2 de fevereiro de 2018

Capítulo 5

Eles pensavam sobre si como estando
apenas um degrau abaixo dos deuses,
orgulhosos em seu domínio sobre o céu e a terra.
Eles ficaram fortes em seu conhecimento,
mas fracos em sua sabedoria,
ansiando por mais e mais poder,
esmagando os indefesos.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, vol. IV —



Terravin ficava depois da próxima curva — ou pelo menos era isso que Pauline havia dito uma dúzia de vezes. A expectativa animada dela fez-se minha quando ela reconheceu pontos de referência. Passamos por uma gigantesca árvore que tinha nomes de amantes entalhados em sua casca, e então, um pouco mais adiante, havia um meio círculo de ruínas de mármore que pareciam dentes soltos e tortos na boca de um homem velho, e, por fim, ao longe, uma brilhante cisterna azul coroada por uma colina circundada por uma quadra de juníperos. Esses sinais indicavam que estávamos perto.
Demoramos dez dias para alcançar aquele ponto. Teríamos conseguido chegar antes se não tivéssemos passado dois dias fora da trilha, a fim de deixarmos pistas falsas, para o caso de meu pai ter mandado rastreadores nos caçarem.
Pauline havia ficado horrorizada quando fiz uma trouxa com meu caríssimo vestido de casamento e joguei-o em um bosque cerrado de arbustos de amoras silvestres; no entanto, ela ficou categoricamente mortificada quando usei minha adaga para arrancar as joias do meu manto de casamento e depois joguei seus restos mutilados rio abaixo, atado a uma tora. Ela fez três sinais de penitência por mim. Minha esperança, se o manto fosse encontrado por alguém, era de que presumissem que eu tinha me afogado. Por desejar que notícias tão horríveis chegassem até meus pais, eu mesma deveria ter pago penitência, mas então me lembrei de que eles não só estavam preparados para mandar sua única filha para longe, para viver com um homem que ela não amava, como também a um reino em que eles mesmos não confiavam totalmente. Engoli em seco o nó na minha garganta e não disse nada além de “já vai tarde”, enquanto o manto que tinha sido usado pela minha mãe, pela minha avó e pelas mães de toda a linhagem real afastava-se flutuando no rio.
Trocamos as joias por moedas em Luiseveque, uma grande cidade que ficava a cerca de duas horas de viagem fora do nosso caminho, incluindo três safiras azuis na negociação para que o mercador se esquecesse de onde as joias vieram. A sensação de negociar daquela forma era deliciosamente maligna e excitante, e assim que estávamos descendo a estrada, caímos na gargalhada com nossa audácia. O mercador havia olhado para nós como se fôssemos ladras, mas visto que a transação estava a favor dele, não disse nada.
Voltamos pelo mesmo caminho em que viemos por mais alguns quilômetros estrada abaixo e depois viajamos novamente em direção ao leste.
Nas cercanias de um pequeno vilarejo, paramos em uma casa de fazenda e trocamos nossos valiosos cavalos ravianos por três asnos com um boquiaberto fazendeiro. Também demos a ele, por debaixo dos panos, uma boa quantidade de moedas para comprar seu silêncio.
Duas meninas chegando em Terravin em esplêndidos e distintos corcéis dos estábulos de Morrighan com certeza chamariam a atenção das pessoas, e não podíamos nos dar ao luxo de permitir que isso acontecesse. Nós não precisávamos de três asnos, mas o fazendeiro insistiu que o terceiro ficaria perdido sem os outros dois, e descobrimos que ele estava certo, visto que o terceiro animal seguia bem atrás de nós sem nem precisar de um puxãozinho que fosse. O fazendeiro os havia nomeado Otto, Nove e Dieci. Eu estava montada em Otto, o maior dos três, um grande camarada marrom com um focinho branco e uma longa crina peluda entre as orelhas. A essa altura, nossas roupas de montaria estavam tão imundas por causa das centenas de quilômetros que havíamos viajado e nossas macias botas de couro tinham tantas crostas de lama que era fácil nos ignorar. Ninguém ia querer olhar para nós duas por muito tempo, e era exatamente isso que eu queria. Eu não desejava que nada interferisse com o sonho de Terravin.
Eu sabia que estávamos perto. Havia algo no ar, na luz — alguma coisa que eu não sabia nomear, mas que fluía por mim como uma voz cálida. Lar. Lar. Eu sabia que era tolice. Terravin nunca havia sido o meu lar, mas talvez pudesse vir a ser.
