16 de fevereiro de 2018

Capítulo 50

O grande dia que o Komizar me prometera começou com provas de um vestido de casamento. Eu estava em pé em um bloco de madeira, em uma longa e sombria galeria não muito longe de seus aposentos. Um fogo rugia na lareira na extremidade da sala, afastando um pouco o frio. Todos os dias haviam ficado mais frios, e uma pequena poça de água no peitoril da minha janela, da chuva da noite passada, havia virado gelo.
Fiquei observando hipnotizada enquanto as chamas lambiam o ar. Eu quase havia contado a Kaden na noite passada. Cheguei perto de fazer isso, mas quando ele me disse que se tratava de um jogo que eu não tinha como ganhar, temi que ele estivesse certo. Bastaria um passo em falso.
Uma confissão estava na ponta da minha língua, mas então a troca de palavras presunçosas entre Kaden e o Komizar ao fim da noite havia passado com um lampejo pela minha cabeça. Há um forte elo entre eles. Eles têm uma longa história juntos.
Eu quase podia admirar o Komizar por seu brilhantismo.
Quem melhor para ter como seu Assassino do que Kaden, tão intensamente leal, tão leal a ponto de nunca desafiar o Komizar? Tão leal a ponto de que ele colocaria uma faca de lado até mesmo em um acesso de fúria. Kaden sempre teria uma dívida com o Komizar, um Assassino que não era capaz de esquecer a traição de seu próprio pai e que nunca repetiria sua traição, mesmo que isso lhe custasse a vida.
— Vire-se — instrui-me Effiera. — Pronto. É o bastante.
O exército de costureiras era uma distração bem-vinda. Embora não fosse costumeiro ter um vestido especial em casamentos vendanos, o Komizar havia ordenado que um vestido especial fosse feito, e desejava supervisionar a prova do vestido enquanto estava sendo realizada. Ele emitiria sua aprovação antes que o trabalho final começasse. Era para ser um vestido feito por muitas mãos para honrar o clã dos Meurasi, mas ele havia especificado que a cor deveria ser vermelha, sobre o que Effiera e as outras costureiras haviam discutido a manhã toda, tentando encontrar exatamente a mistura certa de tecidos e não parecendo satisfeitas com o que viam. Elas juntavam retalhos de veludos, brocados e camurça tingida.
Elas empurravam e espetavam suas peças, e um vestido finalmente tomava forma em mim enquanto alfinetavam e retiravam alfinetes, com um nervosismo não natural em seu trabalho. Elas estavam acostumadas a fazer vestidos em suas tendas na jehendra, e não sob a supervisão do Komizar.
Todas as vezes em que ele dizia “Hummm” e balançava a cabeça, uma das costureiras deixava cair seus alfinetes. No entanto, os comentários dele não eram desagradáveis nem raivosos, ele na verdade parecia preocupado com alguma outra coisa. Esse era um lado dele que eu não tinha visto antes. Ficamos todas gratas quando Ulrix o chamou para cuidar de uma questão, embora ele prometera voltar logo. Elas trabalharam com rapidez enquanto ele estava fora para terminar as longas e justas mangas do vestido, e dessa vez pelo menos eu tinha duas, mas meu ombro ainda estava cuidadosamente desnudo, de modo a exibir o kavah.
— O que vocês sabem sobre a garra e a vinha? — perguntei a elas.
Todas as mulheres ficaram em silêncio.
— Apenas o que nossas mães nos contaram — disse, por fim, baixinho, Effiera. — Foi-nos dito que devíamos ficar atentas em relação a isso, que seria a promessa de um novo dia para Venda: a garra, rápida e feroz; a vinha, lenta e firme; ambas igualmente fortes.
— E quanto à Canção de Venda?
— Qual delas? — perguntou Ursula.
Elas me disseram que havia centenas de canções de Venda, exatamente como Kaden havia me falado. As canções escritas haviam sido destruídas havia muito tempo, mas isso não impedia que as palavras delas viessem em memórias e histórias, embora tivessem poucos que se lembrassem delas agora. Pelo menos eles tinham conhecimento da garra e da vinha, e os clãs que conheci nas terras baixas e nas terras altas também tinham conhecimento do nome Jezelia. Uma expectativa corria por eles. Pedaços das canções de Venda estavam vivos, no ar, e enraizados em alguma parte profunda do entendimento deles. Eles sabiam.
Todas as canções escritas, destruídas. Exceto aquela que eu tinha em minha posse. E alguém havia tentado destruí-la também.
A porta abriu-se, e as mulheres ficaram alarmadas, esperando verem o Komizar, mas era Calantha.
— O Komizar está ocupado. Pode levar um tempinho para ele estar de volta. Ele deseja que as costureiras esperem na câmara ao lado até que esteja pronto para elas novamente.
As mulheres não perderam tempo em seguirem as instruções e saíram correndo, apressadas, com punhados de tecidos nos braços, até o aposento ao lado.
