16 de fevereiro de 2018

Capítulo 49

RAFE

— Você perdeu todo o bom senso? — sibilei.
Eu estava sentado em uma despensa fora da cozinha, que cheirava a cebolas e gordura de ganso. Calantha havia me deixado aqui para esperar enquanto o cozinheiro fervia um cataplasma para a minha ferida.
— Foi uma oportunidade que caiu em nossas mãos. Nós não podemos todos aparecer como coletores de fezes e emissários. Como está seu ombro?
Empurrei a mão dele para longe.
— Isso é loucura. Por quanto tempo Orrin vai conseguir fazer papel de mudo? No que vocês estavam pensando? E quem são todos aqueles outros soldados que apareceram com você?
— Meninos aterrorizados, na maior parte. Até onde eles sabem, eu realmente sou o novo governador de Arleston. Nós nos prendemos em uma emboscada na estrada. Foram presas fáceis. O governador estava bêbado como um gambá. Camarada asqueroso. Mal soube o que foi que o atingiu. Os supostos guardas deles entregaram fidedignamente suas armas a nós em um piscas de olhos e juraram sua lealdade à nossa nova aliança em seguida.
Balancei a cabeça em negativa.
— Vamos lá, rapaz. Esta é uma posição excelente. Eu não tenho que andar furtivamente por aí e posso portar armas sem que levantem uma sobrancelha sequer para isso.
— E pode cuspir na minha cara.
— Nas suas botas — corrigiu-me ele. — Não maldiga a minha mira. — Sven deu risada. — Eu achei que você fosse engasgar quando me viu.
— Eu realmente me engasguei. Ainda estou com um pedaço de maçã preso na minha garganta.
— Durante a maior parte do nosso caminho até aqui, eu não sabia ao certo se até mesmo encontraríamos você vivo. Eu sondei o Assassino durante quilômetros, mas ele é um camarada que vive de boca fechada, não é? Não soltava nada, e os soldados que o acompanhavam não era lá muito melhores do que ele mesmo. Por fim, ouvi um deles falando em volta da fogueira do acampamento sobre o tolo emissário do príncipe.
Orrin, parado perto da porta que dava para a cozinha, de olho na cozinheira, sussurrou por cima do ombro:
— Aquele Assassino é o primeiro que vamos eliminar.
— Não — falei. — Eu cuidarei dele.
Sven perguntou-me sobre os detalhes da minha chegada, e eu contei a eles sobre a minha proposta para o Komizar e sobre como eu havia brincado com a ganância e com o ego dele.
— E ele caiu nessa? — perguntou Sven.
— Ganância é uma língua que ele entende. Quando eu lhe disse que nossa parte era um porto e algumas colinas, soou verídico.
A expressão de Sven ficou sombria.
— Você sabia disso?
— Não sou surdo, Sven. É o que eles querem há anos.
— Ela sabe?
— Não. Isso não importa. Nunca vou deixar que isso aconteça.
Sven puxou para trás o rasgo ensopado de sangue na minha camisa e grunhiu.
— Foi um movimento idiota esse que você fez esta noite.
— Eu recuei.
— Apenas graças a mim.
Eu sabia que ele apontaria isso. Veja onde pisa. Se eles suspeitassem que eu fosse alguém que não quem eu clamava ser, isso não traria coisas boas para qualquer um de nós... especialmente para Lia. Nós acabaríamos sendo mortos, e ela se casaria com um animal e serviria a outro ao seu bel-prazer. Faltavam três dias para o casamento. Nós teríamos que nos mover com rapidez.
— Onde está Tavish? — perguntei.
— Ainda trabalhando nos detalhes da jangada. Ele está adquirindo os barris para, depois, juntá-los.
Barris. Passando por mim hoje, em uma fração de segundo, Jeb havia brevemente sussurrado que a fuga seria feita por meio de uma jangada, mas eu tinha esperanças de que tivesse ouvido errado. Balancei a cabeça em negativa.
— Tem que haver outra maneira.
— Se há outra maneira, então nos diga qual é — falou Sven.
Ele me disse que já haviam analisado outras opções e confirmado que a ponte, definitivamente, não era uma delas. Seriam necessários homens demais para erguê-las, e isso chamaria muita atenção. Viajar por terra por centenas de quilômetros até o baixo rio também não era uma opção. Nós seríamos caçados antes de chegarmos ás águas calmas, e haveria bestas naquela parte do rio que faziam sua própria forma de caçada. Orrin já tinha sentido um gostinho disso. Sua panturrilha havia sido estraçalhada antes que Jeb e Tavish conseguissem matar o monstro que havia se grudado na perna dele.
Eles insistiram que uma jangada era a única opção. Tavish havia analisado o rio. Ele disse que isso funcionaria. Embora a queda e as águas que se precipitavam enviassem para cima uma neblina poderosa, essa mesma neblina proporcionava encobrimento, e havia redemoinhos mais lentos na margem ao oeste. A jangada só teria que ser manobrada até um deles no ponto exatamente certo. Era possível.
