16 de fevereiro de 2018

Capítulo 46

Eu estava aqui fazia tão pouco tempo, mas já parecia uma vida inteira. Todas as horas eram recheadas pelo medo, e eu tinha que me conter e não fazer o que eu mais queria. A tarefa parecia legitimamente minha, tanto quanto o amor parecia ter sido meu para encontrar todos aqueles meses atrás quando fugi de Civica. Meu destino agora parecia tão claro quanto palavras em um papel. Até que venha uma que seja mais poderosa. Umas poucas palavras com tanta promessa. Ou talvez fossem apenas umas poucas palavras de loucura.
Eu peguei outra fita da cesta e prendi-a a uma barra cruzada na lanterna acima de mim. Eu a havia abaixado com a corda, de modo que estivesse ao meu alcance, na esperança de ocupar a minha cabeça com alguma outra coisa por uns poucos e abençoados minutos. Alguma coisa que me levasse para um mundo fora do Sanctum. Mas meus pensamentos continuavam voltando para um mesmo assunto.
É mais difícil matar um homem do que um cavalo.
Seria mesmo? Eu não sabia.
Mas havia centenas de maneiras de fazê-lo, e todas elas ardiam como chamas dentro de mim. Um pote pesado no crânio. Uma faca de uns sete centímetros mergulhada na traqueia. Um empurrão de uma alta muralha. Todas as vezes em que eu passava por uma oportunidade, o fogo ardia mais quente, mas o desejo queimava lado a lado com uma necessidade abrasadora diferente, de salvar alguém que eu amava quando eu havia decepcionado outra pessoa de forma tão miserável.
Se eu matasse o Komizar, haveria um banho de sangue. Eu nada tinha a oferecer aos governadores, Rahtans ou chievdars; nenhuma aliança, nem mesmo um tonel de vinho para fazer com que valesse a pena me manter viva. Meu único aliado certo no Conselho era Kaden, e ele sozinho não seria capaz de apagar o alvo que eu teria herdado nas minhas costas. Por ora, eu não queria simplesmente permanecer viva por Rafe, eu precisava permanecer viva por ele, mas, pelo menos, isso não diminuiria seu tempo de vida. Eu sempre teria isso para controlar o Komizar... O fervor teria fim se ele machucasse Rafe... Um casamento fazia com que nós dois ganhássemos mais tempo. Isso era tudo. Não havia qualquer garantia além disso.
Eu me lembrei da minha conversa com Berdi depois que Greta fora assassinada, não me importando com garantias e pensando que eu me casaria com o próprio diabo se isso oferecesse a menor das chances de salvar minha cunhada e o bebê. Agora parecia que era exatamente com o diabo que eu ia me casar. Apoiei-me no peitoril da janela, erguendo o olhar para os céus. Os deuses tinham um senso de humor perverso.
Atei a última fita e puxei a corda para erguer o candelabro novamente. Um arco-íris de cores tremeluziu acima, e eu me perguntei o que Kaden pensaria disso quando o visse. A culpa me apunhalava por mentir para ele. Ele já havia sofrido tanto, tão completa e plenamente, por causa de nobres como eu. Lealdade significava tudo para ele. Eu entendia isso agora. O que mais poderia ser esperado de um menino que foi jogado fora pelo próprio pai como se fosse um pedaço de lixo? Soltei um suspiro e chacoalhei a cabeça. Um lorde morrighês. Agora, tal como o pai dele, eu havia traído Kaden também. Em muitos níveis. Eu sabia como ele se sentia em relação a mim e, estranhamente, eu gostava dele, até mesmo quando ficava com raiva por causa de sua lealdade para com o Komizar. Havia uma conexão entre nós dois que eu não entendia muito bem. Não era o mesmo sentimento que eu tinha por Rafe, mas eu sabia que, com nosso último beijo, eu havia levado Kaden a acreditar que houvesse mais.
Eu me lembrei de que não havia regras quando se tratava de sobrevivência. Mas gostaria que houvesse. As traições nunca pareciam ter fim. Logo o Komizar me pediria para trair aqueles que tinham me dado boas-vindas, para revirar os olhos e enchê-los com a esperança que ele havia conjurado, e eu tinha certeza de que isso serviria mais a ele do que ao povo.
Você conterá sua língua e falará as palavras que eu a mandar falar.
