6 de fevereiro de 2018

Capítulo 5. Grupo de um Kara só

Chumbinho não sabia o que fazer, depois daquela reunião desastrosa.
O fim dos Karas! Como ele iria admitir que o grupo dos Karas pudesse dissolver-se?  Se Magrí não estivesse viajando...
Saiu do colégio, olhando para o chão, sem saber o que fazer.

* * *

Magrí já estava pronta para o treino quando bateram na porta do apartamento.
“Não deve ser dona Iolanda”, pensou a menina, pois a professora entrava em seu quarto a qualquer hora, sem a menor cerimônia. Era um boy do hotel, uniformizado, trazendo um telegrama sobre uma bandejinha de prata.
“Aposto que é de papai...”, pensou a menina, abrindo o envelope, depois de dar uma gorjeta para o boy e fechar a porta.

* * *

O velho fusquinha de Andrade encostou na calçada e a voz amiga do detetive despertou o menino das preocupações:
— Olá, Chumbinho! Tudo bem?
— Detetive Andrade!
Andrade... Aquele sim, era um amigo. O único adulto que sabia o valor dos cinco Karas.
O detetive enxugava a careca com um lenço. Era sinal de preocupação, Chumbinho sabia muito bem. Mas a expressão do gordo detetive procurava demonstrar tranquilidade.
— Estava passando por aqui e resolvi ver como vão as coisas...
— As coisas? Que coisas?
— O pessoal... Como estão Miguel, Magrí, Calú e Crânio?
— Magrí está nos Estados Unidos, participando de um campeonato de ginástica olímpica. Os outros... bom, os outros parece que ficaram malucos..
— Ficaram malucos? O que você quer dizer com isso?
— Nada, Andrade. Brincadeira...
O detetive fez uma pausa, sem saber como continuar. Chumbinho não ajudou em nada. Olhava o amigo, com sua melhor expressão de ingenuidade.
— Mas está tudo bem mesmo?
Andrade que se revelasse. Porque, que havia alguma coisa no ar, isso havia.
— Está. Por que não haveria de estar?
— Nada, Chumbinho. Só estou perguntando... Não apareceu ninguém por aqui?
— Sei lá. Quem deveria aparecer?
— Deveria? Ninguém deveria. Hum... Estou falando assim, de um modo geral, porque vocês vivem se metendo em encrencas. Se alguma coisa estranha acontecer, eu quero que vocês me façam saber imediatamente.
Os olhos de Chumbinho passaram por todo o interior do carro, em busca de alguma pista que justificasse o estranho comportamento do amigo detetive. No banco de trás, havia um grande envelope timbrado da Penitenciária Estadual de Segurança Máxima. Para completar o quadro, notou que o detetive esquecera de tirar um crachá da lapela. E lá também estava escrito o nome da penitenciária. Muito bem. Andrade estivera lá, e de lá viera direto para o Elite. Por quê?
— Está bem, Andrade. Está tudo bem por aqui.
Chumbinho disfarçou, riu, mostrou-se “menino”, para deixar Andrade mais à vontade e, de repente, com a carinha mais inocente do mundo, perguntou:
— Puxa, Andrade! Estou me lembrando agora do Doutor Q.I. O que será que ele anda pensando lá, na Penitenciária de Segurança Máxima?
— Ué... Quem lhe falou da Penitenciária de Segurança Máxima?
— É lá que está preso o Doutor Q.I., não é?
— O Doutor Q.I.? Está preso lá? Nem sei...
— Daquela penitenciária nunca ninguém fugiu, não é?
— Fugir de lá? Ora, essa é boa! Nem as moscas conseguem sair daquela fortaleza de concreto e aço. Tudo eletrificado, computadorizado e automatizado. Aquilo é à prova de fuga. Nem pense que o Doutor Q.I. conseguiria fugir de lá.
— Ué... você não disse que não sabia se o Doutor Q.I. estava ou não preso lá?
— E não sei mesmo! O que eu quis dizer é que, se ele estivesse, nunca conseguiria fugir! Aquilo é como um verdadeiro abrigo contra bomba atômica!
Então era isso! O detetive tentava esconder alguma coisa. Alguma coisa importante e que tinha que ver com os Karas. Senão, por que teria vindo ao Elite ainda com o crachá e com um grande envelope da penitenciária no banco de trás do carro? O que conteria o envelope? A ficha do Doutor Q.I.?
— Se o Doutor Q.I. fugisse da prisão, você nos contaria, não é, Andrade?
O gordo detetive agarrou o volante com raiva e ligou novamente o carro.
— Chumbinho, não se preocupe. Ele não faria nada contra vocês. Eu juro que não faria. Eu estou de olho. Ele não conseguiria nem se aproximar de vocês!
Andrade estava nervoso demais. “Faria”, “conseguiria”. . O menino estava certo de que não era para acreditar naqueles condicionais. O maldito Doutor Q.I. tinha fugido da prisão, só podia ser isso! Andrade viera direto ao Elite porque havia perigo. Perigo de vingança contra os Karas.
Quando Chumbinho viu o carro do detetive distanciar-se, já tinha resolvido o que fazer.
“Preciso da Magrí. Com o Doutor Q.I. à solta, os Karas estão em perigo”.
Em uma folha da sua agenda de bolso, rabiscou o telegrama em código e correu para a agência do correio.

