24 de fevereiro de 2018

Capítulo 4

Para: KatClark1@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, Bandida Fedida É Você! (É assim que uma contadora respeitável deve se dirigir à irmã viajante do mundo?)
Estou bem, obrigada. Minha patroa — Agnes — tem a minha idade e é muito legal. Então isso tem sido um bônus. Você não imagina os lugares aonde tenho ido… Ontem à noite fui a um baile usando um vestido que valia mais do que eu ganho em um mês. Me senti a própria Cinderela. Só que com uma irmã linda (é, isso é uma novidade para mim. Ha-ha-ha-ha!).
Que bom que o Thom está gostando da escola nova. Não se preocupe com a questão da caneta — podemos sempre pintar a parede. Mamãe disse que é um sinal da expressão criativa dele. Sabia que ela está tentando convencer o papai a fazer aulas à noite para aprender a se expressar melhor? Ele enfiou na cabeça que isso significa que ela vai obrigá-lo a fazer sexo tântrico. Só Deus sabe onde ele leu sobre isso. Fingi que ela tinha me dito que esse era exatamente o objetivo quando ele me ligou, mas agora estou um pouco culpada porque ele está morrendo de medo de ter que tirar o “amigo” de dentro da calça na frente de um monte de desconhecidos.
Dê mais notícias. Em especial sobre o encontro!!!
Saudades,
Lou
P.S.: Se o papai tirar mesmo o “amigo” de dentro da calça na frente de um monte de desconhecidos, eu não quero saber de NADA.

