16 de fevereiro de 2018

Capítulo 51

— Vou fazer sua mudança amanhã para um quarto próximo aos meus aposentos. Os criados vão vir buscar suas coisas. Isso tornará mais conveniente uma vez que o casamento tenha sido realizado. — Conveniente. Minha pele formigava. Eu sabia o que ele queria dizer com conveniente.
Era estranho que eu encontrasse conforto nos aposentos de Kaden, mas era o que eu sentia. Eu sabia que podia confiar nele pelo menos quanto a certas coisas... até mesmo quando ele estava bêbado como um gambá. Seus aposentos também tinham uma passagem secreta. Eu duvidava que minha nova câmara teria uma.
Nós deixamos nossos cavalos com os guardas na beirada externa de um grupo de árvores e o Komizar me guiou pelo bosque. As árvores tinham troncos finos e ficavam próximas umas das outras, mas eu podia ver onde uma trilha havia sido formada entre elas. Este local era visitado com frequência. O Komizar referia-se a ele como seu atalho pessoal. Depois de apenas uns poucos minutos de caminhada, a fileira de árvores teve fim e nós emergimos em um penhasco que dava para um vasto vale. Fitei-o, não sabendo ao certo o que estava vendo.
— É magnifico, não é?
Olhei para ele, cuja face estava reluzente. Era aqui onde sua paixão residia. Seu olhar contemplativo flutuava pelo vale. Tratava-se de uma cidade, mas nem um pouco como aquela da qual havíamos acabado de sair.
Esta era uma cidade de soldados. Milhares deles. O Komizar não notou que não lhe respondi, nem mesmo que eu nada havia falado, mas ele começou a, sistemicamente, apontar para as regiões de sua cidade como se as estivesse listando.
Havia as terras de criação.
As fundições.
As forjas.
Os arsenais.
Os alojamentos.
As oficinas produtoras de flechas.
As tanoarias.
Os celeiros.
Os campos de testes.
Ele seguiu falando, e mais, e mais.
Tudo era no plural.
A cidade estendia-se até o horizonte.
Eu não precisava perguntar para que servia tudo aquilo. Exércitos serviam somente a dois propósitos: defender ou atacar. Eles não estavam aqui para defender algo. Ninguém queria entrar em Venda. Eu tentei ver somente o que estava acontecendo nas terras de realização de testes, mas estas ficavam muito longe. Apertei os olhos e soltei um suspiro.
— Tudo que estou vendo daqui é uma cidade que se esparrama. Podemos olhar mais de perto?
Feliz, ele me conduziu por uma trilha serpeante abaixo, até o piso do vale. Ouvi o barulhento ruído do ferro sendo martelado em bigornas. Eu estava cercada pelo zunido da cidade, zunido este cheio de determinação e propósito. Ele andou comigo em meio aos soldados, e vi os rostos deles, meninos e meninas, muitos tão jovens quanto Eben.
O Komizar andava rapidamente, de forma que eu não podia parar e conversar com qualquer um deles, mas ele se certificou de que eles soubessem quem e o que eu era: um sinal de que os deuses favoreciam Venda. Suas faces jovens viravam-se com curiosidade enquanto passávamos por eles.
— Há tantos deles — falei, como uma tola, mais para mim mesma do que para o Komizar.
A imensidão disso tudo era chocante.
