16 de fevereiro de 2018

Capítulo 47

Uma grandiosidade terrível
rolava pela terra,
uma tempestade de poeira,
fogo e acerto de contas,
absoluta em seu poder,
devorando homens e feras,
campos e flores,
e a todos aqueles que se atrevessem
a ficar em seu caminho.
e os gritos dos capturados
enchiam os céus de lágrimas.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, vol. II —



O Saguão do Sanctum estava decididamente mais silencioso esta noite. Eu podia sentir isso de longe enquanto descíamos o corredor. O ar festivo geralmente vinha rolando pelo chão de pedra de encontro a nós. Não nesta noite. Eu queria sondar e ver se Calantha suspeitava de alguma coisa em relação a quem ela havia enviado ao meu quarto, mas ela nada disse, e nem eu o fiz. Eu não queria levantar questionamentos nem desconfiança onde não havia.
Conforme fomos chegando mais perto do corredor, o silêncio foi se tornando palpável.
— Eles brigaram, não foi? — perguntei a ela.
— É o que estão dizendo — foi a resposta de Calantha.
— Eu vi um corte na mão de Kaden.
— E todo mundo está esperando para ver como se saiu o Komizar — disse ela. Roubei uma olhadela de relance para ela, que mascava seu lábio inferior.
— Por que o Komizar não o matou por isso? — perguntei a ela. — Ele não parece tolerar qualquer rebelião e mantém a ameaça de morte para cima de todo o resto do pessoal.
— Assassinos são perigosos. Favorece ao Komizar manter Kaden vivo. Ninguém sabe disso melhor do que ele.
— Mas se Kaden é perigoso...
— Ele poderia ser substituído por alguém mais perigoso do que ele. Alguém que não fosse tão leal. Há um forte vínculo entre os dois também. Eles têm uma longa história juntos.
— Assim como você e o Komizar também têm uma história — falei, escavando na esperança de obter mais informações a respeito.
Ela apenas respondeu com um curto:
— Exatamente, Princesa. Assim como nós.
O silêncio era esquisito quando entramos no Saguão do Sanctum. Sem os barulhos costumeiros, o aposento inteiro parecia mais vazio, ou talvez fosse apenas devido ao fato de que, nesta noite, os clãs, lordes de quadrantes e outros convidados especiais não estavam preenchendo todos os cantos disponíveis. Eram apenas os membros do Conselho e os criados. Rafe estava parado na extremidade mais afastada da mesa, no centro da sala, conversando com Eben. Parecia que nem o Komizar, nem Kaden haviam entrado ainda.
E foi então que avistei Venda.
Ela movia-se pelo aposento, sólida como qualquer um de nós, passando a mão ao longo da mesa, como se estivesse limpando migalhas dela, como se séculos e um empurrão de uma muralha fossem irrelevantes para seu propósito. Ninguém mais parecia notar sua presença, e eu me perguntava se eles a haveriam confundido com uma criada. Fui me aproximando, incapaz de tirar os olhos dela, temendo que ela fosse desaparecer nas brumas se eu piscasse. Ela abriu um sorriso quando parei do lado oposto da mesa em frente a ela.
— Jezelia — disse ela, como se tivesse falado o meu nome cem vezes, como se me conhecesse desde a época em que eu era uma criança pequena e os sacerdotes me erguiam aos deuses.
Meus olhos ardiam.
— Você disse o meu nome? — perguntei a ela.
Venda balançou a cabeça.
— O universo cantou seu nome para mim. Eu apenas o cantei em resposta. — Ela deu a volta na mesa até que estava apenas à distância de um braço de mim. — Todas as notas atingem-me aqui — disse ela, e levou seu punho cerrado ao esterno.
— Foi você quem cantou meu nome para a minha mãe?
Ela assentiu.
—Você o cantou para a pessoa errada, então. Eu não sou...
— Esse é um modo de confiança, Jezelia. Você confia na voz que há dentro de você?
Era como se ela pudesse ler meus pensamentos. Por que eu?
Ela abriu um sorriso.
— Tinha que ser alguém. Por que não você?
— Por cem motivos. Por mil motivos.
— As regras da razão constroem torres que vão além das copas das árvores. As regras da confiança constroem torres que alcançam além das estrelas.