— E quanto a mim? — perguntei. — Devo ficar esperando, presa em um vestido cheio de alfinetes até que ele decida voltar?
— Sim.
Grunhi e inspirei, fervendo de raiva.
Calantha sorriu.
— Quanta hostilidade. Uma espera desconfortável não vale a pena por seu amado?
Olhei para ela, cansada de seu sarcasmo, e formulei uma resposta pungente, mas, de súbito, essa resposta demorou-se nos meus lábios enquanto eu a fitava. Ela sempre estava tentando me odiar. Minhas próprias palavras voltavam a mim. Eu acho que você está mexendo com um pouco de poder. Poder este que Calantha tinha medo de exercer. Ela era como um gato selvagem dando a volta em círculos por um buraco, tentando encontrar uma forma de pegar a isca sem cair na armadilha.
Ela se virou para ir embora de forma abrupta, como se soubesse que eu havia tido um vislumbre de seu segredo.
— Espere — falei, pulando de cima do bloco. Segurei-a pelo pulso, e ela fitou a minha mão, como se meu toque a queimasse. Eu me dei conta de que, além de um cutucão rígido nas minhas costas, eu nunca havia visto Calantha tocar em ninguém.
— Por que você ajudou o Komizar a matar o seu próprio pai? — perguntei a ela.
Por mais pálida que Calantha já fosse, ela ficou lívida.
— Não cabe a você fazer esse tipo de pergunta.
— Eu quero entender isso, e sei que você quer me contar.
Ela puxou seu pulso, soltando-o.
— Essa é uma história feia, Princesa. Feia demais para seus delicados ouvidos.
— É porque você o ama?
— O Komizar? — Uma risadinha escapou dos lábios dela, que balançou a cabeça em negativa, e eu quase podia ver alguma coisa maior e entorpecedora agitar-se e soltar-se dentro dela.
— Por favor — falei. — Eu sei que você tanto me ajudou quanto me atrapalhou. Você está batalhando com alguma coisa. Eu não vou trair você, Calantha. Eu juro.
O ar estava tenso. Prendi a respiração, temendo que o menor dos movimentos fosse afastá-la de novo de mim.
— Sim, eu o amo — admitiu ela — mas não do jeito que você está pensando.
Ela cruzou o aposento e ficou com o olhar fixo janela afora por um bom tempo, e então, por fim, ela se voltou para mim. Sua voz soava vazia, como se ela estivesse falando de alguma outra pessoa. Ela era a filha de Carmedes, um membro dos Rahtans. A mãe dela fora uma cozinheira no Sanctum que morrera quando ela era pequena. Quando Calantha tinha 12 anos, Carmedes tomou o poder e tornou-se o 6.980º Komizar de Venda. Ele era um homem desconfiado, com a mão pesada e o temperamento curto, mas ela conseguia, na maior parte do tempo, evitá-lo.
— Eu tinha 15 anos quando me apaixonei por um menino do clã dos Meurasi. Ele me contou histórias de outros tempos e de outros lugares que me faziam esquecer da minha própria vida miserável. Nós tomávamos cuidado para que o nosso relacionamento continuasse em segredo e conseguimos fazer isso por quase um ano. — O peito dela ergueu-se em várias respirações antes que ela prosseguisse. — No entanto, um dia, meu pai nos pegou juntos no estábulo dos criados. Ele não tinha qualquer motivo para ficar com raiva. Ele pouco se importava comigo, mas teve um rompante de fúria.
Ela se sentou em uma das banquetas das costureiras e me contou que, naquela época, nosso atual Komizar era o Assassino. Ele era um jovem de 18 anos, e havia encontrado a ambos sangrando na palha. O menino estava morto, e ela, quase morta. O assassino tomou-a nos braços e mandou chamar um curandeiro.
— As feridas desapareceram, os ossos curaram-se, os pedaços arrancados dos meus cabelos cresceram de novo, mas algumas coisas se foram para sempre. O menino e...
— Seu olho.
— Meu pai veio me ver uma vez durante as semanas em que fiquei de cama. Ele olhou para mim e disse que, se eu fizesse uma coisa como aquela de novo, ele arrancaria meu outro olho e os dentes também. Ele não queria mais bastardos correndo pelo Sanctum. Quando consegui andar novamente, fui até o Assassino, abri a palma da mão dele e coloquei a chave da câmara de reuniões particular do meu pai ali, e jurei minha lealdade a ele. Para sempre. Na manhã seguinte, meu pai estava morto.
Ela levantou-se, puxando seus ombros para trás, parecendo pálida.
— Então, se você me vê tanto sondando quanto a afastando, Princesa, é porque, em alguns dias, eu vejo o homem que o Komizar se tornou e, em outros, eu me lembro do homem que ele era.
Ela virou-se e foi andando até a porta, mas eu a chamei assim que ela abriu.
— Para sempre é muito tempo — falei. — Quando você vai se lembrar de quem é, Calantha?
Ela fez uma breve pausa sem responder e depois fechou a porta atrás de si.