 * * *

O telegrama não era do pai de Magrí. Era um telegrama estranho, em uma língua mais estranha ainda.
Mas não para Magrí. Estava em código. Um código que só os Karas conheciam. E que só era usado em ocasiões de grande urgência.
Com seu olhar treinado, a menina traduziu o texto de cabeça, na mesma hora. Era só aplicar primeiro o Código Vermelho, substituindo AIS por A, ENTER por E, INIS por I, OMBER por O e UFTER por U.
MIGSÁ
VENPO USGOLPO. KISIR OM TOSAGE
CHUMBALHE
O texto ainda não fazia qualquer sentido, mas Magrí sabia que, em seguida, bastava usar o Código Tenis-Polar, colocando a palavra “TENIS” sobre a palavra “POLAR”, de modo que o T correspondesse ao P, o E ao O, o N ao L, o I ao A, o S ao R, e vice-versa.
Pronto. Lá estava o texto do telegrama:
MAGRÍ VOLTE URGENTE. KARAS EM PERIGO
CHUMBINHO

* * *

Dona Iolanda estava quase chorando na hora do embarque.
— Que azar, Magrí! Você foi se machucar quando faltavam só dois dias para a prova final! Ai, ai, ai! Só pode ser praga. A culpa foi minha. Eu não devia ter forçado tanto os treinamentos. . .
— Que nada, dona Iolanda — consolava-a Magrí, enquanto fingia manquitolar ao lado da professora, na fila de embarque do Aeroporto Kennedy. — Isso acontece. Já estou muito grande para o triplo mortal de costas. Caí de mau jeito...
— Sorte da ucraniana! Isso é praga de russo! Eu sabia que não se pode confiar nessa gente!
Magrí sentou-se na poltrona do avião e ajeitou cuidadosamente a perna enfaixada.
— Está doendo? — perguntou dona Iolanda, ajudando-a a afivelar o cinto de segurança.
— Um pouco... — fingiu Magrí.
O enorme jato decolou suavemente.
Magrí suspirou. Para ela não tinha sido fácil fingir a contusão no tornozelo. Ela também estava ansiosa para ganhar a medalha de ouro do Campeonato Mundial de Ginástica Olímpica dos Estados Unidos. Dedicava-se aos treinamentos há anos, lutando por aquela oportunidade. Mas o telegrama de Chumbinho era mais importante do que qualquer competição.
“Bom, ainda tenho as Olimpíadas, no ano que vem...”
A urgência declarada no telegrama não poderia esperar os dois dias que faltavam para a prova final de ginástica de solo. Os Karas estavam em perigo. E os Karas, para Magrí, estavam acima de todas as medalhas de ouro. A ginástica olímpica era sua realização, mas os Karas eram a sua vida.
Voltou-lhe à lembrança um rapaz especial entre os Karas. “Será que alguma coisa aconteceu a ele? Por ele, eu abandonaria até as Olimpíadas!”, pensava a menina, olhando para as nuvens pelo lado de cima, que sempre lhe tinham parecido como um campo nevado, fofo, onde seria maravilhoso mergulhar. “Mergulhar com ele...”

Um comentário:

  1. "A ginástica olímpica era sua realização, mas os Karas eram a sua vida."

    Frase bonita...

    E a Magrí está pensando em um menino específico, me pergunto qual deles é.

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