16 de fevereiro de 2018

Capítulo 44

KADEN

Eu abri com força a porta da câmara de reuniões do Komizar, fazendo com que batesse contra a parede. Três irmãos estavam parados em pé perto dele e sacaram suas armas. O Komizar continuou sentado atrás de uma mesa que continha uma pilha de mapas e cartas de navegação, e nossos olhares contemplativos travaram-se um no outro. Meu peito subia e descia por causa da minha corrida pelo pátio dos estábulos e pelo Sanctum.
Meus irmãos Rahtans continuavam com suas adagas firmes em suas pegadas de punhos cerrados.
— Saiam — ordenou Komizar. Eles ficaram verdadeiramente hesitantes. — Saiam! — ele gritou de novo.
Relutantes, embainharam suas facas. Quando fecharam a porta atrás deles, o Komizar levantou-se, deu a volta até a lateral da mesa e ficou cara a cara comigo.
— Então você ficou sabendo da novidade? Presumo que esteja aqui para me oferecer os parabéns.
Lancei-me para cima dele. Joguei-o no chão, e os móveis caíram à nossa volta. Ele puxou a minha faca de sua bainha, mas bati com tudo na mão dele contra o chão, e a faca saiu deslizando pelo aposento. Seu outro punho cerrado atingiu meu maxilar e caí para trás, mas meu joelho foi de encontro às costelas dele quando ele veio para cima de mim novamente. Vidro estilhaçou-se, papéis e mapas voavam para o chão ao redor de nós, mas minha fúria por fim prevaleceu, e eu o prendi no chão, segurando uma lasca de sua lanterna quebrada junto ao seu pescoço. O sangue escorria da minha mãe enquanto a borda afiada cortava minha própria carne.
— Você sabia! Sabia como eu me sentia em relação a ela! Mas tudo o que tinha não era o bastante! Você tinha que ter Lia também! Assim que virei as costas...
— Então o que você está esperando? — os olhos dele estavam ferozmente frios. — Corte minha garganta. Acabe com isso.
O vidro tremeu em meu punho cerrado. Um talho e eu seria o próximo Komizar. Isso havia sido esperado durante anos, um Assassino atrás do outro erguendo-se ao poder. Nós selávamos nossos próprios destinos, treinando nossos sucessores bem demais em seus deveres. Minha mão sangrava no pescoço dele.
— Está certo — disse ele. — Pense com cuidado. Você sempre faz isso. Eis uma coisa com a qual sempre pude contar em você. Pense em todos os nossos anos juntos. Em onde você estava quando o encontrei. Pense em todas as coisas pelas quais trabalhamos. Todas as coisas que você ainda quer. Uma menina realmente vale a pena?
— E ainda assim você vai se casar com ela? Fazer dela sua rainha? Ela deve ter valor para você! O que aconteceu com toda sua conversa sobre débeis vidas domésticas? E a realeza? Venda não tem realeza!
— Sua raiva está anuviando seu julgamento. Foi isso que ela fez com você? Envenenou-o? Minhas decisões são tomadas com base somente no que trará benefícios aos meus compatriotas. De onde vêm as suas?
Somente Lia. Para mim, Venda não existia quando entrei voando neste aposento.
Ele olhou para mim com calma, até mesmo com o vidro denteado em sua garganta.
— Eu poderia ter feito com que você morresse no exato minuto em que irrompeu pela porta. Não é isso o que eu quero, Kaden. Temos história demais entre nós. Vamos conversar.
Olhei com ódio para ele, com meus pulmões ardendo, os segundos incendiados passando, a pulsação do pescoço dele estável sob a minha mão. Apenas uma pequena veia me separava de Lia. Mas era verdade... ele poderia ter colocado os Rahtans para cima de mim no segundo em que cruzei aquela porta. Até mesmo enquanto passava pelos portões. Ele poderia ter ficado em prontidão com a própria adaga. Temos história demais entre nós.
