16 de fevereiro de 2018

Capítulo 45

RAFE

Reclinei-me no parapeito, observando Lia.
Eu estava sozinho sem qualquer guarda, nem Ulrix nem Calantha. Embora eles fizessem com que eu soubesse, com frequência, que continuavam de olho em mim, não estavam mais constantemente ao meu lado. Parecia que todas as regras haviam sido relaxadas agora que o casamento havia sido anunciado e agora que...
Descansei a cabeça nos meus braços. Minha mãe estava morta. Deixava-me enjoado o fato de que a morte dela aumentara minha credibilidade. Eu deveria estar em casa. Todos em Dalbreck provavelmente estavam me procurando e se perguntando... onde estará o príncipe Jaxon? Por que ele não está aqui? Por que fugiu de seus deveres? Sim, meu pai decapitaria a mim e a Sven se algum dia voltássemos. Isso se ele ainda estivesse vivo.
Aqueles são os mais duros de se matar.
Meu pai era um canalha durão, exatamente como o Komizar havia falado. Mas era um velho canalha durão. Que estava ficando cansado. E ele amava minha mãe, ele a amava mais do que a seu reino ou sua própria vida. Perdê-la iria enfraquecê-lo, fazendo dele uma presa rápida dos flagelos com que ele teria lutado em tempos melhores.
Eu deveria estar lá.
Eu estava de volta a isso. Ergui a cabeça e olhei para Lia, que estava sentada na parede afastada, acima da praça lá embaixo. Meu dever estava em Dalbreck, mas eu não conseguia me imaginar em qualquer outro lugar que não fosse aqui com ela.
— Havia apenas umas poucas pessoas reunidas quando parti.
Eu me virei. Kaden havia chegado até mim em silêncio. Ele estava escondido na sombra de uma coluna, observando-a também. A companhia dele era a última que eu queria.
— Os números vêm dobrando todas as noites.
— Eles a amam.
— Eles nem mesmo a conhecem, conhecem apenas o que o Komizar desfila pelas ruas.
Ele virou-se para olhar para mim, com os olhos cheios de desprezo.
— Talvez seja você que não a conheça.
Voltei a olhar para Lia, que estava empoleirada de forma precária em um muro alto. Eu não gostava nada em relação a isso. Eu não gostava de dividi-la com Venda. Eu não queria que nada que tivesse relação com esta terra miserável a amasse. Era como se fossem garras afundando e puxando-a para seu covil escuro. No entanto, dia após dia, eu via isso acontecer. Via isso na forma como os ossos de seus quadris se mexiam enquanto ela caminhava, na forma como ela trajava as roupas deles, no jeito como ela falava com eles. Para Lia, eles não eram mais o mesmo inimigo que tinham sido quando caminhamos por aquela ponte.
— Não são apenas as memórias sagradas nem as histórias — falei. — Eles fazem perguntas a ela. Ela conta a eles sobre o mundo além do Grande Rio, um mundo que ela nunca mais vai ver de novo caso vire a rainha do seu Komizar.
— Ela abraçou isso. Ela me disse que fez isso.
Soltei uma bufada.
— Então deve ser verdade. Nós dois sabemos que Lia sempre diz a verdade.
Ele olhou para mim, com os olhos mortos, imóveis, revirando o pensamento em sua cabeça como se estivesse buscando em sua memória por mentiras pesadas dela. Eu notei o machucado em seu maxilar e sua mão envolta em uma bandagem. Esses eram bons sinais. Discórdia nas fileiras. Talvez o Komizar tivesse que matá-lo antes que eu o fizesse.
Ergui meu olhar contemplativo, e Kaden fez o mesmo. Nós os vimos ao mesmo tempo.
Do outro lado, nos altos terraços, governadores e guardas tinham saído para observar Lia, e lá na torre do norte, emoldurado por sua janela, o próprio Komizar observava tudo. Ele estava longe demais para que pudéssemos ver sua expressão, mas vi em sua postura e sensação de posse, o orgulho, as cordas que com certeza ele puxara em sua bela e pequena marionete.
As palavras dela varriam a praça, e então ecoavam de volta das paredes, ressoando claras, e uma estranha quietude rastejava pelo ar. Estava tudo estranhamente quieto, exceto por ela.
— Foi assim no vale quando ela enterrou o irmão — disse Kaden. — Fez todos os soldados pararem.

