2 de fevereiro de 2018

Capítulo 50

As planícies de areias brancas desapareceram e foram substituídas pela areia da cor de céu queimado — tons de ocre de todos os matizes. Ainda estava quente de um jeito causticante, e o ar tremulava com ondas de calor, mas agora a paisagem oferecia uma variedade de rochas e formações extraordinárias.
Passamos por imensas blocos de pedra com grandes buracos redondos, como se uma cobra gigantesca os tivesse atravessado, e ainda havia outras que oscilavam, precárias, como se tivessem sido empilhadas por alguma mão colossal. Se eu algum dia fosse acreditar em um mundo de magia e gigantes, seria neste lugar. Aqui era o reino deles. Às vezes, chegávamos a uma alta cadeia montanhosa e víamos quilômetros de cânions multicoloridos e tão profundos que as águas que trilhavam por eles se tornavam finas fitas verdes.
Isso me fez imaginar e sentir a ânsia com a mesma sensação trazida por um céu negro pontilhado de estrelas reluzentes. Eu nunca soube da existência deste mundo peculiar. Havia tanta coisa além das fronteiras de Morrighan...
Meus captores ainda eram grossos e hostis, e, ainda assim, se eu virasse a cabeça de um certo modo e fizesse uma pausa, tremeluzindo os cílios como se estivesse vendo alguma coisa, eu me deleitava com a forma como atraía a atenção deles, que se remexiam, agitados em suas selas, e olhavam para o horizonte, de relance, taciturnos e sombrios. Kaden direcionava seus olhares sombrios para mim. Ele sabia que estava brincando com os medos dos outros homens e talvez se preocupasse com o poder que me concedera, mas não havia nada que ele pudesse dizer ou fazer em relação a isso. No entanto, eu usava essa influência sobre eles apenas de vez em quando, pois esperava a chegada de um momento em que isso me serviria melhor do que em longas extensões de vazio, onde não havia, aparentemente, nenhuma forma de fuga. Em algum ponto, talvez, uma porta se abriria para eu escapar.
Eu mantinha a noção dos dias que se passavam rabiscando linhas no couro de minha sela com uma rocha afiada. Eu não me importava com o rumo deles, queria saber apenas quanto tempo teria para descobrir uma forma de me livrar de suas garras. Parecia que estavam me levando deliberadamente pelos lugares mais solitários e desolados imagináveis. Seria todo o restante de Cam Lanteux assim? No entanto, se houve um erro de cálculo estratégico como aquele que cometeram na Cidade da Magia Negra, haveria outro — e, da próxima vez, eu estaria preparada. Da mesma forma que os olhos deles analisavam o horizonte em busca de visitantes inesperados, os meus também faziam isso.
Tentei não pensar em Rafe, porém, depois de horas de mesmice, horas de preocupação com Pauline, horas garantindo a mim mesma que ela ficaria bem, horas pensando em Walther, o lugar aonde ele estava indo e se tudo ficaria bem com ele, horas lutando com o nó na minha garganta, pensando em Greta e no bebê, minha cabeça, inevitavelmente, circulou de volta para Rafe.
Ele provavelmente estaria em casa agora, onde quer que a casa dele fosse, recomeçando a vida que uma vez teve. Eu entendo de deveres. Mas será que ele ainda pensava em mim? Será que me via em seus sonhos do jeito que eu o via? Será que revivia nossos momentos juntos como eu fazia? Então, como vermes escuros e escavadores, outros pensamentos me corroíam e eu me perguntava...
Por que ele não tentou me fazer mudar de ideia? Por que me deixou ir embora tão facilmente? Será que eu era apenas mais uma menina no caminho da estrada, mais um flerte de verão, algo de que se gabar em uma taverna tomando uma caneca de cerveja? Se Pauline podia ser ludibriada, será que o mesmo não poderia acontecer comigo?
Balancei a cabeça em negativa, tentando eliminar a dúvida. Não, não o Rafe. O que tínhamos era verdadeiro.
— Qual é o problema agora? — perguntou Kaden. Os outros também estavam me encarando.
Olhei para ele, confusa. Eu não tinha dito nada.
— Você estava balançando a cabeça.
Eles me observavam com mais atenção do que eu notara. Soltei um suspiro.
— Não é nada. — Dessa vez, eu não estava com ânimo para brincar com os medos deles.
Os abismos vermelhos e as rochas por fim deram lugar a contrafortes novamente, mas agora havia um brilho verde neles, que se aprofundava e crescia enquanto seguíamos viagem por um longo e sinuoso vale entre duas cadeias de montanhas. Aqui e ali surgiam os inícios de florestas, uma revelação gradual de outro mundo. Parecia que eu já tinha viajado até os confins da terra.
Ainda tínhamos um mês de jornada? Lembrei-me de ter olhado para o outro lado da baía em Terravin, para a linha que separava o oceano e o céu, e me perguntar: Será que alguém realmente viajaria tão longe a ponto de não encontrar mais seu caminho de volta para casa? Os lares brilhantes que cercavam a baía protegiam os entes queridos de ficarem perdidos no oceano. O que haveria de me proteger? Como eu algum dia encontraria meu caminho de volta?
Estava escurecendo. As montanhas em ambos os lados ficavam mais altas, e a floresta que nos cercava se tornava cada vez mais densa e comprida, mas avistei algo na extremidade do vale que era quase tão glorioso quanto uma patrulha.
Nuvens. Escuras, furiosas e abundantes. Seu negrume revolto marchava em nosso encontro como se fosse um exército retumbante. Até que enfim, um alívio do sol inclemente!
— Sevende! Ara te mats! — berrou Griz, e chutou seu cavalo para que entrasse em galope. Os outros fizeram o mesmo.
— Com medo de um pouco de chuva? — falei a Kaden.
— Dessa chuva, sim — foi a resposta dele.

