14 de fevereiro de 2018

Capítulo 5. Os Karas entram em ação novamente

A tarde começava a cair, quando os presidentes Wilbur MacDermott e Augusto Rodrigues Lobo encerraram a entrevista coletiva à imprensa. Os repórteres tinham sido insistentes, exaustivamente insistentes, porque a curiosidade sobre o discurso do americano era enorme e o mundo ansiava por informações.
— Ufa! Acho que agora conseguimos ficar livres dos jornalistas! — exclamou aliviado o presidente do Brasil, depois que seu colega americano tinha fechado a porta do gabinete presidencial do luxuoso hotel.
— Em toda a minha vida política, Augusto, nunca consegui me acostumar com essa atitude da imprensa, que pensa que pessoas como nós têm respostas para tudo — lembrou MacDermott. — Será que ninguém nota que somos gente como as outras? Que amamos como todo mundo? Que temos família, que queremos a felicidade de nossos filhos como qualquer pessoa? Que temos os mesmos sonhos? As mesmas esperanças?
— E as mesmas dúvidas também, Wilbur — acrescentou Rodrigues Lobo, que tratava o colega americano como se fossem velhos amigos. — Esse pessoal exige demais de nós. Muito mais do que somos capazes de fazer!
— É sempre a mesma coisa, tanto aqui como no meu país, meu caro Augusto
— comentou MacDermott, deixando-se arriar numa poltrona.
— O mundo está ficando muito parecido, Wilbur.
— Mas, pelo jeito, esse processo começou pelas coisas ruins.
— Está na hora de nos assemelharmos no que cada uma de nossas culturas tem de melhor, não de pior.
— Concordo plenamente, Augusto. Enquanto as relações internacionais forem ditadas pelo poder da ganância, só as coisas ruins serão exportadas. E é isso que eu quero mudar!
— Você já começou, meu caro Wilbur. E eu também já comecei a fazer a parte que me cabe. E, daqui a algumas horas, exatamente à meia-noite, com seu discurso sendo transmitido para todo o planeta, o processo de justiça pelo qual nós dois lutamos não terá mais retorno.
— Ou vencemos, ou o mundo continuará sem esperanças.
Wilbur MacDermott ficou sério:
— Eu não nasci para aceitar um mundo sem esperanças!
Nesse momento a porta era aberta sem qualquer cerimônia e o Doutor Pacheco entrava no gabinete presidencial sem óculos escuros, talvez para que os dois presidentes vissem seus olhos arregalados:
— Senhor Presidente, sua filha foi sequestrada!
Sentindo-se muito tonta, Magrí não conseguia abrir os olhos. Não sabia por quanto tempo ficara sem sentidos, nem ao menos se tinha ou não desmaiado. Sua cabeça, pendida para frente, parecia pesar uma tonelada e, em seus ouvidos, o som do motor do helicóptero diminuía, até desaparecer por completo.
Levantavam seus braços. Mãos fortes agarravam seus pulsos. Sentiu-se suspensa, solta no ar por um instante. Com a mesma brutalidade, puxavam seu corpo para cima, fazendo-o passar por um espaço estreito. Alguma aresta arranhou-lhe a nádega. Foi largada no chão, numa superfície dura, que parecia forrada com plástico.
Puxaram suas mãos para as costas e amarraram seus pulsos, enquanto mais alguém apertava uma larga faixa de fita colante sobre sua boca. Notou que as pessoas se afastavam.
O cheiro de gás a nauseava. Procurou respirar curta e apressadamente pelo nariz, lutando contra o enjoo. Se vomitasse com a boca amordaçada, na certa morreria sufocada. Aos poucos, a tonteira diminuía. Entreabriu os olhos. Pensou que estivesse sonhando. Tudo estava escuro, mas algo como um teatro de sombras projetava-se à frente. Como se ali fosse um estúdio de revelação fotográfica, havia uma iluminação avermelhada, tênue, que projetava as silhuetas de dois homens contra um pano esticado que havia diante dela.
“O que vai acontecer comigo agora?”.