A outra vantagem em relação ao rio era que ele nos varreria para fora do alcance dos vendanos tão rapidamente que estaríamos a muitos quilômetros de distância antes que eles até mesmo fossem capazes de erguer a ponte para nos seguir, e então eles não fariam a menor ideia de onde teríamos saído do rio. Orrin disse que eles haviam deixado seus cavalos e alguns dos cavalos vendanos que havíamos capturado presos em cordas em um pasto escondido a uns trinta quilômetros rio abaixo. Era o plano perfeito. Assim eles diziam. Se os cavalos ainda estivessem por lá. Se uma centena de outras coisas não dessem errado. Eu tentei me lembrar de que Tavish sempre tinha sido o arquiteto dos detalhes. Eu precisava confiar nele, mas eu teria me sentido bem melhor se pudesse ver a certeza disso nos olhos dele por mim mesmo. Eu nem mesmo podia dizer se Lia sabia nadar.
— Como está sua perna? — perguntei a Orrin.
— Tavish me costurou. Vou viver.
— Mas precisa de um curativo também — disse Sven, em um tom firme.
Orrin ergueu a perna de sua calça e deu de ombros. As dúzias de linhas costuradas aparecendo acima de sua bota estavam vermelhas e purulentas, o que explicava seu leve mancar. Mas isso tinha dado ao governador Obraun e ao seu guarda machucado uma boa desculpa para juntarem-se a mim aqui. Sven havia dito a Calantha que seu guarda tinha sido atacado por uma pantera enquanto estavam caçando e que precisava de um cataplasma também.
Enquanto sussurrávamos, Jeb entrou sorrateiramente, vindo de uma outra porta.
— Alguém aqui está precisando de um bolo de cocô?
Eu sorri, inspecionando-o da cabeça aos pés. Ele era o único entre nós que se importava com a última moda da temporada e se seus botões estavam sempre polidos. Agora ele estava vestido em trapos, com os cabelos imundos, e parecia encaixar-se plenamente no papel de um coletor de fezes.
— Como é que você ficou preso nesse trabalho? — perguntei a ele.
— Todo mundo fica feliz em abrir a porta para um coletor de fezes que esteja fazendo uma entrega. Felizes pelo menos por alguns segundos. — Ele fez um som de um clique com a lateral da boca, como o estalar de um pescoço. — Nós podemos precisar tirar alguns do caminho silenciosamente em seus aposentos antes de nos mexermos.
— E ele fala vendano como um nativo — acrescentou Sven.
Jeb era como Lia, ele tinha o dom com os idiomas. Ele parecia gostar da sensação exótica em sua língua tanto quanto dos tecidos exóticos em suas costas. Mas Sven havia aprendido vendano do jeito difícil... estando há apenas uns poucos anos em serviço, ele fora aprisionado em um dos Reinos Inferiores, junto com dois vendanos. Eles foram capturados para serviço escravo, como ele se referia aquilo, trabalhando durante dois anos nas minas deles, até que os três finalmente conseguiram fugir.
— Vejo que você está um tanto quanto proficiente agora também?
— Eu me viro — falei. — Eu não falo muito bem o idioma, mas consigo entender boa parte dele. Como você viu, o Komizar e alguns membros do Conselho falam morrighês, e Lia me ajudou com algumas frases.
Jeb deu um passo à frente, estalando os nós dos dedos.
— Eu falei com ela — ele disse.
Ele tinha nossa atenção plena agora, inclusive a de Orrin, que olhava para trás, para nós, por cima do ombro. Jeb disse que viria logo antes da refeição noturna no Saguão do Sanctum. Ele conseguira fazer uma entrega no quarto dela.
— Ela sabe que estamos aqui agora.
— Todos vocês quatro? — falei. — Ela não ficou impressionada com os nossos números quando contei isso a ela.
— E pode culpá-la por isso? Também não estou impressionado — foi a resposta de Jeb.
Orrin soltou uma bufada.
— Só é preciso uma pessoa para espetar...
— O Assassino é meu — eu o lembrei. — Não se esqueça disso.
— Ela me passou informações úteis — continuou Jeb — especialmente em relação a trilhas no Sanctum. O lugar está repleto delas, mas algumas não têm saída. Eu já fiquei preso em algumas e quase caí por uma delas. Lia também me deu seus ganhos de um jogo de cartas para que eu adquirisse suprimentos.
— Foi assim que ela se referiu aquele dinheiro? — falei. — Está mais para o que ela roubou. Eu perdi uns dez litros de suor naquela noite.
Sven revirou os olhos.
— Então ela é boa nas cartas e em arrancar os rostos das pessoas.
— Rostos de certas pessoas. — Voltei a olhar para Jeb. — Ela lhe disse mais alguma coisa?
Ele hesitou por um instante, esfregando a nuca.
— Ela me disse que sua mãe estava morta.
