16 de fevereiro de 2018

Capítulo 4

Fiquei em pé em um pulo e busquei algo nas sombras do aposento, tentando ver a causa do ruído.
— Aqui.
Eu me virei em um giro.
Um fino feixe de luz assumiu uma nova forma quando alguém deu um passo à frente em seu feixe suave.
Uma mecha de cabelos escuros. A maçã de um rosto. Seus lábios.
Eu não conseguia me mexer. Fiquei encarando-o, tudo o que eu sempre quis e tudo de que sempre fugi trancado comigo no mesmo aposento.
— Príncipe Rafferty — sussurrei por fim. Era apenas um nome, mas soava duro, estranho e repugnante na minha boca. Príncipe Jaxon Tyrus Rafferty.
Ele balançou a cabeça.
— Lia...
Sua voz fazia minha pele tremer. Tudo a que eu havia me prendido por milhares de quilômetros mexia-se dentro de mim. Todas aquelas semanas. Os dias. Ele. Um fazendeiro, que agora se tornara um príncipe... e um mentiroso muito astuto. Eu não conseguia bem captar isso. Meus pensamentos eram como água deslizando por meus dedos.
Ele deu um passo à frente, e o feixe de luz agora iluminava seus ombros, mas eu já tinha visto seu rosto, a culpa.
— Lia, eu sei o que você está pensando.
— Não, Príncipe Rafferty. Você não faz a mínima ideia do que estou pensando. Nem eu mesma sei ao certo o que estou pensando.
Tudo que eu sabia era que até mesmo agora, enquanto eu estremecia em dúvidas, meu sangue corria quente em minhas veias, mais forte a cada palavra e a cada olhar de relance vindo dele, o mesmo sentimento revirando-se em minha barriga da mesma forma como acontecia quando estávamos em Terravin, como se nada tivesse mudado. Eu o desejava desesperada e completamente.
Ele deu um passo à frente, e o espaço entre nós de súbito desapareceu, com o calor do peito dele encontrando-se com o meu, seus braços fortes em volta de mim, seus lábios cálidos e macios, em todos os pontos tão doces quanto eu me recordava que eram. Eu explorava-o, aliviada, grata... com raiva. Os lábios de um fazendeiro, os lábios de um príncipe... os lábios de um estranho. A única coisa verdadeira que eu achava que eu tinha se fora.
Pressionei-me mais para junto dele, dizendo a mim mesma que umas poucas mentiras não importavam, quando comparadas com todo o resto. Ele havia arriscado sua vida ao vir até aqui por mim. Ele ainda estava correndo um risco terrível. Podia ser que nenhum de nós dois sobrevivesse à noite. mas aquilo estava ali, duro e feio entre nós. Ele mentiu. Tinha me manipulado. Para qual propósito? Qual era o jogo dele? Estaria aqui por mim ou pela princesa Arabella? Eu me empurrei para longe de Rafe. Olhei para ele. Girei. O som duro da bofetada que dei no rosto dele ressoou pelo aposento.
Ele esticou a mão para cima, esfregando sua bochecha, virando a cabeça para o lado.
— Eu tenho que admitir que essa não era exatamente a acolhida que eu antevia depois de todos aqueles quilômetros indo atrás de você pelo continente. Podemos voltar para parte do beijo?
— Você mentiu para mim.
Vi as costas dele ficarem enrijecidas, sua postura, o príncipe, a pessoa que ele realmente era.
— Pareço recordar-me de que essa foi uma diligência mútua.
— No entanto você sabia quem eu era o tempo todo.
— Lia...
— Rafe, isso pode não parecer importante para você, mas é terrivelmente importante para mim. Eu fugi de Civica porque, uma vez na vida, queria ser amada por quem era... e não pelo que era, e nem porque um pedaço de papel ordenava que isso acontecesse. Pode ser que eu esteja morta ao final do dia, porém, com meu último e morimbundo suspiro, preciso saber. Por que você realmente veio até aqui?
A expressão pasmada deu lugar a uma de irritação.
— Isso não é óbvio?
