quanto Lia impedimos Pauline de cair. Até mesmo na sua dor, ela tentou se livrar de mim.
— A cama! — gritou Lia.
Peguei Pauline nos braços e carreguei-a até o estrado da cama sem colchão que estava no canto.
— Pegue o saco de dormir do meu cavalo!
Lia saiu correndo porta afora, e Pauline me ordenou para que a colocasse no chão.
— Farei isso — falei. — Acredite em mim, nada me dará mais prazer, tão logo Lia esteja de volta.
Lia estava de volta em segundos, sacudindo e abrindo o saco de dormir, e deitei Pauline em cima dele.
— Não pode estar na hora — disse Lia a Pauline. — Você ainda tem um mês pela frente.
Pauline balançou a cabeça em negativa.
— Está na hora.
Lia encarou a barriga de Pauline, sem nem mesmo tentar esconder o seu alarme.
— Eu não sei nada quanto a isso. Eu nunca... — ela voltou o olhar contemplativo para mim. — Você...?
— Não! — falei, balançando a cabeça. — Eu não. Também nunca fiz isso. Já vi éguas...
— Eu não sou uma égua! — gritou Pauline, que se inclinou para frente em um outro espasmo. — Berdi — disse ela, gemendo. — Chamem Berdi.
Comecei a seguir em direção à porta.
— Diga-me onde ela...
— Não — disse Lia, cortando-me. — Berdi nunca viria com você, e eu consigo encontrá-la mais rapidamente. Fique aqui.
Tanto quanto Pauline protestamos em relação a isso.
— Não há outra opção! — disse Lia, irritada. — Fique! Mantenha Pauline confortável! Logo estarei de volta!
Ela partiu, batendo a porta atrás de si.
Fiquei com o olhar fixo na porta, não querendo me virar e ficar cara a cara com Pauline. Partos de bebês levavam horas, eu disse a mim mesmo. Às vezes, dias. Não levaria mais do que vinte minutos de caminhada para que Lia chegasse à cidade. Dentro de uma hora, ela estaria de volta. Ouvi a chuva, que caía cada vez mais alta e intensa.
Pauline gemeu novamente, e eu, relutante, me virei.
— Você precisa de alguma coisa?
— Não de você!
Uma hora se passou e eu me alternava entre xingar Lia em silêncio e ficar preocupado com o que havia acontecido com ela. Onde será que ela está? As dores de Pauline estavam se tornando mais fortes e frequentes. Ela deu um tapa na minha mão para que eu me afastasse quando tentei limpar a testa dela com um pano fresco.
Entre as dores, ela me encarava com um olhar fixo e cheio de escrutínio.
— Da última vez que vi você, Lia estava mandando que fosse direto para o inferno. Que magia negra usou para fazer com que ela confie em você agora?
Olhei para o rosto dela, que brilhava, com faixas molhadas dos seus cabelos loiros prendendo-se às suas bochechas, uma perda nos olhos que eu nunca tinha visto antes.
— As pessoas mudam, Pauline.
Ela puxou o lábio em repulsa para cima, e desviou o olhar.
— Não, não mudam. — A voz dela estava trêmula, cheia de uma tristeza inesperada em vez de raiva.
— Você mudou — falei.
Ela olhou com ódio para mim, passando as mãos por cima da sua barriga.
— Isso deveria ser uma piada?
— Eu estava falando isso em outros sentidos... sendo o mais notável deles a faca que você brandia na minha cara.
Ela estreitou os olhos.
— A traição tende a fazer com que as pessoas fiquem familiarizadas com armas.
Assenti. Sim, pensei. Infelizmente, isso acontece.
— Parece que alguém levou uma arma à sua cabeça também — disse ela.
Estiquei a mão para trás, sentindo o talho incrustrado no meu couro cabeludo.
— Parece que sim — respondi. Eu havia desmaiado e dormido durante dois dias seguidos na trilha antes de vomitar metade das minhas entranhas. O latejar dera uma aliviada, mas provavelmente foi o responsável por eu ter esmaecido o meu julgamento o suficiente para entrar em uma cabana desconhecida sem a minha própria arma sacada. Talvez isso fosse uma coisa boa, ou Pauline poderia estar morta no chão agora.
Fui andando até a janela e abri a persiana, na esperança de ter um vislumbre de Lia e de Berdi. O dilúvio obscurecera a floresta além de nós, e os trovões retumbavam acima. Fiz pressão com gentileza na minha nuca, perguntando-me o quão ruim estaria o talho. Embaixo da faixa de sangue incrustrado, havia ainda um galo de um tamanho razoável. Era irônico que uma governanta armada apenas com um bule de ferro quase tivesse acabado com o Assassino de Venda.
Como os Rahtans ririam disso.
O nome se afundou em mim com uma pontada surpreendente... e com saudade. Rahtan. Isso trazia de volta o que era familiar, a sensação de orgulho, o único lugar na minha vida inteira ao qual eu sentia que pertencera. Agora eu estava em um reino que não me queria e em uma cabana onde não era bem-vindo. Eu também não queria estar aqui, mas não podia ir embora. Eu me perguntava como estariam Griz e Eben, com certeza, Griz estava curado e eles estavam a caminho de Morrighan a essa altura. Eles eram o mais próximo que eu tinha de uma família — família esta de víboras venenosas. O pensamento fez com que eu abrisse um largo sorriso.
