20 de fevereiro de 2018

Capítulo 4

Um por um, eles se colocaram prostrados em um só joelho, oferecendo-me apresentações formais. Embora todos já tivessem me visto seminua e me segurando dos modos mais familiares enquanto os pontos estavam sendo costurados, talvez fosse a primeira vez em que acharam que eu poderia realmente viver tempo o suficiente para me lembrar de alguma coisa depois.
Coronel Sven Haverstrom, da Guarda Real de Dalbreck, Tutor Designado do Príncipe da Coroa, Jaxon. Os outros riram desse título. Eles sentiam-se à vontade para fazer piadas e provocações, até mesmo com um oficial superior a eles, mas Sven respondeu a eles da melhor forma que lhe foi possível.
Oficial Jeb McCance, das Forças Especiais de Falworth.
Oficial Tavish Baird, Estrategista, do Quarto Batalhão.
Oficial Orrin del Aransas, Primeiro Arqueiro da Unidade de Ataque de Falworth.
Mordi o canto do meu lábio, hesitante, e ergui as sobrancelhas.
— E posso confiar que esses são seus nomes de verdade e as suas reais ocupações desta vez?
Eles olharam para mim com incerteza por um instante e depois deram risada, percebendo que eu estava brincando junto com eles.
— Sim — disse Sven — mas eu não confiaria no camarada em que está apoiada. Ele diz que é um príncipe, mesmo não passando de um...
— Já chega — disse Rafe. — Não vamos exaurir a princesa com essa tagarelice tola de vocês.
Abri um sorriso, apreciando a leveza deles, mas senti uma certa inquietação por trás disso, um esforço para mascarar a amargura da nossa situação.
— A comida está pronta! — anunciou Orrin.
Rafe me ajudou a sentar junto a um apoio de costas improvisado, composto de selas e cobertores. Enquanto me agachava, dobrei a perna, e um choque fogoso passou por ela, como estivesse sendo perfurada por uma flecha novamente. Eu me controlei para não soltar um gemido.
— Como estão as costas e a perna? — perguntou-me Tavish.
— Melhores — respondi assim que recobrei o fôlego. — Acho que você deveria acrescentar Hábil Cirurgião de Campo à sua lista de títulos.
Orrin ficou me observando comer como se cada mordida que eu desse fosse uma prova das suas habilidades culinárias. Além da carne assada, ele fizera uma sopa da carcaça do animal, e havia também alguns nabos. Ao que parecia, Jeb não fora o único que havia armazenado alguns luxos no seu alforje. A conversa ficou centrada na comida, e nas outras carnes de animais que eles tinham avistado para futuras refeições: cervo, gambá e castor. Tópicos suaves. Nada parecido com o que eles planejavam essa manhã e que haviam tentado impedir que eu escutasse.
Terminei a minha refeição e voltei a conversa para um assunto mais premente.
— Então parece que temos uma semana à frente deles — falei.
Eles pararam de comer por um momento e olharam de relance uns para os outros, rapidamente avaliando o quanto tinha sido dito pela manhã e o que eu poderia ter ouvido. Rafe limpou o canto da boca com a lateral da mão.
— Duas semanas à frente, com a neve pesada que caiu.
Sven pigarreou.
— Isso mesmo. Duas semanas, Vossa Al...
— Lia — falei. — Chega de formalidades. Todos estamos além disso agora, não é?
Todos olharam para Rafe, deixando a decisão para ele, que assentiu. Eu quase havia me esquecido de que Rafe era o soberano deles. De que era o príncipe deles. Hierarquicamente, ele estava acima de todos, inclusive de Sven.
Sven confirmou com um único assentir.
— Muito bem, Lia.
— Pelo menos duas semanas — concordou Orrin. — Seja lá o que foi que Rafe colocou nas engrenagens da ponte, deu conta do recado.
— Foi Lia quem me deu aquilo — falou Rafe.
Eles olharam surpresos para mim, talvez se perguntando se eu havia conjurado algum tipo de magia morrighesa. Contei a eles sobre os eruditos nas cavernas que ficavam embaixo do Sanctum, que estavam revelando os segredos dos Antigos e que haviam desenvolvido o poderoso líquido claro que dei a Rafe. Também descrevi a cidade do exército oculto de Komizar e as coisas que eu havia testemunhado, inclusive os Brezalots de ataque, que carregavam os embrulhos que explodiam como uma tempestade de fogo.
— O Komizar planejava marchar para cima Morrighan primeiro e depois para o restante dos reinos. Ele queria todos eles.
