20 de fevereiro de 2018

Capítulo 45

Uma chuva caía levemente. Puxei o meu manto mais para junto de mim. O vento rodopiava, vinha em rajadas, com um sibilar na voz. As brumas faziam arder as minhas bochechas com mil sussurros de aviso. Este era o começo ou o fim. O universo cantou o seu nome para mim. Eu apenas o cantei em resposta.
Durante quantos séculos esse nome havia ficado em circulação? Quantos o ouviram e viraram as costas? Até mesmo agora, a escolha ainda era minha. Eu podia virar as costas. Esperar que outra pessoa ouvisse o chamado. De repente, fui atingida pela imensidão da tarefa que estava diante de mim. Eu era apenas a princesa Arabella de novo, inadequada, desprovida de voz e, talvez, acima de tudo, não bem-vinda.
Mas o tempo estava se esgotando.
Tinha que ser alguém.
Pressionei dois dedos junto aos meus lábios. Por Pauline. Berdi, Gwyneth, meus irmãos. Por Walther, Greta, Aster. Ergui a mão, dando voo às preces. E Kaden. Que ele esteja vivo. E Rafe. Que ele... Mas não havia pelo que pedir. Ele estava onde precisava estar.
Cavalos batiam as patas no chão atrás de mim, e suas bufadas ficavam abafadas no ar pesado. Olhei para trás, para o padre Maguire, que estava esperando pelo meu sinal ao lado de Natiya. Ele assentiu, com o suor escorrendo dos cabelos, os olhos fixos nos meus, como se ele sempre tivesse sabido que este momento chegaria. Há dezessete anos, segurei uma garotinha que gritava em minhas mãos. Ergui-a aos deuses, rezando pela proteção dela e prometendo-lhe a minha. Não sou um tolo. Faço promessas aos deuses, não aos homens. A promessa dele aos deuses era uma moeda que tinha mais valor do que ouro para mim agora.
Fitei minha antiga vida que se espalhava pelas colinas e pelos vales em uma colcha de retalhos de memórias: as ruínas disformes, a baía coberta de branco, o pináculo inclinado de Golgata, os pequenos vilarejos aninhados do lado de fora das muralhas da cidade, as ruas do vilarejo, as torres da cidadela, a abadia onde eu deveria me casar, o mesmo lugar em que um jovem sacerdote havia erguido uma bebezinha e prometido-lhe a sua proteção, enquanto outros haviam conspirado contra ela desde o início.
Esta era Civica.
O coração de Morrighan.
Eu estava entrando em uma cidade que me desprezara.
Guardas postados ao longo das estradas estariam procurando pela princesa Arabella. No entanto, uma viúva velada viajando com a jovem filha e acompanhada de um sacerdote? Nós não sofreríamos muito escrutínio.
— Você acha que Kaden está morto? — perguntou Natiya.
— Não — respondi pela terceira vez. Natiya estava traindo o que ela havia se esforçado tanto para negar, até para si mesma. Eu entendia a negação de sentimentos. Às vezes, isso se fazia necessário. — Ele vai estar lá — garanti.
Mas eu também me perguntava: onde ele estava?
Uma semana atrás, quando ele não aparecera no nosso ponto de encontro ao meio-dia, eu riscara as palavras reservatório do moinho na terra e partira. Eu não tinha outra escolha. Agora que eu sabia que Pauline estava em Civica, estava preocupada com o perigo que ela corria e com atrás de quem ela poderia ir em busca de ajuda, e que poderia subestimar a fúria do meu pai.
Eu também estava preocupada em relação às mensagens que eu havia enviado antes de saber que ela e as outras estariam aqui. Eu sabia que as mensagens acrescentariam um perigo incauto à cidade, ambas entregues por mensageiros de fora de Morrighan, o que as tornava não rastreáveis. A primeira mensagem provavelmente havia chegado alguns dias atrás.

