20 de fevereiro de 2018

Capítulo 47

No fim do dia, Natiya ainda não tinha encontrado Pauline. Não havia mais que uma dúzia de estalagens em Civica, e Natiya me disse que fora a todas. Tudo que ela conseguiu em resposta às suas perguntas foram pessoas dando de ombros. Pelos meus cálculos, a barriga de Pauline agora deveria estar redonda com oito meses carregando o bebê, o dono de uma estalagem notaria isso.
Minha mente ficou a mil com uma coisa que eu não havia considerado. E se ela tivesse perdido o bebê? Enzo não havia mencionado a gravidez dela em Terravin. E se…?
E então outra possibilidade.
E se ela não podia ser encontrada porque já estava na prisão?
— Você parece cansada — disse o padre Maguire enquanto eu absorvia as notícias de Natiya. — Comeu alguma coisa?
Balancei a cabeça. O pouco que eu tinha beliscado estava agora em uma rua de Civica. Ele me fez sentar em uma mesa em um aposento que não era muito maior que um armário. No aposento havia uma mesa, uma cadeira, uma cama estreita e um único gancho na parede. Ele ficava na propriedade da abadia e era usado por sacerdotes solteiros em viagem quando estavam visitando os arquivos e para nada além disso. Eu e Natiya não poderíamos ficar aqui por muito tempo. Isso chamaria a atenção das pessoas. Eu fora até a cabana do reservatório do moinho hoje para ver se Kaden tinha aparecido, mas ainda não havia qualquer sinal dele. Senti o toque dos dedos frio na minha coluna. Por favor, que ele esteja bem.
Descansei a cabeça nas mãos. Com a falta de sucesso de Natiya já tendo sido discutida, o sacerdote me perguntou como o meu dia se passara. Respondi com silêncio e revi as notícias na minha cabeça.
Meu pai estava doente, com uma enfermidade desconhecida acarretada pela perversidade da traição da princesa Arabella. Ninguém havia visto a rainha desde que o meu pai ficou doente, e, na verdade, toda a corte dela entrara em reclusão, em luto pela companhia perdida de soldados. Eu nem mesmo consegui chegar até a minha tia Bernette. A cidadela estava cheia de guardas, como se tivesse todos os tesouros do continente. Meus irmãos, que eu precisava desesperadamente ver, estavam longe, junto com os esquadrões que eu havia contado para me apoiar. Pauline não podia ser encontrada. E acreditava-se que o príncipe Walther tinha sido assassinado pelas mãos traiçoeiras da sua irmã.
Fechei os olhos.
E era só meu primeiro dia aqui.
Eu tinha sido determinada, ignorando obstáculos até mesmo essas coisas que de repente me enfraqueciam. Eu estava atada a Civica de maneiras que eu dispensara. Sim, eu sentia fúria em relação aos traidores no gabinete, mas ainda havia pessoas aqui com quem eu me importava, e aquilo em que eles acreditavam no que dizia respeito a mim fazia diferença: o padeiro do vilarejo, que sempre tinha um pãozinho quente para eu experimentar; o mestre do estábulo, que me ensinou a cuidar de um cavalo; os soldados, que abriam largos sorrisos quando eu ganhava deles nas cartas. Eu me importava com aquilo que eles acreditavam sobre mim. Eu me lembrava do meu primeiro dia no Saguão do Sanctum e do Komizar me estudando de longe. Calculando. Ninguém no gabinete morrighês me conhecera tão bem quanto ele. Eu via a mão do Komizar orquestrando tudo isso.
Pressionei as almofadas das minhas mãos nos meus olhos, recusando-me a ceder à desolação que aumentava dentro de mim.
Isso não acabou ainda.
O padre Maguire colocou uma tigela de caldo quente na minha frente, e forcei um pedaço de pão a descer junto com o caldo. Walther estava morto. Eu não podia mudar isso, nem aquilo em que as pessoas pensavam sobre mim.
— Você cuidou das notificações? — perguntei.
Ele assentiu.
— Todas redigidas e preparadas, mas um selo oficial ajudaria na credibilidade.
— Verei o que posso fazer.
— Porém tenho algumas reservas em relação à mensagem. É arriscado. Talvez nós…
— Isso é garantia. Só para o caso de se fazer necessário. Vai me comprar tempo.
— Mas…
— Esse é o único anúncio que será bebido mais avidamente e mais rápido do que um jarro gratuito de cerveja.
Ele soltou um suspiro, mas assentiu, e então dei a ele outra tarefa. Pedi que ele fosse fazer questionamentos de forma discreta para ver se mais algum erudito havia sumido.
Apanhei o meu manto do gancho, examinando o trabalho de Natiya com a agulha escondida no forro interno. Sob a luz fraca do crepúsculo, aquilo funcionaria. Poderia levar alguns dias antes do retorno dos meus irmãos da Cidade dos Sacramentos e até que eles pudessem me ajudar, mas ainda havia trabalho a ser feito.