Olhei ao meu redor, me perguntando se mais alguém estaria ouvindo. Todos os olhos no Sanctum estavam cravados em mim, vidrados, com um pasmo que beirava o medo... Até mesmo os olhos de Rafe. Eu virei de novo para Venda, mas ela já não estava mais lá.
Eu e uma loucura assustadora. Isso era tudo que eles haviam testemunhado, e eu questionava minha própria sanidade. Vi diversos oldados puxarem amuletos de sob suas camisas e esfregarem-nos. Tinha que ser alguém. Eu me apoiei na mesa, e Rafe não se conteve e deu um passo na minha direção. Rapidamente me recompus, ficando em pé, rígida.
Uma criada arrastava os pés para a frente, tímida.
— O que foi que você viu, Princesa?
Três chievdars estavam parados, em pé atrás dela, olhando com ódio para a moça, porque ela estava reconhecendo qualquer poder que eu tinha, e eles, não. Sem os clãs aqui, eles não precisavam fingir. Formulei minhas palavras com cuidado, por temer que a menina fosse sofrer por sua fervorosa pergunta.
— Eu vi apenas as estrelas do universo, e elas brilhavam em cima de todos vocês.
Minha vaga resposta pareceu satisfazer tanto os refutadores quanto os que acreditavam, e eles voltaram a conversar em voz baixa, ainda esperando pela aparição do Komizar.
Rafe continuou com os olhos em mim, e vi preocupação neles. Desvie o olhar, rezei, porque eu mesma não conseguia libertar meus próprios olhos contemplativos, mas então percebi de relance as mãos dele, mãos estas que haviam aninhado com gentileza a minha face. Seria um infortúnio se ele começasse a perder dedos prematuramente. Convença-os.
  Com todo mundo observando, eu tinha um grande público a convencer. Desviei o olhar assim que Komizar entrou no saguão.
— Onde está a minha noiva? — disse ele, embora eu estivesse em plena vista.
Um criado foi correndo depositar na mão dele uma caneca, e tanto Rahtans quanto governadores foram para o lado enquanto ele caminhava na minha direção.
— Aí está ela — disse ele, como se seus olhos tivessem acabado de pousar em mim. Eu vi o pequeno corte em seu pescoço, e, sem sombra de dúvida, todo o resto do pessoal também tinha visto isso. — Não se preocupe, meu amor, foi apenas um cortezinho ao me barbear. Eu estava, talvez, um pouco ansioso demais no meu desejo de ficar apresentável para você. — Os olhos dele dançavam com um sorriso enquanto ele sorria para mim. Diga alguma coisa, foi o comando que vi naqueles olhos. Diga simplesmente a coisa certa.
— Não há qualquer necessidade de arriscar sua carne. Você está apresentável para mim, sher Komizar.
— Minha pequena passarinha — disse ele, e esticou a mão, colocando-a atrás da minha cabeça, puxando-me na sua direção. Ele sussurrou isso junto aos meus lábios: — Faça com que isso seja bom.
A quem ele estava tentando enganar? O Conselho já sabia que casamento era uma impostura e que eu não passava de uma ferramenta para os ganhos dele, mas então percebi que o propósito era outro. Ele queria mostrar que não ficara abalado pelo ataque do Assassino e que ainda tinha uma pegada firme no poder.
Beijá-lo quando isso servia a mim era uma coisa, mas quando servia a ele era outra bem diferente. Eu me preparei enquanto os lábios dele encontravam-se com os meus, surpresa com o fato de que ele estava sendo gentil, terno até, mas mecânico em todos os níveis. Era uma apresentação bem-feita, mas então, no último momento, a mão dele curvou-se em meus cabelos, e seus lábios pressionaram os meus, com paixão. Ouvi as afrontosas risadas ao nosso redor e senti a cor subir às minhas têmporas. Por fim, ele me soltou, e, em vez de algo calculado e frio, vi a centelha de um desejo inquieto em seus olhos. Essa era a última coisa que eu gostaria de ver ali. Dispus-me a tirar a cor do rosto.
Ele virou-se, como se estivesse regozijado, e deu um berro:
— Onde está a comida?
Criados correram de um lado para o outro, apressados, e nós tomamos nossos assentos, mas a latente ausência do Assassino pairava na sala como uma nuvem venenosa e refreava as brincadeiras e as conversas normais. Eu proferi a bênção. No entanto, antes de passar o prato de ossos, tomei um deles para manter mãos e olhos ocupados, embora meu cordão já tintilasse, pesado, com o peso dos ossos que ali estavam.