Pois os Reinos ergueram-se das cinzas dos homens e mulheres
e são construídos em cima dos ossos dos perdidos,
e para lá retornaremos se o Céu assim desejar,
E assim será, para todo o sempre.

Para todo o sempre.
As palavras finais me corroíam, a permanência que se agigantava caso eu não a tirasse logo daqui. Eu observava enquanto Kaden a analisava.
— Mas ele será bondoso com ela, não é? — falei. — O dia do casamento será um dia para nós dois celebrarmos. Poderemos lavar as mãos em relação a ela, por fim. Ela é muita encrenca, não?
Fiquei observando enquanto seu maxilar se apertava, o imperceptível encolher dos seus ombros. Ele queria pular em cima de mim por jogar a verdade na cara dele. Eu quase desejava que ele o fizesse. Eu gostaria de ter acabado com ele de uma vez por todas, mas eu tinha maiores preocupações para solucionar e pouco tempo para isso. O casamento havia encurtado meu prazo em uma semana... E agora os outros estavam aqui. Eu me virei para ir embora.
— Você caminha livremente pelo Sanctum agora, Emissário?
— Muita coisa mudou em uma semana, Assassino, para nós dois. Seja bem-vindo ao lar.

14 comentários:

  1. Adoro esse jogo de provocações do Rafe e do Kaden

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  2. Tô com medo que o Kaden se dê mal de mais nessa história, ele está sendo impulsivo e está desafiando o Komizar... Tá praticamente brincando com a morte

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  3. Quando vejo a Lia fazendo recitando em cima do muro eu lembro do q aconteceu com Venda. Sai daí menina

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  4. A Lia não percebe o poder que tem, que ela não precisa do Komizar, nem do titulo de realeza, ela só precisa ser inteligente

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  5. eu entendo que a lia está tentando ganhar, coisas estrategicas e essas coisas, mas as vezes parece que ela está apenas se perdendo.
    e as vezes, conquistando seu povo como uma verdadeira rainha

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  6. adoroo melhor parte desse livro e quando os dois se encontram...
    Lia esta anestesiada por esse polvo e pelo o livro.

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  7. O Kaden é tão trouxa, que ele acredita em tudo o que o Komizar disser. O Rafe nem precisou perguntar para saber que ela n queria casar.

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  8. "— Eles a amam.
    — Eles nem mesmo a conhecem, conhecem apenas o que o Komizar desfila pelas ruas.
    Ele virou-se para olhar para mim, com os olhos cheios de desprezo.
    — Talvez seja você que não a conheça."

    NOSSAAAAA! Ai gente, sem dúvidas... se ela não escolher o Kaden... eu vou ficar brava!

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  9. Eu não gosto desse Rafe

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  10. Ainda esperando o capítulo narrado pelo Komizar. Ne possivel q isso n aconteça. Quero entebder melhor esse DESGRAÇADO
    R A N Ç O

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  11. Não sei porque mas eu vejo a Lia, o Rafe e o Kaden como a Meri, o Maxon e o Aspen do livro a Seleção. kkkkkkkkkk

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    1. KkkkkkkkkkKKKKKKKKKKKKKKKKKKK eu também, sempre lembro desse triângulo amoroso... Será q esse livro vai ter o mesmo final q a seleção? Queria


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  12. Ela está plantando amor nos cidadãos de um jeito que quando o jogo virar eles vão confiar nela e não no Komizar, ele cavou o próprio buraco kkkkk só acho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!