— Não! — falei. — Se eu fosse realmente uma criada de uma taverna, você ainda teria vindo? Qual era o meu verdadeiro valor para você? Você teria me dado uma segunda chance se não soubesse que eu era a princesa Arabella?
— Lia, essa é uma pergunta impossível. Só fui até Terravin porque...
— Eu era um constrangimento político? Um desafio? Uma curiosidade?
— Sim! — disse ele, irritado. — Você era todas essas coisas! Um desafio e um constrangimento! A princípio. Mas depois...
— E se você não tivesse encontrado a princesa Arabella de maneira alguma e se tivesse encontrado apenas a mim, uma criada de taverna chamada Lia?
— Então eu não estaria aqui agora. Estaria em Terravin, beijando a moça mais enfurecedora em que já pus os olhos, e nem mesmo dois reinos poderiam fazer com que eu me separasse dela. — Ele deu um passo mais para perto de mim e, hesitante, aninhou meu rosto em suas mãos. — Mas o fato é que eu vim por você, Lia, não importando quem você seja, e não me importo com os erros que eu ou você tenhamos cometido. Eu cometeria todos e cada um deles de novo, se esse fosse o único jeito de ficar com você.
Havia uma centelha de frustração nos olhos dele.
— Eu quero explicar tudo. Quero passar uma vida inteira com você compensando as mentiras que contei, mas, agora mesmo, nós não temos tempo para isso. Eles podem estar de volta para qualquer um de nós a qualquer minuto. Temos de resolver nossas histórias e traçar nossos planos.
Uma vida inteira. Meus pensamentos ficaram fluidos, a calidez das palavras vida inteira inundando meu ser. As esperanças e os sonhos que eu havia, cheia de dor, afastado de mim, emergiam mais uma vez. É claro que ele tinha razão. O mais importante era calcularmos o que haveríamos de fazer. Eu não poderia suportar vê-lo morrer também. Já tinha sido demais suportar as mortes de Walther e de Greta e de toda uma companhia de homens.
— Eu tenho ajuda a caminho. — disse ele, já seguindo em frente. — Nós só temos que aguentar até que eles cheguem aqui.
Ele estava confiante, seguro de si, tal como um príncipe deveria ser. Ou um soldado bem treinado. Como é que eu não tinha visto esse lado dele antes? Suas tropas estavam a caminho.
— Quantos? — perguntei.
— Quatro.
Senti minhas esperanças aumentando.
— Quatro mil?
Ele assumiu uma expressão séria.
— Não. Quatro.
— Você quer dizer quatrocentos?
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Quatro? No total? — indaguei.
— Lia, sei como isso parece, mas acredite em mim, esses quatro... eles são os melhores.
Minhas esperanças caíram com tanta rapidez quanto haviam brotado. Quatrocentos soldados não conseguiriam nos tirar daqui, menos ainda quatro. Eu não tinha como esconder o meu ceticismo, e uma risada fraca escapou dos meus lábios. Andei em círculos pelo pequeno aposento, balançando a cabeça.
— Nós estamos aprisionados aqui neste lado de um rio imenso, com milhares de pessoas que nos odeiam. O que quatro pessoas podem fazer?
— Seis. — corrigiu-me ele. — Contando comigo e com você, são seis.
A voz dele soava plangente, e quando ele deu um passo na minha direção, encolheu-se segurando suas costelas.
— O que houve? — perguntei. — Eles machucaram você.
— Foi só um presentinho dos guardas. Eles não gostam de porcos de Dalbreck e se certificaram de que eu entendesse isso. Várias vezes. — Ele segurou a lateral de seu corpo, inspirando lenta e superficialmente. — São apenas machucados. Eu estou bem.
— Não — disse eu. — Obviamente você não está bem.
Empurrei a mão dele para longe de seu corpo e puxei sua camisa para cima. Até mesmo sob a fraca luz, eu podia ver os machucados roxos que cobriam suas costelas. Recalculei as probabilidades. Cinco contra milhares. Arrastei a banqueta adiante e fiz com que ele sentasse nela, e depois rasguei faixas da minha saia já retalhada. Com cuidado, comecei a envolver com as faias de tecido a barriga dele, de modo a estabilizar seus movimentos. Fui lembrada das cicatrizes nas costas de Kaden. Essas pessoas eram selvagens.
