20 de fevereiro de 2018

Capítulo 50

Apenas uma lua da meia-noite dava contorno à sala. Um cinza fraco definia as linhas do cálice ornamentado de peltre que repousava na minha mão. Coloquei-o de volta no armário antigo, junto com outras lembranças de anos de serviço. Um medalhão da Eislândia, uma concha dourada do mar de Gitos, um urso esculpido de jade de Gastineux. Símbolos únicos de todos os reinos do continente, exceto, é claro, Venda, com o qual não havia qualquer relação diplomática. Os deveres do Vice-Regente como cônsul levavam-no a muitas e longas viagens. Eu não havia visto o homem reclamar disso, mas o prazer que ele expressava ao voltar para casa dizia muito sobre os infortúnios de suas viagens.
Fechei a porta do armário e sentei-me em uma cadeira no canto. Esperando. A escuridão oferecia um conforto quieto. Eu quase conseguia me esquecer de onde estava, exceto pela espada que jazia em meu colo.
Eu estava ficando sem opções. Era cada vez mais difícil sair sorrateiramente pela cidadela e, lá pela quarta noite, tive que mudar e ir para a abadia. Os cidadãos me encontraram lá. Sem dúvida o gabinete teria guardas estacionados na abadia esta noite também.
Na primeira noite em que eu recitei as memórias sagradas sobre o pórtico, foi um milagre que eu tenha conseguido fugir. Eu estava mais cuidados agora, porém, naquela noite, fui impulsiva e desvanecida. Eu havia ficado com vários nós no estômago. Todas as minhas palavras cuidadosamente planejadas tinham desaparecido. Depois de ver a minha mãe com o Erudito Real, o pesar me cortara como se fosse uma faca afiada, retalhando tudo pelo o que eu havia esperado: uma reunião cheia de lágrimas. Uma explicação há muito merecida Um mal-entendido. Alguma coisa. Em vez disso, eu me deparei com o Erudito Real parado, em pé ao lado da minha mãe, e obtive uma confissão de conspiração e um guarda sacando a espada. Trinta loucos segundos com ela se tornaram uma traição da pior espécie, e a coisa mais dolorosa e que me deixava mais perplexa era que eu ainda sofria por ela.
Ouvi passadas na câmara externa. Ajustei a minha mão na espada. Eu nada tinha a perder com esse encontro e talvez tivesse algo a ganhar, mesmo que fosse pouco. Eu já tinha feito buscas nos escritórios do Chanceler e do Erudito Real, na esperança de encontrar algum tipo de evidência. Uma carta. Qualquer coisa. Estes aposentos estavam limpos e ordenados de forma suspeita, como se buscas já tivessem sido realizadas neles e como se tivessem sido esvaziados de qualquer objeto incriminador. Procurei até mesmo nas cinzas das lareiras, sabendo que essa era a forma como eles tentaram fazer com que as coisas desaparecessem no passado, e encontrei pequenos pedaços de papéis tostados, mas nada além disso.
O escritório do Vice-Regente estava entulhado, e sua escrivaninha era um oceano de papéis que clamavam pela sua atenção, além de uma carta quase terminada para o ministro do comércio e algumas recomendações para serem assinadas e seladas por ele. Nada havia sido buscado ali.
As passadas foram se aproximando, e a porta do escritório se abriu, com um triângulo amarelo iluminando brevemente o chão à frente, até que foi fechada novamente. Ele cruzou a sala com passadas leves, e um aroma suave entrou com ele. Seria colônia? Eu havia me esquecido dos cheiros perfumados e mimados da corte. Em Venda, o conselho, na maior parte do tempo, cheirava a suor e cerveja. Ouvi o amo mover ruidoso da cadeira altamente estofada enquanto ele se sentava, e então o homem acendeu uma vela. Ele ainda não tinha me visto.
— Olá, lorde Vice-Regente.
Ele ficou alarmado e começou a se levantar.
— Não — falei, baixinho, mas com firmeza. — Não faça isso.
Avancei na luz para que ele pudesse ver a espada casualmente repousada no meu ombro. Ele olhou para a arma e voltou ao seu lugar, dizendo, simplesmente:
— Arabella.
A expressão dele era solene, mas a voz estava baixa e uniforme, desprovida de pânico, exatamente como pensei que seria. O guardião do tempo estaria rodando em círculos e gritando a essa altura, mas o Vice--Regente não era propenso à histeria como outros membros do gabinete. Ele nunca estava com pressa. Me sentei na cadeira em frente à dele.
— Você vai apontar essa coisa para mim o tempo todo? — ele perguntou.
