20 de fevereiro de 2018

Capítulo 42

Kaden parou o cavalo.
— Talvez eu devesse retroceder?
Olhei para ele, confusa. Tínhamos entrado em Terravin por uma trilha posterior e estávamos na estrada superior que dava para a taverna de Berdi. Visto que Terravin ficava a caminho de Civica, havíamos decidido que ali seria a nossa primeira parada. Isso daria um lugar para nos limparmos e lavarmos apropriadamente as nossas roupas, que fediam a fumaça, suor e semanas de trilha. Um cheiro que fosse, vindo de nós, poderia chamar a atenção, e isso era algo de não precisávamos. O mais importante de tudo era que eu devia a Pauline e às outras uma visita, para que elas pudessem ter alguma garantia, depois de todos esses meses, de que estava tudo bem comigo. Elas também poderiam ter notícias que poderiam ser úteis, especialmente Gwyneth, com o seu questionável núcleo de contatos.
— Por que recuar agora? — perguntei. — Estamos quase lá.
Kaden se mexeu desconfortável na sua sela.
— Para que você possa contar a Pauline que estou com você. Você sabe, prepará-la.
Pela primeira vez, achei que tinha vislumbrado o medo na face de Kaden. Puxei o meu cavalo para mais perto dele.
— Você está com medo de Pauline?
Ele franziu o rosto.
— Sim.
Fiquei lá sentada, sem acreditar. Eu não sabia ao certo o que dizer diante dessa confissão.
— Lia, Pauline sabe que eu sou vendano agora, e as últimas palavras que lhe dirigi eram de ameaças à vida dela... e à sua. Ela não vai se esquecer disso.
— Kaden, você ameaçou a vida de Rafe também. Isso não fez com que ficasse com medo dele.
Ele desviou o olhar.
— Foi diferente. Eu nunca gostei de Rafe, e ele nunca gostou de mim. Pauline é uma inocente que... — ele parou de falar de repente, balançando a cabeça em negativa.
Uma inocente que o havia tido em alta conta. Eu tinha visto as bondades trocadas entre os dois, assim como a conversa fácil entre eles. Talvez ver a consideração que ela outrora teve por ele despencar e transformar-se em ódio fosse a gota d’água que Kaden não seria capaz de suportar. Ele já havia vivenciado isso com Natiya, que, embora fosse civilizada agora, ainda era fria com ele. A menina nunca perdoaria o ataque vendano no seu acampamento, nem do fato de que Kaden era um deles. Parecia que ele estava realmente na mesma posição que eu: havia apenas um punhado de pessoas no continente inteiro que não queria vê-lo morto. Eu me lembrava do terror nos olhos de Pauline quando Kaden nos arrastou para o meio dos arbustos, e lembrava das súplicas dela para que nos deixasse ir embora. Não, ela não esqueceria aquilo, mas eu rezava para que não tivesse alimentado o terror daquele dia e o transformado em ódio durante todos esses longos meses.
Kaden tomou um gole do cantil, drenando a última gota que havia ali.
— Eu só não quero me arriscar a criar uma confusão dentro da taverna quando ela me vir — ele disse ainda.
Era mais do que preocupação sobre alguma perturbação, e nós dois sabíamos disso. Era estranho vê-lo assim tão abalado por um simples encontro com uma pessoa tão inofensiva quanto Pauline.
— Entraremos pela porta da cozinha — falei, para acalmá-lo. — Pauline é uma pessoa razoável. Ela vai ficar bem assim que eu explicar as coisas. Nesse meio-tempo, vou ficar entre vocês dois... e as facas. — Acrescentei a parte das facas como brincadeira, para aliviar o humor dele, mas Kaden não sorriu.
Natiya esporeou o seu cavalo para que ele avançasse ao lado meu.
— E quanto a mim? — perguntou-me. — Vou ajudar você a proteger o Assassino trêmulo de medo? — disse ela, alto o suficiente para que Kaden ouvisse, os olhos cintilando com a travessura. Kaden desferiu a ela um olhar de aviso para que a menina tomasse cuidado com o quanto ela o estava forçando.
Meu coração vibrava com a expectativa enquanto nos aproximávamos, mas, tão logo pude avistar a taverna, eu soube que havia alguma coisa errada. O medo pulou entre nós três como se fosse fogo. Até mesmo Natiya sentia que alguma coisa não estava certa, embora nunca tivesse estado aqui antes.
