20 de fevereiro de 2018

Capítulo 51

Andei de um lado para o outro na cabana do caseiro na margem do reservatório do moinho, ouvindo a chuva. Eu já tinha colocado lenha na fogueira e limpado os esparsos móveis que enchiam o lugar: uma mesa meio destruída, três cadeiras bambas, uma banqueta, uma cadeira de balanço sem um dos braços e uma cama de madeira, ainda robusta, mas cujo colchão havia sido comido pelos ratos havia muito tempo.
A cabana e o moinho que ficava na frente dela, do outro lado da lagoa, foram abandonados décadas atrás em prol de uma lagoa mais profunda e maior a leste de Civica. Apenas sapos-bois, libélulas e guaxinins faziam visitas a este local agora, e, ocasionalmente, jovens príncipes e princesas fugindo do escrutínio da corte. Nossos nomes estavam entalhados no largo batente da porta, junto com os nomes de dezenas de outras crianças do vilarejo, pelo menos aquelas que eram valentes o bastante para se aventurarem até aqui. Dizia-se que o lugar era assombrado pelos Antigos. Eu e Bryn podíamos ter tido alguma coisa a ver com esse rumor. Acho que queríamos o lugar todo só para nós. Até mesmo o nome do meu pai estava entalhado ali. Branson. Passei os dedos sobre as letras rudimentares. Era difícil imaginar que ele algum dia fora uma criança despreocupada correndo pelos bosques, e eu me peguei pensando na forma como nós mudamos, em todas as forças externas que nos pressionam, moldam e nos empurram para que sejamos pessoas e coisas que que não planejáramos ser. Talvez isso acontecesse de forma tão gradual que, na hora em que notássemos que isso tinha ocorrido, seria tarde demais para que fôssemos outra coisa.
Como o Komizar. Reginaus. Um menino e um nome que foram apagados da existência.
Passei o dedo pelo meu nome na madeira, as linhas tortas, mas profundas. Lia. Saquei a minha faca e espremi mais quatro letras na frente desse nome: Jeze. Eu pensava em quem havia me tornado, alguém que nunca planejara ser.
O nome de Pauline não estava entalhado na madeira. Até onde eu soubesse, ela nunca esteve aqui. Na época que chegou em Civica, a cabana havia perdido um pouco da sua magia para mim e para os meus irmãos, e nós raramente vínhamos até aqui. Além disso, tais andanças eram proibidas, e Pauline seguia o protocolo da corte ao pé da letra. Bem, quase ao pé da letra, até ela conhecer Mikael.
Onde será que ela estaria? Será que Natiya havia entendido errado ou falado com a pessoa errada? Será que a chuva fizera com que ela se atrasasse? Com tudo, era apenas uma chuva leve, e nós estávamos acostumadas com isso em Civica.
Hoje, quando voltei ao meu quarto, minha mente ainda estava a mil com a revelação que me ocorrera tarde da noite. O Vice-Regente parecia a nossa melhor possibilidade de alguém em quem confiar no gabinete. Eu tentara testá-lo em relação a sua sinceridade, e tudo que ele dissera parecera genuíno, até mesmo a sua declaração sobre os seus profundos arrependimentos. Seria possível que ele tivesse mudado nos onze anos desde que jogara Kaden fora? Onze anos era um bom tempo. Eu havia mudado em bem menos que isso. Kaden também. O Vice-Regente já se encontrava em uma alta posição de poder, o segundo em comando depois do meu pai. O que mais ele teria a ganhar?
Eu estava tão ocupada com esses pensamentos que Natiya precisou segurar nos meus braços e balançá-los, para depois repetir as suas notícias. Ela dissera que havia encontrado Pauline. Falou também que a cabeça de Pauline estava curvada e coberta, de modo que ela não conseguiu ver seus cabelos, mas que conhecia uma barriga de grávida quando via uma, e a menina havia seguido Pauline até o lado de fora do portão do cemitério. Quando estava perto o bastante, Natiya chamou-a pelo nome. Pauline parecera temerosa, mas concordou em vir.