Enquanto pensava nisso, senti algo subitamente pulando de medo nas minhas entranhas, medo de que eu tivesse ouvido alguma outra coisa: o trovejar de cascos atrás de nós. O que os rastreadores do meu pai haveriam de fazer comigo era uma coisa, mas o que eles poderiam fazer com Pauline era outra. Se fôssemos pegas, eu já havia planejado dizer a eles que havia forçado Pauline a ajudar-me contra a vontade dela. Apenas teria que convencer minha amiga a manter essa história também, porque ela era extremamente sincera.
— Ali! Veja! Em meio às árvores! — gritou Pauline, apontando para longe. — A faixa azul! Aquela é a baía de Terravin!
Fiquei animada, mas não conseguia ver nada além de espessos aglomerados de pinheiros, um carvalho e as relvadas colinas marrons entre eles. Urgi Otto a correr em frente, como se algo assim pudesse ser feito com um animal que conhecia apenas uma velocidade. Então, enquanto virávamos a curva, não só a baía como também todo o vilarejo de pesca de Terravin entraram em meu campo de visão.
Era exatamente a preciosidade que Pauline descrevera.
Senti um aperto no estômago.
Um semicírculo verde-azulado sacudido por barcos vermelhos e amarelos, alguns deles com ondulantes velas brancas, outros com grandes rodas de pás, revolvendo a água ao redor. Ainda havia outros que borrifavam uma trilha de espuma enquanto os remos mergulhavam em suas laterais. Desta distância, os barcos eram tão pequenos que pareciam brinquedos. Mas eu sabia que havia pessoas dentro deles, que os pescadores chamavam uns aos outros, jubilosos com o que haviam pescado no dia, com o vento carregando suas vozes, compartilhando suas vitórias, respirando suas histórias. Na enseada, para onde alguns deles se dirigiam, havia um longo cais com mais barcos e pessoas tão pequenas quanto formigas indo para todos os lados, ocupadas com suas funções. E então, talvez a coisa mais bela entre tudo isso, circundando a baía, havia casas e lojas que subiam pelas colinas, cada uma de uma cor diferente: azul-berrante, vermelho-cereja, laranja, lilás, como uma gigantesca tigela de frutas com a baía de Terravin em seu cerne, e, por fim, dedos verde-escuros de floresta desciam das colinas para conterem aquela abundância em sua palma.
Agora eu entendo por que sempre fora o sonho de Pauline voltar ao lar de sua infância, de onde fora arrancada quando sua mãe morrera, tendo sido enviada para morar com uma tia distante no norte. Depois, quando essa tia adoeceu, ela foi entregue a outra tia que nem mesmo conhecia, a criada da minha mãe. A vida de Pauline tinha sido uma vida de residente temporária, de passagem por diversos lugares, mas, por fim, ela estava de volta ao local de suas raízes, sua casa. E, com apenas um olhar, eu sabia que aquela cidade poderia ser minha casa também, um lugar em que o peso de quem eu deveria ser não existia. Meu júbilo veio inesperadamente à tona. Como eu gostaria que meu irmão Bryn estivesse aqui para ver isso. Ele amava o mar.
A voz de Pauline atravessou meus pensamentos.
— Algum problema? Você está calada. O que achou?
Olhei para ela. Meus olhos ardiam.
— Eu acho que... se nos apressarmos, talvez possamos tomar banho antes do jantar. — Dei um tapa nas nádegas de Otto. — Em frente, rápido!
Pauline não ficou para trás e, com um grito selvagem e uma esporada nas costelas do animal, ela conseguiu fazer com que seu asno seguisse correndo à frente do meu.
Nossa licença temerária foi verificada quando nos viramos para entrar na principal via pública que costurava a cidade. Enfiamos nossos cabelos para dentro dos capuzes e os puxamos para baixo, cobrindo nossos olhos. Terravin era uma cidade pequena e fora do caminho, mas não era tão isolada a ponto de não ser um ponto de parada para a Guarda Real — ou para um rastreador. Mas até mesmo com o queixo colado no peito, sorvi tudo aquilo. Que maravilha! Os sons! Os cheiros! Até mesmo o estalido dos cascos de nossos asnos nas ruas de ladrilhos vermelhos soava como música. Terravin era tão diferente de Civica, de todas as maneiras.