— O que é isso? — ela perguntou.
A taverna estava vazia. Em silêncio.
Não havia qualquer cavalo amarrado nas colunas. Nenhuma conversa nem risada vinha da sala de jantar. Não havia nenhum hóspede, e estava na hora do jantar. A estalagem estava coberta pela nauseante mortalha do silêncio.
Pulei do meu cavalo e subi correndo os degraus da frente. Kaden foi atrás de mim, dizendo-me para parar, gritando alguma coisa sobre cautela. Escancarei a porta com tudo, apenas para me deparar com cadeiras empilhadas em cima das mesas.
— Pauline! — gritei. — Berdi! Gwyneth!
Atravessei a sala de jantar aos pulos e abri a porta da cozinha, fazendo com que batesse contra a parede.
Fiquei paralisada. Enzo estava parado atrás do bloco de cortar carne, com um cutelo de açougueiro na mão, mais boquiaberto do que o peixe que estava prestes a decapitar.
— O que está acontecendo? — perguntei. — Onde está todo mundo?
Enzo piscou e depois olhou de um jeito mais duro para mim.
— O que você está fazendo aqui?
Kaden sacou uma faca.
— Coloque esse cutelo para baixo, Enzo.
Enzo olhou para o chão e depois para o cutelo que ainda segurava, primeiramente surpreso, depois horrorizado ao vê-lo ali. Ele deixou o cutelo cair ruidosamente sobre o bloco do açougueiro.
— Onde está todo mundo? — perguntei, dessa vez com um tom de ameaça.
— Foram embora — respondeu ele. Com as mãos tremendo, ele acenou para que eu e Kaden fôssemos até a mesa da cozinha para explicar o que houve. — Por favor — acrescentou, quando não nos mexemos.
Nós puxamos cadeiras e nos sentamos. Kaden continuou com a faca sacada, mas, na hora em que Enzo tinha terminado de se explicar, eu estava com as mãos na cabeça, e só podia ficar com o olhar fixo na mesa de madeira marcada como que com cicatrizes, onde eu havia comido tantas refeições junto com Pauline. Ela havia partido há semanas para me ajudar. Todas haviam feito isso. Eu não conseguia conter o gemido que se acumulava na minha garganta. Elas estavam no centro de Civica. Fui tomada pelo temor.
— E com Berdi — disse Enzo ainda, mas tanto o lembrete de Kaden quanto o dele pareciam somente confirmar os nossos medos. Pauline era confiante, mas era também uma criminosa procurada, exatamente como eu. Ela podia já estar em custódia. Ou até pior.
— Nós temos que ir até elas — falei. — Amanhã. — Não haveria descanso.
— Elas vão bem — disse Enzo. — Berdi me prometeu.
Ergui o olhar para Enzo, mal o reconhecendo como o menino preguiçoso em que não se podia confiar sequer para aparecer para trabalhar. Sua expressão era séria, fervente, como eu nunca vira nele antes.
— E Berdi deixou você no comando da estalagem?
Ele baixou o olhar, deixando uma ensebada mecha de cabelos da face. Eu não havia tentado disfarçar as minhas suspeitas. As têmporas dele ficaram rosadas.
— Eu sei o que você está pensando, e não a culpo por isso. Mas foi o que Berdi fez, ela me deixou no comando, com as chaves e tudo. — Ele agitou o molho de chaves que pendia do cinto, e eu vi algo que parecia orgulho nos olhos dele. — É verdade. Ela disse que já havia passado da hora de eu entrar em ação. — De repente, Enzo ficou alarmado, torcendo o seu avental nas mãos. — Aquele outro cara poderia ter me matado. Ele me ouviu e...
Ele engoliu em seco, e seu grande pomo de adão no seu magro pescoço vacilou. Ele encarou o meu pescoço.
— Eu sinto muito. Fui eu que disse ao caçador de recompensas que você estava andando na estrada superior. Eu sabia que ele não tinha boas intenções, mas tudo que eu conseguia ver era o punhado de moedas na palma da mão dele.
Kaden sentou-se à frente na sua cadeira.
— Você?
Cutuquei Kaden para que voltasse a sentar-se para trás no seu assento.
— O outro cara? — perguntei.
