2 de fevereiro de 2018

Capítulo 45

A paisagem era infértil e quente. Eles tinham coberto os meus olhos por mais duas partes da jornada. A cada vez que tiravam o capuz da minha cabeça, um novo mundo parecia se espalhar diante de mim. O mundo com que nos deparávamos agora era seco e implacável. Por causa do calor intenso, eles diminuíram a velocidade pela primeira vez e conversaram uns com os outros, embora falassem apenas na própria língua.
Já passara muito da hora em que eu haveria de me encontrar com Rafe. Tinha tantas coisas que eu queria dizer a ele. Coisas que eu precisava dizer e que, agora, ele nunca saberia. Provavelmente ele já estava a caminho de sua fazenda, acreditando que eu havia quebrado a minha promessa de me encontrar com ele.
Observei as baixas e brumosas montanhas ao longe, e depois voltei a olhar para trás, mas vi apenas mais do mesmo atrás de mim. O quão próxima de Terravin estaria Pauline a essa altura?
Kaden me viu avaliando o árido panorama.
— Você está calada — disse ele.
— É mesmo? Perdoe-me. Sobre o que que devemos conversar? O tempo?
Ele não respondeu. Eu não esperava uma resposta de Kaden, mas fiquei fitando-o por um bom tempo e com uma expressão dura. Sabia que ele sentia meu tempestuoso olhar compenetrado, embora estivesse com o olhar fixo à frente.
— Você quer um pouco de água? — ele perguntou sem olhar para mim.
Eu desejava desesperadamente algo para beber, mas não queria pegar nada dele. Virei-me para Eben, que cavalgava do meu outro lado.
— Menino, você pode me devolver o meu cantil?
Da última vez em que eles tinham desatado minhas mãos e tirado o capuz de mim, eu havia girado o cantil na cabeça de Kaden, então eles o confiscaram. Eben olhou para Kaden, esperando pela decisão dele. Kaden assentiu.
Tomei um grande gole de água e depois mais um. A julgar pela paisagem, eu sabia que não deveria desperdiçar água molhando minha blusa.
— Ainda estamos em Morrighan? — perguntei a ele.
Kaden meio que sorriu, meio que soltou um grunhido.
— Você não conhece as fronteiras do seu próprio país? Típico da realeza...
Senti minha cautela estalar. Este era o pior momento possível para sair correndo, mas chutei as laterais do meu cavalo com os calcanhares, e saí voando pela areia densa. O galope dos cascos era tão rápido e firme que soava como mil tambores socando uma única e contínua batida.
Eu não tinha como fugir: não havia lugar onde ir neste vasto e imenso vale. Se mantivesse o ritmo por muito tempo, o calor implacável mataria meu cavalo. Puxei as rédeas e deixei que me conduzisse, de modo que poderia recuperar o fôlego e o ritmo. Esfreguei sua crina com a mão e joguei um pouco da preciosa água no focinho dele para ajudá-lo a se resfriar.
Olhei para trás, esperando vê-los em cima de mim, mas eles apenas avançavam sem pressa e presunçosos. Não arriscariam seus próprios cavalos quando sabiam que eu estava presa nesse lugar desolado e abandonado por Deus.
Por enquanto.
Esse pensamento se tornara minha invocação silenciosa.
Quando me alcançaram, eu e Kaden trocamos um severo olhar de relance, mas nenhuma palavra foi dita.
A cavalgada era infinita. O sol desaparecia atrás de nós. Minhas nádegas doíam. Meu pescoço estava incomodado. Minhas bochechas ardiam. Achei que tivéssemos viajado mais de cento e cinquenta quilômetros.
O nevoeiro por fim cedeu lugar a um cor de laranja brilhante enquanto o sol poente colocava o céu em chamas. Logo à frente, um gigantesco afloramento de grandes rochas redondas, tão grandes quanto uma mansão, que pareciam ter caído direto do céu no meio desse lugar desolado. Seguiu-se outro borrão de palavras ditas, e Griz apontou e berrou bastante. Ele era o único que não falava morrighês. Tanto Malich quanto Finch tinham sotaques pesados, e Eben falava morrighês tão fluentemente quanto Kaden.
Os cavalos pareciam sentir que esse seria nosso acampamento para passarmos a noite e aumentaram suas passadas. Conforme nos aproximamos do lugar, vi uma fonte e uma minúscula poça na base de uma das pedras. Essa não era uma parada aleatória. Eles conheciam seu caminho tão bem quanto qualquer abutre do deserto poderia conhecê-lo.
— Aqui — disse Kaden para mim, simplesmente, enquanto deslizava de seu cavalo.
Tentei não me encolher de medo quanto desmontei. Eu não queria ser típica da realeza. Espreguicei-me, testando para ver que parte do meu corpo sentia mais dor. Virei-me e olhei com ódio para o grupo.