Deixei que ele se levantasse. O Komizar me jogou um trapo para que eu envolvesse minha mão com ele e, então, inspecionou a carnificina de coisas quebradas em seu escritório e balançou a cabeça.
— Foi você que a trouxe aqui. Foi você que disse que ela seria útil a Venda. Você estava certo. E agora os clãs deram as boas-vindas a ela. Para eles, a garota é um sinal de que os deuses favoreceram Venda. Ela é um símbolo dos modos antigos e de promessas. Nós conseguimos mais do que barganhamos, e agora devemos fazer uso disso. Nós temos um logo inverno pela frente e a maior parte dos suprimentos deve alimentar nosso exército. No entanto, o fervor das massas não desmoronará se ela alimentar as superstições deles.
— Por que um casamento? — falei com amargura na voz. — Existem outras maneiras.
— Foi solicitação do clã, meu irmão, e não minha. Pense. Eu demonstrei algum interesse nela antes? Os clãs deram as boas-vindas a ela, mas alguns ficaram cautelosos, pensando que poderia se tratar de um outro truque do inimigo. Eles queriam provas de um verdadeiro comprometimento por parte dela. Consultei o Conselho. Eles aprovaram a questão. Você está questionando não apenas o meu julgamento, mas o julgamento do Conselho inteiro também?
Eu não sabia o que pensar. Eu não consegui acreditar que o Conselho aprovaria isso, mas, sem minha presença aqui... por que não? Malich provavelmente seria o primeiro a dizer que sim. E, desde o dia em que os Meurasi a haviam acolhido, eu deveria saber que isso poderia tornar-se uma possibilidade. Os Meurasi não acolhiam forasteiros.
— Não se preocupe, as coisas não vão mudar muito. Eu não tenho qualquer interesse na moça além do que ela fará por nossos compatriotas. Você pode até mesmo manter seu bichinho de estimação em seus aposentos por ora se for discreto perto dos clãs. Eles devem achar que o casamento é de verdade. — Ele fez uma pausa enquanto endireitava o pedestal da lamparina a óleo. — Mas eu devo avisá-lo de uma coisa — disse ele, voltando-se novamente para mim — ela desenvolveu uma afinidade genuína junto aos clãs. Quando lhe propus o casamento, ela o abraçou. Ela estava até mesmo ansiosa por isso. Ela também viu o valor disso.
— Abraçou? Sob ameaça de morte? — falei, com sarcasmo.
— Pergunte você mesmo a ela. Ela viu que isso lhe permitia ter duas vantagens... maiores liberdades e a doce vingança contra o próprio pai. Certamente, você, de todas as pessoas, é capaz de entender isso. Traição por parte de sua própria espécie é uma ferida que nunca cura. Use sua lógica, seu idiota aflito, e recomponha-se.
Olhei para ele, com minha calma de volta.
— Perguntarei a ela. Você pode ter certeza disso.
Ele fez uma pausa, como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer.
— Que diabos, ela não está carregando um moleque seu, está? Espero que você não seja assim tão idiota.
Ele presumiu, como eu o havia levado a acreditar, que eu e Lia estávamos dormindo juntos. No entanto, esperava-se que os Rahtans tomassem precauções de modo a não ficarem presos àquelas débeis vidas domésticas que ele tão grandemente ridicularizava.
— Não. Não há qualquer moleque. — Girei e saí tempestuosamente dali.
— Kaden — disse ele enquanto eu chegava na porta — não me force demais. Malich também daria um bom Assassino.