* * *

A cidadela era uma estrutura grande e que se espalhava. Se a arquitetura de Venda era como um vestido composto por trapos, então a de Morrighan era um vestido de trabalho prático e sólido, feito de pontos contados e uma costura ampla para expansão.
A cidadela havia crescido com o passar dos séculos, como acontecia com qualquer reino, mas, ao contrário de Sanctum, ela havia crescido de modo ordenado. Quatro alas principais irradiavam-se do grande saguão original no centro, e múltiplas torres e anexos haviam se espalhado por cima dos terrenos em volta delas. Passagens que conectavam alas e outras estruturas davam origem a uma multiplicidade de esquinas convenientes para que uma jovem princesa escapasse das garras dos seus tutores. Eu estava intimamente familiarizada com todas as cortinas, com todos os armários, recessos e peitoris na cidadela de uma forma que somente uma criança desesperada por liberdade poderia ser. E havia também as passagens secretas de que ninguém supostamente deveria ter conhecimento, vias de escape empoeiradas e esquecidas, construídas em tempos mais sombrios, mas minhas andanças me levaram a descobrir essas passagens também.
O Erudito Real estava bastante ciente das minhas habilidades, no entanto, suas armadilhas para me pegar tinham sido, na maior parte, pateticamente fracas. Eu os via vindo antes que um tutor que estava à minha espera pudesse segurar no meu ombro, antes que eu tropeçasse em um fio de seda preso com um sino de aviso, antes que qualquer obstáculo colocado cruzando o meu caminho pudesse diminuir a minha marcha. No mínimo, a persistência dele se tornara um desafio para mim e contribuíra para a minha furtividade. Ele se tornou um tutor involuntário, de outro tipo.
Os jardins atrás da cidadela promoviam a sua própria e única forma de subterfúgio. Eu e os meus irmãos havíamos escavado túneis em meio a passagens nas cercas vivas levemente aparadas, sendo que alguns dos túneis eram tão grandes que todos nós podíamos nos aninhar em uma toca terrena e comer os doces e bolos quentinhos que um de nós tivesse furtado dos fornos na cozinha.
Estava usando uma dessas tocas agora, esperando pelo momento certo, então fiz com que a oportunidade surgisse ao jogar uma pedra mirada com muito cuidado. Um ruído nas folhagens ao longe. Quando os guardas se viraram na direção do barulho, fui correndo até as sombras de um passadiço coberto.
Eu estava lá dentro. Daqui eles não podiam me parar.