— Aquele fazendeiro que estava hospedado aqui. Ele me encurralou e ameaçou cortar a minha língua se eu algum dia dissesse o seu nome a quem quer que fosse de novo. Ele falou que enfiaria minha língua goela abaixo, junto com as moedas. Eu pensei que ele ia fazer aquilo mesmo. Pensei no quão próximo eu havia chegado de... — Enzo engoliu em seco novamente. — Eu sabia que já não tinha muitas outras chances. A última coisa que Berdi me disse antes de partir foi que ela vira algo de bom em mim, e que estava na hora de eu também encontrar isso. Estou tentando fazer melhor do que antes. — Ele esfregou a lateral do rosto, a mão ainda tremendo. — É claro que não estou me saindo nem metade tão bem quanto Berdi. Tudo que consigo fazer é manter os quartos limpos para os hóspedes e preparar uma panelada de mingau pela manhã e outra de cozido à noite. — Ele apontou para a parede na extremidade mais afastada da cozinha. — Ela me deixou ordens anotadas. Para tudo. — Havia pelo menos uma dúzia de pedaços de papel presos à parede, garatujados com a escrita de Berdi. — Não consigo servir o jantar para um restaurante cheio ainda, mas talvez eu contrate alguém para me ajudar.
Natiya entrou na cozinha, com a espada amarrada à lateral do corpo, uma adaga na mão e um novo andar aprumado. Ela se apoiou na parede. Enzo olhou de relance para ela, mas nada disse. Nós havíamos voltado ao ponto de partida, e eu via a preocupação nos olhos dele. O rapaz sabia que nós o encarávamos como uma possível ameaça.
— Então você sabe quem eu sou de verdade? — perguntei a ele.
Pelo mais breve instante, vi a negação passar apressada pelos seus olhos, mas ele dispensou essa negação dando de ombros e assentiu.
— Berdi não me contou, mas ouvi falar sobre a princesa que estava sendo procurada.
— E o que foi exatamente que ouviu? — perguntou Kaden.
— Que qualquer cidadão pode matá-la assim que a vir e recolher uma recompensa. Sem perguntas.
Kaden sibilou e empurrou a mesa, afastando-se dela.
— Mas eu não vou contar a ninguém! — Enzo apressou-se a acrescentar. — Juro. Sei disso faz um bom tempo e tive muitas oportunidades de contar essa informação ao magistrado. Ele veio até aqui duas vezes, perguntando o que acontecera com Gwyneth, mas, em nenhum momento, soltei um pio que fosse.
Kaden se levantou e passou o dedo ao longo da parte sem corte da lâmina da faca, virando-a para que captasse a luz da lanterna, e depois apertou os olhos para Enzo.
— Até mesmo se o magistrado lhe oferecer um bom punhado de moedas?
O rapaz ficou com o olhar fixo na lâmina. Seu lábio superior estava coberto de gotas de suor e as mãos ainda tremiam, mas ele estava com o queixo erguido, com uma coragem que não lhe era característica.
— Ele já fez isso. Não mudou a minha resposta. Falei a ele que não sabia onde Gwyneth tinha ido.
— Lia? Um instante? — Kaden indicou a sala de jantar com a cabeça. Nós deixamos Natiya guardando Enzo. — Não confio nele — sussurrou Kaden. — Ele é um dedo-duro nojento que uma vez já trocou informações sobre você por moedas. E vai fazer a mesma coisa de novo no minuto em que sairmos daqui se não o silenciarmos.
— Você quer dizer... matá-lo?
Ele me respondeu com um firme olhar fixo.
Balancei a cabeça.
— Ele não tinha que nos contar que foi ele quem deu as informações sobre mim ao caçador de recompensas. As pessoas podem mudar.
— Ninguém muda tão rápido assim, e ele é o único em Morrighan que sabe que estamos aqui. E queremos fazer com que isso permaneça assim.
Andei em círculos, tentando pensar no assunto e chegar a uma decisão. Sem sombra de dúvida, Enzo era um risco, com um registro comprovado de falta de confiabilidade, se não ganância. No entanto, Berdi havia confiado nele com trabalho da sua vida inteira. E as pessoas podem mudar. Eu havia mudado. Kaden também.
E, pelo amor dos deuses, Enzo estava fazendo cozido. Cozido! E não havia um único prato sujo dentro da pia esperando para ser lavado. Eu me virei para ficar cara a cara com Kaden.