Eu me senti na cama e fechei os olhos, bloqueei os relinchares e o estampido dos cavalos bem ao longe, embaixo da minha janela, os tinidos de portões sendo fechados, os gritos da cozinheira correndo atrás de outro frango solto que gostaria de permanecer com sua cabeça. Em vez disso, eu estava em uma campina com fitas soprando de árvores, com as montanhas acima de mim tingidas de púrpura, o óleo de rosas sendo esfregado nas minhas costas, respirando o doce aroma de mais de mil quilômetros ao longe daqui.
Esse mundo, ele nos inspira... nos partilha.
Por favor, partilhe-me com Rafe. Eu faço isso por você... Somente por você.
Seguiu-se um súbito e pungente bater à minha porta. Kaden havia ido embora com tamanha repulsa estampada em seu rosto que eu sabia que ele não estaria de volta em breve, talvez nunca. Seria Ulrix com outra ordem do Komizar? O que seria esta noite? Use o verde! O marrom! O que quer que eu mandar!
Um feio lampejo da corte morrighesa passou por mim como um tiro. Um cenário diferente, mas anos das mesmas ordens. Vista isso. Fique calada. Assine aqui. Vá para sua câmara. Contenha a língua. Pelo amor dos deuses, princesa Arabella, não pedimos sua opinião. Nós não queremos ouvir sua voz em relação a este assunto novamente. Apanhei o frasco de cima do baú e joguei-o pelo quarto. Uma chuva de pedaços de cerâmica voou ao chão, e eu tremia com a verdade: nenhum reino era muito diferente do outro.
Mais uma batida, dessa vez, baixinha e incerta.
Sequei meus olhos e fui até a porta.
Aster estava com os olhos arregalados.
— Está tudo bem com você aqui, senhorita? Porque eu posso tirar esse apanhador e voltar em outra hora, mas Calantha me falou para trazê-lo com seu carrinho aqui, e está bem carregado, mas isso não quer dizer que você tenha que deixá-lo entrar no seu quarto agora mesmo, porque parece que está bem quente aqui, com suas bochechas todas vermelhas e...
— Aster, de quem você está falando?
Ela foi para o lado e um homem jovem entrou timidamente em cena. Ele tirou seu chapéu da cabeça e segurou-o apertado junto à sua barriga.
— Estou aqui para deixar combustível para a lareira.
Olhei para trás, por cima do ombro, para o recipiente que estava perto da fogueira.
— Eu ainda tenho madeira e fezes. Não preciso...
— O tempo está ficando mais frio, e eu tenho as minhas ordens — disse ele. — O Komizar disse que você precisa de mais.
O Komizar preocupado com o fato de eu estar quente ou não? Improvável. Olhei para ele, um coletor de fezes desgrenhado... Mas alguma coisa em relação a ele não me parecia muito certa. O marrom-claro de seus olhos era um pouco pungente demais. Uma energia selvagem fervia neles, e, embora suas roupas estivessem imundas e seu rosto, não barbeado, seus dentes eram regulares e brancos.
— Calantha me disse para voltar logo, senhorita — disse Aster. — Posso deixar este apanhador aqui com você?
— Sim, tudo bem, Aster. Pode ir. — Ele saiu correndo, e eu dei um passo para o lado, acenando para o jovem homem em direção ao recipiente que estava perto da lareira.
Ele foi rolando seu carrinho para dentro do quarto, mas parou no meio e virou-se para ficar cara a cara comigo. Ele olhou para mim com curiosidade e então fez uma profunda reverência.
— Vossa Alteza.
Franzi o rosto.
— Está zombando de mim?
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Pode ser que você queira fechar a porta.
Fiquei boquiaberta. Ele disse essas últimas palavras em morrighês e havia trocado de idioma sem pestanejar. A maioria dos vendanos fora do Sanctum não falava o idioma, e aqueles dentro do Sanctum — o Conselho e alguns dos criados e guardas — falavam-no com um pesado sotaque quebrado, isso quando falavam.
— Você fala morriguês — eu disse.
— Nós chamamos nosso idioma de dalbretchiano de onde eu venho, mas, sim, os idiomas dos nossos reinos são quase idênticos. A porta?
Suguei o ar, chocada, batendo com rapidez a porta, e girei de volta para ele. Lágrimas assomaram-se aos meus olhos. Os amigos de Rafe não estavam mortos.
Ele se pôs com um joelho só no chão e tomou minha mão, beijando-a.
— Vossa Alteza — disse ele novamente, dessa vez com mais ênfase. — Estamos aqui para levá-la para casa.

