16 de fevereiro de 2018

Capítulo 43

Ela não usou a palavra amor. Minha tia Cloris referia-se a esse sentimento como uma “confluência de destinos”. Eu achei que era uma bela palavra quando ela disse, confluência, e tinha certeza de que deveria significar alguma coisa bela e doce, como um bolinho salpicado com açúcar. Ela disse que o rei de Morrighan tinha 34 anos e ainda não havia encontrado um par adequado quando uma nobre Primeira Filha de um reino sitiado chamou a atenção de um Lorde em uma viagem diplomática a Gastineux.
Confluência... uma reunião movida pelo acaso, como riachos sinuosos que se juntam em um barranco distante e não visto. Juntos, eles se tornaram algo maior, mas não é delicado nem doce. Como um rio em fúria, uma confluência pode levar a alguma coisa impossível de se prever ou controlar. Minha tia Cloris merecia mais crédito por sua astúcia do que eu havia lhe dado. Ainda assim, às vezes, essa reunião, a confluência de destinos, não parecia ser nem um pouco obra do acaso.
No dia de hoje, o Komizar tinha questões que necessitavam de sua atenção lá no quadrante de Tomack, mas ele ficara sabendo por meio de Calantha que a família de Rafe criava cavalos que eram providos ao exército de Dalbreck. Ele pediu que Eben e o governador Yanos levassem Rafe até o curral fechado e aos estábulos logo na saída da cidade para avaliar alguns de seus garanhões e de suas éguas.
Eu havia insistido em exercitar algumas das minhas recentemente merecidas liberdades, mesmo que viessem com a escolta de dois guardas bem armados, e fui até o quadrante de Capswan, procurar o pai de Yvet. Dei a ele metade dos meus ganhos do jogo de cartas com Malich e pedi três coisas a ele: que procurasse um curandeiro para Yvet, de modo a certificar-se que a mão dela não ficaria preta com a infecção; que usasse o restante da moedas para comprar o queijo pelo qual ela já havia pagado um preço tão alto; e que nunca a humilhasse pelos feitos hediondos de outros.
Ele tentou recusar o dinheiro, mas fiz com que ele o pagasse. E então ele chorou e eu achei que meu coração seria arrancado de meu peito. Os guardas, dois jovens, que não tinham mais do que vinte anos de idade, testemunharam as cenas e, depois que fomos embora, eu avisei-os para que não contassem a Malich onde tinha ido parar o dinheiro que ganhei dele.
— Nós somos Meurasi — disse um deles. — Yvet é nossa prima.
E, embora eles não tivessem me estendido qualquer promessa, eu sabia que eles não contariam.
Era meio-dia, eu tinha acabado de entrar no pátio dos estábulos do portão sul do Sanctum, e Rafe vinha do portão a oeste. Meu coração animou-se, como sempre acontecia quando eu o via, esquecendo-se, por um breve instante, do perigo com que ele se deparava e das mentiras que eu tinha que guardar. Eu só vi sua barba por fazer, seus cabelos presos para trás, a confiança em sua postura na sela, a mesma certeza que ele tinha quando entrara na taverna pela primeira vez. Havia um poder cativante em relação a ele, e eu me perguntava como ninguém mais via isso. Ele não era um convincente lacaio de um príncipe. Ele era o príncipe. Talvez todos nós víssemos o que queríamos ver. Eu havia me apaixonado pela ideia de um fazendeiro, e não foram necessários muitos empurrõezinhos para que eu acreditasse que fosse este o caso.
Ele estava comendo uma maçã, cuja casca vermelha brilhava em contraste com o monótono pátio de estábulos. Eu havia visto as estimadas frutas chegando nesta manhã com uma caravana dos Previzi e fiquei observando enquanto Calantha jogava para ele dois dos doces prêmios. Eu não havia comido uma fruta sequer desde que deixara o acampamento dos nômades. A coisa mais próxima disso eram os vegetais de raízes, cenouras e nabos, às vezes servidos com frangos ou carne selvagem do Sanctum. Eu sabia que uma maçã era mais um luxo entregue aos aposentos dos membros do Conselho e me perguntava sobre o porquê da generosidade de Calantha para com Rafe. Ele movia-se para a frente e para trás em sua sela com tranquilidade enquanto se aproximava, mordendo e arrancando outro pedaço de maçã, e nossos caminhos se encontraram no meio do pátio. Nós trocamos um rápido olhar de relance e descemos de nossas montarias, esperando que os vários cavalos que estavam sendo presos a vagões saíssem do caminho. Embora tivéssemos um momento ocioso juntos e os guardas que nos cercavam estivessem falando alto, contando piadas e mandando os condutores dos Previzi apressarem-se em seus trabalhos, ainda havia muitos que conseguiam nos ouvir. Eu não poderia me arriscar a tentar explicar a noite passada para ele nem como minha recusa para com o Komizar poderia ter acelerado sua sentença de morte. Ele foi deixado se perguntando o que eu estaria tramando. Rafe sabia que eu desprezava o Komizar. Ele mastigava sua maçã, inspecionando com os olhos o meu vestido e as longas trilhas de ossos que batiam ruidosamente na lateral do meu corpo. Eu podia ver todas as sílabas destas palavras nos olhos dele: Ela está se tornando mais vendana a cada dia que passa.
— Se meu amigo Jeb estivesse aqui — disse ele — ele a cumprimentaria por seus acessórios, Princesa. Os gosto dele pendem para o lado mais selvagem.
— Assim como os do Komizar — disse um dos guardas, um lembrete de que eles sempre estavam ouvindo.
Fiquei analisando Rafe. Eu não sabia ao certo se isso era um elogio ou um insulto. O tom dele era estranho, mas então alguma outra coisa chamou sua atenção.
Acompanhei o olhar contemplativo dele. Uma confluência de destinos.
Não agora. Não aqui. Eu sabia que isso não acabaria bem. Era Kaden. Ele estava cavalgando na nossa direção com o governador que ele havia ido procurar ao seu lado e o que parecia ser um desordenado esquadrão de homens com ele.
Rafe começou a engasgar-se, com a maçã voando de sua boca. Seus olhos ficaram cheios de água.
— Mastigue, Emissário — falei — antes de engolir.
Ele tossiu mais algumas vezes, mas seus olhos continuaram fixos no esquadrão que se aproximava.
Eu vi o alívio claro no rosto de Kaden quando ele me avistou. Ele desceu de seu cavalo, e os homens que estavam com ele fizeram o mesmo. Kaden ignorou Rafe, como se ele não estivesse ali. Na verdade, como se ninguém houvesse ali.
— Você está bem? — ele me perguntou, não notando o repentino silêncio dos soldados ao nosso redor.
O Assassino estava de volta... O Assassino, que ainda não ficara sabendo da novidade. O governador deu um passo à frente, pigarreando.
Kaden, relutante, assentiu na direção dele.
— Este é o novo governador de Arleston e seus... — ele fez uma pausa, como se estivesse buscando a palavra certa — ... soldados.
Eu entendi o porquê da pausa. “Soldados” era um termo generoso. Eles não eram um bando impressionante. Sem uniformes, com as roupas em frangalhos, os mais pobres dos pobres. Mas o governador era um homem bruto e assustador, alto e esguio, com um amplo peito e uma cicatriz odiosa que seguia como uma faixa em sua face, da maçã do rosto até o queixo. Ele tinha uma linha formada por franzir o rosto entre suas sobrancelhas para combinar com a cicatriz.
— E você é....? — disse ele.
O repentino sorriso forçado que retorcia seus lábios era mais desgraçado do que sua cara feia.
— Isso não é importante — disse Kaden. —Vamos...
— Princesa Arebella — respondi. — Primeira Filha de Morrighan, e este é Rafe, o Emissário do Príncipe Jaxon, de Dalbreck.
O sorriso do governador desapareceu.
— Porcos inimigos no Sanctum? — disse ele, com descrença.
Ele olhou com ódio para Rafe e cuspiu, acertando as botas dele, que começou a ir para a frente, mas eu me pus entre eles.
— Para alguém tão novo nessa posição, você tem uma língua excepcionalmente impulsiva, governador — falei. — Tome cuidado, ou poderá perdê-la.
Ele bravejou, pasmado, e olhou para Kaden.
— Você permite que seus prisioneiros falem com você desse jeito?
— Ela não é mais uma prisioneira — disse em tom de desaprovação um dos soldados que estava por perto.
E foi então que Rafe contou a Kaden sobre o meu novo papel no Sanctum.