Passamos por uma praça pública sombreada por uma grande figueira. Crianças pulavam corda sob sua imensa copa que funcionava como uma sombrinha, e músicos tocavam flauta e sanfona, soprando melodias alegres para o pessoal da cidade que conversava em volta de pequenas mesas que ladeavam o perímetro.
Mais adiante, mercadorias espalhavam-se das lojas até passadiços nas cercanias. Um arco-íris de cachecóis formavam vergalhões no ar impulsionados pela brisa do lado de fora de uma das lojas, e, em outra, engradados de berinjelas frescas e brilhantes, abóboras sem casca, erva-doce que mais parecia renda, assim como bojudos nabos cor-de-rosa estavam dispostos nas fileiras vibrantes e arrumadinhas. Até mesmo a loja de suprimentos para montaria era pintada em um tom de azul da cor do ovo do pintarroxo. Não se encontravam em lugar nenhum as cores sem vida de Civica. Aqui, tudo cantava colorido.
Ninguém olhou para nós. Mesclamo-nos aos outros que estavam de passagem. Éramos apenas mais duas trabalhadoras seguindo nosso caminho depois de um longo dia nas docas, ou talvez estrangeiras cansadas em busca de uma boa estalagem. Com as calças e os capuzes que usávamos, provavelmente estávamos parecendo mais homens mirrados. Tentei não sorrir, mas não consegui, enquanto olhava para a cidade que Pauline descrevera tantas vezes para mim. No entanto, meu sorriso desapareceu quando vi três guardas reais aproximando-se de nós, montados a cavalo. Pauline também os avistou e puxou as rédeas, mas sussurrei um comando bem baixinho para ela.
— Continue seguindo em frente. Mantenha a cabeça abaixada.
Fomos em frente, embora eu não soubesse ao certo se alguma de nós duas estava respirando. Os soldados estavam rindo uns com os outros, os cavalos deles movendo-se em um ritmo preguiçoso. Uma carroça guiada por um outro soldado movia-se pesadamente atrás deles.
Em momento algum eles olharam para nós, nem mesmo de relance, e Pauline suspirou aliviada depois que tinham passado por nós.
— Esqueci. Peixe seco e defumado. Eles vêm uma vez por mês de um posto avançado ao leste para adquirir suprimentos, sobretudo peixe.
— Apenas uma vez por mês? — perguntei em um sussurro.
— Creio que sim.
— Então acertamos... chegamos no momento certo. Não teremos que nos preocupar com eles por um tempinho. Não que os soldados pudessem me reconhecer, é claro.
Pauline tirou um instante para inspecionar-me e então apertou o nariz.
— Ninguém seria capaz de reconhecer você, exceto, talvez, o porco lá em casa.
Como se combinado, Otto soltou um som hesitante com o comentário dela, fazendo com que nós duas caíssemos na risada, e fomos correndo tomar um banho cálido.

* * *

Prendi a respiração quando Pauline bateu à pequena porta dos fundos da estalagem. Ela foi aberta de imediato, mas apenas pelo tempo curto de um acenar do braço de uma mulher que nos cumprimentou enquanto se afastava apressada e gritava por cima do ombro:
— Coloque ali! No balcão de cortar carne!
Ela já estava de volta a um imenso forno de pedra, usando uma espátula de madeira para puxar o pão ázimo para fora. Eu e Pauline não nos mexemos, o que por fim chamou a atenção da mulher.
— Eu disse que era para...
Ela se virou e franziu o rosto quando nos viu.
— Humpf. Não vieram trazer meu peixe, hein? Imagino que sejam mendigas. — Ela fez um movimento indicando uma cesta perto da porta. —Peguem uma maçã e um biscoito e sigam em frente. Voltem depois de toda a movimentação que darei um pouco de cozido quente para vocês. — A atenção dela já estava voltada para outro lugar, e a mulher gritou para alguém que a chamava do aposento da frente da estalagem. Um menino alto e desengonçado passou aos tropeços por uma porta oscilante com um tipo de tecido grosseiro nos braços, e o rabo de um peixe movendo-se na ponta do pano. — Cabeça oca! Onde está o meu bacalhau? Vou ter que fazer o cozido com um peixe qualquer?
A mulher pegou o peixe de qualquer forma, colocou-o com um estalo em cima do balcão de cortar carne e, com um corte certeiro, arrancou-lhe a cabeça fora com uma machadinha.
Imaginei que aquele peixe teria que servir.