As patrulhas estavam sendo assassinadas. Eles estavam escondendo alguma coisa. Alguma coisa importante.
Isso. Um exército duas vezes maior do que o de qualquer reino.
Ele me levou até o topo de uma colina nivelada que dava para outra extensão de vale. Trincheiras e baluartes cercavam-na. Fiquei observando enquanto soldados giravam grandes dispositivos até o meio do campo, mas as estranhas máquinas não ofereciam qualquer pista de seus propósitos, até que eles começaram a fazer uso delas. Flechas voavam em velocidades estonteantes, um borrão no ar enquanto um soldado girava uma manivela. Uma parede de flechas estava sendo totalmente lançada por um único homem. Não parecia com qualquer coisa que eu houvesse visto antes.
Depois disso, veio um outro campo de testes. E mais um. Essas armas tinham uma sofisticação que não era compatível com a frugal e crua vida dos vendanos.
Ele me puxou junto com ele em seu zelo, e foi este último campo que me fez ficar paralisada com o terror.
— O que são eles? — perguntei.
Fiquei encarando os cavalos com faixas douradas, que eram duas vezes maiores em circunferência do que os outros cavalos e pelo menos uns viste palmos mais altos, cujos olhos pretos eram selvagens, e cujas narinas soltavam um vapor feroz no ar frio.
— Brezalots — foi a resposta dele. — Eles têm disposições horríveis e não são bons para cavalgar, mas correm muitíssimo quando cutucados. A dele deles é espessa. Nada fará com que parem. Quase nada.
Ele chamou de longe um soldado para que fizesse uma demonstração. O soldado amarrou um pequeno embrulho às costas do cavalo e então cutucou sua traseira com um espeto afiado. Sangue esguichou do seu traseiro, mas o cavalo correu muitíssimo, exatamente como o Komizar disse que o animal faria, e, ainda que soldados ao longo da lateral do campo lançassem flechas nele, as flechas não penetravam sua espessa pele. Ele não parou.
O animal seguiu em frente pelo campo, diretamente entre pequenos montes de feno, e então se seguiu um ruído ensurdecedor e uma bola de fogo cegante. Uma chuva de feno em chamas caía. Lascas de madeira junto com pedaços do cavalo caíam com um som oco no chão. Era como se um pote de óleo tivesse explodido, só que com mil vezes mais potência. Pisquei, chocada demais para me mover.
— É impossível fazê-los parar. Um cavalo desses pode derrubar um esquadrão inteiro de homens. É incrível o que a combinação certa de ingredientes é capaz de fazer. Nós os chamamos de nossos Garanhões da Morte.
O gelo foi descendo pela minha coluna.
— E como vocês ficaram sabendo qual seria a combinação certa de ingredientes? — perguntei.
— Estava bem debaixo dos nossos narizes o tempo todo.
Ele não precisava dizer mais. Os provedores de conhecimento. Era por isso que eles se escondiam nas cavernas e nas catacumbas. Eles estavam revelando os segredos dos Antigos e fornecendo ao Komizar a receita para a destruição de Morrighan. O que será que ele havia prometido a eles em troca de seus serviços? Seu próprio pedaço de Morrighan? Qualquer que fosse o preço, grande ou pequeno, nunca poderia valer as vidas que seriam perdidas.