Sven deu de ombros e meio que confirmou minha história, dizendo que o Komizar falava com empolgação sobre o poder desse exército que os governadores e suas províncias estavam financiando.
— Mas pelo menos metade dos governadores permanecia cética. Eles achavam que Komizar estava inflando os números e a sua capacidade para conseguir dízimos maiores deles.
— Você viu a cidade? — perguntei a ele. — O Komizar não estava exagerando.
— Não vi, mas outros governadores que a viram ainda não saíram convencidos.
— Eles provavelmente só queriam o Komizar amenizasse os seus encargos. Sei o que eu vi. Não restam dúvidas de que, com aquele exército e aquelas armas que ele estava acumulando, Venda poderia facilmente aniquilar Morrighan... e Dalbreck também.
Orrin soltou uma bufada.
— Ninguém é capaz de derrotar o exército de Dalbreck.
Olhei incisivamente para ele.
— Ainda assim, Morrighan fez isso muitas vezes no nosso passado truculento. Ou vocês não estudam história lá em Dalbreck?
Orrin olhou de relance para mim, sem jeito, e então baixou o olhar para tigela de sopa que tinha em mãos.
— Isso foi há um bom tempo, Lia — interveio Rafe. — Bem tempo antes do reinado do meu pai... e do reinado do seu pai. Muito mudou desde então.
Não deixei de notar a baixa consideração que ele tinha sobre o meu pai. Estranhamente, isso fez com que uma centelha defensiva se acendesse dentro de mim. Contudo, era verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como era o exército de Dalbreck hoje. No entanto, nos últimos e vários anos, o exército morrighês havia encolhido. Agora eu me perguntava se isso acontecera por causa do Chanceler, para fazer de nós um alvo mais fácil, exceto que eu não tinha certeza de que ele sozinho, como supervisor do tesouro, poderia ter feito com que isso acontecesse, nem mesmo com ajuda do Erudito Real. Seria possível que outros membros do gabinete estivessem nessa conspiração?
Rafe esticou a mão e pousou no meu joelho, talvez percebendo a dureza do seu comentário.
— Isso não vem ao caso — disse ele. — Se este exército realmente existe, sem a ambição calculista de Komizar, ele vai cair em desordem. Malich não tem a sagacidade para liderar um exército, muito menos para manter a lealdade do conselho. Pode até ser que ele já esteja morto.
Pensar na cabeça arrogante de Malich rolando pelo chão do Sanctum me acalentava... sendo o meu único arrependimento o fato de que não fora eu responsável por isso. Mas quem mais poderia assumir a poderosa posição do Komizar? E quanto a chievdar Tyrick? O governador Yanos? Ou talvez Trahern, dos Rahtans? Eles eram com certeza os indivíduos mais detestáveis e determinados daqueles que restavam no conselho, mas eu sabia que nenhum deles tinha a perspicácia ou a fineza necessárias para garantir a lealdade do conselho, muito menos para seguir a diante com as descomunais ambições de Komizar. No entanto, com tanta coisa em jogo, será que essa era uma suposição que qualquer reino poderia se dar o luxo de fazer? O reino de Morrighan precisava ser avisado da possível ameaça e estar preparado para ela.
— Facilmente duas semanas — disse Jeb, tentando voltar ao assunto mais positivo do nosso amplo tempo à frente deles. Ele arrancou mais um pedaço de carne de texugo. — O Sanctum estava imerso em caos quando partimos, e, com mais gente tentando tomar o poder, pode ser que eles não comecem a seguir de imediato a jornada pelo baixo rio.
— Eles vão fazer isso. — Sven olhou para Rafe com seus frios olhos cinzentos. — A questão não é em quanto tempo farão isso, mas sim quantos soldados vão enviar. Não é só atrás dela que estarão. Você será um prêmio altamente cobiçado também. O príncipe da coroa de Dalbreck não apenas roubou algo que eles valorizam como também, sem sombra de dúvida, feriu grandemente o orgulho deles com o seu engodo.
— Foi o orgulho do Komizar que eu feri — disse Rafe, corrigindo-o — e ele está morto.
— Talvez.
Olhei para Sven, incrédula, e o meu coração ficou apertado como um nó frio.
— Não existe nenhum “talvez” em relação a isso. Eu o esfaqueei duas vezes e torci a lâmina. As entranhas dele estavam em pedaços.
