2 de fevereiro de 2018

Capítulo 48

— Eles chamam este lugar de Cidade da Magia Negra.
Observamos as ruínas que se erguiam das areias como presas quebradas e afiadas.
Pelo menos agora eu sabia que não estávamos mais em Morrighan.
— Eu sei — disse a Kaden. — Membros da realeza também ouvem histórias.
Assim que vi a cidade arruinada, eu soubera do que se tratava. Ouvi sua descrição inúmeras vezes. Ela ficava logo além das fronteiras de Morrighan.
Notei que os outros haviam ficado em silêncio. Griz fitava o caminho à sua frente com o rosto franzido.
— Qual é o problema deles? — perguntei.
— A cidade. A magia. Isso os deixa assustados — disse Kaden, cuja resposta foi seguida por um dar de ombros, e eu soube que ele não tinha tais reservas.
— Uma espada não serve de nada contra espíritos — sussurrou Finch.
— Mas a cidade tem água — disse Malich — e precisamos de água.
Eu tinha ouvido muitas histórias pitorescas sobre a sombria cidade mágica. Dizia-se que era erguida no meio do nada, um lugar de segredos onde os Antigos podiam praticar sua magia e oferecer prazeres indizíveis — por um preço. As ruas eram feitas de ouro, néctar fluía das fontes e feitiçarias de todos os tipos poderiam ser encontradas lá. Acreditava-se que espíritos ainda guardavam, como vigilantes, as ruínas da cidade, e que era por esse motivo que tantas dessas ruínas permaneciam de pé.
Continuamos em frente, num ritmo cauteloso. Conforme nos aproximávamos, vi que as areias haviam tirado a maior parte das cores dali, mas alguns pedaços ainda sobreviviam. Uma ponta de vermelho aqui, um brilho dourado ali, um fragmento de sua antiga escrita entalhado em uma parede.
Não havia restado nada inteiro na cidade. Cada uma de suas torres mágicas que no passado alcançavam o céu haviam, em algum ponto, caído aos pedaços, mas as ruínas evocavam o espírito de uma cidade mais do que qualquer ruína que eu tivesse visto. Dava para imaginar os Antigos andando pelos arredores.
Eben permaneceu com o olhar à frente, de olhos arregalados.
— Vamos manter nossas vozes baixas enquanto passamos por aqui, para não acordarmos a magia negra e os espíritos.
Acordar espíritos? Analisei as faces dos meus não mais corajosos captores, todos inclinados para a frente em suas selas. Senti um sorriso inflamando dentro de mim, esperança, um pouquinho de poder retornando. Sem nenhuma arma, eu tinha que fazer uso do que quer que fosse para permanecer viva e, mais cedo ou mais tarde, teria que os convencer de que realmente tinha o dom.
Puxei minhas rédeas, fazendo meu cavalo parar bruscamente.
— Esperem! — disse e cerrei os olhos, meu queixo erguido para o ar. Ouvi os outros pararem, suas bufadas, a pausa calada e cheia de expectativa.
— O que você está fazendo? — perguntou Kaden, impaciente.
Abri os olhos.
— É o dom, Kaden. Não consigo controlar quando ele vem.
Ele repuxou com firmeza os lábios e estreitou os olhos. Também estreitei os meus logo em seguida.
— O que você viu? — perguntou Finch.
Balancei a cabeça em negativa e certifiquei-me de demonstrar preocupação em minha expressão facial.
— Não foi claro, mas eram problemas. Vi problemas à nossa frente.
— Que tipo de problema? — quis saber Malich.
Soltei um suspiro.
— Não sei. Fui interrompida por Kaden.
Os outros olharam feio para ele.
— Idaro! — grunhiu Griz, que claramente entendia morrighês, mesmo que não falasse o idioma.
Kaden puxou as rédeas do cavalo.
— Não acho que temos que nos preocupar com...
— Foi você quem disse que ela tinha o dom — enfatizou Eben.
— E ela tem mesmo — disse Kaden entredentes. — Mas não vejo nenhum problema à nossa frente. Vamos proceder com cautela. — Ele desferiu a mim um austero olhar de relance.
Minha resposta foi um largo, porém rígido, sorriso.
Eu não pedira para fazer parte desse jogo. Kaden não poderia esperar que eu o jogasse seguindo as regras dele. Continuamos descendo pelo caminho principal, que cortava a cidade. Não havia nenhuma rua, de ouro ou de qualquer outro material, à vista, apenas a areia que reclamava a maior parte da cidade, mas era impossível não ficar completamente deslumbrado com a grandiosidade das ruínas. Lá em casa, a cidadela era imensa. Foi preciso meio século para construí-la e décadas além disso para expandi-la. Aquela era a maior estrutura que eu conhecera, mas parecia minúscula diante desses monstros silenciosos e colossais.
Kaden sussurrou para mim, dizendo que, no meio de uma das ruínas, havia uma fonte natural e uma lagoa em que eu poderia me lavar. Decidi conter qualquer visão adicional até que pelo menos conseguisse tomar um banho.
Cavalgamos entre as ruínas até o mais longe que conseguimos, e então prendemos os cavalos a resquícios de pilares de mármore que bloqueavam nossa trilha e fomos andando o restante do caminho.
Era mais do que uma lagoa. Era algo mágico, e quase acreditei que os espíritos dos Antigos ainda cuidavam daquele lugar. A água borbulhava de espessas lajes de mármore quebrado, escorrendo por sobre a pedra escorregadia e borrifando em uma piscina viva abaixo, protegida em três de seus lados por paredes caindo aos pedaços.
Fiquei com o olhar fixo naquilo, sentindo o desejo e o prazer pela água como nunca antes. Não queria apenas mergulhar as mãos e lavar meu rosto. Queria cair ali e sentir cada gota deliciosa beijando o meu corpo. Kaden me viu fitando a água.
