2 de fevereiro de 2018

Capítulo 47

Acordei com uma face sorridente me encarando e uma faca na minha garganta.
— Se você tem o dom, por que não me viu chegando em seus sonhos?
Era o menino, Eben, que tinha a voz de menina e os olhos de um vira-lata curioso. Uma criança. No entanto, sua intenção era a de um ladrão veterano. Ele pretendia roubar minha vida. Se o dom era tudo que estava me mantendo viva, Eben parecia não ter entendido a mensagem.
— Eu vi você chegando... — respondi.
— Então por que você não acordou para se defender?
— Porque eu também vi...
De repente, ele foi catapultado no ar, caindo a vários metros dali.
Sentei-me direito, encarando Griz, a quem eu tinha visto olhando feio por cima do ombro de Eben. Embora não gostasse de mim, Griz também parecia não tolerar decisões independentes e precipitadas. Kaden já estava em cima de Eben, puxando-o do chão pelo colarinho.
— Eu não ia machucá-la — reclamou o menino, esfregando o queixo ferido. — Só estava brincando com ela.
— Brinque assim de novo e será deixado para trás sem um cavalo — disse Kaden aos gritos, e empurrou o menino de volta ao chão. — Lembre-se de que ela é o prêmio do Komizar, não seu. — Ele se aproximou e soltou meu calcanhar de uma sela, uma precaução que tinha tomado para garantir que eu não tentaria sair correndo durante a noite.
— Então agora eu sou um prêmio? — perguntei.
— Prêmio de guerra — disse ele, sem rodeios.
— Eu não sabia que estávamos em guerra.
— Sempre estivemos.
Levantei-me, esfregando o pescoço, abusado com frequência nos últimos tempos.
— Como eu ia dizendo, Eben. O motivo pelo qual não vi necessidade de acordar foi porque eu também enxerguei seus ossos secos sendo picados por abutres enquanto eu fugia no meu cavalo. Acho que as coisas ainda podem acabar assim, não?
Ele arregalou os olhos por um breve instante, contemplando a veracidade da minha visão, e depois fez uma cara feia para mim, um semblante que demonstrava raiva demais para alguém tão jovem.
O dia passou como o anterior: quente, seco, cansativo e monótono. Além da região montanhosa, havia um outro vale quente, e depois, mais um. Era a estrada para o inferno, que não me concedia nenhuma chance de fugir. Até mesmo as colinas eram inférteis. Não havia nenhum lugar onde eu poderia me esconder. Não era muito de se admirar que não passássemos por ninguém.
Quem mais estaria ali naquele lugar desolado?
No terceiro dia, eu fedia tanto quanto Griz, mas ninguém notava isso. Todos os outros também fediam. Seus rostos tinham camadas de sujeira, então presumi que o meu estivesse da mesma forma, todos nos tornando animais imundos. Senti o gosto de poeira na minha boca, senti-a em meus ouvidos, poeira por toda parte, pedacinhos secos de inferno soprando na brisa, minhas mãos criando bolhas nas rédeas.
Enquanto cavalgávamos, eu ouvia com atenção a tagarelice ininteligível e cheia de rosnados deles, tentando entender as palavras que diziam. Algumas eram fáceis de decifrar. Cavalo. Água. Cale a boca. A menina. Matar. Mas não deixei que percebessem que estava ouvindo e prestando atenção no que diziam. Durante as noites, o mais discretamente possível, eu procurava o livro de frases vendanas dentro da minha bolsa em busca de mais palavras, mas ele era básico e breve. Coma. Sente-se. Pare. Não se mexa.
Com frequência, Finch ocupava seu tempo assoviando ou entoando canções. Uma delas chamou minha atenção. Reconheci a melodia. Era uma canção boba da minha infância, que acabou se tornando mais uma chave para seu falatório incompreensível em vendano à medida que eu comparava as palavras com as que eu conhecia em morrighês.

Um tolo e seu ouro,
Moeda em pilhas tão altas,
Guardando e acumulando,
Que chegavam até o céu,

Mas nenhum tostão
Jamais foi gasto pelo tolo,
Enquanto sua pilha crescia,
Ele apenas emagrecia.

Nem uma ninharia para a bebida,
Nem um pouquinho para o pão,
E num dia ensolarado,
O tolo se viu em um caixão.