— Você o viu morrer? — perguntou Sven.
Se eu o vi morrer?
Fiz uma pausa, tomando um tempo para me compor uma resposta bem argumentada.
— Ele estava no chão, engasgando nos seus últimos suspiros — falei. — Se não sangrou até morrer, o veneno liberado nas entranhas acabou com ele. É uma forma dolorosa de morrer. Lenta às vezes, mas eficaz.
Cautelosos olhares de relance foram trocados entre eles.
— Não, eu nunca havia esfaqueado alguém na barriga antes — expliquei. — Mas tenho três irmãos que são soldados, e eles não escondiam nada de mim. Não existe chance alguma de que o Komizar tenha sobrevivido aos ferimentos.
Sven tomou um longo e lento gole de sua caneca.
— Você levou uma flechada nas costas e caiu em um rio imenso e gelado. As suas chances não eram boas e, ainda assim, aqui está você. Quando nós deixamos o terraço... o Komizar não estava mais lá.
— Isso não quer dizer nada — falei, ouvindo o pânico que se erguia em minha voz. — Ulrix ou algum guarda podem ter carregado o corpo dele para longe de lá. Ele está morto.
Rafe colocou a xícara de lado, e a colher bateu ruidosamente na lateral dela.
— Ela está certa, Sven. Eu mesmo vi quando Ulrix arrastou o corpo pelo portal. Reconheço um cadáver quando vejo um. Não há dúvidas de que o Komizar está morto.
Seguiu-se um momento de silêncio tenso entre eles, e então Sven aquiesceu, em silêncio, abaixando o queixo em reconhecimento a isso.
Eu não tinha me dado conta de que estava inclinada para frente, e voltei a me apoiar no monte de cobertas que Rafe preparara para mim, fraca com a exaustão, minhas costas molhadas de suor.
Rafe esticou a mão e sentiu minha testa.
— Você está ficando com febre de novo.
— São só o fogo e a sopa — falei.
— O que quer que seja, você precisa descansar.
Não discuti. Agradeci a Orrin pela comida, e Rafe me ajudou a ir até meu saco de dormir. Os últimos passos drenaram toda a minha energia e eu mal conseguia manter os olhos abertos enquanto ele me ajudava a me ajeitar. Aquilo foi o máximo de conversa e atividades que tive em dias.
Ele se inclinou para cima de mim, tirando mechas dos meus cabelos úmidos de suor e deu um beijo na minha testa. Começou a se levantar, mas eu o impedi, perguntando-me o que mais ele poderia ter visto.
— Você tem certeza de que ele estava morto?
Rafe assentiu.
— Sim. Não se preocupe. Você o matou, Lia. Descanse agora.
— E quanto aos outros? Você acha que eles sobreviveram? O governador Faiwell, Griz, Kaden?
Ele cerrou o maxilar com força quando mencionei o nome de Kaden e demorou para responder.
— Não — disse por fim. — Não acho que tenham saído daquela vivos. Você viu o enxame de soldados chegando quando fomos embora. Kaden e os outros não podiam escapar. Havia Malich também. Da última vez que vi Kaden, ele estava engajado em um combate com ele. Se Malich conseguiu descer até o rio, você pode imaginar o que aconteceu com Kaden.
A dor do que ele não falou crescia dentro de mim... Kaden não era mais um obstáculo para Malich.
— Ele teve o que mereceu — disse Rafe baixinho.
— Mas ele nos ajudou a lutar para que pudéssemos fugir.
— Não. Ele estava lutando para salvar a sua vida, e por isso sou grato, mas ele não estava tentando ajudá-la a fugir. Ele não fazia a mínima ideia que tínhamos um plano de fuga.
Eu sabia que ele estava certo. Pelos seus próprios motivos, tanto Kaden quanto Griz queriam me manter em Venda. Não era para me ajudar a fugir que eles estavam erguendo as espadas contra os seus irmãos.
— Ele era um deles, Lia. Morreu da forma que viveu.
Cerrei os olhos, com a exaustão deixando as minhas pálpebras pesadas demais para que eu as mantivesse abertas. Meus lábios ardiam com o calor, e as palavras que murmurei faziam com que ardessem mais.
— Aí está uma ironia. Ele não era um deles. Era morrighês. De nascimento nobre. Só se voltou para Venda porque o próprio povo o havia traído. Exatamente como eu fiz.
— O que foi que você disse?
Exatamente como eu fiz.
Ouvi Rafe se afastando e então se seguiram mais sussurros. Dessa vez, porém, não fui capaz de discernir o que estava sendo dito. As palavras abafadas entrelaçavam-se com a escuridão em uma sedosa neblina negra.