— Me dê seu cantil. Vou enchê-lo e dar água a seu cavalo. Vá em frente.
Olhei para Griz e os outros, que borrifavam água em suas faces e pescoços.
— Não se preocupe — disse Kaden. — Eles não vão se banhar muito além disso. Você terá a lagoa só para si. — Ele passou os olhos por mim e depois olhou para trás, de relance, para Malich. — Mas, se eu fosse você, ficaria com as roupas.
Reconheci a prudente sugestão dele com um único aceno de cabeça. Eu tomaria banho com um espesso manto invernal agora se essa fosse a minha única opção. Ele foi encher os cantis, e tirei minhas botas. Entrei na lagoa, meus pés afundando na fresca areia branca que forrava o fundo, e pensei que estava no céu. Mergulhei, afundando abaixo da superfície e nadando até o outro lado, onde a água escorria das lajes partidas como se fosse uma cachoeira. Quando os outros saíram para dar água a seus cavalos, rapidamente desabotoei minha blusa e tirei-a junto com minha calça. Nadei com a roupa de baixo e minha camisola, esfregando-me para tirar a sujeira e a areia que haviam se engrenhado em cada poro e em cada fenda do meu corpo. Abaixei a cabeça sob a água de novo e esfreguei o couro cabeludo, sentindo a poeira se soltar.
Quando voltei à tona, inspirei fundo, um inspirar purificador. Nunca antes a água me parecera assim, tão soberbamente purificadora. O inferno não era feito de fogo, mas sim de poeira, areia e vento.
Agitei com rapidez minha calça na água para limpar a terra e vesti-a novamente. Estava prestes a apanhar minha blusa quando ouvi uns ruídos estrondosos. Virei a cabeça para o lado, tentando discernir que som era aquele e de onde vinha, e então escutei o ritmo sutil: cavalos.
Aquilo me confundiu. Soava como se fossem mais do que apenas nossos seis homens, e então ouvi a rajada de uma trombeta. Por um instante, fiquei pasma. Ah, benditos sejam os deuses! Uma patrulha!
Saí correndo da lagoa, tropeçando por cima de rochas e ruínas.
— Aqui! — gritei. — Aqui!
Os estrondos foram ficando mais altos, e saí correndo pelas trilhas estreitas, com pedaços de escombros quebrados machucando e cortando meus pés descalços.
— Aqui! — gritei repetidas vezes, enquanto corria em direção à estrada principal que atravessava o centro da cidade. Era um labirinto para chegar lá, mas eu sabia que estava perto, pois o barulho ficou ainda mais alto, e então, em meio a uma trilha estreita, captei um vislumbre de cavalos que passavam a galope. — Aqui! — gritei mais uma vez. Eu estava prestes a alcançar a estrada quando senti a mão de alguém fechando-se na minha boca enquanto era arrastada de volta, para um canto escuro.
— Fiquei quieta, Lia! Ou todos nós vamos morrer!
Lutei para me livrar da mão de Kaden, tentando abrir a boca para mordê-lo, mas ele manteve a mão firmemente fechada em concha sobre meu maxilar. Ele me puxou para o chão e me segurou com força junto ao seu peito, aninhando a nós dois ali no canto. Até mesmo com a boca fechada pela mão dele, soltei um grito, mas não foi alto o bastante para que fosse ouvido acima do estrondo dos cascos.
— É uma patrulha de Dalbreck! — sussurrou ele. — Eles não saberão quem você é! Vão nos matar primeiro e fazer perguntas depois.
Não! Lutei para me soltar das garras dele. Poderia ser a patrulha de Walther! Ou de qualquer outra pessoa que fosse! Eles não me matariam! Mas então me lembrei do lampejo de cor enquanto os cavalos passavam voando por nós. Azul e preto, o estandarte de Dalbreck.
Ouvi o som se esvanecer, ficar mais baixo, cada vez mais baixo, até que não passava de um estremecimento, e então eles tinham ido embora.
Eles se foram.
Caí junto ao peito de Kaden, cuja mão deslizou da minha boca.
— Precisamos ficar aqui um pouco até termos certeza de que os soldados se foram — sussurrou ele no meu ouvido. Com o retumbar dos cavalos tendo chegado ao fim, fiquei bastante ciente de que seus braços ainda estavam me envolvendo.
— Eles não teriam me matado — falei, baixinho.
Ele se inclinou, aproximando-se de mim, seus lábios roçando minha orelha em um aviso sussurrado.
— Tem certeza? Você parece uma de nós agora, e não importa – homem ou mulher – eles nos matariam. Não passamos de bárbaros para eles.
Se eu tinha certeza? Não. Eu sabia muito pouco sobre Dalbreck e suas forças armadas. Sabia apenas que Morrighan tivera desavenças e disputas com eles no decorrer dos séculos, mas, com certeza, minha situação atual não era muito melhor.
Kaden me ajudou a ficar em pé. Meus cabelos ainda pingavam. Minha calça molhada contorcia-se em volta de mim, mais uma vez coberta de poeira. No entanto, quando baixei o olhar para meus pés machucados e sangrando, dois pensamentos me consolaram.
Um, pelo menos sabia que as patrulhas às vezes se aventuravam tão longe. Eu ainda estava ao alcance deles. E, dois, houve problemas, exatamente como eu previ que aconteceria.
Ah, o poder que isso me daria agora!

3 comentários:

  1. Gente, eu amei esse livro. A narrativa, tudo dele é muito bom 😍😍

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  2. Será que eram os companheiros de Rafe?!

    Rosaline Blue

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  3. Também amando cada pagina

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Boa leitura, E SEM SPOILER!