Rezei para que ela não estivesse com medo de mim. Com certeza ela não seria capaz de acreditar naquelas mentiras. Ou talvez estivesse apenas sendo cautelosa. Ela não conhecia Natiya, e poderia suspeitar de uma armadilha. No entanto, ela sabia que o reservatório do moinho fora um dos meus lugares prediletos de frequentar. Uma estranha não teria sugerido isso. Talvez Berdi e Gwyneth a tivessem atrasado. Gwyneth suspeitava de tudo, e, aqui em Civica, ela estava certa em relação a isso. Eu deveria tomar isso como um bom sinal.
No entanto, minha ansiedade ainda aumentava.
Fiquei andando de um lado para o outro da cabana e, por fim, puxei uma cadeira e fiquei ali sentada, com o olhar fixo na porta, com as mãos entrelaçadas nas coxas. Pouco a pouco, eu estava perdendo tudo. Se eu perdesse Pauline também, não sabia ao certo o que faria. E se ela...
A maçaneta se mexeu ruidosamente, e a porta foi aberta com cautela, sendo o seu ranger o único som. Tão rapidamente quanto uma reflexão tardia, coloquei a mão na minha adaga, mas então Pauline entrou, com os cabelos escorrendo com mechas molhadas, as bochechas ruborizadas brilhando com a chuva. Nossos olhares se encontraram, e os olhos dela me disseram o que eu temia. Ela sabia. Havia uma pungência condenadora naquele olhar, algo que eu nunca vira antes. Meu estômago flutuava mesmo enquanto o meu coração afundava no peito.
— Você deveria ter me contado, Lia — disse ela. — Deveria ter me contado! Eu teria sido capaz de lidar com aquilo. Você nem mesmo me deu uma chance para tal.
Assenti, com as palavras presas na garganta.
— Fiquei com medo, Pauline. Achei que pudesse enterrar a verdade e fazer com que ela desaparecesse. Eu estava errada.
Ela deu uns passos na minha direção, a princípio hesitante, e então ávida, jogando os braços em volta de mim, com uma ferocidade na sua pegada. Raiva. Seus punhos cerrados curvaram-se nas minhas roupas, exigentes, tremendo, e então ela se apoiou em mim, chorando em soluçando.
— Você está viva — disse, chorando no meu ombro. — Está viva. — Meu peito tremia e eu chorava junto com ela, com os meses e as mentiras entre nós desaparecendo. Ela me contou o quanto ficara assustada, a agonia de esperar sem uma palavra sequer e o alívio que ela sentiu quando me viu fingindo ser a rainha. Ela, Berdi e Gwyneth estavam procurando discretamente por mim desde então. — Eu amo você, Lia. Você é minha irmã, pelos deuses, uma irmã tão verdadeira quanto uma de irmã de sangue. Eu sabia que o que eles tinham dito sobre você era mentira.
Eu não sabia ao certo quem estava erguendo quem, cada uma de nós pesada nos braços uma da outra, nossas bochechas molhadas junto à bochecha da outra.
— Meus irmãos?
— Bryn e Regan estão bem, mas estão preocupados com você.
Agora eram os meus punhos fechados que se enrolavam nas roupas dela. Eu me engasgava com as lágrimas enquanto ela me contava que eles também não deixaram de acreditar em mim. Eles tinham feito muitas perguntas tentando chegar até a verdade e prometeram que, tão logo que retornassem, iriam descobri-la. Ela falou que Berdi e Gwyneth estavam aqui com ela e me contou onde todas estavam ficando. Eu entendia agora porque Natiya não havia conseguido encontrá-las. Elas estavam em uma pequena taverna descendo por uma viela que alugava quartos em cima da loja. Eu me lembrava daquela taverna agora. Não havia qualquer placa lá. A pessoa tinha que saber que era uma estalagem. Sem dúvida, fora Gwyneth quem descobrira aquele lugar.
Por fim, recuei um passo e limpei minhas bochechas, analisando a circunferência da barriga dela.
— Está tudo bem com você?
Ela assentiu, esfregando a barriga com a mão.
— Avistei Mikael semanas atrás, mas só tive coragem de confrontá-lo recentemente. — Um sorriso agridoce criou linhas em volta dos olhos dela, e nós duas nos sentamos à mesa.