* * *

Nós no sentamos na minha cama e conversamos por tanto tempo quanto nos atrevemos. O nome dele era Jeb. Ele me disse que a jornada até Venda tinha sido complicada, mas que eles estavam na cidade fazia uns dias agora. Eles estavam lidando com as preparações. Ele me fez perguntas em relação à Ala do Conselho e à disposição da estrutura do Sanctum. Eu falei para ele de todos os corredores e de todas as trilhas de que eu tinha conhecimento, especialmente daquelas menos usadas, além de túneis nas cavernas lá embaixo. Contei a ele quais eram os vendanos mais sedentos por sangue do Conselho e aqueles que poderiam ser úteis, como Aster, mas disse que não poderíamos fazer qualquer coisa que pudesse colocá-la em perigo. Também mencionei Griz e como ele havia coberto a situação para Rafe, mas que eu suspeitava que se tratava apenas de uma retribuição porque eu tinha salvado a vida dele.
— Você salvou a vida dele?
— Avisei-o sobre um estouro de bisões.
Eu vi a pergunta nos olhos dele.
— Eu não consigo controlar nem invocar o dom, Jeb. É um dom, uma coisa passada adiante pelos antigos sobreviventes, só isso. Às vezes, nem eu confio em mim mesma... mas estou aprendendo a fazer isso.
Ele assentiu.
— Vou bisbilhotar por aí e ver se consigo descobrir alguma coisa sobre esse camarada, esse tal de Griz.
— Os outros — perguntei — onde estão?
Ele ficou hesitante.
— Escondidos na cidade. Você não os verá até que tenha chegado a hora. Eu e o Rafe a avisaremos quanto a isso.
— E são quatro de vocês? — Tentei o meu melhor para soar otimista, mas o número dito em voz alta tinha um peso próprio e falava por si.
— Sim — disse ele simplesmente, e continuou a falar, como se as chances não fossem um golfo que eles teriam, de alguma forma, de cruzar. Ele não sabia ao certo quando eles estariam prontos para agir, mas tinha esperanças de que os detalhes fossem ser elaborados em breve. Eles ainda estavam investigando qual seria a melhor forma de realizar a tarefa, e havia uns poucos suprimentos que estavam tendo dificuldade em conseguir.
— A jehendra, no quadrante de Capswan, tem simplesmente todos os tipos de tendas que existem — falei.
— Eu sei, mas nós não temos dinheiro vendano, e a jehendra está sempre cheia demais para se roubar alguma coisa.
Inclinei-me para a frente e tateei em busca da bolsinha de couro que estava debaixo da minha cama. Ela tiniu quando a coloquei nas mãos de Jeb.
— Ganhos de um jogo de cartas — expliquei. — Isso deve dar para vocês comprarem qualquer coisa que desejarem. Se precisarem de mais, posso conseguir.
Nada poderia ter me dado mais satisfação do que saber que Malich poderia desempenhar um papel em nossa fuga.
Jeb sentiu o peso da bolsinha e me garantiu que o dinheiro seria mais que o suficiente. Ele disse que se lembraria de nunca jogar cartas comigo. A partir de então, ele falou em um tom gentil e positivo, do modo como um soldado bem treinado haveria de fazer, dizendo que eles agiriam tão rapidamente quanto lhes fosse possível. Um soldado chamado Tavish coordenava todos os detalhes, e ele daria o sinal quando tudo estivesse pronto. Jeb minimizava a importância dos perigos, mas as palavras que ele evitava formavam ondas sob a superfície... Os riscos e a possibilidade de que nem todos nós pudéssemos conseguir sair dali.
Ele era jovem, tinha apenas a idade de Rafe, era um soldado, não diferente dos meus irmãos. Debaixo das roupas em trapos e sujas, eu vi um doçura. Na verdade, ele me lembrava Bryn, com um sorriso sempre lhe repuxando o canto da boca. Talvez uma irmã esperasse em casa pela volta dele.
Pisquei para limpar as lágrimas.