Eu estou aqui.
Observando vocês.
Sei o que vocês fizeram.
Tenham medo.
— Jezelia

É claro que a mensagem seria lida pelo Chanceler primeiro, mas a notícia sobre eu enviar uma missiva seria espalhada como se fosse uma peste entre aqueles que com ele conspiravam. Minha primeira tarefa era simplesmente estar ali. Se eles achassem que eu já estava na cidade, não estariam observando tão atentamente as estradas que davam para ela. Uma vez que eu estivesse dentro de Civica, haveria muitos lugares onde eu poderia me esconder. Eu conhecia todas as ruelas e alcovas escuras. O benefício adicional pelo qual eu esperava era que os bilhetes fossem aumentar a ansiedade dos traidores. Agora eu não seria a única que estaria olhando para ver se estava sendo seguida: eles também olhariam para trás. E, no fim das contas, mensagens eram minha marca registrada. Eu queria que eles pensassem que eu estava tão confiante e destemida quanto eu estivera na ocasião em que deixei o bilhete meses atrás na gaveta oculta do Erudito Real. Walther tinha me contado como isso os havia levado a uma busca ensandecida na cidadela pelos livros que haviam sumido. Uma busca impulsiva. Até mesmo os criados chegaram a notar. Eu esperava que esses bilhetes fossem ajudar com o fato de que eles cometeriam erros idiotas outra vez. Assim como Walther notara, Bryn e Regan também poderiam perceber. Eu precisava que os mais altos conspiradores fossem expostos, ou que ao menos ficassem mais visíveis.
A segunda mensagem provavelmente chegaria a qualquer dia, aquela que dirigi ao Erudito Real.

Devolvi os seus livros.
Espero que você os encontre antes que outra pessoa o faça.
Tenha medo.
— Jezelia

