20 de fevereiro de 2018

Capítulo 44

KADEN

Eu costumava ir ao mercado com a minha mãe. Isolado na propriedade, não via muito do mundo, então o mercado era um lugar repleto de maravilhas para mim. Nós viajávamos nesta mesma estrada, na carroça, com a cozinheira. Minha mãe havia comprado suprimentos para as minhas lições com os meus meios-irmãos: papel, livros, tinta e pequenas bolsinhas de doces de cascas de frutas como recompensa por uma semana de estudos diligentes.
Ela sempre comprava alguma coisa só para mim também. Estranhos presentinhos que me fascinavam: bijuterias dos Antigos que não tinham mais propósito ou significado, finos discos brilhantes que captavam o sol, moedas castanhas de metais sem valor, ornamentos surrados das suas carruagens. Ela dizia que era para eu imaginar o propósito maior daqueles objetos. Eu os mantinha em uma prateleira na cabana, tesouros cuidadosamente arranjados que prendiam a minha imaginação e que me levavam a lugares além dos terremos da propriedade, objetos que ficavam cada vez mais maravilhosos e que me ajudavam a imaginar um propósito maior até para mim mesmo... até que um dia, meu irmão mais velho entrou de fininho na cabana e os roubou. Eu o apanhei exatamente quando ele estava jogando os meus objetos pelo poço abaixo. Ele queria que eu não tivesse nada. Menos ainda do que eu já tinha.
Não foi a última vez que chorei. Um ano depois, minha mãe morreu.
Menos ainda do que eu já tinha tido na vida, ou sido. Até mesmo agora. Eu nada era. Um soldado sem reino, um filho sem família. Um homem sem...
O dia em que Lia e Rafe se separaram revirava-se nos meus pensamentos novamente, como havia acontecido tantas vezes antes, como se uma peça estivesse faltando, algo que eu não entendia. Quando ela deixara Rafe para se juntar a nós na trilha, sua face parecia a de uma escultura de pedra com milhares de rachaduras minúsculas, um olhar fixo que nada via, os lábios separados, paralisada da mesma maneira como poderia estar uma estátua. Nos últimos meses, eu achava que Lia havia olhado para mim com tudo que os olhos dela podiam conter: ódio, ternura, vergonha, tristeza, vingança... e com o que eu havia achado que poderia ser amor. Pensei que conhecia a linguagem dela, mas nunca vira a expressão que Lia tinha nos olhos no dia em que deixara Rafe para trás.
Sim, as coisas estão diferentes entre nós. Sempre foram, Kaden, e se você for honesto consigo mesmo, verá que também sempre soube disso...
Nós dois nos importamos tanto com Venda quanto com Morrighan... Não subestime o elo que partilhamos. Grandes reinos foram construídos com base em muito menos do que isso.
Talvez, com Lia, menos pudesse ser mais, o propósito maior pelo qual minha mãe sempre tinha esperado.
Talvez menos pudesse ser o bastante.