* * *

Havia alguma coisa perigosamente revigorante em passar de modo furtivo pelos corredores. Até mesmo com o coração socando em meus ouvidos, todos os sentidos dentro de mim irrompiam ganhando vida, alertas e brilhantes. Tudo era familiar — os sons, os aromas — mas então minha ciência das coisas foi de súbito cutucada por outra coisa, coisa esta que tinha um nome agora. Que passava resvalando por mim, uma fera carregando o cheiro da traição. Eu sentia sua barriga ondulando por cima da minha pele. Ouvia as batidas do seu coração nas paredes. Captava seu gosto, doce e sagaz, espiralando-se no ar. Estava acomodado, confortável… estivera lá por um bom tempo. E estava faminto.
Talvez fosse por esse motivo que eu sempre preferia correr livremente com os meus irmãos nos espaços abertos das campinas e das florestas. Eu sentira isso, até mesmo quando era criança, mas não tinha um nome para esse sentimento na época. Agora, as verdades sussurravam para mim, traindo os segredos e as conspirações dos culpados; eles estavam aqui. Eram os donos da cidadela, eu precisava reavê-la.
Desci furtivamente o corredor, com os pés descalços, abraçando as sombras, escondendo-me atrás de armários e recantos sempre que ouvia passadas. Havia apenas quatro celas de prisão, salas cheias de umidade e seguras no nível mais inferior da cidadela para aqueles que estavam prestes a sofrer o julgamento da mais alta corte. Tão logo vi que não havia nenhum guarda na passagem que dava para essas salas, soube que Pauline não estava lá, mas verifiquei mesmo assim, sussurrando o nome dela na escuridão, e não tive resposta. Aquilo me trouxe apenas um leve alívio. Isso não queria dizer que ela não estava sendo mantida presa em outro lugar. Retornei ao nível superior, movendo-me furtivamente e subindo até o terceiro andar.
Olhei para baixo do corredor escuro ao leste, que continha as suítes da família real. A massiva entrada em arco, para a qual eu nunca havia voltado um segundo pensamento antes, parecia uma boca escancarada, esperando por mim, e a imensa pedra angular branca no seu pico parecia uma pedra prestes a cair.
Dois homens guardavam essa entrada. Não havia pessoas indo ou vindo. A ala ficara misteriosamente silenciosa. Era estranho que eu não tivesse visto sequer minha tia Cloris se movendo ali nos arredores. Ela sempre estava indo com pressa para algum lugar, geralmente com uma reclamação sobre alguma tarefa ou outra que não estava sendo levada ao cabo do modo devido. Para ela, até mesmo o protocolo do luto teria as suas falhas. Ela era uma mulher de tarefas diárias, mas não de se demorar, nem de rir, nem de sonhar. Infelizmente, eu a entendia melhor agora. Talvez o protocolo não importasse mais tanto para ela, pois o pesar era o seu próprio chefe.
Ele está morrendo.
Parei.
Eles o estão matando.
Meu coração ficou imóvel. Matando-o? Imediatamente, meus pensamentos foram para Rafe. Ele estava enfrentando um golpe de estado no seu lar. Ou seria Kaden? Ele ainda estava desaparecido. Ou seria somente o fato de que os corredores em que eu costumava andar com Walther haviam desengatilhado a lembrança de vê-lo morrer? Forcei o ar a entrar constantemente. Walther. Eu não era a única que sentia a dor da perda dele. Sentia os muitos corações que sangravam. Embora eu soubesse que tinha que seguir em frente, meus pés se moviam para outro lugar contra a minha vontade.