Puxei o lenço de luto e o ajustei por cima da minha cabeça e da minha face. Eu já estava com enchimentos o bastante para inflar o manto de Berdi e disfarçar a minha forma.
— Está preparada? — perguntou-me Natiya.
Eu não tinha escolha senão estar preparada.
— Sim — respondi.
Nós atravessamos e descemos pela íngreme encosta da colina e estávamos prestes a sair de um bosque e entrar na estrada quando fui abalada pelo óbvio. Parei o meu cavalo, com a cabeça latejando, as sombras das árvores girando ao meu redor. Como foi que eu não tinha considerado isso antes?
— Ah, meus deuses! Pauline está em Civica!
Natiya parou perto de mim, alarmada.
— Não estou entendendo. Você já sabia disso.
No entanto, eu estava tão preocupada com a segurança dela que não havia juntado os pensamentos e os fatos. Mikael. Será que ele também estaria em Civica? E se ela o visse? O que ele faria com ela?
— Arabella? — falou o padre Maguire atrás de mim.
Tentei afastar a preocupação da minha mente. Talvez, se eu tivesse sorte, Mikael estaria mesmo morto.
— Não é nada — falei, e estalei as rédeas, saindo aos trotes na estrada que dava para Civica.
Logo antes do primeiro pequeno vilarejo solitário, havia uma barricada e um ponto de inspeção. Dois soldados estavam parando vagões e viajantes.
— Seu motivo para vir à cidade? — perguntou um soldado quando foi a nossa vez de passarmos.
— Negócios na abadia — respondeu o padre Maguire.
Um soldado deu uma olhada superficial nas nossas bolsas, e um outro fez um movimento na direção da minha face.
— Seu véu, madame?
Na mesma hora, o sacerdote entrou em um rompante de fúria.
— As coisas chegaram a este ponto? — ele berrou, revirando os olhos em direção aos céus. — Eu posso responder por esta viúva e por sua filha, assim como os deuses! Vocês não têm nenhum respeito pelo luto?
O jovem soldado ficou suficientemente envergonhado a ponto de apenas acenar para que passássemos. Além daquele, não havia mais outro ponto de inspeção. Exatamente como eu havia pensado, eles suspeitavam de que eu já estivesse dentro dos portões da cidade. Meu primeiro bilhete havia cumprido o seu papel no engodo. Quando passamos pelo último dos vilarejos isolados e entramos em cavalgada em Civica, respirei aliviada. Eu estava dentro da cidade. A primeira tarefa fora concretizada. Nós descemos das nossas montarias, e usei uma bengala como um disfarce adicional enquanto caminhava pela rua apinhada de gente. Meu alívio foi momentâneo.
Poucos minutos depois, conversas revelaram que o rei estava gravemente doente. Meus passos ficaram hesitantes com essa revelação. Interrompi as suas mulheres que ouvi falando isso enquanto elas analisavam uma rechonchuda abóbora na cesta de um mercado e tentei obter mais informações.
— Mas ouvi dizer que o rei só tinha uma doença pequena e passageira...
Uma das mulheres grunhiu e revirou os olhos para a amiga, notando com desaprovação que eu estava escutando a conversa delas.
— Então ouviu errado. Minha prima Sophie trabalha na cidadela e ela me disse que estão mantendo uma vigília.
A outra mulher balançou a cabeça.
— E eles não mantêm vigílias para tosses passageiras.
Assenti e segui em frente. Natiya e o padre Maguire me encararam com olhos questionadores, mas eu mantive o foco. O plano não havia mudado. Não muito, ao menos. Dei o meu cavalo a Natiya para que ela o colocasse em um estábulo e falei para a menina seguir em frente e ir até a abadia junto com o sacerdote, para completar a tarefa que eu pedira: encontrar Pauline. Ela deveria ir a todas as estalagens e dizer que tinha informações para a moça que perguntara sobre uma parteira. Eles ou a mandariam seguir o seu caminho, caso não tivessem qualquer hóspede com tais necessidades, ou a levariam até Pauline. Uma vez que Natiya a tivesse encontrado, ela deveria mandar que Pauline e as outras fossem até o reservatório do moinho. Pauline saberia a que lugar eu estava me referindo. Havia somente um que estava abandonado. O padre Maguire assentiu sobre a cabeça de Natiya. Ele havia feito mais uma promessa para mim: a promessa de protegê-la caso os eventos saíssem absurdamente do meu controle.
Parti em direção à cidadela, com a face coberta e as passadas tão rápidas quanto eu me atrevia a dá-las. Eu tinha duas adagas escondidas debaixo do meu manto. Tentei esconder uma espada ali, mas ela era volumosa demais, e eu não poderia me arriscar ao azar de ser detectada.
Meu pai estava saudável quando parti. Sim, ele tinha uns quilos a mais, mas estava robusto. Eu não deixei de pensar na possibilidade de que isso fosse uma armadilha. Provavelmente era. Para fazer com que a princesa se revelasse. Apelando para o seu lado sentimental. Se fosse este o caso, eles haviam dado uma cartada errada. Eu não podia mais me dar ao luxo de ter um lado sentimental.
Quando virei a esquina e vi a cidadela, senti um aperto na garganta. Fitei os degraus, onde eu ficara inúmeras vezes com a minha família, esperando com impaciência por uma procissão, por uma cerimonia ou por algum anúncio importante, sempre enfiada em meio à segurança dos meus irmãos. Meu pai repousava a mão no meu ombro, e a mão da minha mãe no ombro de Bryn, geralmente para nos manter parados. Eu lutava contra a premência de subir correndo os degraus, de chamar por Bryn e Regan, de sair correndo pelo corredor e cumprimentar as minhas tias, encontrar a minha mãe e entrar correndo na cozinha em busca de alguma coisa recém-preparada no forno.