* * *

Instigamos os cavalos a entrar naquilo que quase parecia um abrigo, feito de ruínas e árvores. Limpei a chuva dos olhos para conseguir ver o que estava fazendo.
— Entre, junte-se aos outros! — gritou Kaden mais alto do que o rugir do vento e o som ensurdecedor da chuva na floresta. — Vou tirar as selas dos cavalos e trazer os equipamentos!
Os sons estalados de trovão faziam meus dentes vibrarem. Já estávamos ensopados. Eu me virei para acompanhar os outros até a parte de dentro das ruínas escuras junto à montanha. O vento bagunçava meus cabelos e eu tinha que os manter para trás para poder enxergar o caminho. A chuva caía através de maior parte da estrutura, mas um relâmpago iluminou o esqueleto ossudo e revelou alguns cantos e nichos secos. Griz já estava tentando começar a fazer uma fogueira em uma das alcovas rochosas na extremidade mais afastada da caverna. Finch e Eben se ajeitaram em outra alcova. Este lugar uma vez fora uma imensa habitação, um templo, como eu e meus irmãos teríamos nos referido a ele, mas não parecia sagrado esta noite.
— Por aqui — disse Malich, e me puxou sob uma rocha baixa e protuberante. — Está seco aqui.
Sim, estava seco, mas também estava muito escuro e era bem apertado. Ele não soltou meu braço. Em vez disso, sua mão deslizou do meu braço para cima do meu ombro. Tentei voltar para a chuva, mas ele me segurou pelos cabelos.
— Fique aqui — disse ele, e me puxou de volta. — Você não é mais uma princesa. Você é uma prisioneira. Lembre-se disso. — Ele deslizou a outra mão pelas minhas costelas.
Meu sangue gelou. Ou eu perderia um pedaço do meu couro cabeludo, ou ele perderia um pedaço daquilo que o tornava homem. Eu preferia a segunda opção. Meus dedos ficaram tensos, preparados para causar uma mutilação, mas Kaden entrou procurando por mim e me chamou. Malich soltou-me imediatamente.
— Aqui — respondi ao chamado dele.
A fogueira de Griz no lado mais afastado da caverna finalmente foi acesa e iluminou o fantasmagórico interior. Kaden avistou-nos no nicho escuro. Ele veio até mim e me entregou o alforje.
— Ela pode dormir aqui comigo essa noite — disse Malich.
Kaden olhou para ele, uma linha dourada de luz iluminando as maçãs de seu rosto e seus cabelos que pingavam. A veia em sua têmpora estava saltada.
— Não — disse ele simplesmente.
Seguiu-se um longo silêncio. Kaden não piscou. Embora os dois homens fossem do mesmo tamanho e tivessem a mesma força, Malich parecia ter uma certa reverência, senão medo dele. Seria porque Kaden era um assassino mais alto na hierarquia social dos bárbaros ou era por outro motivo?
— Você que sabe — disse Malich, e me empurrou na direção de Kaden. Caí em cima do peito dele, tropeçando nos cascalhos. Kaden me segurou e me ergueu para que eu ficasse em pé novamente.
Ele encontrou um outro nicho seco, longe dos outros, e chutou algumas rochas para arrumar um lugar para se deitar. Deixou os sacos de dormir caírem, assim como sua bolsa. Não haveria jantar esta noite. O tempo tornava impossível coletar ou caçar alguma coisa. Tomei outro gole de água para aquietar o ronco da minha barriga. Eu poderia facilmente comer um dos cavalos.
De costas para mim, Kaden desabotoou sua camisa ensopada e tirou-a, pendurando-a em um afloramento de pedra para que secasse. Fitei as costas dele. Até mesmo sob a parca luz do fogo, podia ver as marcas. Múltiplas e longas cicatrizes que se esticavam de suas omoplatas até a parte mais baixa das suas costas. Ele se virou e viu que eu o observava. Inspirei. O peito dele tinha mais talhos longos que se cruzavam e desciam até as costelas.
— Achei que você veria isso mais cedo ou mais tarde — disse ele.
Engoli em seco. Lembrei-me de como ele se recusara a tirar a camisa nos jogos. Agora eu entendia por quê.
— Alguma das suas vítimas tentou se defender?