— Você não deveria ter vindo, Rafe. Esse problema é meu. Eu o acarretei quando eu...
— Estou bem — disse ele. — Pare de se preocupar comigo. Já sofri quedas do meu cavalo que foram piores que isso, o que é nada em comparação com o que você passou. — Ele esticou a mão e apertou a minha. — Eu sinto muito, Lia. Eles me contaram sobre o seu irmão.
O amargor rolou e subiu pela minha garganta de novo. Havia coisas que eu nunca tinha achado que poderiam acontecer, muito menos que eu teria que testemunhar. A pior delas foi ver meu irmão sendo assassinado bem diante dos meus olhos. Afastei minha mão, limpando-a na minha saia esfarrapada. Parecia errado ter a calidez das mãos de Rafe nas pontas dos meus dedos quando eu falava de Walther, que jazia frio no chão.
— Você quer dizer que eles riram do que aconteceu com meu irmão. Eu os ouvi na estrada durante cinco dias, alegrando-se com o quão facilmente eles caíram.
— Eles disseram que você os enterrou. Todos eles.
Fiquei fitando os fracos feixes de luz que eram filtrados pelas fendas, tentando ver alguma coisa que não fossem os olhos embaçados de Walther observando o céu e meus dedos cerrando-os pela última vez.
— Eu gostaria que você pudesse tê-lo conhecido — falei. — Meu irmão seria um grande rei um dia. Ele era bondoso e paciente de todas as maneiras, e acreditava em mim, de um jeito como ninguém mais acreditava. Ele... — Virei-me para ficar face a face com Rafe. — Ele cavalgava com uma companhia de 32 homens... Os mais fortes e mais valentes soldados de Morrighan. Eu vi cada um deles morrer. A inferioridade numérica deles era de cinco para um. Foi um massacre.
A cortina protetora que eu tinha puxado e colocado em volta de mim mesma foi dilacerada, e um calor nauseante rastejava pela minha pele. Eu sentia o cheiro de suor dos corpos deles. Pedaços de corpos. Coletei todos eles, de modo que nada fosse deixado para os animais, e depois me prostrei de joelhos 33 vezes para rezar. Minhas palavras jorraram soltas, sangrando de algum lugar dentro de mim, 33 despedidas. E depois, a terra, ensopada com o sangue deles, engoliu-os a todos, conforme era de se esperar, e eles se foram. Essa não foi a primeira vez. Não seria a última.
— Lia?
Olhei para Rafe. Alto e forte como o meu irmão. Confiante como o meu irmão. Ele tinha apenas quatro homens a caminho. A perda de quantos mais eu poderia encarar?
— Sim — respondi. — Enterrei-os todos.
Ele esticou a mão e me puxou para o seu lado. Sentei-me na palha.
— Nós não podemos fazer isso — disse ele. — Apenas temos que ganhar tempo até que os meus homens cheguem aqui.
— Quanto tempo demorará para que seus soldados cheguem? — eu quis saber.
— Uns poucos dias. Talvez mais do que isso. Depende do quão ao sul eles tiverem que cavalgar de modo a cruzar o rio. Mas eu sei que eles estarão aqui tão logo lhes for possível. Eles são os melhores, Lia. Os melhores soldados de Dalbreck. Dois deles falam o idioma vendano com fluência. Eles haverão de encontrar uma maneira de entrar aqui.
Eu queria dizer que entrar não era o problema. Nós havíamos conseguido entrar. O problema era sair. Mas contive minha língua e assenti, tentando parecer encorajada. Se o plano dele não funcionasse, o meu haveria de funcionar. Eu havia matado um cavalo nessa manhã. Talvez, à noite, haveria de matar outro animal.
— Pode haver outra maneira — falei. — Eles têm armas no sanctum. Nunca dariam pela falta de uma. Eu poderia conseguir deslizar e esconder uma sob a minha saia.