* * *
De acordo com a agenda de Agnes, diversos eventos eram destaques do calendário social de Nova York, mas o jantar beneficente da Fundação de Caridade Neil e Florence Strager equilibrava-se em algum ponto perto do topo da escala de importância. Os convidados se vestiam de amarelo — para os homens, isso significava gravatas amarelas, a menos que eles fossem particularmente exibicionistas —, e as fotografias resultantes eram distribuídas em publicações que iam do New York Post à Harper’s Bazaar. O traje era formal, as roupas amarelas, deslumbrantes, e os ingressos custavam a mixaria de uns trinta mil dólares por mesa. Isso para ficar na periferia do salão. Eu descobrira essa informação porque passei a pesquisar cada evento a que Agnes compareceria, e sabia que aquele era importante não apenas pela quantidade de preparativos (manicure, cabeleireiro, massagista, sessões extras com George pelas manhãs), mas também pelo nível de estresse de Agnes. Ela passou o dia inteiro vibrando fisicamente, gritando com George porque não conseguia fazer os exercícios que ele havia passado, não conseguia correr aquela distância.
Tudo era impossível. George, que era quase tão calmo quanto um budista, disse que não havia problema algum, que podiam caminhar de volta e que a endorfina da caminhada faria bem. Quando foi embora, ele me lançou uma piscadela, como se tudo aquilo fosse de se esperar.
O Sr. Gopnik, talvez em resposta a algum telefonema angustiado, voltou para casa na hora do almoço e encontrou Agnes trancada no quarto de vestir. Peguei com Ashok algumas roupas que tinham chegado da lavanderia e cancelei a consulta de clareamento dental, então fiquei sentada no corredor, sem saber ao certo o que deveria estar fazendo. Ouvi a voz dela abafada quando ele abriu a porta:
— Não quero ir.
O que quer que Agnes tenha dito depois fez com que o Sr. Gopnik ficasse em casa durante muito mais tempo do que eu havia previsto. Nathan tinha saído, de forma que eu não podia falar com ele. Michael passou por lá, espiando pela porta.
— Ele ainda está aqui? — perguntou. — Meu rastreador parou de funcionar.
— Rastreador?
— No celular dele. Muitas vezes, é o único jeito de eu saber onde ele está.
— Ele está no quarto de vestir da Agnes.
Eu não sabia mais o que dizer, se podia ou não confiar em Michael. Mas era difícil ignorar as vozes em tom elevado.
— Acho que a Sra. Gopnik não está com muita vontade de sair hoje à noite — completei.
— Alerta Roxo. Eu avisei.
Então me lembrei.
— A antiga Sra. Gopnik. Esta era a noite dela, e Agnes sabe disso. Ainda é. Todas as megeras dela vão estar lá. Não são muito amigáveis — explicou Michael.
— Bem, isso explica muita coisa.
— Ele é um patrocinador importante, então não pode deixar de ir. Além disso, é amigo dos Strager há muito tempo. Mas é uma das noites mais difíceis da agenda deles. O encontro do ano passado foi um fracasso total.
— Por quê?
— Ah. Ela entrou feito uma ovelha no abatedouro.
Michael fez uma careta.
— Achou que aquelas mulheres seriam suas novas melhores amigas. Pelo que ouvi depois, elas arrasaram com ela.
Eu estremeci.
— Ele não pode ir sozinho?
— Ah, querida, você não tem ideia de como as coisas funcionam por aqui. Não, não, não. Ela tem que ir. Tem que colocar um sorriso no rosto e aparecer nas fotos. Essa é a função de Agnes agora. E ela sabe disso. Mas não vai ser agradável de ver.
As vozes estavam mais altas. Ouvimos Agnes protestar, e, em seguida, a voz do Sr. Gopnik, mais baixa, suplicante, sensata.
Michael olhou para o relógio.
— Vou voltar para o escritório. Pode me fazer um favor? Mande uma mensagem de texto quando ele sair. Tenho cinquenta e oito coisas para ele assinar antes das três da tarde. Amo você!
Ele me jogou um beijo e saiu.
Fiquei sentada durante mais algum tempo, tentando não escutar a discussão no fim do corredor. Percorri a agenda, perguntando-me se havia algo que pudesse fazer para ser útil. Felix passou por mim, o rabo erguido como um ponto de interrogação, alheio às ações dos humanos ao redor.
Então a porta se abriu. O Sr. Gopnik me avistou.
— Ah, Louisa. Pode vir aqui um instante?
Fiquei de pé e dei alguns passos apressados até onde ele estava. Foi difícil, já que correr vinha me causando câimbras.
— Queria saber se você está livre esta noite.
— Livre?
— Para ir a um evento. De caridade.
— Hum… Claro.
Eu sabia desde o começo que meu horário de trabalho não seria regular. Pelo menos aquilo significava que eu provavelmente não veria Ilaria. Faria o download de um filme em um dos iPads e assistiria no carro.
— Pronto. O que acha, querida?
Agnes parecia ter chorado.
— Ela pode sentar do meu lado? — perguntou.
— Vou dar um jeito.
Ela respirou fundo, de um modo entrecortado.
— Então está bem, eu acho.
— Sentar ao lado…
— Que bom. Que bom!
O Sr. Gopnik checou o celular.
— Certo. Preciso mesmo ir. Vejo você no salão principal às sete e meia. Aviso se conseguir encerrar a teleconferência antes.
Ele deu um passo à frente e pegou o rosto de Agnes entre as mãos, beijando-a.
— Você está bem?
— Estou.
— Amo você. Muito.
Mais um beijo, então ele se foi.
Agnes respirou fundo mais uma vez. Levou as mãos aos joelhos, então olhou para mim.
— Tem um vestido de festa amarelo?
Eu a encarei.
— Hum. Não. Não tenho muitos vestidos de festa, na verdade.
Ela me olhou de cima a baixo, como que tentando avaliar se alguma roupa dela caberia em mim. Acho que nós duas sabíamos a resposta. Então ela se empertigou.
— Ligue para o Garry. Precisamos ir até a Saks.