Então essa era Berdi. A ama de Pauline, sua tia, que ela chamava de Amita. Não uma tia de sangue, mas a mulher que havia arrumado trabalho para sua mãe e que havia colocado um teto sobre sua cabeça quando o marido dela morrera e a viúva destituída de posses tinha uma criança pequena para alimentar.
O peixe foi habilidosamente eviscerado e suas espinhas foram retiradas em uma questão de segundos, e ele foi colocado dentro de uma caldeira borbulhante. Puxando seu avental para cima a fim de limpar as mãos, Berdi voltou a olhar para nós, com uma sobrancelha erguida. Ela soprou um pouco de sal e pimenta que tinha na testa.
— Ainda estão aqui? Achei que tivesse dito que...
Pauline foi andando devagar na direção dela, deu dois passos e puxou o capuz, de modo que seus longos cabelos cor de mel caíssem sobre os ombros.
— Amita?
Observei enquanto o expressivo rosto da velha mulher ficava pasmo. Ela deu um passo mais para perto de Pauline, apertando os olhos.
— Pollypie?
Minha amiga assentiu.
Berdi abriu bem os braços e tomou Pauline junto ao peito. Depois de muitos abraços e diversas frases não terminadas, Pauline por fim afastou-se dela e voltou-se para mim.
— E essa é minha amiga, Lia. Receio que nós duas estejamos um pouco encrencadas...
Berdi revirou os olhos e abriu um largo sorriso.
— Nada que um banho e uma boa refeição quente não resolvam.
Ela foi correndo até a porta oscilante, empurrando-a, abrindo-a e gritando ordens.
—Gwyneth! Comida para cinco. Enzo ajudará você! — Ela já estava se virando antes que a porta oscilasse de volta e se fechasse, e notei que, para uma mulher com certa idade que carregava uma amostra generosa de sua própria comida na cintura, Berdi tinha os pés ligeiros. Ouvi um gemido fraco passar pela porta, vindo da sala da frente, e o ruído alto de pratos batendo uns nos outros. Berdi ignorou isso. Ela nos levou para fora pela porta dos fundos da cozinha. — O cabeça oca – isto é, o Enzo – tem potencial, mas é tão preguiçoso quanto o dia é longo. Ele puxou isso do pai. Gwyneth e eu estamos dando um jeito nisso. Uma hora ele muda. E ajuda é difícil de conseguir hoje em dia.
Nós a acompanhamos, subindo por degraus de pedra que se desintegravam entalhados na colina atrás da estalagem, depois descemos por um serpenteante caminho coberto de folhas e nos dirigimos a uma casinha escura a uma certa distância dali. A floresta avançava atrás da pequena cabana. Berdi apontou para um imenso tonel de ferro fervendo em um forno a lenha elevado em tijolos.
— Mas Enzo realmente consegue manter o fogo aceso, de modo que os hóspedes possam tomar um bom banho quente, e essa é a primeira coisa de que vocês duas precisam.
Conforme nos aproximávamos, eu ouvia o som suave de água corrente escondida em algum lugar na floresta atrás da cabana, e lembrei-me do riacho que Pauline havia descrito, em cujas margens ela tinha brincado com a mãe, pulando pedras enquanto cruzava as águas gentis.
Berdi conduziu-nos até dentro da cabana, desculpando-se pela poeira, explicando que o telhado tinha goteiras e que o aposento era na maior parte do tempo usado para o excedente de hóspedes — e que era isso que éramos agora. A estalagem estava cheia, e a única alternativa era o celeiro. Ela acendeu uma lanterna e puxou uma grande banheira de cobre que ficava no canto para o meio do aposento. Ela fez uma pausa para limpar a testa com a bainha do avental, pela primeira vez mostrando algum sinal de exaustão.
— Oras, em que tipo de encrenca duas jovens meninas poderiam estar metidas? — Seu olhar contemplativo baixou para nossas barrigas, e ela acrescentou rapidamente: — Não são problemas com meninos, são?
Pauline ficou ruborizada.
— Não, Amita, não é nada disso. Não é nem mesmo uma encrenca exatamente. Pelo menos, não tem que ser.
— Para falar a verdade, a encrenca é minha — falei, dando um passo para a frente e falando pela primeira vez. — Pauline está me ajudando.
— Ah. Então você tem voz, no fim das contas.
— Talvez a senhora devesse sentar-se para que eu possa...
— Desembuche logo, Lia. Seu nome é Lia, não é? Não há nada que possa dizer que eu não tenha ouvido antes.