Este era um osso pequeno, alvejado e secado ao sol, como era feito com todos eles depois que os cozinheiros os enterravam em um barril de refeição com escaravelhos, de modo que os restos de carne e tutanos fossem comidos. As larvas dos escaravelhos eram usadas para pesca em um pequeno recesso às margens do grande rio, o que, por sua vez, produzia mais ossos. Tratava-se de um ciclo infinito de sacrifícios, um atrás do outro. Ocupei-me com o osso, desejando que fosse possível tirar o gosto do Komizar dos meus lábios. Eu estava com medo de erguer a cabeça e me deparar com o olhar contemplativo de Rafe, pois sabia o que ele veria, a tensão espalhando-se como uma mácula febril por sua face. Se eu tivesse que vê-lo, dia após dia, beijando uma criada ou sendo empurrado para seu abraço, certamente eu ficaria louca.
— Você não está comendo, Princesa — disse o Komizar.
Estiquei a minha mão e peguei uma fatia de nabo e mordisquei-a, para satisfazê-lo.
— Coma bastante — insistiu ele. — Nós teremos um grande dia à nossa frente amanhã. Eu não quero que você desmaie.
Todo dia era um grande dia para o Komizar. Sem dúvida, para mim se tratava de mais desfiles pela cidade ou pelo interior. Curiosamente, havia apenas um quadrante para onde ele não havia me levado... ao quadrante de Tomack, na parte mais ao sul da cidade.
O repentino som pesado de passadas ecoou pelo saguão e, para o horror do Komizar, a refeição foi interrompida... Ninguém queria perder a entrada do Assassino, e todos estavam ansiosos para ver se ele portava as evidências de uma briga. Todos os que ali estavam tomaram nota de que havia diversas passadas vindo em nossa direção. Eles levaram as mãos dos pratos para as armas embainhadas nas laterais de seus corpos. Protegidos pelo Grande Rio pelo qual era impossível se passar, com certeza eles não temiam o inimigo vindo de fora, então sempre deveriam estar em prontidão para o inimigo ali de dentro. Banhos de sangue, foi como dissera Kaden.
Kaden entrou, vindo do passadiço ao leste. Todo mundo viu o que queria ver, as evidências de uma briga, talvez até de um desafio. Um machucado azul escurecia seu maxilar, e sua mão estava envolta em uma bandagem, mas ele não estava com qualquer arma sacada, e eles voltaram a sentar-se, relaxados nos seus assentos. Parecia que o Komizar havia se saído bem melhor do que seu Assassino. O odioso novo governador e seu guarda pessoal caminhavam ao lado de Kaden. Seguiu-se uma risada abafada vinda da extremidade da mesa, onde Malich estava sentado, junto com seu círculo presunçoso de Rahtans. Kaden seguiu, determinado, em linha reta até o Komizar.
— O novo governador de Arleston, conforme sua solicitação — disse ele como se estivesse depositando uma caixa de carga aos pés do Komizar. Ele se voltou rapidamente para o governador. — Governador Obraun, este é seu soberano. Curve-se de joelhos e jure lealdade a ele agora.
O governador fez o que lhe foi ordenado, e antes que o Komizar pudesse responder, Kaden veio andando até nós e apoiou-se com um dos braços na mesa. Ele estava fervendo de raiva e, embora estivesse sussurrando, ainda falava alto o bastante para que aqueles que estavam sentados perto de nós pudessem ouvi-lo.
— E você, realeza dormirá meus aposentos esta noite — disse ele, sibilando. — O Komizar disse que não há motivos para que você não nos sirva a ambos... E, depois da minha longa jornada, eu desejo ser servido. Você está me entendendo?
Eu nada disse, mas o fogo subiu correndo às minhas bochechas. Eu não tinha ouvido essa raiva na voz de Kaden desde a noite em que ele me jogou dentro da carvachi por ter atacado Malich. Não, na noite de hoje ele estava muito mais enraivecido. Eu o havia traído em um nível pessoal. Eu representava todos os nobres de Morrighan que atendiam a todas as suas baixas expectativas, mas agora, com umas poucas palavras, ele havia atendido às minhas também. Eu não aceitava esse tipo de ordem de qualquer um.