— Nas minhas costas? Dificilmente. Não se preocupe, essas cicatrizes são antigas e já curaram faz tempo. — Ele dispôs os sacos de dormir no chão e fez um movimento indicando o espaço ao lado dele para que eu deitasse. Fui, sem jeito, para a frente, e deitei-me o mais próximo possível da parede.
Ouvi quando Kaden se estirou ao meu lado e senti os olhos dele em minhas costas. Virei-me para ficar cara a cara com ele.
— Se você não conseguiu essas cicatrizes por causa do trabalho, como foi?
Ele estava apoiado em um cotovelo e passava, distraído, sua outra mão pelas linhas em suas costelas. Os olhos dele estavam inquietos, como se estivesse relembrando cada talho, mas sua face permanecia calma — ele tinha prática em enterrar seus segredos.
— Faz muito tempo. Isso não importa mais. Vá dormir, Lia.
Ele virou de costas e fechou os olhos. Observei o peito dele, vendo-o subir em lentas respirações cautelosas.
Aquilo importava, sim.
Duas horas depois, eu ainda estava acordada, pensando em Kaden e na vida violenta que levava, mais violenta do que eu poderia imaginar. As cicatrizes me deixaram assustada. Não a aparência, mas a origem delas. Ele dissera que eram antigas e haviam se curado há tempos. Quão antigas poderiam ser? Ele era só alguns anos mais velho do que eu. Eu me perguntava se Eben teria cicatrizes debaixo da camisa também. O que é que os vendanos faziam com suas crianças? O que fariam comigo?
Pela primeira vez no que parecia ser uma eternidade, eu estava com muito frio. Estava ensopada da cabeça aos pés, mas não tinha mais nada para vestir. A dura cavalgada de Civica até Terravin tinha sido um luxo em comparação a esta. O trovão continuava a ribombar, mas Kaden dormia profundamente, ignorando o ruído. Ele não havia me algemado à noite desde que saímos da Cidade da Magia Negra, provavelmente imaginando que meus pés cortados e machucados seriam o bastante para me impedir de ir muito longe. Isso era verdade... no começo. Meus pés estavam quase curados agora, mas eu continuava mancando generosamente para fazer com que ele pensasse o contrário.
O vento e a chuva ainda estavam enfurecidos, e o trovão vibrava através de mim. A tempestade era tão ensurdecedora que facilmente mascarava o barulho dos roncos de Griz. Eu me revirei e olhei para o alforje que estava aos pés de Kaden. Minha pulsação ficou acelerada: minha faca ainda estava ali. Eu precisaria dela. A enlouquecedora batida da chuva poderia mascarar mais do que roncos.
Meu peito tremia, pesado, enquanto eu me sentava lentamente. Com a floresta em volta de nós, havia lugares onde eu poderia me esconder agora, mas será que conseguiria cavalgar um cavalo arisco e sem sela em uma tempestade furiosa? Tentar subir no lombo de um deles sem agitações já seria um desafio, se é que eu conseguiria fazer isso. No entanto, se pudesse levar um deles até um tronco caído... Levantei-me, agachada a princípio, e depois me ergui, esperando para ver se alguém me notava. Quando vi que não, inspirei fundo e fui andando até os pés de Kaden, depois parei, sem em momento algum tirar os olhos dele enquanto erguia o alforje com cuidado. Eu estava com medo até de engolir saliva. A tempestade encobria qualquer som que eu fizesse, mas eu remexeria na bolsa dele em busca da minha faca assim que estivesse lá fora. Tremendo, dei um passo cauteloso e...
Não vá. Ainda não.
Parei. Minha garganta se fechou com tudo. Meus pés estavam preparados para correr, mas uma voz tão clara quanto a minha me avisou para não fazer isso. Meu punho cerrado tremia, segurando firmemente a bolsa. Ainda não.
Olhei para Kaden fixamente, incapaz de me mover. Maldito seja o que quer que esteja falando comigo! Forcei o ar a entrar em meus pulmões e, devagar, indo contra todas as outras demandas na minha cabeça, agachei-me mais uma vez, centímetro por centímetro, para colocar alforje de volta no lugar, e me deitei ao lado dele. Fitei as pedras acima de nós, os olhos úmidos de frustração.
— Sábia decisão — sussurrou Kaden, sem, em momento algum, abrir os olhos.