Ela estava plantada perto da banheira, com o balde na mão, preparada para receber uma explicação rápida. Decidi dar a ela exatamente o que ela pedia.
— É isso mesmo. Lia. Princesa Arabella Celestine Idris Jezelia, Primeira Filha da Casa de Morrighan, para ser mais exata.
— Sua Majestade Real — acrescentou Pauline com timidez.
— Ex-Majestade Real — esclareci.
Berdi inclinou a cabeça para o lado, como se não tivesse ouvido direito, e depois empalideceu. Ela esticou a mão para se segurar no pilar da cama e foi descendo para o colchão.
— O que você está dizendo?
Pauline e eu nos alternamos para explicar tudo. Berdi não disse nada, o que suspeitei que não era algo característico dela, e observei Pauline ir ficando cada vez mais inquieta com o silêncio da mulher.
Quando não havia mais nada a ser dito, dei um passo, me aproximando de Berdi.
— Nós temos certeza de que ninguém nos seguiu. Sei um pouco sobre rastreamento. Meu irmão é um patrulheiro treinado na Guarda Real. Mas se a minha presença a deixa desconfortável, seguirei em frente.
Berdi permaneceu sentada por mais um instante, como se a verdade de nossa explicação só estivesse sendo absorvida por ela naquele momento, erguendo uma das sobrancelhas em uma curiosa linha torta. Ela pôs-se de pé.
— Pelos fogos infernais, sua presença me deixa desconfortável, sim! Mas eu falei alguma coisa sobre seguir em frente? Você vai ficar aqui. Vocês duas. Mas eu não vou lhe dar...
Eu a interrompi, já lendo seus pensamentos.
— Eu não espero nem desejo atenção especial. Eu vim até aqui porque quero uma vida de verdade. E sei que isso inclui ganhar dinheiro para me manter. Qualquer que seja o trabalho que a senhora tiver para eu fazer, farei-o de bom grado.
Berdi assentiu.
— Vamos cuidar disso depois. Por ora, precisamos que vocês duas tomem banho e comam. — Ela torceu o nariz. — Nessa ordem.
— Outra coisa. — Desabotoei minha blusa e virei-me, deixando o tecido cair até a cintura. Ouvi quando ela inalou o ar enquanto visualizava meu elaborado kavah de casamento. — Preciso tirar isso das minhas costas o mais rápido possível.
Ouvi quando ela deu um passo se aproximando e então senti seus dedos nas minhas costas.
— A maioria dos kavahs não dura mais do que umas poucas semanas, mas este aqui... talvez demore um pouco mais para sair.
— Eles fizeram uso dos artesãos mais talentosos e das melhores tintas.
— Um bom banho todos os dias vai ajudar — disse ela. — E trarei a você uma escova para as costas e um sabão dos fortes.
Puxei minha blusa e me vesti novamente. Agradeci à mulher. Pauline abraçou-a antes que ela saísse e então pegou o balde do chão.
— Seu banho primeiro, Vossa Majestade...
— Pare! — Arranquei o balde da mão dela. — A partir deste dia, não tem mais essa de Vossa Majestade. Essa parte da minha vida se foi para sempre. Sou apenas Lia agora. Está me entendendo, Pauline?
Os olhos dela encontraram os meus. Era isso. Tanto minha companheira de fuga quanto eu entendíamos que este era o verdadeiro início que planejáramos, aquele pelo qual havíamos esperado, mas que não sabíamos ao certo se algum dia poderia existir. Pauline sorriu e assentiu.
— E você toma banho primeiro — acrescentei.
Pauline desempacotou nossos poucos pertences enquanto eu fazia várias viagens para encher a banheira com água quente. Esfreguei as costas dela do mesmo jeito que ela fizera com as minhas tantas vezes antes, mas então, enquanto Pauline se banhava, com os olhos pesados com a fadiga, decidi ir tomar banho no riacho, de modo que minha amiga pudesse saborear esse luxo o quanto quisesse. Eu nunca seria capaz de retribuir tudo que ela fizera por mim.
Isso era algo pequeno que eu poderia oferecer-lhe em troca.
Depois de tímidos protestos, Pauline me passou as direções de como chegar até o riacho, que ficava a apenas uma curta caminhada de distância da nossa cabana, avisando-me que ficasse perto das partes rasas do riacho. Ela disse que lá havia uma pequena piscina natural protegida por espessos arbustos. Prometi duas vezes que ficaria atenta, mesmo que ela já tivesse admitido sempre ter encontrado o local completamente deserto, ainda mais na hora do jantar. Não havia dúvidas de que eu estaria sozinha lá, portanto.