Agora, guardas da cidadela estavam postados no perímetro. Embora eles fossem treinados no acampamento dos soldados, o uniforme deles fazia um contraste gritante em comparação com o dos soldados. Guardas usavam botas longas, pretas e altamente polidas, além de capacetes de metal socado. Mais deles estavam na parte de trás, nas sombras do pórtico, com as alabardas cruzadas na entrada da frente, que eu fora instruída a usar no dia do meu casamento. Meu estômago se revirava enquanto eu me lembrava dos meus frenéticos últimos minutos saindo pela porta dos criados em vez de sair pela frente, do momento em que o sol lampejou nos meus olhos e o dia se dividiu em dois, criando o antes e o depois da minha vida.
Fiquei cautelosa na minha aproximação, diminuindo as passadas e encurvando os ombros, como uma viúva de luto. Eu tinha comprado um ramalhete de flores no caminho.
Fui andando e subi no centro dos degraus, e um guarda veio na minha direção. Abaixei a minha voz, acrescentando um sotaque nortista a ela.
— Para o rei — falei, estilhando o ramalhete de flores a ele — junto com as minhas preces para a sua recuperação.
Ele pegou de mim o pequeno buquê de prímulas.
— Cuidarei para que ele as receba.
— E o príncipe Regan? — falei ainda. — Minhas preces para o príncipe também. Ele está se preparando para assumir o trono?
O guarda lançou um olhar com o rosto franzido, irritado, para mim, mas rapidamente se corrigiu. Eu era uma viúva, afinal de contas, e talvez a viúva de um soldado.
— O príncipe Regan está fora, cuidando dos seus deveres, assim como o príncipe Bryn. O rei não está tão doente assim que alguém tenha que se preocupar com sucessão agora.
Um estratagema, exatamente como eu tinha pensado que fosse. Não havia qualquer vigília. Mas os meus irmãos não estavam em Civica?
— Os dois príncipes estão viajando? — perguntei.
— Cuidando de negócios do reino, como falei. — A paciência dele estava esgotada. — Senhora, eu preciso retornar ao meu posto.
— Abençoado seja, filho.
No caminho de volta à abadia, usei um pouco mais do método de escavar informações para descobrir onde tinham ido Bryn e Regan. Mais guardas da cidadela, facilmente avistáveis por suas longas capas vermelhas, estavam posicionados nos cantos das ruas ficaram felizes em aceitar presentes de pães doces confeitados de uma viúva corcunda. Ambos os príncipes, junto com os seus esquadrões, haviam ido até a Cidade dos Sacramentos. Essa cidade não ficava longe, eram apenas uns poucos dias de cavalgada, mas o meu ânimo desabou. Eu precisava deles, não apenas como os meus irmãos que me apoiariam, mas como soldados em quem eu poderia confiar. Enquanto me afastava dali, pensei em como isso era estranho. Membros do gabinete, e não soldados, geralmente eram enviados em negócios do reino.
Quando me aproximei de um grupo de soldados, reconheci um deles. Eu havia jogado cartas com ele em uma das minhas escapadas tarde da noite, nós havíamos feito piadas e demos risada juntos. Minha confiança aumentou, e, audaz, eu o provoquei para saber mais detalhes do propósito da ida de Bryn e Regan até a Cidade dos Sacramentos. Fiquei sabendo que eles iriam dedicar uma pedra memorial para o príncipe coroado e seus companheiros mortos. O soldado disse que a presença deles era necessária para amenizar dúvidas sobre a lealdade da família, semeada pela traição da princesa Arabella.
Um dos outros soldados disse:
— Ela matou o próprio irmão, sabia? Ela mesma enfiou a espada no peito do príncipe Walther.
Fiquei com o olhar fixo nele, incapaz de permanecer curvada em cima da minha bengala.
— Não, eu não sabia disso.
O supremo desprezo dele reverberava nos meus ouvidos. O próprio irmão. Os companheiros dele ecoaram aquele ódio. A princesa Arabella era uma traidora da pior espécie. Saí andando, estupefata, tentando entender como a terrível mentira do Komizar sobre a minha decisão de me casar com ele poderia se transformar em algo pior. Como é que alguém poderia acreditar que eu mataria Walther? No entanto, eles acreditavam nisso, e nutriam uma repulsa fervente pela minha pessoa.
Senti as mãos do Komizar descendo pelos meus braços, tomando posse de mim, conhecendo-me, ainda jogando esse jogo de longe... sempre há mais a se tirar... conhecendo a melhor forma de me arruinar.
O conteúdo do meu estômago subiu até a garganta, e eu me abaixei atrás de uma cabine. Arranquei o lenço do meu pescoço e me dobrei, vomitando, sentindo o gosto do veneno do Komizar. Cuspi e limpei a boca. E se não fossem apenas esses soldados que acreditavam na mentira?
E se todo mundo acreditasse naquilo?
E se até mesmo os meus irmãos acreditassem nisso?
Eu nunca conseguiria convencer quem quer que fosse de algo.

3 comentários:

  1. Eu só acho que ela tá grávida... esses enjoos aí e agora ela vomitou... se bem que ela e Rafe usaram proteção🤔😎... mas naquele tempo não era tão seguro assim.😂😂😂

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    1. acho que essa historia é ambientada no futuro... de qual quer forma a tecnologia parece ser minima, mas se fosse eu narrando minha vida não iria fazer questao de falar sobre isso

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    2. Eu só quero que ela esteja rsrsrs

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Boa leitura, E SEM SPOILER!