* * *

A estrada para a casa grande era mais densa do que eu me lembrava. Galhos pendiam acima como se fossem uma abóboda com dedos contorcidos. Pela primeira vez, eu me perguntava se não me lembrava direito do caminho. Eu não conseguia imaginar o grande e poderoso lorde Roché vivendo nesta propriedade remota e despretensiosa. Eu nunca tinha voltado. As ameaças que os mendigos fizeram a uma criança se alojaram em algum lugar no meu crânio: ele vai afogar você em um balde. Até mesmo quando me tornei o Assassino de Venda, aquele que era temido pelo restante dos Rahtans, a lembrança da ameaça ainda podia fazer com que o meu coração batesse mais rápido. Isso ainda acontecia, com todas as cicatrizes ressurgindo, vindo à tona de novo, como se eu tivesse oito anos outra vez. Será que se eu o matasse isso mudaria? Eu sempre achei que seria o que aconteceria. Talvez hoje eu fosse descobrir.
E então vi a casa, o vislumbre de uma pedra branca em meio às árvores. Eu não tinha me esquecido do caminho. Conforme me aproximava, vi que a propriedade havia caído em desordem. Os gramados, que eram verdes e bem aparados, agora não passavam de restolhos e de terra, e os arbustos, que uma vez foram esculpidos, haviam crescido demais e estavam estrangulados pelas vinhas. A mansão irregular, afastada da estrada, parecia sem cuidados e abandonada, mas avistei uma fina trilha de fumaça erguendo-se de uma das suas cinco chaminés. Havia alguém lá.
Dei a volta em círculo de modo que ninguém me visse, e primeiramente fui até a cabana em que morei junto com a minha mãe, que uma vez também fora branca, mas a maior parte da tinta havia descascado há muito tempo. Sem sombra de dúvida ela estava inabitada. As mesmas vinhas que estrangulavam os arbustos insinuavam-se por cima da varanda e pela janela da frente. Amarrei o meu cavalo, e a porta torta cedeu sob o meu ombro. Quando entrei ali, o lugar parecia menor do que eu me lembrava. Nenhum dos móveis estava mais lá. Eles provavelmente também tinham sido vendidos a mendigos, coisas descartáveis, assim como eu. A cabana era tão somente uma casca empoeirada agora, que não continha qualquer traço da minha mãe nem da vida que eu tivera quando era amado. Olhei para a lareira vazia, para o consolo da lareira logo acima, o quarto em que costumava ficar a minha cama completamente sem mobília, o vazio que impregnava aquilo tudo. Girei e saí dali. Eu precisava de ar fresco.
Eu me apoiei no corrimão da varanda, fitando a mansão silenciosa, com o cheiro de jasmim forte na memória. Eu o visualizei sentado ali dentro, com as costas rígidas em uma cadeira, a calça bem passada, um balde de água ao seu lado. Esperando. Eu não podia mais ser afogado. Saí da varanda e fui andando até a parte leste da propriedade, permanecendo fora do campo de visão. Havia um lugar onde eu sabia que encontraria a minha mãe. Apenas o coveiro e o meu pai estavam presentes quando a enterramos. Nem mesmo meus meios-irmãos, de quem ela havia sido tutora e a quem tratava com bondade, se deram ao trabalho de lhe dizer algumas últimas palavras. Nada havia sido feito para marcar o túmulo dela, então eu tinha encontrado as pedras mais pesadas que consegui carregar e coloquei-as como se fossem uma coberta em cima do montinho de terra, ajustando-as até que o meu pai me mandou parar de fazer aquilo.
Eu procurava pelo monte de pedras agora, mas ele também se fora. Nada havia para marcar onde ela jazia na terra, mas havia outros túmulos não muito longe, dois dos quais tinham grandes lápides. Puxei e empurrei as vinhas do caminho, na esperança de que eu tivesse me esquecido de onde ela jazia e que uma daquelas lápides fosse para ela. Nenhuma das duas era. Uma era para o meu irmão mais velho. Ele morrera apenas algumas poucas semanas depois que eu partira. Minha madrasta, se é que até mesmo eu poderia chamá-la assim, morreu um mês depois. Um acidente? Uma febre?
Voltei a olhar para a casa e para a fumaça que saía em curvas da chaminé. Seria possível que o meu pai fosse um homem fraco e falido agora? Isso explicaria o estado da propriedade de que ele uma vez tanto se orgulhara. Meu outro meio-irmão teria vinte anos agora, seria forte e capaz de se defender, mas ele provavelmente não me reconheceria depois de todos esses anos. Soltei a tira na minha bainha, sentindo a posição da faca na lateral do corpo. Era o que o Komizar sempre havia pendurado diante de mim, a justiça, e um dia seria eu que a serviria. Caminhei em direção à casa e batei à porta.
Ouvi o arrastar de pés lá dentro, alguma coisa sendo batida, um chamado a alguém e um xingamento, e então, por fim, a porta foi aberta. Eu a reconheci, até mesmo agora com seus cabelos totalmente brancos e com duas vezes o tamanho que tivera antes. Era a governanta da mansão. Eu me lembrava dela como sendo emaciada e angulosa e com nós dos dedos afiados, com os quais frequentemente batia na minha cabeça. Agora ela era redonda e ampla. Um grande bule de ferro pendia da sua mão.
Ela apertou os olhos para olhar para mim.
— Siiiiiim?
O som da sua voz fazia a minha pele ficar arrepiada. Isso não havia mudado.
— Estou aqui para ver o lorde Roché.
Ela riu.
— Aqui? Atrás de que pedra você andou se escondendo? Ele não está nessa casa há anos. Ele não vem aqui mais do que de passagem agora que tem o trabalho grande e importante dele.
Ele se fora? Havia anos? Isso não parecia possível. Minhas memórias dele regendo a propriedade e o condado estavam congeladas aqui e em todas as coisas que eu imaginava desde então.
— Que trabalho seria esse? — perguntei.
Ela sibilou entredentes, como se eu fosse um asno ignorante.
— Ele está na cidadela trabalhando para o rei. Um daqueles trabalhos chiques de gabinete. Não precisa mais desse lugar. Mal me dá uma moeda para manter isso daqui. Uma vergonha o estado em que está a propriedade agora.
Ele está em Civica? Faz parte do gabinete real?
— Espere um minuto — disse a governanta, inclinando-se mais para perto de mim e balançando o dedo para mim. A descrença brilhava nos seus olhos. — Eu sei quem você é. Você é aquele bastardo! — em um instante, o desinteresse dela inflamou-se e virou ódio. Ela cutucou o meu peito com o dedo, mas minha cabeça ainda estava a mil com essa nova informação. Meu pai estava em Civica? Um pensamento bem mais letal tomou conta de mim. Será que o Komizar sabia disso? Será que ele havia descoberto quem era o meu pai... e seria por esse motivo que ele mantinha as fontes tão cerradas? Será que ele vinha trabalhando com o homem que eu buscava destruir o tempo todo?
Eu me virei para ir embora, mas a governanta me agarrou pelo braço.
— Você e o seu dom! — rosnou ela. — Você disse que a madame teria uma morte horrível, e isso aconteceu. Sua bestinha miserável...
Eu ouvi um barulho atrás de mim e girei em direção a ele, sacando a minha faca ao mesmo tempo, mas então senti uma explosão na nuca e o mundo tombou enquanto eu caía para a frente.