* * *

Eu ficara esperando por tanto tempo que mal notei quando a porta se abriu novamente. Era o Komizar, cujo olhar contemplativo pousou no vestido primeiro e depois para o meu rosto. Ele fechou a porta e deu mais uma longa olhada em mim.
— Já estava na hora — falei.
Ele ignorou meu comentário, demorando-se ao se aproximar. Passou os olhos de leve por mim, tocando-me de formas que deixavam minhas bochechas quentes.
— Eu acho que fiz uma boa escolha — disse ele. — O vermelho cai bem em você.
Tentei o meu melhor para menosprezar isso.
— Ora, Komizar, você está realmente tentando ser bondoso?
— Eu posso ser bondoso, Lia, se você permitir.
Ele deu um passo mais para perto de mim, com os olhos derretidos.
— Devo chamar as costureiras de volta? — perguntei a ele.
— Ainda não — disse ele, aproximando-se a passos lentos.
— Não é fácil se mexer em um vestido preso com alfinetes.
— Não quero que você se mexa. — Ele parou na minha frente e passou um dedo gentil pela manga do meu vestido. O peito dele ergueu-se em uma profunda e controlada respiração. — Você foi longe desde aquele vestido de aniagem que trajava quando chegou.
— Aquilo não era um vestido. Era um saco.
Ele sorriu.
— Era mesmo. — Ele esticou a mão para cima e puxou um alfinete do vestido. O tecido no ombro soltou-se e caiu. — Assim fica melhor?
Meus pelos ficaram eriçados.
— Guarde suas seduções charmosas para a nossa noite de núpcias.
— Eu estava sendo charmoso? Devo tirar outro alfinete?
Dei um passo para trás, o que eu odiava fazer, por medo de que isso fosse encorajá-lo. Tentei mudar de assunto e notei que ele havia trocado de roupa, estava com vestes de cavalgada.
— Você não deveria estar fazendo alguma outra coisa agora mesmo? Não tem algum outro lugar onde precisa estar?
— Não.
Ele deu um passo para a frente, esticando a mão para pegar um outro alfinete, mas bati na mão dele para que a tirasse dali.
— Você está tentando me seduzir ou forçar-se para cima de mim? Visto que concordamos em ser honestos um com o outro, eu gostaria de saber de antemão, para que possa decidir como proceder.
Ele agarrou os meus braços, e eu me encolhi com os espetos dos alfinetes em minha carne. Ele me puxou para perto de si e pressionou seus lábios junto ao meu ouvido.
— Por que você mostra ao Assassino suas afeições e não ao seu noivo?
— Porque Kaden não exigiu minhas afeições. Ele as fez por merecer.
— Eu não fui bom com você, Jezelia?
— Você já foi bom — sussurrei junto à bochecha dele. — Eu sei que foi. E tinha um nome. Reginaus.
Ele recuou como se eu tivesse jogado água fria nele.
— Um nome de verdade — continuei falando, sentindo uma rara vantagem. — Um nome que lhe foi dado por sua mãe.
Ele foi andando em direção à lareira, e seu ardor tinha desaparecido.
— Eu não tenho mãe — disse ele com raiva.
Estava evidente que eu havia aberto uma das poucas veias de sangue quente em seu corpo.
