16 de fevereiro de 2018

Capítulo 52

RAFE

Eu pairava do poço da fogueira no Pavilhão dos Falcões, fingindo estar aquecendo as minhas mãos. Ulrix havia me dado muda de roupas, porém elas não incluíram luvas. Mas tudo bem. Isso me dava uma desculpa para ficar aqui com Sven, que também havia se “esquecido” de usar suas luvas para ir até o pavilhão. Nós ficamos observando enquanto o cuidador treinava os falcões. Orrin estava em pé do outro lado de nós, como um vigia para alguém que pudesse se aproximar.
— Ele tem oito barris em uma caverna lá embaixo perto do rio — sussurrava Sven, embora os guardas mais próximos estivessem bem atrás de nós, do outro lado do pátio. — Ele disse que só precisa de mais quatro.
— Como ele está obtendo esses barris?
— Você não vai querer saber. Digamos apenas que a justiça vendana o deixaria sem dedos.
— É melhor que as habilidades dele de roubar sejam impecáveis, porque ele vai precisar de todos os dedos para fazer com que aquela janela seja segura.
— Ele adquiriu a corda honestamente, graças à princesa e ao dinheiro que ela deu a ele. O tipo de corda de que ele precisava só podia ser obtido na jehendra, de onde seria muito mais difícil roubar alguma coisa, então, agradeça aos deuses por ela ser boa nas cartas.
Pensei no jogo de cartas e no quanto eu havia suado enquanto a via jogar. Sim, graças aos deuses e aos irmãos dela, ela é boa.
— Jeb, usou fezes para cobrir a corda no fundo de sua carreta e levá-la furtivamente para Tavish. — Sven manteve suas mãos mais perto das chamas e perguntou-me sobre as rotinas do Sanctum.
Contei a ele sobre o que mais eu tinha ficado sabendo nas últimas semanas: a que horas os guardas das entradas mudavam, quantos deles poderiam ser encontrados em corredores em determinado momento, quando muito provavelmente ninguém daria por falta de Lia, quais governavam mais pesadamente suas canecas, os Rahtans e os chievdars para os quais ele não se deveria dar as costas, assim como onde eu havia escondido armas: três espadas, quatro adagas e uma acha.
— Você furtou armas debaixo dos narizes deles? Uma acha?
— Só é preciso ter paciência.
— Você? Paciência?— Sven grunhiu.
Eu não podia culpa-lo por seu cinismo. Fui eu que saí cavalgando com tudo com um plano pela metade para nos guiar. Pensei nos últimos muitos dias e em todas as vezes em que tive que conter meus impulsos naturais, a espera agonizante quando tudo que eu queria era agir, pesando a satisfação de um momento de vitória em comparação com uma vida com Lia, calculando todos os movimentos e todas as palavras de modo a certificar-me de dar a ela e a nós a melhor chance possível. Se havia uma tortura no inferno feita especificamente para mim, era essa.
— Sim, paciência — falei.
Esta era uma cicatriz obtida tão dolorosamente quanto qualquer uma em batalha. Eu contei a ele que Calantha e Ulrix eram meus guardas principais e que Calantha não deixava passar nada, então eu tinha poucas oportunidades quando estava perto dela, mas, depois de me derrubar várias vezes e descobrir que eu oferecia apenas uma fraca luta, Ulrix havia ficado satisfeito com o fato de que não deveria perder tempo se preocupando com o emissário. Oportunidades surgiram, e lentamente surrupiei uma arma perdida atrás da outra para cantos escuros e esquecidos, para serem recuperadas e levadas para outro canto escuro até que eu as tivesse onde eu tinha certeza de que ninguém as encontraria.
— Ninguém deu por falta delas? Nem mesmo de um acha?
— Algumas espadas sempre são colocadas de lado durante noites tardias e jogos de cartas no Sanctum. Quando os perdedores ficam nervosos, eles bebem, e quando bebem, esquecem-se das coisas. Pela manhã, os criados devolvem armas perdidas aos arsenais. A acha foi uma questão de sorte. Eu a vi apoiada no chiqueiro durante quase um dia inteiro. Quando parecia que ninguém dera por falta dela, joguei-a atrás da pilha de madeira.
Sven assentiu com aprovação como se eu ainda estivesse sob sua tutela no treinamento.
— E quanto à noite passada? Não houve nem uma sobra que fosse de suspeita em relação à sua luta de espadas com Kaden?
— Errei o alvo. Perdi. O sangue foi retirado do meu ombro primeiro. A essa altura isso é tudo de que eles se lembram. Qualquer habilidade com a espada fica perdida à sombra da vitória de Kaden.
Vimos Orrin do outro lado da fogueira fazendo um sinal para nós de que alguém estava se aproximando, então paramos de conversar.