* * *

Quando acordei, tinha sido colocado acima do poço. Dois homens me seguravam. Uma corda prendia as minhas mãos, que tinham sido atadas atrás das costas. A governanta estava com um largo sorriso no rosto.
— Foi aqui que o menino morreu — disse ela — mas você sabe disso, não sabe? Afogado. Alguém o empurrou para dentro do poço. Nós sabemos que foi você. Você sempre o odiou. Ciumento, você era. A madame ficou louca, foi morrendo aos poucos, dia após dia, e, por fim, cortou os pulsos um mês depois da morte dele. Uma morte lenta e horrível, exatamente como você previu. A pior coisa que poderia ter acontecido com ela foi ver o seu primogênito sendo puxado de um poço, todo pegajoso e inchado. Nada foi como antes por aqui depois disso. Para nenhum de nós. Agora é a sua vez, rapaz.
O mundo flutuava à minha frente. Eu imaginava que, em vez dos nós dos dedos dela, dessa vez fora seu bule que havia ido de encontro ao meu crânio. Ela assentiu para os homens que estavam me segurando. Aquele era um poço profundo. Uma vez que eu fosse jogado lá embaixo, não haveria como subir e sair dele. Os homens me ergueram por debaixo dos meus braços, mas minhas pernas ainda estavam livres. Eu me livrei da tontura e acertei um golpe em ambos quase ao mesmo tempo.
Uma das minhas botas esmigalhou uma rótula, e acertei a virilha do outro homem. Quando ele se dobrou ao meio, quebrei o pescoço dele com o joelho. Rolei para longe, apanhando a minha faca do lado do homem morto, e cortei a corda que estava atrás das minhas costas. O homem cujo joelho estava esmagado gritava de dor, mas seguia em frente mancando, tentando me golpear com uma machadinha. Com um ataque da minha lâmina, a garganta dele estava aberta, e ele caiu morto ao lado do outro homem. A governanta ficou com o olhar fixo em mim, horrorizada, e correu em direção à casa.
Minha cabeça latejava, e me curvei para frente, tentando me orientar, com o mundo girando, e então saí correndo também. Eu não sabia quanto tempo havia ficado apagado. Fui cambaleando até o meu cavalo, que ainda estava preso atrás da casinha, com a dor partindo a minha cabeça ao meio, o sangue escorrendo pelo meu pescoço, minhas costas molhadas e pegajosas, e saí em cavalgada, na esperança de que Lia não tivesse partido sem mim, esperando que eu não fosse desmaiar antes de chegar até ela. Eu sabia de pelo menos mais um traidor no gabinete morrighês, porque, se alguém não tinha qualquer conceito de lealdade, esse alguém era o meu pai.

7 comentários:

  1. porque as coisas sempre dão errado pro Kaden? injusto

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  2. Tadinho do Kaden, ele quer tanto amor que se contentaria com o menos. Eu sei que ele vai encontrar alguém que vai realmente amar ele. Eu acho que o pai dele é o vice, os dois são loiros e tem aquele filho dele falando que o irmão mais velho morreu.

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  3. O Kaden tá se iludindo gente, que dó. Tomare que ele seja feliz

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  4. Não acredito que não matou a governanta.

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  5. o vice-regente é o pai dele, não tenho dúvidassss

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  6. faz sentido, lembra da Canção de Venda do capitulo anterior? Ela falava de regencia, tem a ver. Isso significa q tem muita treta vindo ai, muiita ropa suja pra lavar, to ansiosa

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