* * *

Meia hora depois, eu estava de pé em um provador enquanto duas funcionárias da loja tentavam espremer meus seios dentro de um vestido tomara que caia cor de manteiga sem sal. Brinquei com elas que na última vez que haviam me tocado com tanta intimidade, eu tinha sugerido que ficássemos noivos logo depois. Ninguém riu.
Agnes franziu o cenho.
— Muito nupcial. E dá a impressão de que ela é larga na região da cintura.
— É porque sou larga na região da cintura.
— Fazemos cintas ótimas, Sra. Gopnik.
— Ah, não sei se…
— Vocês têm algo mais estilo anos cinquenta? — perguntou Agnes, olhando para o celular. — Porque isso vai diminuir a cintura dela e resolver a questão da altura. Não temos tempo para ajustar nada.
— Quando é o evento, senhora?
— Temos que estar lá às sete e meia.
— Podemos ajustar o vestido para a senhora a tempo, Sra. Gopnik. Peço a Terri que entregue na sua casa às seis.
— Então vamos tentar aquele modelo cor de girassol ali… e aquele com as lantejoulas.
Se soubesse que aquela tarde seria a única vez na vida em que experimentaria vestidos de três mil dólares, eu talvez tivesse me assegurado de não usar uma calcinha cômica com estampa de cachorro salsichinha e um sutiã preso com um alfinete. Perguntei-me quantas vezes em uma semana era possível mostrar os seios a estranhos. Perguntei-me também se aquelas funcionárias já tinham visto um corpo como o meu, com gorduras localizadas reais. As vendedoras da loja eram educadas demais para comentar sobre isso, a não ser pelas repetidas sugestões de cintas “corretivas”. Em vez disso, simplesmente traziam um vestido atrás do outro, espremendo-me e me arrancando de cada um, como quem lida com gado, até que Agnes, sentada em uma poltrona estofada, anunciou:
— Isso! É esse. O que acha, Louisa? Até o comprimento é perfeito para você, com essa anágua de tule.
Olhei fixamente para meu reflexo. Não reconheci a mulher no espelho. Minha cintura estava comprimida por um corpete embutido, meus seios, erguidos formando um volume perfeito. A cor fazia minha pele brilhar e a saia longa me deixava trinta centímetros mais alta e totalmente diferente. O fato de eu não conseguir respirar era irrelevante.
— Vamos prender seu cabelo e arrumar uns brincos. Perfeito.
— E esse vestido está com vinte por cento de desconto — disse uma das vendedoras. — Não vendemos muitas peças amarelas depois do evento dos Strager…
Quase murchei de alívio. Então olhei a etiqueta. O preço do vestido, com a promoção, era de 2.575 dólares. Meu salário. Acho que Agnes deve ter visto meu rosto pálido, pois acenou para uma das mulheres.
— Louisa, troque de roupa. Você tem sapatos que combinem? Podemos ir ao departamento de sapatos.
— Tenho sapatos. Muitos sapatos.
Eu tinha um par de sapatos de dança dourados com saltos de cetim que funcionaria bem. Não queria que aquela conta ficasse ainda mais cara.
Voltei para o cubículo do provador e tirei o vestido com cuidado, sentindo o peso daquele valor cair ao meu redor. Enquanto me vestia, ouvi Agnes falando com as vendedoras. Ela pediu uma bolsa e brincos, deu uma olhada superficial e pareceu satisfeita.
— Coloquem na minha conta.
— É para já, Sra. Gopnik.
Encontrei-a diante do caixa. Enquanto nos afastávamos da loja, eu carregando as sacolas, falei baixinho:
— Então, quer que eu tome bastante cuidado?
Ela me olhou, sem entender.
— Com o vestido.
Agnes ainda parecia confusa.
Baixei a voz.
— Lá em casa, a gente enfia a etiqueta para dentro, assim dá para devolver a roupa no dia seguinte. Sabe, contanto que não haja nenhuma mancha de vinho acidental nem esteja com muito cheiro de cigarro. Talvez valha a pena borrifar um perfume.
— Devolver?
— Para a loja.
— Por que faríamos isso? — indagou ela enquanto entrávamos no carro e Garry guardava as sacolas na mala. — Não faça essa cara nervosa, Louisa. Acha que eu não sei como se sente? Eu não tinha nada quando cheguei aqui. Eu e minhas amigas dividíamos até as roupas. Mas você tem que usar um vestido bonito quando sentar do meu lado esta noite. Não pode ir com o uniforme. Hoje à noite você não é uma funcionária. E fico feliz de pagar por isso.
— Certo.
— Você entende? Esta noite, você não pode ser uma funcionária. É muito importante.
Pensei na imensa sacola no porta-malas atrás de mim enquanto o carro navegava lentamente em meio ao trânsito de Manhattan, um pouco perplexa com o rumo que o dia estava tomando.
— Leonard disse que você cuidou de um homem que morreu.
— Cuidei. O nome dele era Will.
— Ele disse que você tem… discrição.
— Eu tento.
— E também que não conhece ninguém aqui.
— Só o Nathan.
Ela refletiu sobre aquilo.
— Nathan. Acho que ele é uma boa pessoa.
— É mesmo.
Ela examinou as próprias unhas.
— Você fala polonês?
— Não. Mas talvez possa aprender, se você… — acrescentei rapidamente.
— Sabe o que é difícil para mim, Louisa?
Fiz que não com a cabeça.
— Não sei em quem posso…
Ela hesitou, então pareceu mudar de ideia a respeito do que ia dizer.
— Preciso que seja minha amiga esta noite. Está bem? Leonard… vai ter que fazer o trabalho dele. Sempre falando com os homens. Mas você vai ficar comigo, certo? Bem do meu lado.
— Como quiser.
— E se alguém perguntar, você é uma velha amiga minha. De quando eu morava na Inglaterra. Nós… nós nos conhecemos na escola. Você não é minha assistente, ok?
— Entendi. Escola.
Isso pareceu satisfazê-la. Ela assentiu e se recostou. Não disse mais nada durante todo o percurso até o apartamento.