11 comentários:

  1. Ah caramba! Quase tive um troço com esse encontro... 😱😵

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  2. Agr q o Kaden sabe disso vai dar uma merda

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  3. Eitaaaaa diaaaaxooo negocio ta esquentaaaando

    Amanda Coelho

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  4. Fiquei rezando pro Kaden não abraçar a Lia ou algo do tipo, mas não posso deixar de ressaltar que TORTA DE CLIMÃO!

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  5. Posso estar enganado mas a descrição que a Lia fez do novo governador é justamente a mesma do tutor do Rafe.

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  6. Paaraaa ttuuuddoooooo!!!!!!
    Eles conseguiram chegar gente, nao acreditioo, os amigos do Rafe conseguiram.
    To adorando esse babado.
    Fiquei de coração partido por causa do Kadem, tadinho dele.
    Faz isso cm ele lia!
    #LiKadem.

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  7. Eu acho q o Rafe engasgou pq o governador é akele amigo dele...ai Jesuis...to amando esse livro.

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  8. Acho que o amigo dele mesmo, cada um se disfarçou p poder entrar em Venda. Eitaaaaaa que vai pegar fogo oooooooooooooooooooooooooooooo.

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  9. Acho que o amigo dele mesmo, cada um se disfarçou p poder entrar em Venda. Eitaaaaaa que vai pegar fogo oooooooooooooooooooooooooooooo.

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  10. Kkkkkkkkkkk a reação do Rafe foi a melhor KKKKKKKKKKKKK

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Boa leitura, E SEM SPOILER!