Olhei para o Komizar e ele assentiu, indicando que aprovava esse arranjo partilhado. Seus olhos ardiam lentamente com a satisfação, feliz porque a raiva de seu Assassino estava direcionada a mim. Kaden recuou da mesa e achou um assento vazio no meio, em frente a Rafe. A tensão que sempre emitia centelhas entre eles estava amplificada, e seus olhares contemplativos e quentes ficaram fixos um no do outro por tempo demais. Rafe não teria como ter ouvido o que Kaden disse, mas talvez meu rosto avermelhado fosse tudo que ele precisasse ver. Cadeiras foram deslizadas para o lado, de modo que o novo governador e seu guarda pudessem sentar-se perto de seu soberano.
O Komizar e o governador pareceram conectar-se de imediato, para mim sua conversa tornou-se um borrão de sons, palavras desconectadas, risadas e o retinir de canecas. Fiquei observando enquanto os lábios do governador se moviam, mas eram as palavras de Kaden que eu ouvia: E você, realeza, dormirá em meus aposentos.
— E agora você vai se casar com uma porca inimiga?
Meu olhar contemplativo foi voando direcionado aos olhos pequenos, redondos e brilhantes do governador.
Levantei-me e apanhei um punhado de tecido do seu casaco na mão, forçando seu rosto a ficar preto do meu.
— Se você disser algo como “porco inimigo” mais uma vez, vou arrancar a carne de sua face com minhas próprias mãos e dá-la para os porcos no estábulo comerem! Você está me entendendo, governador?
O Komizar agarrou meu braço e puxou-me de volta pro meu assento. Tanto o governador quanto seu guarda, de olhos arregalados, olharam para mim pasmados e alarmados.
— Peça desculpas, Princesa — ordenou o Komizar. — O governador é um novo e leal membro do Conselho e teve pouco tempo para ajustar-se à ideia do inimigo caminhando em solo vendano.
Eu olhei com ódio para ele. Se minhas supostas recém-adquiridas liberdades teriam algum uso para mim que fosse, eu teria que lascá-las e agarrá-las, um pequeno pedaço de cada vez.
— Ele está chamando sua noiva de porca! — argumentei.
— Essa é uma frase comum que usamos para nos referirmos ao inimigo. Peça desculpas. — Os dedos dele afundaram-se na minha coxa debaixo da mesa.
Voltei a olhar para o governador.
— Eu peço que me perdoe, vossa eminência. Eu realmente não daria sua face aos porcos. Isso poderia deixá-los doentes.
Seguiu-se um audível sugar de respiração, e o tempo pareceu parar, como se estes fossem ser meus últimos segundos na terra, como se eu tivesse levado as coisas longe demais. O silêncio esticava-se, fino e tenso. No entanto, no meio da mesa, Griz soltou uma bufada. Sua risada ruidosa abriu um corte em meio a quietude provocada pelo choque, e então Eben e o governador Faiwell juntaram-se a ele, rindo também, e logo a condenação prevalecente do momento foi lavada por pelo menos metade daqueles que estavam à mesa e que se juntaram à minha “piada”.
O governador Obraun, como se sentisse que estava preso no meio de uma ventania forte, repentina e inesperada, deu uma risada também, presumindo que o insulto fosse uma piada. Sorri para apaziguar o Komizar, embora ainda estivesse enfurecida por dentro.
Durante o restante da refeição, o governador exagerou ao fazer questão de me chamar de noiva do Komizar, o que atraiu mais risadas. O guarda dele permaneceu em silêncio, e fiquei sabendo que ele era mudo... Uma estranha escolha para um guarda que poderia precisar fazer soar um alarme... mas talvez ele também fosse surdo, e fosse o único capaz de suportar a incessante tagarelice do homem.
Eu sentia nós que se formavam e que se desfaziam nos dedos dos meus pés, dentro de minhas botas, e as fogueiras em cada extremidade do saguão pareciam estar ardendo quentes demais. Tudo dentro de mim coçava. Talvez fosse o fato de saber que em algum lugar nesta cidade Jeb e seus camaradas soldados estavam trabalhando para encontrar uma saída para todos nós. Quatro. Este era um número de que eu havia zombado, mas agora parecia-se com a preciosa chance de uma fração de segundos a que eu havia me arriscado em face a um estouro de uma horda de bisões. Arriscado, mas valia a pena.