— Ela não está apontada. Acredite em mim, se estivesse, você saberia... e sentiria. Na verdade, estou lhe proporcionando um pouco de dignidade. Sempre gostei mais de você do que dos outros membros do gabinete, mas isso não quer dizer que você não seja um deles.
— Um deles, Arabella?
Tentei medir a inocência da resposta dele. Neste momento, não importava se ele alguma vez tivesse sido bondoso comigo. Eu odiava o fato de que não poderia me arriscar nem mesmo uma vez que fosse em ser bondosa. Eu não poderia confiar em ninguém.
— Você é um traidor, Vice-Regente? — perguntei a ele. — Como o Chanceler e o Erudito Real?
— Não sei ao certo do que você está falando.
— De traição, lorde Vice-Regente. Traição nos mais altos níveis. Acho que o Chanceler ficou cansado das bugigangas nos seus dedos. E vá saber o que o Erudito Real ganhava com isso. Uma coisa que aprendi com nosso querido Komizar é que tudo se resume a poder e a uma fome insaciável por ele.
Contei ao Vice-Regente sobre os eruditos morrigueses em Venda, ajudando o Komizar a armar e a formar um exército colossal. Enquanto eu explicava essas coisas a ele, eu observava com cuidado os seus olhos, a sua face, as suas mãos. Tudo que eu via ali era surpresa, descrença e possivelmente um certo nível de medo, como se eu fosse insana. Quando terminei, ele se sentou relaxado na cadeira, balançando a cabeça levemente, ainda absorvendo tudo que eu havia dito.
— Um exército bárbaro? Eruditos em Venda? Essas são alegações um tanto quanto... fantásticas, Arabella. Não sei posso ir até o gabinete armado apenas acusações contra membros honrados dele, especialmente com essas acusações vindas, lamento dizer, de você. Eu seria colocado para fora do saguão às gargalhadas. Você tem alguma evidência de tudo isso?
Não queria admitir que não tinha evidências. Pensei em Kaden, que na verdade havia visto o exército, nos eruditos nas cavernas, e intimamente eu sabia dos planos do Komizar, mas a palavra de um Assassino vendano seria tão risível quanto a minha.
— Pode ser que eu tenha — respondi. — E então vou expor o Dragão de muitas faces.
Ele olhou para mim, com a confusão enrugando seu rosto.
— Um dragão? Do que é que você está falando?
Ele não estava familiarizado com a frase. Ou pelo menos fingiu não estar. Balancei a cabeça para dispensar a pergunta dele e me levantei.
— Não se levante... este não é um pedido educado.
— O que quer de mim, Arabella?
Olhei para ele, analisando todos os ângulos da sua face, todas as tremulações dos seus cílios.
— Quero que você saiba que há traidores aqui, e se você for um deles, vai pagar por isso. Pagará um preço tão alto quanto o meu irmão pagou. Não fui eu quem o matou. Foram aqueles tolos que conspiram com o Komizar.
Ele franziu o rosto.
— Os tolos conspiradores de novo. Se eles existem, como está dizendo, eles conseguiram esconder isso de mim, então talvez não sejam tão tolos quanto você pensa.
— Acredite em mim — falei — eles não são nem metade tão sagazes quanto o Komizar, nem metade tão inteligentes. Eles são tolos de acreditarem que o Komizar manteria qualquer acordo que tivessem feito com ele. O Komizar não partilha nada, menos ainda o poder. Eles nunca verão o que quer que ele tenha prometido, e acho que pode ser o trono de Morrighan. Uma vez que o Komizar os tiver usado para os propósitos dele, eles estarão acabados. E o mesmo acontecerá conosco.
Eu me virei para ir embora, mas ele rapidamente se inclinou para a frente, com a luz da vela iluminando uma mecha loira solta dos seus cabelos que caíam sobre a testa. Seus olhos estavam sinceros.
— Espere! Por favor, Arabella, fique. Deixe-me ajudá-la. Eu sinto muito por não ter defendido você mais vigorosamente. Também cometi erros, no passado... erros de que me arrependo. — Ele se levantou. — Eu tenho certeza de que podemos resolver isso se...
— Não — falei, erguendo a espada.
O cheiro pairava no ar de novo, uma onda de um aroma tão fraco que mal estava lá, mas aquilo me inquietava de um jeito profundo e distante. Era jasmim. O pensamento foi se escavando mais a fundo. Jasmim. Na mesma respiração, vi um garotinho agarrando-se às calças do pai, implorando para ficar.
Sabão de jasmim.
Senti um solavanco com o choque do impossível. Olhei boquiaberta para o Vice-Regente, encarando-o como se o estivesse encontrando pela primeira vez. Seus cabelos de um loiro-branco. Seus calmos olhos castanhos. O suave tremor da sua voz flutuando pela minha cabeça. E então outra voz de timbre similar. Eu era um filho bastardo de um lorde de nascimento nobre.