— Vou dar a volta até o outro lado dessas rochas e cuidar de algumas coisas pessoais. Não venham atrás de mim.
Eben ergueu o queixo.
— Eu vi o traseiro de uma moça uma vez.
— Bem, não vai ver o meu. Fique aqui.
Malich deu uma risada, a primeira risada que eu ouvia de algum deles, e Finch esfregou o ombro e fez uma cara feia, jogando o trapo cheio de sangue seco que estivera debaixo de sua camisa no chão. Com certeza ele guardou ressentimento de mim, mas já estava óbvio que aquela era uma ferida limpa ou ele estaria em um estado muito pior. Eu gostaria que tivesse banhado minha faca em veneno. Fui marchando para o outro lado, dando bem a volta em Griz, e encontrei um lugar escuro e privado para fazer xixi.
Emergi das sombras. Se eles pretendessem mesmo, teriam me matado a essa altura. Quais eram as intenções deles senão me matar? Sentei-me em uma rocha baixa e olhei para as montanhas aos pés das outras, talvez a um quilômetro e meio de distância. Ou seriam cinco? A distância era enganadora nessa terra quente, reluzente e plana. Depois que ficasse escuro, será que eu conseguiria ver meu caminho bem o bastante a ponto de fugir dali? Mas então, faria o quê? Eu precisava pelo menos do meu cantil e da minha faca para sobreviver.
— Lia?
Kaden deu a volta, devagar, em uma das grandes pedras redondas, seus olhos buscando as rochas na luz que se esvanecia, até que ele me viu. Fitei-o enquanto ele se aproximava, sua duplicidade atingindo-me profunda e severamente, não com a raiva selvagem desta manhã, mas com uma dor lancinante. Eu havia confiado nele.
A cada passada que ele dava, todos os meus pensamentos sobre ele se desenrolavam e formavam algo novo, como uma tapeçaria sendo virada do avesso, revelando um emaranhado de nós e feiura. Apenas umas poucas semanas atrás, eu havia cuidado do ombro dele. Apenas poucas noites atrás, Pauline havia dito que os olhos dele eram bondosos. Apenas duas noites atrás, eu havia dançado com ele, e ontem mesmo, eu havia beijado sua bochecha na campina. Você é uma boa pessoa, KadenLeal e verdadeiro para com seu dever.
O quão pouco sabia eu do que isso significava para Kaden. Desviei o olhar. Como ele pôde me enganar tão por completo e absolutamente? A areia seca era esmagada sob suas botas. Seus passos eram lentos e medidos. Ele parou a poucos metros de distância.
A dor chegou à minha garganta.
— Diga-me uma coisa... — sussurrei. — Você é o assassino que foi enviado por Venda para me matar?
— Sim.
— Então por que ainda estou viva?
— Lia...
— Diga-me a verdade, Kaden. Por favor. Eu mantive minha palavra e os acompanhei sem lutar. Você me deve ao menos isso.
Eu temia que alguma coisa pior do que a morte ainda estivesse guardada para mim.
Ele deu mais um passo, de modo a ficar parado à minha frente. O rosto dele parecia mais gentil e reconhecível. Seria porque seus camaradas não estavam ali para vê-lo?
— Decidi que você seria mais útil para Venda viva do que morta — disse ele.
Ele decidiu. Como um deus distante. Por hoje, Lia deverá viver.
— Então você cometeu um erro estratégico — falei. — Não tenho nenhum segredo de Estado. Nada de estratégias militares. E, em termos de resgate, não valho nada.
— Você ainda tem outro valor. Eu disse aos outros que você tem o dom.
— Você o quê? — Balancei a cabeça em negativa. — Então você mentiu para seus...
Ele agarrou meus pulsos e me puxou para que eu ficasse em pé, segurando-me a poucos centímetros de seu rosto.
— Essa era a única maneira que eu tinha de salvar você — disse ele, sibilando, com a voz baixa. — Está entendendo? Então nunca negue que você tem o dom. Não para eles. Nem para ninguém. Isso é tudo que a mantém viva.
Meus joelhos pareciam feitos de água.
— Se você não queria me matar, por que simplesmente não deixou Terravin? Por que não disse a eles que o trabalho estava terminado e ninguém ficaria sabendo de nada...
— Para que você pudesse voltar a Civica e criar uma aliança com Dalbreck? Só porque não quero matar você, isso não quer dizer que eu não seja mais leal à minha própria gente. Nunca se esqueça disso, Lia. Venda sempre vem em primeiro lugar. Até mesmo antes de você.
O fogo irrompeu pelo meu sangue, pelos meus ossos; meus joelhos voltaram a ficar sólidos novamente, tendões, músculos, carne quente e rígida. Puxei e libertei meus pulsos das mãos dele.
Esquecer? Jamais.