Eu achava que a noite não podia ficar pior, mas eu estava errada. Quando eles começaram a retirar os pratos, e eu estava com esperanças de sair dali, um desfile de empurradores de carrinhos começou a trazer carretas para dentro do saguão.
— Vocês estão aqui, até que enfim — disse o Komizar, como se soubesse que eles estavam a caminho. Eu vi Aster entre eles, esforçando-se para empurrar um carrinho carregado de armaduras, armas e outros espólios. Senti meu estômago. Mais uma patrulha havia sido massacrada.
— Perda deles, nossos ganhos — disse o Komizar, animado.
O pequeno pedaço de nabo que eu havia engolido parecia ter ficado preso no meu peito. Precisei de um instante para realmente me focar no conteúdo, mas, quando fiz isso, vi o azul e preto das cores de Dalbreck adornando escudos e estandartes, assim como o leão, cuja garra eu carregava em minhas costas. A pilhagem era quase tão grande quanto aquela da companhia de meu irmão, e embora estes não fossem meus compatriotas, senti meu pesar renovado. Ao meu redor, a ganância reluziu nas faces dos chievdars e dos governadores. Até mesmo essa ação por parte do Komizar não tinha apenas a ver com espólios, mas com o fervor. Um outro tipo de fervor. Como o cheiro de sangue para um bando de cachorros.
Quando os últimos empurradores de carrinhos colocaram os pertences no chão, a cadeira de Rafe foi para trás, como um chiado, e caiu atrás dele enquanto ele se levantava. O repentino cair da cadeira fez com que todas as cabeças se voltassem em sua direção. Ele foi andando até um carrinho, com o peito subindo e descendo, olhando para o seu conteúdo. Ele puxou uma longa espada de uma pilha, e o som do aço ressoou no ar.
O Komizar lentamente se pôs de pé.
— Você deseja falar alguma coisa, Emissário?
Os olhos de Rafe ardiam em chamas, seu azul-gelo cortando o Komizar.
— São meus compatriotas os que você assassinou — disse ele, cujo tom era tão frio quanto seu olhar. — Você tem um acordo com o príncipe.
— Pelo contrário, Emissário. Pode ser que eu tenha ou não um acordo com seu príncipe. O que você clamou ainda não se provou ser verdade. Por outro lado, eu definitivamente não tenho qualquer acordo com o rei. Ele ainda é meu inimigo e é ele que está mandando patrulhas para atacar os meus soldados. No momento, tudo ainda está como está entre nós, inclusive sua posição muito tênue.
O Komizar esticou uma das mãos na direção de um guarda, e este jogou uma espada para ele. Ele voltou a olhar para Rafe, testando de forma casual a espada em sua mão.
— Mas talvez você só esteja desejando um pouco de esporte? Faz um bom tempo que não temos qualquer entretenimento dentro destas muralhas. — Ele deu um passo na direção de Rafe. — Eu me pergunto que tipo de qualidade um emissário da corte pode ter em esgrima.
Risadinhas abafadas rolaram pela sala.
Ah, pelos deuses, não! Coloque-a no chão, Rafe. Coloque-a no chão.
— Não muita — foi a resposta de Rafe, mas ele não pôs a espada no chão. Em vez disso, testou a arma em sua mão com tanta ameaça quanto o Komizar.
— Nesse caso passarei você para o meu Assassino. Ele parece também estar ansioso por algum esporte, e não é tão bom quanto eu com esta arma específica.
Ele jogou a espada para Kaden, e com reflexos rápidos como um relâmpago, Kaden levantou-se e pegou-a. Ele era mais do que bom com a espada.
— O primeiro a tirar sangue — disse o Komizar.
Eu me vi fora do meu assento, indo na direção deles, mas então fiquei presa pelas mãos de ferro do governador Obraun.
— Sente-se, moça — disse ele, sibilando, e me empurrou de volta para o meu assento.
Kaden deu um passo na direção de Rafe, e todos os jovens empurradores dos carrinhos saíram correndo para as partes de fora do saguão. Rafe olhou de relance pra mim, e eu sabia que ele estava vendo a súplica nos meus olhos... Coloque-a no chão... mas ele envolveu com segurança as duas mãos em torno do punho da espada e foi para a frente mesmo assim, encontrando-se com Kaden no meio do recinto.