* * *

Acordei alarmada e olhei ao meu redor, tentando rememorar o que havia feito com que eu acordasse. Um sonho? Mas eu não conseguia lembrar. Rafe dormia ao meu lado, com o braço em volta da minha cintura, de forma protetora, como se alguém pudesse me pegar e me levar embora. Jeb estava sentado, apoiado em uma grande rocha, com a espada ao seu lado. Esse era o turno dele na vigília, mas os seus olhos estavam fechados. Se estávamos duas semanas à frente deles, por que eles sentiam a necessidade de manter uma vigília? É claro que havia animais selvagens a serem considerados, que poderiam gostar desta bela e espaçosa caverna para se refugiarem nela. Orrin havia mencionado ter visto rastros de pantera.
Jeb devia ter acabado de adicionar carvão à fogueira, porque ela ardia em chamas, quente. Ainda assim, um calafrio subia de mansinho pelos meus ombros. As chamas tremeluziam com a brisa, e as sombras ficavam mais escuras.
Ande logo, senhorita.
Minha cabeça latejava com o som da voz de Aster, e eu me perguntava se isso me assombraria para sempre. Ergui um dos braços e sorvi um gole de um cantil. Rafe sentiu meu movimento, e o braço dele me puxou com mais força, o corpo aproximou-se ainda mais do meu aos poucos. Encontrei conforto nesse pequeno ato. Parecia que ele nunca mais permitiria que algo se colocasse entre nós novamente.
Sven estava roncando, e Orrin estava deitado de lado, com a boca escancarada, um fino filete de baba escorrendo pelo canto dela. Tavish estava enrolado, como se fosse uma bola, com o cobertor puxado por cima da sua cabeça, apenas uma mecha dos cabelos pretos fora da coberta. Todos eles em paz, conseguindo o descanso que tanto mereciam, com os corpos também se curando de suas feridas.
Eu havia começado a me acomodar de volta no meu saco de dormir quando o frio me atingiu de novo, dessa vez mais forte, fazendo pressão no meu peito, tornando mais difícil respirar. As sombras ficavam mais escuras, e o temor insinuava-se por mim como uma víbora, desejando dar o bote. Fiquei esperando. Sabendo. Temendo. Alguma coisa estava...
Não demore, senhorita, ou todos eles vão morrer.
Eu me sentei ereta, ofegante, tentando respirar.
— Não consegue dormir? — perguntou-me Jeb.
Fiquei com o olhar fixo nele, meus olhos formigando com o medo. Jeb bocejou.
— O sol só vai se erguer dentro de mais uma hora aproximadamente — disse ele. — Tente descansar um pouco.
— Precisamos ir embora daqui — falei. — Agora.
Jeb fez um movimento para que eu me calasse.
— Shhhhh. Os outros estão dormindo. Nós não precisamos...
— Todos vocês, levantem-se! — gritei. — Agora! Temos que ir embora daqui!

12 comentários:

  1. Eu falei pra Lia cortar a garganta do Komizar pra ter certeza que ele iria morrer, tambem acho que aquela praga ainda ta viva.
    Rafe já deu neh?! Fica ai de birrinha com o Kaden, mas era ele que forçava a Lia a ser mais inteligente que os outros, enquanto o Rafe só sabe tratar ela como um bibelô.
    Não sai da minha cabeça que o Vice-regente ta na maracutaia do Komizar

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  2. Eu acho que Lia não é filha do rei...é filha dela com outro homem. Por isso o pai não gosta dela. E acho que Kaden é filho do rei ou do Chanceler.
    Laís

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  3. Mano, como eu adoro quando o dom fala com ela

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  4. mano acho que o komizar tá vivo

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  5. Lia e Já sem devem ser irmãos.

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  6. De duas uma.Ou Komizar de fato tá vivo e tá mandando o exército pra Morrighan ou sinto mas minhas entranhas q de alguma forma Kaden não tá morto e ele é o novo Komizar

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    1. A segunda opção não é viável. O Kaden não mandaria o Malich atrás dela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!