* * *

Ela estava inclinada sobre a tina, borrifando água em sua face, e seus ombros enrijeceram-se com o som das minhas passadas atrás dela.
— Ele forçou você a fazer isso? — perguntei a ela. — Eu sei que ele a forçou. Eu nem mesmo sei por que estou perguntando.
Ela não me respondeu, e mergulhou as mãos na água, lavando até seus cotovelos. Agarrei seu braço, girando-a, e a tina virou-se, abrindo-se em duas quando caiu no chão.
— Responda-me! — gritei.
Ela olhou para baixo, para as duas metades quebradas da tina, e para a água que formava uma poça aos nossos pés.
— Eu achei que você já tinha a resposta para a sua pergunta e que não precisava da minha.
— Diga-me, Lia.
Os olhos dela brilhavam.
— Kaden, eu sinto muito. Eu não vou mentir e dizer que não quero isso. Você sabe que eu não amo o Komizar, mas também não sou mais uma menina tola de olhos sonhadores. A verdade é que eu fiquei resignada com o fato de que nunca vou sair daqui. Preciso fazer uma vida para mim mesma... a melhor que puder. Exatamente como você pediu que eu fizesse. E, se formos ser honestos... — a voz dela ficou vacilante, e ela engoliu em seco — ... o Komizar tem uma coisa a me oferecer que você não tem. Poder. Existem pessoas aqui, como Aster, os clãs, e outros, com quem estou realmente vindo a me importar. Quero ajudá-los. Com um pouco de poder, eu seria capaz de fazer isso. Eu me lembro de você ter me dito que não tinha as escolhas que eu achava que tivesse. Eu entendo isso agora. Então, como você, estou tirando vantagens das escolhas que eu realmente tenho. O casamento com o Komizar me oferece benefícios que você não pode me dar. — Ela estreitou os olhos. — E, como um bônus, a notícia do casamento cortará pelo menos meus pais até seu âmago, se não todos de Morrighan. Haverá um pouco de doçura nisso. Acredite em mim quando lhe digo que não fui forçada a fazer isso.
— Em apenas uma semana você decidiu tudo isso?
O brilho deixou os olhos dela como se no momento oportuno.
— Uma semana é o tempo de uma vida, Kaden. Capaz de varrer um mundo todo de pessoas da face da terra com a queda de uma única estrela. Pode transportar uma criada de uma taverna que morava em um vilarejo à beira do mar até um deserto causticante com cruéis assassinos como companhia. Então, em comparação a isso, realmente, minha pequena decisão de casar-me com um homem por poder precisa de mais de uma semana para ser pensada?
Balancei a cabeça.
— Essa não é você, Lia.
Ela ergueu um lábio em repulsa, como se, de repente, tivesse ficado cansada de ser empática.
— Você está magoado Kaden. Eu sinto muito. De verdade. Mas a vida é difícil. Tire essa sua cabeça vendana da bunda e acostume-se a isso. Você não cuspiu palavras muito similares a essas para mim lá na carvachi de Reena? Bem, agora eu entendo. Você também deveria entender.
A voz dela estava fria, distante... e o que ela disse era verdade. Tudo afundava dentro de mim, caindo como se ela tivesse cortado tanto a minha respiração quanto meus músculos. Olhei para ela, com até mesmo as palavras na minha língua perdidas em algum lugar na queda, me virei. Saí pela porta, descendo o corredor, nada vendo enquanto eu por ali passava... imaginando como ela teria se tornado tão... perfeitamente como a realeza.

9 comentários:

  1. Que m*!#$.
    Não suporto o Kaden sofrer assim.
    A Lia é muito mais terrível que se esperava, é a sobrevivência...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vc tem q lembrar q o Komizar a obrigou a mentir. Dizer q foi decisão dela... Kaden sofre pq n quer ver a vdd. No fundo ele devia saber q ela nunca faria isso, mas n quer ver p n ter q se voltar contra o Komizar.

      Excluir
  2. O coração doi, ver Kaden sofrer dói...

    ResponderExcluir
  3. Kaden esqueceu que ele levou ela até ali, devia saber que boa coisa não daria.

    ResponderExcluir
  4. cara eu vejo que o komizar manipula muito ele

    ResponderExcluir
  5. Coitado do Kaden

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!