* * *

O New York Palace Hotel, onde acontecia o baile de gala da Fundação Strager, era tão grandioso que chegava a ser quase cômico: uma fortaleza de contos de fada, com um pátio e janelas arqueadas, repleto de lacaios uniformizados com calças de seda amarelas como narcisos. Era como se houvessem examinado todos os grandes hotéis europeus, feito anotações sobre cornijas requintadas, saguões de mármore e detalhes dourados e tivessem decidido juntar tudo, salpicar um pouco de pó mágico da Disney na coisa toda e alçar o conjunto a um nível máximo. Eu tive a impressão de que a qualquer momento veria uma carruagem de abóbora e um sapatinho de cristal na escada com tapete vermelho. Quando estacionamos, espiei o interior luminoso, as luzes que piscavam e o mar de vestidos amarelos e quase tive vontade de rir, mas Agnes estava tão tensa que não ousei fazer isso. Além do mais, meu corpete estava tão justo que a costura provavelmente teria estourado.
Garry nos deixou diante da entrada principal, manobrando o carro até uma área abarrotada de limusines pretas. Depois de passar por uma multidão de espectadores na calçada, entramos. Um homem pegou nossos casacos e pela primeira vez o vestido de Agnes ficou totalmente visível.
Estava deslumbrante. Seu vestido não era convencional como o meu, ou como o de qualquer uma das outras mulheres ali, mas de um tom néon de amarelo. Um modelo estruturado, um tubo até o chão com um adereço em um dos ombros que ia até a cabeça. O cabelo estava puxado para trás sem piedade, apertado e lustroso, e dois enormes brincos de ouro com diamante amarelo pendiam de suas orelhas. O traje todo deveria parecer extraordinário. Mas ali, percebi com uma leve dor no estômago, era de alguma fora exagerado — deslocado em meio à grandiosidade antiquada do hotel. Enquanto ela estava parada, as cabeças ao redor se viraram, sobrancelhas se erguendo à medida que as matronas com seus vestidos de seda amarelos e corpetes rígidos a observavam com o canto dos olhos cuidadosamente maquiados.
Agnes pareceu não notar. Olhou ao redor distraidamente, tentando localizar o marido. Só iria relaxar quando segurasse o braço dele. Às vezes, eu os observava juntos e tinha uma sensação quase palpável do alívio que a tomava quando sentia a presença dele ao seu lado.
— Seu vestido é incrível — falei.
Ela baixou os olhos na minha direção, como se só nesse momento tivesse se lembrado da minha presença. Um flash foi disparado e vi que fotógrafos circulavam entre nós. Afastei-me um pouco para dar espaço a Agnes, mas o homem fez um gesto na minha direção.
— Você também, senhora. Isso. E sorria.
Ela sorriu, olhando brevemente para mim como que para se assegurar de que eu ainda estava por perto.
E então o Sr. Gopnik apareceu. Caminhou até nós com alguma dificuldade — Nathan dissera que ele estava tendo uma semana difícil — e beijou a bochecha da esposa. Ouvi-o murmurar algo ao seu ouvido e ela sorriu, um sorriso sincero e sem defesas. Suas mãos se encontraram brevemente, e, nesse instante, percebi que duas pessoas podiam se encaixar em todos os estereótipos possíveis e, ainda assim, terem algo completamente genuíno e sentirem um prazer absoluto com a presença do outro. Então fiquei com saudade de Sam. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia imaginá-lo em um lugar como aquele, preso em um paletó com gravata-borboleta. Ele teria odiado aquilo, pensei, distraída.
— Nome, por favor?
O fotógrafo surgira ao meu lado.
Talvez o fato de estar pensando em Sam tenha feito com que eu respondesse assim:
— Hum. Louisa Clark-Fielding — disse, com minha melhor imitação de um sotaque de alta classe. — Da Inglaterra.
— Sr. Gopnik! Aqui, Sr. Gopnik!
Eu entrei na multidão enquanto os fotógrafos faziam cliques dos dois juntos, a mão dele pousada delicadamente nas costas de Agnes, os ombros dela retos e o queixo erguido, como se pudesse comandar o evento todo. Então, vi o Sr. Gopnik examinar o cômodo inteiro me procurando, seus olhos se encontrando com os meus do outro lado do saguão.
Ele acompanhou Agnes até onde eu estava.
— Querida, preciso falar com algumas pessoas. Vocês duas vão ficar bem sozinhas?
— É claro, Sr. Gopnik — respondi, como se fizesse aquele tipo de coisa todos os dias.
— Vai voltar logo? — perguntou Agnes, ainda segurando a mão dele.
— Tenho que falar com Wainwright e Miller. Prometi que daria dez minutos a eles para ver essa questão dos títulos.
Agnes fez que sim, mas a expressão dela revelava sua relutância em deixá-lo ir. Enquanto ela caminhava pelo saguão, o Sr. Gopnik se inclinou na minha direção.
— Não deixe que ela beba demais. Está nervosa.
— Sim, Sr. Gopnik.
Ele assentiu e olhou ao redor como que absorto em pensamentos. Então voltou-se para mim outra vez e sorriu.
— Você está muito bonita.
E foi embora.