* * *

“Que helicóptero é esse aqui no Elite?”, pensou Miguel. “Está escuro demais para ver... E por que essa correria de policiais?”
Uma multidão se aglomerava ao longo da rua lateral onde ficavam os portões da área esportiva do colégio e para onde acorriam carros de polícia fazendo um barulho infernal com suas sirenes. Miguel acorrentou a bicicleta em uma árvore e simplesmente esperou, sem mudar de lugar. O líder dos Karas sabia que Chumbinho, Calú e Crânio logo o encontrariam, pois haveriam de imaginar que o pior lugar para encontrar alguém é no meio de todo mundo.
Como ele pensava, logo dois dos rapazes avistaram-no à espera numa
esquina, a cem metros do colégio. Dava para ler uma expressão determinada no rosto do jovem comandante.
“Somente Calú e Crânio? Onde andará Chumbinho?” Miguel fez um sinal e os três reuniram-se sob uma sibipiruna que, apesar do inverno, ainda mantinha sua farta copa. Num primeiro momento, olharam-se sem falar. Os três sabiam que alguma coisa grave deveria ter acontecido no interior de sua escola, só não podiam saber o quê.
— Onde está Chumbinho? — perguntou Miguel, entre dentes.
Calú sabia que estavam à beira de um momento de luta. O melhor ator do Colégio Elite era um verdadeiro Kara, sempre pronto para o que desse e viesse. Balançou a cabeça:
— Não sei. Ele deve estar procurando por nós. Já, já ele aparece.
Crânio estava sério e tenso. Jamais, durante todos os anos em que estudara no Elite, sua escola estivera, como agora, sendo invadida pela polícia e pelo exército ao mesmo tempo. Negou com firmeza:
— Nada disso, Karas. Tenho certeza de que ele está lá, no meio da confusão!
— Como você pode ter certeza? — perguntou Miguel.
— Quando eu estava saindo da área de esportes, vi o danado do moleque, com aquela carinha dele de resistência aos adultos mandões, discutindo com um americano grandalhão. Tenho certeza de que Chumbinho deu um jeito de continuar lá dentro, só pra contrariar!
— Contrariar a CIA?! — estranhou Calú. — Ora! Você acha que ele ia conseguir furar a vigilância desses tiras americanos?
— Você não conhece o Chumbinho, Calú? Proibição, para ele, é o mesmo que convite!
— Não adianta especular, Karas — decidiu Miguel. — precisamos saber o que aconteceu, realmente. Vamos atrás de informações.
— My daughter! Minha filha!
Pálido, Wilbur MacDermott parecia nem conseguir respirar ao ouvir a terrível notícia que o Doutor Pacheco acabava de trazer. A surpresa de Rodrigues Lobo não era menor:
— O que o senhor está dizendo, Doutor Pacheco? O que aconteceu?
Enquanto o delegado da Polícia Federal contava o que seus homens haviam relatado por telefone, de fora da sala entrava o barulho dos jornalistas, que protestavam, exigindo explicações sobre as graves novidades que tinham aparecido subitamente. Com dificuldade, eram contidos por soldados e policiais que nada tinham a informar.
— ... degolados à faca! — num fio de voz, Pacheco terminava o relato. — Sinto muito, Senhores Presidentes, mas a única falha do esquema de segurança do senhor Hooper, da CIA, foi não imaginar que um helicóptero poderia ser  utilizado e...
— Um helicóptero? — interrompeu Rodrigues Lobo.
— Sim, Senhores Presidentes. Todos ouviram o motor de um helicóptero sobrevoando os vestiários. A ação transcorreu num tempo tão curto que, quando os outros agentes da CIA chegaram ao local, a senhorita Peggy já tinha sido levada.
Nesse instante, invadiam o salão dois generais devidamente engalanados e em rígida posição militar. Um era o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República do Brasil e o outro ocupava o cargo equivalente no governo americano. O primeiro a falar foi o brasileiro:
— Senhor Presidente, já colocamos no ar uma esquadrilha de caças moderníssimos, equipados com radar. Estamos fazendo uma operação pente-fino no ar. Isso é suficiente para localizar até uma pomba em voo. Já bloqueamos todas as estradas e aeroportos. Tropas aerotransportadas estão vasculhando cada canto onde alguém possa pousar ou esconder um helicóptero. Não há modo de esses sequestradores escaparem!
Chegou a vez do general americano, que atropelava as palavras:
— Mister President, a maior máquina de guerra do planeta Terra já foi mobilizada. Acionamos nossos satélites, que são capazes de enxergar até mesmo a placa de automóvel a milhares de milhas. Estão cobrindo mede do território brasileiro e enviando para nós imagens digitalizadas por computadores. Estamos vasculhando todas as distâncias para onde os bandidos podem ter voado levando a menina. Não há canto nenhum do mundo onde alguém possa esconder miss Peggy!
— Queremos ser informados do andamento das investigações a cada minuto, senhores generais! — ordenou Rodrigues Lobo.
— É claro, Mister President. — continuou o general americano. — A Sala de Guerra do Pentágono já está em alerta total e tomaremos conhecimento de cada pista encontrada, no exato momento em que alguém a descobrir!
Os dois bateram continência e deixaram o salão.
— Mas o que querem esses bandidos? — MacDermott abria os braços, com uma expressão de desconsolo. — Por que levaram minha filha?
— Estamos esperando alguma nota dos sequestradores pedindo resgate, senhor... — foi tudo o que o Doutor Pacheco conseguiu dizer.
— Onde está Blake?
— Seu guarda-costas foi justamente para o colégio, Senhor Presidente. Pouco antes que essa desgraça acontecesse, ele foi procurar o senhor Hooper para saber como andava o esquema de segurança de sua filha.
— O Hooper, é? Ele está no colégio, não é? E por será que ainda não ligou para me dar satisfações?
— Miss Malloy! — MacDermott dirigia-se à secretária que se postava como uma sentinela ao lado dos telefones. — Ligue-me com o celular do Hooper, imediatamente!
Em um minuto, a ligação era transferida para sua mesa:
— Como é que você foi deixar isso acontecer, Hooper? Hein? Tem certeza de que não foi deixada nenhuma nota pedindo resgate? Não? Ora, então você não tem nada mais a investigar aí no colégio. Se esse foi um trabalho externo e se você não deixou que nenhuma pessoa permanecesse na área esportiva depois da exibição de ginástica, não há ninguém a interrogar nem pistas a descobrir. Agora só nos resta encontrar esse helicóptero. Venha imediatamente para cá!
Bateu o telefone e permitiu que, por um momento, todos na sala percebessem que, por trás da coragem do comandante de uma grande nação, havia uma alma de pai:
— Peggy... Onde está você?

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