* * *

Fiquei em pé, para trás, parada nas sombras. Alguma coisa escura, provida de garras e cheia de necessidade, como um animal ferido, curvava-se em minhas entranhas. Fiquei observando enquanto a minha mãe puxava prendedores dos seus cabelos, e notei uma irritação nos seus movimentos. Com o último prendedor removido, seus sedosos cabelos negros caíram nos ombros.
— Ele morreu em batalha — falei. — Achei que devesse saber. Eu vi tudo quando aconteceu.
Ela enrijeceu as costas.
— A espada dele estava erguida por Greta quando ele foi morto. Eu cavei o túmulo dele e entoei as bênçãos necessárias sobre seu corpo e dos seus companheiros soldados. Queria que soubesse disso. Ele teve um enterro digno. Eu me certifiquei de que todos eles tivessem enterros dignos.
Ela se virou lentamente para ficar cara a cara comigo, e que os deuses me ajudem. Naquele momento, tudo o que eu queria era correr para os braços dela e enterrar meu rosto no ombro dela. No entanto, alguma coisa fez com que eu me contivesse. Minha mãe mentira para mim.
— Eu tenho o dom — falei — e sei o que você fez para mim.
Ela me encarou, com os olhos brilhando, mas sem qualquer surpresa neles. Engoliu em seco.
— Você não parece chocada em me ver, mãe — falei. — Quase como se alguém já tivesse lhe contado que eu estava aqui.
Segui em frente e estava me dirigindo até o posto de observação no pórtico quando ouvi alguma coisa mais alto do que as batidas da traição.
Ela começou a vir na minha direção.
— Arabella...
— Lia! — falei irritada, e coloquei minha mão à frente para fazer com que ela parasse. — Uma vez na sua vida, me chame pelo nome com o qual me marcou! O nome que você sabia...
E, então, uma silhueta mais alta e sombria saiu de dentro do vestiário dela.
— Fui eu quem disse a ela que você estava aqui. Recebi a sua mensagem.
Era o Erudito Real.
Fui aos tropeços para trás, pasma.
— Nós precisamos conversar, Arabella. Você não pode... — disse ele.
Saquei minha adaga e encarei minha mãe, sem acreditar naquilo. Minha garganta era apunhalada pela dor.
— Por favor, não me diga que enquanto eu estava enterrando o meu irmão assassinado e os seus companheiros caídos, você estava aqui conspirando com o Erudito Real!
Ela balançou a cabeça, retraindo e juntando as sobrancelhas.
— Eu estava, Arabella. Eu venho conspirando com ele já anos. Eu...
A porta da câmara dela foi aberta e um guarda entrou. Alternei o olhar entre o Erudito Real e a minha mãe. Uma armadilha? O guarda olhou para mim e para a minha adaga de imediato e sacou sua espada, avançando na minha direção. Saí voando pela janela por onde eu entrara, tropeçando no peitoril, e quase caindo no chão lá embaixo, aos tropeços. Minha visão estava borrada com lágrimas, e minha trilha dançava na minha frente como se fosse uma ponte de corda solta. Corri ao longo do peitoril, confiando que os meus passos encontrariam pedras sólidas, sentindo-as mais do que as vendo. Ouvi gritos vindos da janela atrás de mim, ordens sendo gritadas — Parem-na! — e os ruídos das suas passadas, mas eu tinha escolhido a janela e o caminho com cuidado. Em segundos, eu estava longe da vista deles e seguia em direção ao lado oposto da cidadela. Eu não teria muito tempo, mas a noite não havia acabado. Não agora.
Especialmente, não com a sensação miserável que passava furiosa por mim.
As verdades desejavam ser conhecidas, e estava na hora de a minha mãe começar a transmiti-las... umas poucas palavras de cada vez. Quem melhor para manejar as pessoas do que Regheena, a Primeira Filha da Casa de Morrighan?

7 comentários:

  1. Hummm então estão matando o Rei . Provável entao os pais do Rafe tbm foram assassinatos ~~ isa

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  2. A mãe dela estava desde sempre conspirando com o Erudito Real, mas se ela tão desesperadamente tentou minar o dom na Lia ela deve saber mais do que aparenta. Ela implantou a ideia do casamento quando a Lia tinha 12 anos, quando eles já tinham o livro. Tem caroço nesse angu.
    E, pela Deusa!, cade o Kaden????

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  3. Será que eles tem um caso?

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  4. A história só está se complicando mais..acho q mataram os pais do rafe e querem fazer o msm com o pai e irmãos da lia

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