Se apenas esses tolos apreciassem algumas moedas, eu estaria longe desse calor miserável. Quem era esse Komizar que instilava lealdade em face a riquezas? E exatamente o que ele fazia com traidores? Poderia ser pior do que passar por esse purgatório causticante? Limpei minha testa, mas senti apenas a poeira grudenta sobre ela.
Quando até mesmo Finch ficou em silêncio, passei o tempo pensando em minha mãe e em sua longa jornada vinda do Reino Menor de Gastineux. Eu nunca estive lá. O Reino ficava bem ao norte, onde o inverno durava três estações, lobos brancos reinavam nas florestas e o verão era de um breve e ofuscante verdejar, tão doce que seu aroma permanecia por todo o inverno. Pelo menos foi isso que minha tia Bernette disse. As descrições da minha mãe eram bem mais sucintas, mas eu via as expressões dela quando minha tia Bernette descrevia a terra natal de ambas, os vincos formando-se em seus olhos com alegria e também tristeza.
Neve. Eu me perguntava como ela seria. Minha tia Bernette disse que a neve poderia ser tanto macia quanto dura, tanto fria quanto quente. Ardia e queimava quando o vento a lançava pelo ar, e era uma gentil pena fria quando vinha descendo em círculos preguiçosos do céu. Eu não conseguia imaginar a neve como sendo tantas coisas opostas e me perguntei se ela havia tomado liberdades com sua história, como meu pai sempre dissera que ela fazia. Não conseguia pensar em outra coisa.
Neve.
Talvez fosse a alegria e a tristeza que eu via nos olhos da minha mãe, querendo senti-la só mais uma vez. Tocá-la. Saboreá-la. Eu queria também sentir o gosto de Terravin só mais uma vez. Minha mãe deixara sua terra natal, viajando milhares de quilômetros, quando não era muito mais velha do que eu. Mas, com certeza, sua jornada não foi nem um pouco parecida com a que eu estava passando naquele momento. Olhei ao redor, para a paisagem cáustica e sem cores. Não, nada era parecido com a minha jornada.
Tirei a tampa do meu cantil e tomei um gole d’água.
Não sabia ao certo como voltaria a algum local que fosse civilizado, mas sabia que preferiria morrer perdida nesse lugar desolado a ser exibida em meio aos animais de Venda — e eles eram animais! À noite, quando acampávamos, os homens, com a exceção de Kaden, nem mesmo podiam se dar ao trabalho de andar até atrás de uma rocha para fazer xixi. Davam risada quando eu desviava o olhar. Na noite passada, eles assaram uma cobra que Malich matara com sua machadinha e depois davam estalos com a boca, ruidosamente, e arrotavam após cada bocada, como se fossem porcos na gamela. Kaden arrancou um pedaço da cobra e o ofereceu para mim, mas recusei a oferta. Não foram somente o sangue escorrendo dos dedos deles nem a cobra meio-cozida que mataram meu apetite — foram os ruídos vulgares e brutos deles.
Mas ficou aparente, com muita rapidez, que Kaden era diferente. Ele fazia parte daquele povo, mas não era um deles. Ainda havia verdades que ele estava escondendo.
Com a tagarelice dos homens silenciada, tudo que eu tinha ouvido agora por quilômetros era o repetitivo e enlouquecedor som da batida dos cascos na areia e ocasionais ruídos corporais vindos de Finch, que agora cavalgava ao meu outro lado, no lugar de Eben.
— Vocês estão me levando por todo o caminho até Venda? — perguntei a Kaden.
— Levá-la até metade do caminho não serviria para nada.
— Mas fica do outro lado do continente!
— Ah, então vocês, da realeza, sabem de geografia, no fim das contas.
Não valia a pena gastar a energia de girar meu cantil e acertar a cabeça dele de novo.
— Eu sei de muitas coisas, Kaden, inclusive do fato de que comboios mercantes passam por Cam Lanteux.
— As caravanas dos Previzi? Sua chance com eles seria nula. Ninguém chega a cem passos de sua carga e sai vivo.
— Temos as patrulhas do Reino.
— Não pelo caminho que estamos seguindo. — Ele era rápido em esmagar todas as minhas esperanças.
— Quanto tempo leva para chegarmos até Venda?
— Cinquenta dias, com mais ou menos um mês de diferença, mas, com você conosco, levará duas vezes esse tempo.
Meu cantil voou, atingindo-o como se fosse feito de chumbo. Kaden segurou sua cabeça, e eu me preparei para acertá-lo de novo. Ele veio para cima de mim, me derrubando do cavalo. Nós dois caímos no chão com um som oco, e acertei-o mais uma vez, dessa vez com meu punho cerrado no maxilar dele. Rolei e fiquei de joelhos, mas ele me pegou por trás, prendendo-me com o rosto voltado para baixo junto à areia. Ouvi os outros rindo e assoviando, sinceramente entretidos pela briga.
— Qual é o seu problema? — sibilou Kaden ao pé do meu ouvido, com o peso inteiro do corpo dele fazendo pressão sobre mim.
Cerrei os olhos, e então os apertei, tentando engolir em seco, tentando respirar. Qual era o meu problema? Essa pergunta realmente exigia uma resposta?
A areia queimou a minha bochecha. Fingi que era o frescor da neve. Senti sua umidade em meus cílios, seu toque leve como uma pluma passando por meu nariz. Qual era o meu problema? Nenhum.