— Eu sinto muito — falei. — Sinto muitíssimo mesmo.
Ele franziu o rosto, um tanto alarmado.
— Você nada tem a lamentar, Vossa Alteza.
— Você não estaria aqui se não fosse por mim.
Ele colocou as duas mãos com gentileza nos meus ombros.
— Você foi sequestrada por uma nação hostil, e meu príncipe me chamou para o dever. Ele não é um homem dado a loucuras. Eu faria qualquer coisa que ele me pedisse, e vejo que o julgamento dele é verdadeiro. Você é tudo que ele disse que era. — A expressão dele tornou-se solene. — Eu nunca o tinha visto tão motivado como quando cruzamos correndo o Cam Lanteux. Você precisa saber, Princesa, que ele não pretendia enganá-la. Isso o dilacerava.
Foram essas palavras que me arruinaram emocionalmente, ali, na frente de Jeb, de todas as pessoas, quase um completo estranho, e, por fim, desabei. Caí no ombro dele, esquecendo que eu deveria sentir-me envergonhada, e solucei e chorei. Ele me abraçou, deu um tapinha nas minhas costas e sussurrou:
— Está tudo bem.
Por fim, eu me afastei dele e sequei minhas lágrimas. Olhei para ele, esperando ver seu próprio embaraço, mas, em vez disso, vi apenas preocupação em seus olhos.
— Você tem uma irmã, não tem? — perguntei a ele.
— Três — foi a resposta dele.
— Dá para saber. Talvez seja por isso que eu... — Balancei a cabeça. — Eu não quero que você fique pensando que faço muito disso.
— Chorar? Ou ser sequestrada?
Sorri.
— Os dois. — Estiquei a mão e apertei a dele. — Você tem que me prometer uma coisa. Quando chegar, cuide de Rafe acima de mim. Certifique-se de que ele consiga sair daqui, assim como seus camaradas soldados. Porque eu não seria capaz de aguentar se...
Ele levou um dedo aos lábios.
— Shhhhh. Nós cuidaremos uns dos outros. Todos nós vamos sair daqui. — Ele levantou-se. — Se você me vir de novo, finja que não me conhece. Coletores de fezes não são memoráveis.
Ele pegou seu carrinho, jogou algumas fezes na caixa da lareira e lançou para mim um lampejo de sorriso maroto por cima do ombro enquanto ia embora, falastrão e atrevido, dispensado os perigos com um dar de ombros. Tão parecido com Bryn! Esse era um coletor de fezes que eu nunca esqueceria.

12 comentários:

  1. Bem que o Komizar poderia mandar o Kaden numa missão lá na pqp, assim quando eles fugissem nada poderia acontecer com ele.

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    1. Garota(o), você pensa como eu.

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  2. AWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWN. AMEEEEEEI DEMAIS.

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  3. Eu sabia como ele se sentia em relação a mim e, estranhamente, eu gostava dele, até mesmo quando ficava com raiva por causa de sua lealdade para com o Komizar. Havia uma conexão entre nós dois que eu não entendia muito bem.

    Eles tem que ser irmãos

    Sobre o Jeb:Gostei dele❤️

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    1. Isso seria bizarro não?
      Até pq acho q a Lia se lembraria da mãe do Kaden dando aulas pra ela e seus irmãos
      Não acho q sejam irmãos

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    2. Eles podem ser meio-irmãos, pq se a rainha tivesse outro filho é bem mais difícil de esconder do que se o rei tivesse pulado a cerca

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  4. Se eles forem irmãos não tem graça.

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  5. Também pensei que sejam irmãos. Os dois tem o dom e Kaden disse que ouvia o nome de Lia antes de conhecer ela, provavelmente ouviu dos outros irmãos ou o dom do.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!