— Não — disse ele com firmeza. — É perigoso demais. Se eles...
— Rafe, o líder deles é responsável pela morte do meu irmão, da esposa dele e de toda uma companhia de homens. É só uma questão de tempo antes que ele volte para mais. Ele tem que ser...
— Foram os soldados dele que os mataram, Lia. Que bem faria matar um homem? Você não tem como acabar com exército inteiro com uma faca, especialmente nas posições em que nos encontramos. Agora mesmo nossa única meta é sair daqui vivos.
Nós estávamos em conflito. Na minha cabeça, eu sabia que ele estava certo, porém, uma parte mais profunda e sombria minha sentia fome por algo além de fuga.
Ele agarrou o meu braço, exigindo uma resposta.
— Você está me ouvindo? Você não tem como fazer nada de bom se estiver morta. Seja paciente. Meus soldados virão e então sairemos disso juntos.
Eu, paciente, quatro soldados. Essas palavras juntas eram sinônimo de insanidade. Todavia, cedi porque, mesmo sem os quatro, eu e Rafe precisávamos um do outro, e era isso o que importava nesse exato momento. Nós nos sentamos no colchão de palha e traçamos nossos planos, o que diríamos a eles, o que não haveríamos de lhes dizer e os engodos que teríamos que conceber até que a ajuda chegasse. Uma aliança pelo menos... aquela que nossos pais haviam buscado o tempo todo. Eu disse a ele tudo que já sabia sobre o Komizar, sobre o Sanctum e sobre os corredores pelos quais eles haviam me arrastado. Todos os detalhes poderiam ser importantes.
— Seja cauteloso. Observe suas palavras — falei. — Até mesmo seus movimentos. O Komizar não deixa passar nada. Ele tem os olhos aguçados até mesmo quando não parece.
Houve algumas coisas que não falei para ele. Os planos de Rafe eram feitos de metal e carne, chão e punhos cerrados, todas as coisas sólidas. Os meus eram de coisas não vistas, febre e calafrio, sangue e justiça, as coisas que se contraíam nas minhas entranhas.
No meio de nossos planos sussurrados, ele fez uma pausa repentina e esticou a mão, seu polegar traçando com gentileza uma linha pelo ponto mais alto da minha bochecha.
— Eu tive medo... — ele engoliu em seco baixou o olhar, pigarreando. Seu maxilar contorceu-se, e achei que eu sucumbiria observando-o. Quando ele voltou a olhar para mim, seus olhos chamuscavam com raiva. — Eu sei o que a consome, Lia. Eles vão pagar por isso. Por tudo. Eu juro. Um dia eles pagarão por tudo isso.
Mas eu sabia o que ele queria dizer com isso. Que Kaden haveria de pagar por tudo isso.
Nós ouvimos passadas que se aproximavam e rapidamente espaçavam-se. Ele olhou para mim, com o profundo azul gelado de seus olhos cortando em meio às sombras.
— Lia, sei que seus sentimentos em relação a mim podem ter mudado. Eu enganei você. Não sou o fazendeiro que disse que era, mas tenho esperanças de que eu possa fazer com que você se apaixone por mim de novo, dessa vez como príncipe, um dia de cada vez. Nós tivemos um terrível começo... isso não significa que não podemos ter um final melhor.
Fiquei fitando-o, com seu olhar contemplativo engolindo-me por inteira, e abri a boca para pronunciar-me, no entanto, todas as palavras dele ainda flutuavam na minha cabeça. Que você se apaixone por mim de novo, dessa vez como príncipe.
A porta foi aberta com tudo, e dois guardas entraram.
— Você — disseram eles, apontando para mim, e mal tive tempo para me pôr de pé antes que eles me arrastassem para longe dali.

5 comentários:

  1. Como amante de vilões ("vilões" rs) eu já quero o Kaden. Mais um pra se juntar ao Sebastian, ao Warner, ao Lorcan e ao carinha da Rainha vermelha q nunca lembro o nome msm e.e

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  2. Eu prefiro o Rafe, mas gosto do Kaden, só não gosto dele com a Lia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!