— Para mim, seria fácil o bastante acreditar que isso seja verdade — falei. — Parece mais provável que você tenha sido a cria de um demônio e de um buraco de madeira que estivesse disponível. Só que eu falei com a mulher que o segurava enquanto sua mãe grunhia e o trazia a este mundo. Ela me disse que sua mãe lhe deu seu nome com seu último suspiro.
— Nada há de especial em relação a isso, Princesa. Não sou o primeiro vendano cuja mãe morreu dando à luz.
— Mas é um nome. Uma coisa que ela lhe deu. Por que você se recusa a ser chamado pela última palavra que saiu dos lábios dela?
— Por que era um nome que não significava nada! — disse ele, enfurecido. — Que nada me trouxe! Eu era mais um moleque imundo nas ruas. Não era nada até que me tornei o Assassino. Aquele nome nada significava. Só havia um nome melhor. Komizar. Por que me contentar com Reginaus, um nome tão comum e útil quanto sujeira, quando existe uma alcunha que apenas um pode usar?
— Foi por isso que você matou o último Komizar? Apenas por causa de um nome? Ou foi para vingar a surra cruel de Calantha?
A fúria dele diminui, e ele olhou para mim com cautela.
— Ela contou isso a você?
— Sim.
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Isso não é típico de Calantha. Ela nunca fala sobre aquele dia. — Ele jogou uma outra tora no fogo e fitou as chamas. — Eu só tinha 18 anos. Jovem demais para tornar-me o próximo. Todos os dias. Eu imaginava... Komizar. — Ele virou-se e se sentou na lareira elevada. — E então Calantha surgiu. A maioria dos membros do Conselho gostava muito dela. Ela era uma bela flor naquela época, mas eles não se atreviam a chegar perto dela por temerem o Komizar. Ela ficou arruinada com a surra, marcada com cicatrizes por dentro e por fora, mas muitos membros do Conselho favoreceram a mim depois disso, porque salvei a vida dela. Quando Calantha jurou sua lealdade a mim, muitos membros do Conselho fizeram o mesmo. Aqueles que eu não havia eliminado. Eu tinha aprendido então que alianças não são apenas oferecidas, elas tem que ser cuidadosamente desenvolvidas. — Ele se levantou e veio andando mais para perto de mim. — Para responder à sua pergunta, um propósito simplesmente serviu ao outro. Vingar a surra que ela levou também me trouxe um nome que eu desejava.
Ele olhou com frieza para o vestido.
— Diga às costureiras que este daí terá que servir — disse ele, apresentando sua aprovação final. — E, Princesa, só para que você saiba, se trouxer à tona o nome Reginaus novamente, terei que fazer uma visita à parteira com a língua solta. Está me entendendo?
Abaixei bem a cabeça, em um único assentir.
— Não conheço ninguém com esse nome.
Ele abriu um sorriso e saiu.
E eu falei a verdade. Estava claro que o menino chamado Reginaus estava morto há tempos.

3 comentários:

  1. Até o Komizar caindo nos encantos de Lia?

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  2. O pior é que gosto dele tbm...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!