 * * *

O vento se acalmara por fim. Fiquei ouvindo o fogo cuspir e estalar.
Paramos cedo nesta noite, à base de mais uma cadeia de colinas. Subi em um penhasco íngreme e observei o sol se pôr, com o céu ainda incandescente, sem uma gota que fosse de umidade emprestando-lhe cor ou profundidade. Eu e Kaden não trocamos mais nenhuma palavra. O restante da cavalgada fora brevemente pontuado por mais risadas dos outros enquanto jogavam meu cantil entre si, fingindo estarem aterrorizados, até que Kaden gritou para que parassem. Mantive o olhar fixo à minha frente durante o restante da cavalgada, sem, em momento algum, olhar para a esquerda ou para a direita.
Não pensava nem em neve, nem em casa. Apenas me odiava por deixar que eles vissem minhas bochechas molhadas. Meu próprio pai nunca tinha me visto chorar.
— Comida — disse Kaden, para mim. Mais uma cobra.
Ignorei-o. Eles sabiam onde eu estava. Sabiam que não sairia correndo. Não aqui. E eu não queria comer aquela cobra cuja barriga escorregadia provavelmente também estava cheia de areia.
Em vez de comer, olhei para o alto, enquanto o céu se transformava, o branco derretendo e cedendo lugar ao preto, as estrelas densas e abundantes, tão próximas que achei que poderia tocá-las. Talvez eu fosse capaz de entender. O que havia dado errado?
Tudo que eu queria era desfazer o que tinha feito, ir de encontro ao meu dever, certificar-me de que nada acontecera a Walther, de que mais inocentes como Greta e o bebê não morressem. Eu tinha desistido de tudo que amava para fazer com que isso acontecesse: Terravin, Berdi, Pauline, Rafe. Mas agora, aqui estava eu, no meio do nada, incapaz de ajudar alguém, nem sequer a mim mesma. Estava esmagada no chão do deserto, com o rosto grudado na areia.
Riram de mim. Me ridicularizaram. Fui traída por alguém em quem confiava. Mais do que confiara... eu me importava com ele.
Limpei as bochechas, forçando mais lágrimas a ficarem contidas.
Ergui o olhar para as estrelas, brilhantes, vivas, que me observavam. Eu sairia dessa situação de alguma forma. Eu tinha que sair. Mas prometi a mim mesma que não perderia mais tempo lutando contra insultos. Precisava guardar minha energia para propósitos mais importantes. Teria que aprender a jogar o jogo deles, só que melhor. Poderia levar algum tempo, mas eu tinha cinquenta dias para aprender, porque sabia que, se cruzasse as fronteiras e entrasse em Venda, nunca mais veria minha casa.
— Trouxe um pouco de comida para você.
Virei-me e vi que Kaden estava com um pedaço de carne de cobra espetado na faca.
Olhei para cima, para as estrelas.
— Não estou com fome.
— Você precisa comer alguma coisa. Não comeu nada o dia todo.
— Já esqueceu? Comi um bocado de areia ao meio-dia. Foi bastante coisa.
Ouvi quando Kaden exalou o ar, cansado. Ele veio até mim e sentou-se ao meu lado, colocando a carne e a faca em cima da rocha. Ele também ergueu o olhar para as estrelas.
— Não sou bom nisso, Lia. Levo duas vidas separadas, e geralmente uma nunca se encontra com a outra.
— Não se engane, Kaden. Você não está vivendo nem mesmo uma vida. É um assassino. Você se alimenta do infortúnio de outras pessoas e rouba vidas que não lhe pertencem.
Ele se inclinou para a frente, baixando o olhar para seus pés. Até mesmo com a pouca iluminação das estrelas, dava para ver seu maxilar cerrado, seus dentes se contorcendo.
— Sou um soldado, Lia. Só isso.
— Então quem era você em Terravin? Quem era você quando descarregou as mercadorias da carroça para Berdi? Quando cuidei de seu ombro? Quando me puxou para perto de si e dançou comigo? Quando beijei sua bochecha na campina? Quem era você então?
Ele se virou para me encarar, os lábios semiabertos, os olhos escuros apertados.
— Eu era apenas um soldado. É isso que sempre fui. — Quando não conseguia mais suportar meu olhar, Kaden se pôs de pé. — Por favor, coma — disse baixinho. — Você vai precisar ficar forte. — Ele esticou a mão e puxou a faca da carne, deixando a fatia grossa sobre a rocha, e saiu andando.
Baixei o olhar para a comida. Eu odiava o fato de ele estar certo. Eu realmente precisava das minhas forças. Comeria a cobra, mesmo que engasgasse com ela a cada pedacinho arenoso que ingerisse.

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