15 comentários:

  1. Potterhead-selecionada19 de fevereiro de 2018 23:14

    Eu tento me convencer a não gostar dele,mas não tá rolando

    ResponderExcluir
  2. Potterhead-selecionada19 de fevereiro de 2018 23:25

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Spoiler de leve, então vou apagar. Mas uma coisa que percebi: marcas de chicotadas estão se tornando cada vez mais comuns

      Excluir
  3. verdade ja gostava dele quando achei que ele era o principe mas cada vez gosto mais mesmo sabendo que ele e um assassino

    ResponderExcluir
  4. Tremendo, dei um passo cauteloso e...
    Não vá. Ainda não.
    Parei. Minha garganta se fechou com tudo. Meus pés estavam preparados para correr, mas uma voz tão clara quanto a minha me avisou para não fazer isso. Meu punho cerrado tremia, segurando firmemente a bolsa. Ainda não.


    esse provavelmente é o dom dela, e ela não percebe que o possui

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né! O dom parece ser uma intuição, uma hiperconsciência

      Excluir
  5. Atualização da minha listinha de gente ferrada de cicatriz: Warner (meu amor supremo), Christian, Maxon, Celaena, e agora Kaden. c:

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adiciona Emma de artificios das trevas

      Excluir
  6. Deus quero muito uma cena romântica entre eles agora kkkkkkk sim! Eu ainda quero q ela de uns pega no kaden! Kkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  7. Ahhh cara que livro!!! Acho que vou pirar quando ela descobrir o dom dela!!!

    ResponderExcluir
  8. Só eu que suspeitei que ele não tava dormindo??? Até pq ele é muito inteligentee n deixara ela sem amarras e dormiria do nada. Capítulo muito tenso!!!

    ResponderExcluir
  9. eu to em uma pira muito louca aqui, imagina se o Kaden é o filho da America (de A Seleçao), e na verdade as marcas nas costas foram feitas pelo Maxon kkkkkkkkkkkkkkkkk eu to ficando louca só pode

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!