* * *

O salão estava lotado, um mar amarelo e preto. Eu estava usando a pulseira amarela e preta que a filha de Will, Lily, tinha me dado antes que eu deixasse a Inglaterra — e pensei comigo mesma como teria adorado vestir minha meia-calça de abelha também. Aquelas mulheres pareciam jamais ter se divertido com suas roupas.
A primeira coisa que chamou minha atenção foi a magreza da maioria das mulheres ali presentes, comprimidas em vestidos minúsculos, as clavículas protuberantes feito grades de segurança. Após certa idade, as mulheres de Stortfold tendiam a aumentar para os lados, escondendo os centímetros extras com cardigãs ou casacos compridos (“Está cobrindo meu bumbum?”) e fingindo se importar com a própria aparência ao comprar um rímel novo ou cortar o cabelo a cada seis semanas. Na minha cidade natal, prestar muita atenção a si mesma era algo quase suspeito ou indicava um autointeresse nada saudável. Mas as mulheres naquele salão pareciam ter transformado a própria aparência em um trabalho em tempo integral. Não havia um fio de cabelo que não estivesse perfeitamente moldado, um braço que não tivesse sido obedientemente tonificado por rigorosos exercícios diários. Até mesmo as mulheres de idade incerta (era difícil saber, devido à quantidade de Botox e preenchimentos) pareciam nunca ter ouvido falar em braços flácidos que balançam quando se dá tchau. Lembrei de Agnes com seu personal trainer e com seu dermatologista, seus horários no cabeleireiro e na manicure e pensei: este é o trabalho dela agora. Ela precisa se dedicar a toda essa manutenção para poder aparecer aqui e não fazer feio diante dessa multidão.
Agnes se movia lentamente entre os convidados, a cabeça erguida, sorrindo para os amigos do marido, que iam cumprimentá-la e trocar algumas palavras com ela enquanto eu pairava, pouco à vontade, no segundo plano. Os amigos eram sempre homens. Apenas os homens sorriam para ela. As mulheres, embora não fossem grosseiras a ponto de se afastarem, tendiam a virar o rosto com discrição, como que subitamente distraídas por algo ao longe, de forma a não precisarem falar com ela. Diversas vezes, à medida que caminhávamos em meio à multidão, eu atrás dela, vi a expressão de alguma esposa se enrijecer, como se a presença de Agnes fosse alguma forma de transgressão.
— Boa noite — disse uma voz ao meu ouvido.
Ergui os olhos e cambaleei para trás. Will Traynor estava de pé ao meu lado.

8 comentários:

  1. Nããããoo... isso é... impossível... não tem como mortos voltarem à vida ;-; então acho que é um cara que só se parece com ele?

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  2. O queeeee ?? Como assim ? WILL ??

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  3. COmo assim......preciso estudar tenho prova...buabuabua

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  4. Queeeee para... acho que ela esta vendo coisa ....Mas eu iria amar se for ele mesmo... Will ❤❤❤

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