Encontrei o lugar, rapidamente me despi e deixei tanto meus trajes sujos quanto uma muda de roupas limpas perto da grama que cobria a margem do rio. Estremeci quando entrei na água, mas ela não estava nem metade tão fria quanto nos riachos de Civica. Meus ombros já iam se aquecendo quando irrompi pela superfície de novo. Inspirei fundo, uma respiração nova, como nunca havia feito antes.
Deste dia em diantesou apenas Lia.
Parecia um batismo. Uma espécie mais profunda de limpeza. A água escorria pela minha face e gotejava do meu queixo. Terravin não era apenas um novo lar. Dalbreck poderia ter me oferecido isso, mas lá eu seria apenas uma curiosidade em uma terra estrangeira, ainda sem nenhuma voz quanto ao meu próprio destino. Terravin me oferecia uma vida nova, o que era, ao mesmo tempo, empolgante e aterrorizante. E se eu nunca mais visse meus irmãos de novo? E se falhasse nessa vida também? No entanto, tudo que eu tinha visto até agora havia me encorajado, até mesmo Berdi. De alguma forma, eu faria com que essa nova vida desse certo.
O riacho era mais amplo do que eu esperava, mas permaneci nas partes rasas e calmas, conforme Pauline havia me instruído. A piscina natural tinha uma água límpida e gentil e sua profundidade não permitia que eu mergulhasse além dos ombros, meus pés tocando as pedras lisas no fundo do rio. Fiquei ali deitada e flutuando, descansando os olhos na cobertura detalhada de carvalhos e pinheiros. Com o crepúsculo assentando-se, as sombras se aprofundavam. Em meio aos troncos das árvores, luzes douradas começaram a tremeluzir nos lares na encosta da colina enquanto Terravin se preparava para as memórias sagradas que vinham com a noite. Fiquei surpresa ao descobrir que eu esperava ouvir as canções que fluíam à noite por toda a extensão de Morrighan, mas captara na brisa apenas umas poucas amostras de melodia.
Eu encontrarei você...
No recanto mais longínquo...
Fiz uma pausa, virando a cabeça para o lado para ouvir melhor, o tom apaixonado das palavras mais urgente do que quaisquer das memórias sagradas de casa. Eu também não conseguia localizar as frases, mas os Textos Sagrados eram vastos.
As melodias desapareceram, arrancadas para longe por uma brisa fresca, e, em vez delas, ouvia o potente som da escova de Berdi enquanto eu esfregava com vigor as minhas costas. Meu ombro esquerdo ardia onde o sabão se encontrava com o kavah de casamento, como se estivesse sendo travada uma batalha entre os dois. A cada passagem da escova, eu imaginava a insígnia do leão de Dalbreck encolhendo-se de terror, para logo desaparecer para sempre da minha vida.
Limpei a espuma do sabão com um mergulho rápido, e depois me contorci, tentando enxergar o falecimento do leão, mas a pequena parte do kavah que eu conseguia ver na luz difusa — as vinhas espiralando-se em volta da garra do leão nas costas do meu ombro — ainda irradiava toda sua glória. Dez dias atrás, eu estava expressando admiração pelos artesãos. Agora eu os amaldiçoava.
Um estalo!
Abaixei-me na água e dei um giro, pronta para encarar um intruso.
— Quem está aí? — gritei, tentando me cobrir.
Apenas uma floresta vazia e o silêncio me responderam. Uma corça, talvez? Mas aonde ela teria ido com tanta rapidez? Procurei nas sombras das árvores, mas não me deparei com movimento algum.
— Foi apenas o estalido de um galho de árvore — falei para mim mesma, tentando me tranquilizar. — Qualquer animal pequeno poderia ter feito isso.
Ou talvez fosse um hóspede lá da estalagem que estivesse vagando, surpreso ao se deparar comigo? Sorri, divertindo-me com o fato de que eu tinha feito alguém se afastar assustado — só esperava que isso tivesse acontecido antes de ele ter visto minhas costas. Kavahs eram um sinal de posição e de riqueza, e este, se examinado com muita atenção, claramente falava de realeza.
Pus os pés para fora da água, vesti apressadamente as roupas limpas, e então avistei um pequeno coelho cinza passando por trás de uma árvore.
Deixei escapar um suspiro de alívio.
Era apenas um animal pequeno. Exatamente como eu havia pensado.

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