As palavras me atingiram de novo. Minha mãe estava morta. Eu disse a eles o que o Komizar havia falado e que ele dizia que a pilha funerária havia sido avistada por cavaleiros vendanos. Sven ficou hesitante, dizendo que isso era impossível, que a rainha era saudável e que não sucumbiria tão fácil nem tão rapidamente, mas a verdade era que nós todos tínhamos ficado longe por tanto tempo que não fazíamos ideia do que estava acontecendo em casa, e fui atingido por uma nova onda de culpa. Todos eles refutaram a história, dizendo que se tratava somente de uma mentira vendana para atormentar-me, e eu deixei que eles se prendessem a esse pensamento... Talvez eu também quisesse me prender a esse pensamento... mas eu sabia que o Komizar não tinha qualquer motivo para mentir. Ele não sabia que ela era minha mãe, apenas que era minha rainha, e me contando isso ajudou-me no que eu estava clamando.
— Uma outra coisa — disse Jeb, e então balançou a cabeça, como se estivesse pensando melhor no que ia dizer.
— Vá em frente. Diga — falei.
— Eu gosto dela, só isso. E fiz promessas de que todos nós vamos sair daqui. Maldição, é melhor cumprirmos essas promessas.
Assenti. Eu não conseguia considerar qualquer outra opção.
Orrin soprou o ar com vapor, bagunçando mais ainda seus cabelos.
— Ela me assusta — disse ele — mas eu também gosto dela, e maldição, ela é...
— Não diga isso, Orrin — avisei.
Ele soltou um suspiro.
— Eu sei, eu sei. Ela é minha futura rainha. — Ele voltou para a porta, para procurar a cozinheira.
Nós atualizamos Jeb em relação a outros detalhes, inclusive a perda de soldados de Dalbreck, a luta entre mim e o Assassino e como Sven quase foi jogado para os porcos.
— Era como se um bule vedado estivesse prestes a explodir ali — disse Sven. — Mas é mais seguro se ela genuinamente nos odiar por ora... mais seguro para nós e para ela... especialmente visto que eu e Orrin somos tão visíveis. Vamos manter as coisas desse jeito por um tempinho. — Sven passou a mão por sua bochecha marcada por uma cicatriz. — Ela só tem dezessete anos?
Assenti.
— Ela carrega muito peso nos ombros para alguém tão jovem.
— Ela tem outra opção?
Sven deu de ombros.
— Talvez não, mas ela chegou perto de revelar a carta que tinha na manga esta noite. Eu tive que empurrá-la de volta para sua cadeira.
— Você a empurrou? — falei.
— Com gentileza — ele explicou. — Ela começou a cruzar a sala para se pôr entre você e o Assassino.
Inclinei-me para a frente, passando os dedos pelos cabelos. Ela agiu de forma impulsiva porque eu tinha feito a mesma coisa. A tensão estava deixando a nós dois descuidados.
— Aí vem ela — sussurrou Orrin, e sentou-se, relaxado, no banco ao meu lado.
A porta foi aberta, e a cozinheira olhou para o recinto cheio. Ela murmurou um xingamento e deixou cair pinças dentro de um balde fumegante que estava na ponta do banco. Então puxou uma pilha de trapos debaixo de seu braço e deixou-os cair perto da pinça.
— Cinco camadas. Deixem-nos no lugar durante a noite e retirem de dia. Tragam de volta os panos quando tiverem terminado. Limpos.
Ela passou pela porta empurrando-a, tendo completado suas instruções charmosas, e fomos deixados com os fumos sufocantes da mistura verde-amarela que enchia o aposento. Jeb fez uma observação de que o fedor de esterco de cavalo era preferível ao veneno que a cozinheira havia fervido. Eu não sabia ao certo como aquilo haveria de ajudar em um ferimento, mas Sven parecia confiante. Ele cheirou com gosto, a substância pútrida.
— Eu preferiria uma dose de seu olho vermelho — falei.
— Eu também — disse ele, em um tom cheio de anseio — mas o olho vermelho se foi faz tempo.
Ele sentiu grande prazer ao mergulhar o tecido no líquido quente e colocá-lo sobre o meu talho e as feridas purulentas na perna de Orrin.
— Para arrastá-la por todo o caminho do Cam Lanteux até aqui, aquele Assassino não parecia gostar muito dela nesta noite — observou Sven.
— Ele mais do que gosta dela. Acredite em mim — falei. — Ele só está enraivecido porque ela concordou em se casar com o Komizar enquanto ele não estava aqui. Eu sei que ela não tinha escolha. O Komizar a está intimidando... só não sei com o quê.
— Eu sei — disse Jeb. — Ela me contou.
Olhei para ele, com o temor me inundando, à espera.
— Você — disse ele. — O Komizar disse que se ela não convencesse todo mundo de que ela havia abraçado o casamento, você começaria a perder dedos. Ou mais. Ela está se casando com ele para salvar você.
Reclinei-me junto à parede e fechei os olhos.
Por você. Somente por você.
Eu deveria saber quando ela havia acrescentado essas palavras à prece. Palavras estas que haviam me assombrado desde que ela as proferia.
— Não se preocupe, rapaz, vamos tirá-la daqui antes do casamento.
— O casamento será realizado em três dias — falei.
— Nós estaremos, então, velejando rio abaixo.
Velejando.
Em barris.

