20 de fevereiro de 2018

Capítulo 49

PAULINE

Eu estava voltando para a estalagem, com a noite se fechando em cima de mim e cega para o meu próprio caminho, porque o sorriso aliviado de Mikael continuava a se agigantar na minha memória. A pergunta dele — Quem é o pai? — ressoava clangorosa na minha cabeça, como se fosse o sino de uma vaca, subjugando os meus pensamentos.
Porém, senti alguma coisa. Senti uma presença tão forte quanto a mão de alguém em meu braço, e ergui o olhar. Era uma pequena figura empoleirada alto na varanda do pórtico que dava para a praça. Os ornamentos de cetim vermelho real do seu manto reluziam à luz que se esvanecia. A rainha.
Parei, como uns poucos outros haviam feito, a maioria indo apressada para casa, para as próprias memórias sagradas da noite, parados pelo choque de avistarem a rainha sentada na parede de uma varanda. Fora de cerimônias oficiais, eu não conseguia me lembrar de ter visto a rainha dizendo as suas memórias sagradas, especialmente empoleirada de forma tão precária em uma balaustrada, mas agora a voz dela era estranhamente carregada acima das nossas cabeças, espiralando-se como o próprio ar e deslizando para dentro das nós com a mesma facilidade.
Rapidamente ela atraiu mais espectadores, e uma imobilidade recaiu sobre a praça.
Às vezes, parecia que as palavras dela eram mais soluçadas e choradas do que cantadas, mais sentidas do que ditas, e elas passavam correndo por mim, com a sua forma irregular, com algumas frases sendo puladas e outras, repetidas. Talvez a angústia apressada fosse o que nos mantivesse a todos em um interesse desprovido de fôlego. Nada era automático, tudo era ditado apenas pela necessidade ela. Todas as palavras eram cruas e verdadeiras, e eu ouvia aquilo de um jeito novo. Sua face estava escondida nas sombras de seu capuz, mas eu vi quando ela ergueu a mão, limpando o que eu tinha certeza de que eram lágrimas. E então ela proferiu memórias sagradas que eu nunca tinha ouvido antes.
— Reúnam-se e aproximem-se, meus irmãos e minhas irmãs. Ouçam as palavras da mãe da sua terra. Ouçam as palavras de Morrighan e dos seus.

Era uma vez,
Há muito, muito tempo,
Sete estrelas que pendiam do céu.
Uma para chacoalhar as montanhas,
Uma para revirar os oceanos,
Uma para afogar o ar,
E quatro para testar os corações dos homens.
Seus corações serão testados agora.
Abram-nos para as verdades,
Pois devemos estar não só preparados
para o inimigo do lado de fora,
mas também para o inimigo de dentro.

Ela fez uma pausa, engasgando-se nas palavras. A praça foi tomada pelo silêncio, com todo mundo esperando, hipnotizado, e então a rainha prosseguiu.

Pois o Dragão de muitas faces,
Não vive apenas além da grande fronteira,
Mas também entre vocês.
Protejam os seus corações contra a astúcia dele
E seus filhos contra a sede dele,
Pois a ganância dele não conhece limites,
E assim será,
Irmãs do meu coração,
Irmãos da minha alma,
Para todo o sempre.

Ela beijou dois dedos e ergueu-os até os céus, com uma tristeza pesada no movimento.
— Para todo o sempre — ecoou a multidão em resposta, mas eu ainda estava tentando compreender aquilo tudo.
As palavras de Morrighan e dos seus? Sete estrelas? Um dragão?
A rainha se levantou e olhou atrás de si como se tivesse ouvido alguma coisa. Ela desceu em um pulo da parede atrás de si e afastou-se apressada, desaparecendo na escuridão tão facilmente quando a noite. Segundos depois, as portas da varanda se abriram com tudo e o Capitão da Vigília saiu na varanda vazia com vários guardas. Foi então que vi o Chanceler parado a apenas uns poucos metros à minha direita. Ele ainda estava com o olhar fixo lá em cima na varanda, talvez tentando entender a aparição inesperada da rainha. Eu me virei, puxando o capuz, e saí dali às pressas. No entanto, apesar do perigo, alguma coisa me compelia a voltar na noite seguinte. A prece urgente da rainha ainda se agitava dentro de mim. Novamente, ela se pronunciou assim que o véu da escuridão caiu e, dessa vez, da torre ao leste.
Na noite seguinte, Berdi e Gwyneth vieram comigo. A rainha estava em uma parede abaixo da torre a oeste. Fiquei preocupada com ela, empoleirada de forma tão incerta em peitoris e telhados, e eu me perguntava se o seu pesar a havia deixado insana. Ou louca. Ela dizia coisas que eu nunca ouvira antes. As multidões aumentavam, mas eram as suas palavras marcantes que nos urgiam a voltar. Na quarta noite, a rainha apareceu na torre do sino da abadia. Abram os seus corações para a verdade.
— Você tem certeza de que é a rainha? — perguntou-me Gwyneth.
Uma dúvida incômoda que havia vagado no meu peito foi solta com a pergunta dela.
— É impossível vê-la daqui — respondi, ainda tentando entender aquilo tudo — mas ela realmente está usando o manto real.
— E quanto à voz?
Essa era a parte mais estranha. Sim, a voz dela parecia a da rainha, mas também parecia uma voz como outras centenas de vozes que eu conhecia, como o vento nas árvores. Voz esta que passava por mim como se tivesse uma verdade própria.
Gwyneth balançou a cabeça em negativa.
— Aquela lá em cima não é a rainha.
Então Berdi disse o impossível, o que todas nós estávamos pensando.
— É Lia.
Eu sabia que era verdade.
— Graças aos deuses ela está viva, mas por que ela está posando como se fosse a rainha? — perguntou-se Gwyneth em voz alta.
— Porque a rainha é reverenciada — respondeu Berdi. — Quem daria ouvidos à criminosa mais procurada de Morrighan?
— E ela está nos preparando — falei. Mas nos preparando para o quê... isso era algo que eu não sabia.

6 comentários:

  1. Ah! Lia como é incrível. Desconfiei que fosse ela pelas palavras prenderem e pela saída ligeira <3

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  2. Aaaaaaaaa que maravilhosaaaaaaa

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  3. Descobri q era ela na HR q flou do manto vermelho, quando ela comprou um tecido vermelho e perguntou se a menina lá sabia costurar bem.

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  4. Eu aqui achando q rainha tinha ficado louca.kkkkkk

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    Respostas
    1. Tbm achei q a Rainha resolveu dar uma de Lady Venda 😂

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Boa leitura, E SEM SPOILER!