* * *

Nós fomos então para mais campos, mas agora eu mal os via, tentando imaginar como um exército poderia estar à altura do que eu tinha acabado de ver. Por fim, estávamos parados na base de cinco celeiros que se erguiam, como paredes de aço polido que eram cegantes ao sol. Estes eram imensos armazéns de comida às margens de uma cidade que queria alimentos.
— Por quê? — perguntei.
— Grandes exércitos marcham com as barrigas cheias. Homens e cavalos precisam ser alimentados. Há quase o suficiente aqui para fazerem marchar cem mil soldados.
— Marchar até onde? — perguntei, na esperança de que, pela graça dos deuses, eu pudesse estar errada.
— Onde você acha, Princesa? — ele me perguntou. — Logo os vendanos não estarão mais à mercê de Morrighan.
— Metade desses soldados são crianças.
— Jovens, não crianças. Apenas morrigheses têm o luxo de mimar bebezinhos bochechudos. Aqui eles são músculo e suor como o restante das pessoas, fazendo suas partes para alimentar um futuro para todos nós.
— Mas... a... perda. Vocês ainda perdem pessoas — falei. —Especialmente os jovens.
— Provavelmente metade deles, mas a única coisa que não falta em Venda são pessoas. Quando eles morrem, morrem felizes pela causa, e sempre há mais para substituí-los.
Fiquei ali, parada, pasma, absorvendo a grandiosidade dos planos dele. Eu havia imaginando que eles estavam planejando alguma coisa. Um ataque a um posto avançado. Alguma coisa. Mas não isso.
Busquei pensar em alguma coisa a ser dita, mas eu sabia minha súplica seria fútil antes que ela deixasse minha língua. Ainda assim, as palavras saíram, fracas e já derrotadas.
— Eu poderia conseguir implorar junto ao meu pai aos outros reinos. Eu vi como é a luta de Venda. Eu poderia convencê-los. Há terras férteis no Cam Lanteux. Eu sei que eu conseguiria achar uma maneira de fazer com que eles deixassem que vocês se assentassem por lá. Há boas terras para serem cultivadas naquele lugar. O bastante para que vocês todos...
— Você, implorar junto a alguém? Você é uma inimiga odiada de dois reinos agora, e, ainda que fosse capaz de convencê-los, eu tenho aspirações bem maiores do que ser arrastado por uma forqueta e arreios. O que é um Komizar sem um reino para governar? Ou muitos reinos? Não, você não vai implorar por qualquer coisa que seja.
Agarrei os braços dele, forçando-o a olhar para mim.
— As coisas não têm de ser assim entre os reinos.
Um fraco sorriso iluminava o rosto dele.
— Sim, minha Princesa, as coisas têm que ser assim. Sempre foi assim e sempre será, só que agora seremos nós que exerceremos poder sobre eles.
Ele soltou-se da minha pegada, e seu olhar contemplativo voltou-se novamente para sua cidade, com seu peito sendo inflado, sua estrutura crescendo diante dos meus olhos.
— É minha vez agora de me sentar em um trono dourado em Morrighan e de comer uvas doces no inverno. Se quaisquer membros da realiza sobreviverem à nossa conquista, me dará um grande prazer trancafiá-los neste lado do inferno para que lutem com baratas e ratos para encherem suas barrigas.
Fiquei fitando o intenso poder que reluzia em seus olhos, que era bombeado por suas veias no lugar do sangue e que batia em seu peito no lugar de um coração. Minha súplica por um meio-termo era uma diafonia para os ouvidos dele, uma linguagem longamente apagada de sua memória.
— Bem? — ele me perguntou.
Uma grandiosidade terrível rolava pela terra.
Uma nova grandiosidade terrível.
Eu disse a única coisa que poderia dizer. O que eu sabia que ele queria ouvir.
— Você pensou em tudo, sher Komizar. Estou impressionada.
E, de um jeito sombrio e assustador, eu estava mesmo impressionada.

6 comentários:

  1. Uma coisa engraçada é q quando ela fala "sher Komizar" lembra como os alemães falam "herr Hitler"

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  2. KKKKKKKK né, mas tipo msm sendo um livro kkk o komizar é muito mais bonito kkkk imaginado aqui 😂😂😂😂

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  3. Fui a única q reparou q a Lia e oo komizar são parentes cara ele são decendedes de venda ela praticamente tatatara......subrinha e ele tatatara......neto cara que coisa estranha

    Mirtiz

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    1. O Komizar não é descendente de Venda. Lá o governo não é hereditário, ele se tornou o Komizar pq matou o Komizar anterior, não porque é filho dele (e, assim, descendente de Venda)

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  4. Queria saber como seria o Komizar narrando, saber o que ele pensa seria bem interessante!

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  5. Também queria ver a narração dele. E gente se conseguirmos olhar pela lógica deles podemos entender o quanto é sua raiva dos outros reinos. Imagina ter que viver nessa terra infértil e ver seus filhos morrem de fome. Desde qur o mundo é mundo os mais fracos sempre foram subjugados por aqueles que se achavam mais fortes. Esse livro é lindo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!