— Bom dia, governador Obraun. Dando ratos para os falcões comerem?
Nós nos viramos. Era Griz. Ele falava em morrighês, idioma este que havia clamado que desconhecia. Olhei para Sven, mas ele não tinha respondido. Em vez disso, o velho leite azedo havia empalidecido.
Tanto eu quanto Orrin sabíamos que havia algo de errado. Orrin começou a sacar sua espada, mas acenei para que ele se contivesse. Griz portava duas espadas, e suas mãos seguravam nos cabos de ambas. Ele estava perto demais de Sven para que nós fizéssemos algum movimento que fosse. Griz abriu um largo sorriso, absorvendo a reação de Sven.
— Depois de 25 anos e desse troféu que cruza sua cara, eu não o reconheci de imediato. Foi sua voz que o entregou.
— Falgriz — disse Sven por fim, como se estivesse olhando para um fantasma. — Parece que você também ganhou um troféu feio aí em cima. E uma barriga um tanto quanto grandinha aí embaixo.
— Bajulação não vai tirar você dessa.
— Funcionou da última vez.
Um sorriso enrugava os olhos do gigante, apesar da cara feia que ele tinha em seu rosto marcado por uma cicatriz.
— Foi ele que mentiu para o Komizar por mim — falei.
Griz voltou seu olhar contemplativo para mim como se fosse uma chicotada.
— Eu não menti por você, almofadinha. Vamos acertar isso agora. Eu menti por ela.
— Você é um espião para o reino dela? — perguntei.
Ele curvou os lábios para trás em repulsa.
— Sou um espião para você, seu tolo maldito.
Sven erguei as sobrancelhas. Obviamente, esse era um novo desenrolamento de coisas para ele também.
Griz movimentou a cabeça na direção de Sven.
— Todos aqueles anos preso com esse desajeitado me proporcionaram um pouco de conhecimento em relação a cortes, e muito conhecimento de idiomas. Eu não sou um traidor da minha própria espécie, se é isso que vocês estão pensando, mas me encontro com exploradores. Carrego informações inúteis de um reino inimigo para outro. Se membros da realeza querem jogar dinheiro fora para rastrearem tropas, fico feliz em fazer-lhes esse favor. Isso impede meus parentes de morrerem de fome.
Olhei para Sven.
— Foi com este homem que você ficou preso nas minas?
— Durante dois longos anos. Griz salvou minha vida — foi a resposta dele.
— Conte as coisas direito — rosnou Griz. — Foi você quem salvou meu pescoço, e nós dois sabemos disso.
Eu e Orrin trocamos uma olhadela de relance. Nenhum dos dois parecia satisfeito em relação à sua vida poupada nem concordavam com quem havia salvado quem.
Sven esfregou sua barba por fazer, estudando Griz.
— Então, Falgriz. Temos um problema aqui?
— Você é um canalha idiota — foi a resposta dele. — Sim, nós temos um problema. Eu não quero que ela vá embora, e presumo que seja para isso que vocês estejam aqui.
Sven soltou um suspiro.
— Bem, você está parcialmente certo. — Ele assentiu na minha direção. — Estou aqui para libertar este tolo, e isso é tudo. Você pode ficar com a moça.
— O quê? — falei.
— Sinto muito, rapaz. Ordens do rei. Nós temos uma escolta esperando por nós do outro lado do rio.
Lancei-me para cima de Sven, agarrando-o por seu colete.
— Seu mentiroso, imundo...
Griz puxou-me para longe de Sven e me jogou no chão.
— Não mexa com nosso novo governador, Emissário.
Os guardas do Sanctum começaram a vir correndo depois de me verem pular para cima de Sven.
— Que guarda e tanto hein? — disse Griz a Orrin, que não havia se mexido para proteger Sven. — Pelo menos pareça saber o que está fazendo ou não vai durar muito por aqui.
Orrin sacou sua espada e manteve-a de forma ameaçadora acima de mim. Griz voltou mais uma cara feia em forma de aviso.
— Só para que todos nós entendamos bem uns aos outros. Eu não me importo se vocês todos se afogarem no rio ou baterem uns nos outros até perderem os sentidos, mas a moça permanece aqui. — E então, ele disse apenas para Sven: — A costura aí é uma melhoria.
— Assim como a costura no seu crânio.
Eu e Sven olhamos um para o outro. Nós tínhamos um problema. Griz saiu batendo os pés, dizendo aos guardas que se aproximavam para voltarem para seus postos, que a questão estava resolvida, mas enquanto eu observara Griz afastando-se, notei que o Assassino estava parado, em pé em meio às sombras da colunata. Ele estava lá sem qualquer destino aparente. Apenas nos observando. E, até mesmo depois que Griz havia passado por ali fazia muito tempo, ele continuava a olhar na nossa direção.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!