— O que está achando tão divertido? — perguntou-me Pauline.
Olhei para a severidade no olhar dela. Será que eu havia feito isso com Pauline? Eu me lembrei de toda a sua bondade lá em Terravin... da sua gentileza. Eu havia pensado que o jovem homem pelo qual ela tão avidamente esperava não podia merecê-la, e então, quando fiquei sabendo que havia morrido, tinha esperado que não fosse por mãos vendanas. Talvez fosse isso que ela visse, quando olhava para mim, um vendano muito como aquele que matara o pai de seu bebê. Embora o meu sorriso tivesse esvanecido havia muito tempo, o olhar contemplativo dela permaneceu fixo em mim, esperando.
— Nada é divertido — respondi, e desviei o olhar.
Outra hora se passou, e parecia que uma dor não tinha cessado antes da outra começar. Mergulhei o pano dentro do balde de água fria e limpei a testa dela, que não ofereceu resistência dessa vez, mas fechou os olhos como se estivesse tentando fingir que não era eu quem estava fazendo isso. Eu estava tendo uma sensação ruim em relação àquilo. Ela foi assolada por um outro espasmo.
Quando a dor finalmente passou e ela relaxou de novo no travesseiro improvisado que fiz para ela, falei:
— Talvez tenhamos que fazer isso sozinhos, Pauline.
Ela abriu os olhos com tudo.
— Você... fazer o parto do meu bebê? — um sorriso irrompeu na face dela pela primeira vez, e Pauline deu risada. — Eu juro que as primeiras mãos que vão tocar na minha menininha não serão as mãos de um bárbaro.
Ignorei as farpas dela, que não continham o mesmo veneno de uma hora atrás. Ela estava ficando cansada de lutar contra mim.
— Você tem tanta certeza assim de que é uma menina?
Ela não teve chance de responder. Pauline foi tomada por uma dor tão forte que fiquei com medo de que ela não fosse voltar a respirar, e então logo depois veio um grito mesclado com choros e soluços.
— Não — disse ela, balançando a cabeça. — Não. Acho que ela está vindo. Benditos deuses. Agora não.
Os momentos seguintes foram quentes e confusos, e as lamúrias cheias de angústia dela me dilaceravam. Ela chorava. Ela implorava. Segurei os ombros dela, que se curvaram para frente, com dor. Ela afundava as unhas no meu braço.
Meu coração socava furiosamente o meu peito a cada grito. A criança estava vindo. Não havia mais como esperar. Maldição, Lia! Coloquei Pauline junto ao travesseiro, ergui o vestido e então puxei as roupas debaixo dela e tirei-as antes que eu pudesse pensar demais naquilo que eu estava fazendo. Uma cabeça apareceu no meio das pernas dela. Pauline disse uma centena de coisas para mim entre cada onda de dor, uma conversa unilateral de súplicas aos deuses e xingamentos. Ela caiu para trás, chorando, cansada demais para empurrar a criança.
— Não consigo — disse ela, soluçando e chorando.
— Estamos quase lá, Pauline. Empurre. Estou vendo a cabeça do bebê. Está vindo. Só um pouco mais.
Ela chorou, e uma felicidade fraca iluminou sua face por um breve momento, para depois desaparecer e a mulher gritar novamente. Segurei a cabeça do bebê com as mãos em concha, enquanto mais de sua cabecinha vinha para fora.
— Mais um empurrão! — berrei. — De novo.
E então vieram os ombros, e com um último e rápido movimento ruidoso, o bebê estava nas minhas mãos, úmido e quente, arqueando o seu minúsculo corpo, com uma pequena mão acenando além da sua face. Eu tinha um bebê inteiro nas mãos, cujas fendas de olhos já estavam espiando o mundo. Olhando para mim. Um olhar contemplativo tão profundo que entalhava um buraco no meu peito.
— Está tudo bem? — perguntou-me Pauline com fraqueza.
O bebê chorou, respondendo a pergunta dela.
— Ele é perfeito — falei. — Você tem um belo filho, Pauline. — E eu o coloquei nos braços dela.

8 comentários:

  1. Tá aí o sonho dele.
    Mas não quero nenhum romance entre esses dois, ugh.

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  2. aaaaaaaaaaaa sinto que eles vão ficar juntos !!!!

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  3. A visão dele!! Mas não cara.. não quero eles juntos

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  4. A tai a visão deles , porra tomare que lês fiquem juntos

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  5. essa ainda nao é a visão, vai ser bem no final. kkkkk

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  6. "Olhar contemplativo" essa autora só conhece essa expressão?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!