18 comentários:

  1. tô confusa! Nos outros capítulos, Rafe não era o assassino?

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    1. não kk Rafe é o príncipe

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    2. Nunca deixou claro quem era quem.
      A gente que fazia suposições.
      Foi interessante de fazer a gente pensar que era o Rafe o assassino

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  2. Nn era pra ser o Rafe? Me perdi

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  3. Pelo Anjo.. Que tà acontecendo com esse livro? COMO ASSIM O KADEN É O ASSASSINO??? É alguma pegadinha?

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  4. É mistério, pesquisa na Net: capítulo confuso desse livro que você entende, tive que fazer isso pq não estava mais interessante nesse livro

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  5. Na vdd era um enigma.. se você voltar nos capítulos vai sacar q nunca foi falando quem era príncipe ou assassino... A autora fez você achar uma coisa é era outra

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  6. Nunca falou q era o Rafe esse era o suspense do livro criaturas n poderia ser tão óbvio

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    1. Exato. A autora nunca falou quem era quem, apenas deu pistas dúbias, que interpretamos como quisemos

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  7. A queridona tb nunca deixava o Kaden vulgo assassino falar quando ia contar a vdd, descobriu da pior forma bem feitooo (então se o kaden é ele, ele realmente se envolveu com aquela mãozinha no ombro no jantar huehuehu)

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  8. Acho que precisa desenhar para o pessoal entender. (MUITA FALTA DE INTERPRETAÇÃO DE TEXTO) A autora deu várias dicas ao longo da história, dava para saber quem é quem. ( LEIAM POR PRAZER E NÃO APENAS POR LER).

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    1. Concordo com você, estava óbvio quem era quem. Pessoal não presta a atenção.

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  9. Porque tanta gente assumiu que Rafe era o assassino??? Move on minha gente kkkkk

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  10. A primeira pista que eu saquei tava certa mas estranhei o Rafe não conhecer das tradições, ele parecia muito rudi para um príncipe aí comecei a pensar que ele era o assassino, mas lá no começo quando eles chegam o assassino conversa com um menino e pergunta da comida e o prato que o menino fala é o que o "comerciante de pele"( Kaden) pede, foi a primeira pista que eu achei

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  11. Gente, a autora sempre deixou claro que a relação da Lia era com o Rafe e que ele sempre teve aparentou ser um Príncipe eu não entendi a dúvida e vcs

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  12. Aaaaaaa eu estava certa desde o começo hahahaha rafe era o príncipe... Descobrir quando ele disse que era um homem de poucas palavras como tinha dito quando conversou cm o Sven(sei lá como escreve)

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