21 comentários:

  1. Eu odeio os capitulos do Rafe, ele fala da Lia com tanta devoção que eu quase shippo!

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  2. kkkkkkkkkkk, MEU DEUS!!! EU AMO ELES!! RAFE E LIA FOREVER

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  3. QUE FOFOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
    LIA E RAFE PF PF

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  4. Eu não consigo me decidir, quero ela com os dois, MEU DEUSSSSS

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  5. Ela não pode ficar com os dois não em?
    Amo os dois e eate difícil chippar ela com apenas um deles.
    Oh raiva da escritora ;(

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    1. Me sentindo igual!
      Os dois são maravilhosos... Não tem como decidir!
      Isa M.

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  6. Ela não pode ficar com os dois não em?
    Amo os dois e eate difícil chippar ela com apenas um deles.
    Oh raiva da escritora ;(

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  7. Eu não dou conta de tanto amor.
    O caso deles foi amor a 1 vista, não tem como não skippaaa

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  8. Isso já tá parecendo o triângulo amoroso de Peças Infernais. Tessa, Will e Jem ������

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  9. Nossa agora eu dou team Rafe, mas amo o Kaden, af

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  10. Já to com uma irritacão daquelas
    Ja to querendo que a Lia fique com nenhum dos dois e governe a porra toda

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  11. O Rafe merece ficar com a Lia. Ele está fazendo de tudo para salva-la, arriscando sua vida e a vida dos seus amigos. Sem contar que a Lia é apaixonada pelo Rafe desde o começo e seus sentimentos não mudaram depois que ela descobriu que ele era o príncipe. Sou Team Rafe desde de sempre, mesmo quando achava que ele era o assassino. O Kaden merece um final feliz mas não com a Lia.

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  12. Eu Acho que kaden é Rafe são irmãos.

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    1. Será? Não pode, o Kaden é de Morrighan. Acho que ele pode ser filho do Erudito ou do Chanceler... Essa autora dá o que pensar!

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  13. Eu acho isso tão horrível.
    Ter que ficar se decidindo entre um shippe ou outro. Primeiro Ren, Kelsey e Kishan.
    Depois América, Aspen e Maxon.
    E agora Kaden, Lia e Rafe. Eu queria que ela pudesse ficar com os dois

    Eu amei o Orrim ( não tenho certeza se é assim que se escreve ) dizendo que ela era a rainha dele. Kkkk
    Ela é muito F#@*
    Mas eu acho que o Kaden vai acabar caindo em si, matando o komizar e ajudando eles.

    ( Stefanny )

    Karina sempre li no seu blog e sempre amei, você transforma minhas manhãs, tardes, noites e madrugadas kkkkkk muito obrigada!!!

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  14. Não vejo a Lia com o Kaden simplesmente por que para mim o que ele sente pela Lia não é amor e sim a ligação por partilharem o dom. Ele ainda não percebeu, afinal como elw mesmo falou a única pessoa que foi amporosa com ele foi a mãe. Para mim a autora nunca os bou realmente como casal e está apenas brincando conosco!!

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  15. Por isso eu odeio triângulos sofri horrores em trono de vidro

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  16. Esses homens são muito bem treinados, pacientes, adorei eles, vão morrer com certeza, tenho azar quando gosto de personagens

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Boa leitura, E SEM SPOILER!