16 de fevereiro de 2018

Capítulo 48

KADEN

Eu vi quando ela foi embora. A noite entre nós estava longe de acabar. Tentei segui-la, mas todo mundo queria exultar-se junto comigo sobre minha vitória fácil contra o emissário.
Fácil, só de pensar nisso, meu sangue fervia novamente. No terceiro golpe dele, eu sabia que não estava lutando com um emissário. No quinto, eu sabia que ele não era sequer um simples soldado treinado. Por volta do décimo golpe dele, eu sabia que perderia. No entanto, de repente, seu ataque abrandou-se, e ele cometeu erros idiotas. Ele não perdeu; ele me deixou ganhar. Preservar sua identidade como um tolo emissário era mais importante pra ele do que separar minha cabeça dos meus ombros... E eu sabia que esse era um prêmio que ele muito desejava.
Virei um último gole de cerveja ale e deixei o chievdar Dietrik no meio de uma frase, saindo atrás de Lia. O corredor ecoava com minhas passadas. Cheguei na minha câmara e abri a porta com tudo. Ela estava lá parada, em pé, preparada pra mim, com uma espada de treino na mão e a batalha em seus olhos.
— Coloque-a no chão! — ordenei a ela.
Lia ergueu a espada alto no ar, pronta pra lançar um golpe.
— Saia!
Dei um passo mais para perto dela e disse cada palavra devagar, para que ela não deixasse de entender a ameaça nelas contidas.
— Ponha a espada no chão. Agora.
A posição dela continuava desafiadora. Ela me mataria antes de colocar a espada de lado.
— Para que eu possa servir a você? — disse ela em tom zombeteiro.
Eu não deixaria que ela se saísse dessa com facilidade. Eu faria com que ela se sentisse atordoada e ansiosa, e que se sentisse tão estilhaçada quanto eu havia me sentido. Avancei mais um passo, e ela lançou a espada no ar, errando por pouco a minha cabeça. Minha fúria borbulhava, e eu me lancei pra cima dela, pegando a lâmina de madeira com a mão enquanto ela desferia mais um golpe. Nós caímos no chão e saímos rolando, lutando para apanhar a espada. Por fim, apertei o pulso dela até que ela gritasse de dor e deixasse a espada cair. Joguei-a até o outro lado do quarto. Ela lançou-se para rolar para longe, mas eu a forcei a ficar no chão e prendi-a.
— Pare com isso, Lia! Pare com isso agora!
Ela ficou me encarando, suas respirações saindo pesadas e furiosas.
— Não a machuque, mestre Kaden! Deixe que ela se levante! Porque eu sei usar isso!
Tanto eu quanto Lia olhamos na direção da porta. Era Aster, e seus olhos estavam selvagens com o medo.
— Saia! — berrei. — Antes que eu te esfole!
Aster ergueu a espada mais alto, defendendo sua posição. Seus braços tremiam com o peso da arma.
— Veja o que está fazendo! — disse Lia. — Ameaçando uma criança. Você não é o valente Assassino?
Eu soltei Lia e me ergui.
— Levante-se! — ordenei a ela, e assim que ela estava de pé, apontei para Aster. — Agora diga para ela ir embora, para que eu não tenha que esfolá-la.
Lia olhou com ódio para mim, esperando que eu recuasse. Estiquei a mão para pegar a minha adaga. Relutante, ela virou-se para Aster, tornando mais branda a expressão em seu rosto.
— Está tudo bem. Eu consigo lidar com o Assassino. Ele só ladra, não morde. Agora vá.
A menina ainda ficou hesitante, seus olhos brilhando. Lia beijou dois dedos e ergueu-os aos céus em um comando silencioso para Aster.
— Vá — disse ela baixinho, e a menina foi embora, relutante, fechando a porta atrás de si.
Eu achei que Lia havia se acalmado, mas assim que ela se virou novamente para mim, sua raiva estava de volta.
— Realeza? Você dormirá nos meus aposentos essa noite, realeza?
— Você sabe que eu nunca me forçaria em cima de você.
— Então por que você disse aquilo?
— Eu estava com raiva — falei. — Estava magoado.
Porque eu sabia que tudo que ela havia dito a mim sobre o Komizar e querer poder era mentira, e eu queria desmascará-la quanto a isso. Porque eu queria que o Komizar acreditasse que havia uma mudança irreparável em nosso relacionamento. Porque eu estava tentando mantê-la no meu quarto e em segurança por mais uma noite. Porque tudo estava voando para longe do meu controle. Porque ela estava certa: eu queria confiar nela, mas não confiava. Porque, quando a deixei, uma semana atrás, ela havia me beijado.
Porque eu estava tão tolamente apaixonado por ela.
Eu via a tempestade nos olhos dela, as ondas de cálculo batendo e chegando ao cume, pesando cada palavra do que ela poderia e não poderia dizer. Nesta noite não haveria honestidade dentro dela.
— Esse jogo que você está jogando é perigoso — falei. — E não é um jogo que vai ganhar.
— Eu não faço joguinhos, Kaden. Eu travo guerras. Não me faça travar uma com você.
— Essas são palavras audazes que não têm qualquer significado para mim, Lia.
Os lábios dela partiram-se, pronta para desferir uma resposta pungente.
— Eu não estou... — mas ela se segurou e recusou-se a seguir em frente, quase como se não confiasse em si mesma para falar mais. Ela virou-se, apanhou um cobertor de cima do barril e jogou-o para mim. — Eu vou dormir, Kaden. Você deveria fazer o mesmo.
Ela estava acabada. Eu quase podia ver o peso em seus ombros. Suas pálpebras estavam pesadas, com o cansaço, como se não tivesse mais luta dentro dela. Ela não se deu ao trabalho de trocar de roupa. Ela deitou-se na cama e puxou a colcha para cima de seus ombros.
— Será que podemos...?
— Boa noite.
Fomos dormir sem dizer mais qualquer palavra, mas, enquanto eu estava lá, deitado no escuro, eu repetia em minha cabeça nossa conversa anterior. Ela atingira todas as notas quando me explicara sua decisão de casar-se com o Komizar: a resignação, a amargura, jogando minhas próprias palavras de volta na minha cara, o arrependimento, os olhos que brilhavam, todas as notas, como se estivesse cantando uma canção treinada. Seu desempenho era quase impecável, mas nada tinha do genuíno cansaço que eu acabara de ver agora. Eu não vou mentir, Kaden.
Mas ela havia mentido. Eu tinha certeza disso. Eu me lembrava de suas palavras amargas para mim, quando deixamos o acampamento dos nômades, quando eu disse que ela era uma péssima mentirosa. Não, para falar verdade, eu posso ser uma mentirosa muito boa, mas algumas mentiras requerem mais tempo para serem contadas.
E agora, enquanto eu retraçava os últimos dias, ela clamando que queria construir uma nova vida aqui, o beijo dela, eu me perguntava... exatamente quanto tempo havia que ela estava contando uma mentira?

3 comentários:

  1. Ai que ódio. Que ódio.

    Se a Lia não ficar com o Kaden nunca mais vou shippar nenhum casal.

    Mentira. É impossível fazer isso.
    Mas to com muita raiva desse desfecho.

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  2. Eu to detestando tanto o Kaden quanto o Rafe, o Kaden nao confia na lia e o Rafe quer levar ela para um lugar q ela nao quer ir

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Boa leitura, E SEM SPOILER!