A animosidade há muito reprimida entre eles estava densa no ar. Minha boca ficou seca. Kaden ergueu sua espada com ambas as mãos, em uma pausa de um instante enquanto um avaliava o outro, e então a luta começou. O feroz clangor do aço no aço reverberava pelo saguão, golpe após golpe. Aquilo nada se parecia com uma luta que pretendia apenas extrair uma gota de sangue.
Os golpes de Rafe eram mais poderosos, mortais, mais como os de um aríete implacável. Kaden foi ao encontro das investidas dele mas, depois de uns poucos golpes, começou a perder o chão. Ele evadiu os ataques habilidosamente, girou e lançou a espada no ar, quase acertando um corte nas costelas de Rafe, mas este, com mestria, bloqueou a lâmina com uma velocidade incrível e jogou Kaden para trás. Eu podia ver a fúria voando de Rafe como se fossem centelhas fogosas. Ele lançou a espada no ar, e a ponta dela pegou na camiseta de Kaden, rasgando-a em um dos lados, mas sem extrair sangue. Kaden avançou novamente, com rapidez e fúria, e os golpes clangorosos deles faziam meus dentes vibrarem.
Os espectadores não estavam mais quietos. O embotado rugir de seus comentários acompanhava cada ressonante ataque, mas o governador, de repente, gritou, acima de todos eles:
— Cuidado com seus passos, Emissário porco! — e então ele riu.
— Cale-se! — gritei com medo de que isso fosse distrair Rafe, e ele realmente pareceu hesitar, seus golpes não vindo tão rápidos nem com tanta força, até que, por fim, Kaden prendeu-o junto a uma parede, e, errando o alvo sob uma série de golpes, Rafe perdeu sua espada, que caiu ruidosamente no chão. Kaden pressionou a ponta de sua espada logo abaixo do queixo de Rafe. Os peitos de ambos subiam e desciam com o esforço físico, e seus olhares estavam travados um no outro. Eu estava com medo de dizer alguma coisa, por temer que só a minha voz fizesse com que Kaden mergulhasse a espada na garganta de Rafe.
— O primeiro a tirar sangue. Fazendeiro — disse Kaden, e ele golpeou-o com a espada para baixo, fazendo um corte no ombro de Rafe. Uma brilhante mancha vermelha espalhou-se pela camisa de Rafe, e Kaden saiu andando.
Seguiram-se gritos de vitória entre os camaradas de Kaden, e o Komizar congratulou a ambos pela luta interessante.
— Forte começo, Emissário. Fraco final. Mas não se sinta tão mal assim. Isso era de esperar de um almofadinha da corte. A maior parte das suas preocupações e batalhas são momentâneas e não requerem a força vendana.
Caí de volta na minha cadeira. Meu rosto estava úmido e meus ombros doíam. Eu vi o governador e seu guarda analisando-me, sem dúvida pensando que eu estivera torcendo por meu camarada porco. Olhei com ódio para ambos. O Komizar mandou que Calantha fosse cuidar do corte no ombro de Rafe, não desejando que seu emissário morresse de uma infecção assim tão cedo, e ergue uma caneca para Kaden. Eu vi um olhar de relance, presunçoso e astuto, passar-se entre eles. Qualquer que fosse a briga que tivesse acontecido, recentemente entre os dois, agora estava esquecida. Eu serviria a ambos.
No inferno que eu faria isso.
Uma espada de treinamento poderia esmagar o crânio dele com a mesma facilidade que uma de aço o faria. Dessa vez eu não miraria na canela. Levantei-me e fui embora, com minhas escoltas designadas seguindo meus calcanhares.

7 comentários:

  1. Nunca nem vi uns prisioneiros tão afrontosos como esses.

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  2. Gente esse governador é o tutor dele ne? E o que ele falou sobre os passos foi uma instrução para que ele não colocasse a perder o plano

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    1. SERASSE
      OMG
      SOCOR
      Calma
      O tutor dele n é magro e tal e eles dizem q esse governador é gordo e n sei q mais?

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    2. Também acho.faz parte da equipe dele.

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  3. Mas uma vez não gosto desse Rafe

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  4. "No inferno que eu faria isso"
    Kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!