Minha respiração ficou congelada nos pulmões. Como eu nunca tinha percebido aquilo antes?
Nunca tinha ouvido aquilo antes?
O Vice-Regente era o pai de Kaden, um homem tão cruel quanto o Komizar, que batia no filho e que o vendera por um cobre.
Ele me fitou, esperando, esperançoso.
Mas será que era um traidor?
Também cometi erros no passado... erros de que me arrependo.
A preocupação passou em um lampejo pelos olhos dele.
Seria preocupação comigo?
Ou preocupação porque eu descobrira o seu segredo?
— Por que eu algum dia confiaria em um homem que jogou o próprio filho de oito anos de idade fora como se fosse lixo?
Ele arregalou os olhos.
— Kaden? Kaden está vivo?
— Sim, vivo e ainda marcado por cicatrizes. Ele nunca se curou da sua traição.
— Eu... — A face dele ficou enrugada, como se ele estivesse chocado, e o homem se inclinou para frente, com a cabeça apoiada nas mãos. Ele murmurou alguma coisa baixinho pra si mesmo e então disse: — Eu procurei por ele durante anos. Sabia que havia cometido um erro no minuto em que aquilo foi feito, mas não consegui encontrá-lo. Presumi que estivesse morto.
— Procurou por ele depois de tê-lo vendido por um cobre a estranhos?
Ele ergueu os olhos, que estavam marejados.
— Eu não fiz uma coisa dessas! Foi isso que ele disse que eu fiz? — Ele voltou a se reclinar na cadeira, parecendo fraco e exausto. — Eu não ficaria surpreso com isso. Ele era urna criança que estava sofrendo com o luto, que acabara de perder a mãe. Eu quis voltar atrás naquela decisão uma centena de vezes, mas também estava sofrendo com o luto.
— E que decisão foi essa?
Ele apertou os olhos e os fechou, como se uma dolorosa lembrança o atormentasse.
— Eu estava preso em um casamento sem amor. Eu não pretendia que o meu caso com Cataryn acontecesse, mas acabou acontecendo. Minha esposa tolerava o arranjo porque ela não tinha nenhum uso para mim e porque Cataryn era boa para os nossos filhos, porém, depois que ela morreu, minha esposa não queria ver Kaden. Quando tentei mudá-lo para dentro da nossa casa, ela deu urna surra nele, em um rompante de fúria. Eu não sabia mais o que fazer. Para o próprio bem dele, entrei em contato com o único parente de Cataryn, um tio distante que concordou em recebê-lo e ficar com ele. Fui eu que dei dinheiro para ele cuidar de Kaden. Quando fui visitar o meu filho, o tio e sua família não estavam mais lá.
— Essa é uma história bem diferente da contada por Kaden.
— O que mais você esperaria, Arabella? Ele tinha apenas oito anos de idade. Em poucos dias, o mundo dele virara de cabeça para baixo: sua mãe morrera e seu pai o enviara para morar com estranhos. Onde ele está? Aqui?
Mesmo se eu soubesse onde Kaden estava, não revelaria isso ao Vice-Regente... não ainda.
— Da última vez em que o vi, ele estava em Venda: ele era um cúmplice do Komizar.
A descrença reluzia nos olhos dele, e saí dali antes que o homem pudesse me fazer mais uma pergunta.

6 comentários:

  1. MDS!! Para tudoooo..Turbilhões de coisas ,passando em minha mente agora..
    Será??

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  2. Ele ta mentindo menina burra

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  3. Nao acho q ele esteja mentindo o kaden disse q a mulher lá odiava ele é q qom q ela sofreu mas quem matou o irmão mais velho do kaden ?? Quero q seja vdd q o lorde falou a vdd e q queira encontrar o filho

    Mirtiz

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  4. Eu acho que ele pode estar falando a verdade, o Kaden era pequeno e acho que ele possa sim ter descoberto que o tal parente foi embora com o dinheiro que lhe deu e vendeu o Kaden como ele se lembra assim espero que tenha realmente sido!? E espero que a Lia possa confiar o no pai do Kaden. Eu acho que a mãe da Lia é AMANTE do cretino Erudito-Real, mas como pode fazer isso com a filha e seu povo essa mulher merece a mote! Espero que o Kaden apareça logo e bem e que o Rafe não aceite se casar com essa menina isso é loucura!!!? DM

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  5. To achando q o komizar fez a cabeca do kaden contra o pai

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Boa leitura, E SEM SPOILER!