Ela falou sobre Mikael, relembrando os seus sonhos para o futuro, os quais Pauline pensara serem os sonhos dele também, em todas as vezes em que eles haviam ficado de mãos dadas, em que tinham conversado, planejado e se beijado. Ela repassou as lembranças e os detalhes como se fossem pétalas de flores que estivesse colhendo, uma de cada vez, e soltando-as ao vento. Fiquei ouvindo enquanto ela falava, sentindo-me parte da ruptura.
— Ele nunca vai ser o pai da criança — disse por fim. Pauline me contou com uma resignação calma sobre as moças que ele tinha nos seus braços, sobre a negação dele e sobre todas as dúvidas que ela cuidadosamente colocara de lado e que vieram à tona diante dos seus olhos quando eles se falaram. — Eu sabia como ele era quando o conheci. Achava que seria aquela moça especial o bastante para mudá-lo. Fui uma tola feliz vivendo uma fantasia. Não sou mais aquela menina.
Eu vi a mudança em Pauline. Ela estava diferente. Lúcida. Os sonhos que ela tivera foram varridos da frente dos seus olhos. Eu via todos os motivos pelos quais havia mentido para ela, pensando que, se a fantasia dela permanecesse viva, talvez o mesmo pudesse acontecer com a minha.
— Você nunca foi uma tola, Pauline. Seus sonhos deram asas aos meus sonhos.
Ela pressionou a mão nas minhas costas, como se estivesse tentando conter o peso do bebê que empurrava a sua coluna.
— Eu tenho objetivos diferentes agora.
— Todos nós temos objetivos diferentes agora — respondi, sentindo o puxão de sonhos perdidos.
Ela franziu o rosto.
— Você está falando de Rafe.
Assenti.
— Ele apareceu lá na estalagem de Berdi procurando por você. Quando falei sobre Kaden, ele começou a dar ordens, dizendo que mais homens viriam ajudar, e eles vieram mesmo, mas nenhum deles voltou. A princípio, eu temia que alguma coisa tivesse acontecido com eles, mas então me perguntava se nos enganara exatamente como Kaden fizera. Berdi achava que Rafe não era um fazendeiro, o que só alimentava as minhas preocupações de que não poderíamos confiar nele...
— Berdi estava certa. Rafe não era um fazendeiro — falei. — Ele era um soldado, e também o príncipe Jaxon, de Dalbreck, o noivo que eu deixei no altar.
Ela olhou para mim como se eu tivesse perdido a cabeça lá em Venda.
— Mas ele não é mais um príncipe — completei. — Agora ele é o rei de Dalbreck.
— Príncipe? Rei? Nada disso faz sentido.
— Eu sei — falei. — Não faz sentido. Deixe-me começar do começo.
Tentei contar a ela tudo na ordem em que as coisas aconteceram, mas muito rapidamente ela me interrompeu.
— Kaden colocou um capuz sobre a sua cabeça? E então a arrastou por todo o Cam Lanteux? — Eu vi o ódio nos olhos dela, o que Kaden havia temido que ela guardasse no coração.
— Sim, ele fez isso, mas...
— Eu não entendo como ele pôde partilhar conosco de um festim sagrado à mesa de Berdi em um momento e ameaçar matar a nós duas no instante seguinte... Como foi que ele pôde...?
Nós duas ficamos paralisadas. Nós ouvimos o relinchar de um cavalo. Levei o dedo aos lábios.
— Você veio cavalgando até aqui? — sussurrei.
Pauline balançou a cabeça. Eu também não tinha ido até ali de cavalo. Era uma caminhada curta, e era mais fácil passar furtivamente pelo bosque à pé, sem ser vista.
— Será que alguém seguiu você?
Ela arregalou os olhos, e fiquei chocada ao ver que ela havia sacado uma faca. Pauline nunca havia carregado uma arma antes na vida. Saquei a minha também.
Passadas pesadas raspavam nos degraus de pedra do lado de fora da porta. Tanto eu quanto Pauline nos levantamos, e então a porta se abriu.

9 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!