— Berdi confia em Enzo. Acho que deveríamos confiar nele também. E ele ainda parece abalado pelas ameaças do fazendeiro. Se você tiver que brandir a sua faca algumas vezes como um lembrete, que seja.
Ele me encarou, ainda não convencido, e por fim soltou um longo suspiro.
— Vou fazer mais do que brandir a minha faca se ele sequer olhar para algum nós de esguelha.
Nós voltamos para a cozinha e fizemos arranjos para dormirmos. Eu e Natiya lavamos roupas e as penduramos para secarem na cozinha, perto da lareira, visto que o tempo era curto. Fizemos uma varredura na cabana que eu havia divido com Pauline, em busca de outras roupas escondidas, e acabamos encontrando duas largas mudas de roupa de trabalho e alguns xales. Também avistei o lenço de pescoço de luto de Pauline. Natiya não teria que esconder seu rosto enquanto estivesse em Morrighan, mas eu precisaria fazer isso, e nada pode dispensar qualquer suspeita mais rapidamente do que o respeito por uma viúva. Kaden cuidou dos cavalos, e então todos nós fizemos uma incursão à copa de Berdi, encontrando comida para empacotarmos. Daqui em diante, não haveria mais fogueiras de acampamentos para cozinhar. Enquanto Enzo nos ajudava a encher as bolsas com comida, fiquei surpresa ao ouvir zurros de burro.
— É o Otto — disse ele, balançando a cabeça. — Ele sente falta dos outros dois.
— Otto ainda está aqui? — Apanhei o lenço de pescoço de viúva e joguei-o sobre a minha cabeça para o caso de alguns dos hóspedes estar ali por perto e saí correndo pela porta até o cercado.
Fiz carinho em Otto, cocei as suas orelhas e fiquei ouvindo as suas reclamações, cada som de hesitação e lamúria soando como se fosse uma nota musical. Isso me levava de volta ao dia em que eu e Pauline havíamos chegado em Terravin, montadas nos nossos burros e descendo com eles a rua principal, achando que as nossas vidas aqui durariam para sempre. Otto me cutucou com o focinho macio e pensei no quão solitário ele deveria estar sem os seus companheiros.
— Eu sei — falei, baixinho. — Nove e Dieci vão voltar logo. Prometo. — Mas eu sabia que minha promessa era vazia, nascida apenas da conveniência e...
As palavras de Rafe arrastaram-se por mim mais uma vez, com uma linha emaranhada me puxando até debaixo de um lugar onde eu não conseguia respirar. Disse o que achava que você precisava ouvir na época. Estava tentando lhe dar esperança.
Desviei de Otto, com a minha amargura vindo em uma grande onda. Rafe me dera falsas esperanças e me fizera perder tempo. Entrei no celeiro e fiquei com o olhar fixo na escada que dava para o palheiro acima e, por fim, subi a escada até lá.
O palheiro estava parcamente iluminado, com uns poucos feixes perdidos de luz passando pelas vigas. Havia dois colchões no chão, que em momento algum chegaram a ser guardados depois da nossa partida apressada. Havia uma camisa esquecida pendurada no espaldar de uma cadeira. Uma garrafa de vidro coberta de poeira estava em cima de uma mesa no canto. Na extremidade mais afastada, havia pilhas de engradados e uma manjedoura vazia. Meu coração martelou no peito enquanto eu caminhava em direção a ela. Não olhe, Lia. Deixe isso para lá. Você não se importa com isso. Mas não consegui me impedir de fazê-lo.
Puxei a manjedoura alguns centímetros de modo que pudesse ver atrás dela. Lá estava, exatamente como ele havia me dito, uma pilha de tecido branco sujo. Senti a língua inchar e ficar salgada, e o ambiente, de súbito, parecia não ter mais ar, tornando difícil a respiração. Estiquei a mão para baixo e ergui o vestido do lugar onde ele estava escondido. Uma chuva de pedacinhos de palha caiu no chão. Ele estava rasgado em vários lugares, e a bainha, manchada de lama. Sangue vermelho como um tijolo manchava o tecido. O sangue dele. Foi assim que ele adquiriu os cortes nas mãos, ao arrancar e soltar o vestido dos arbustos espinhentos em que eu o havia jogado. O vestido me fazia pensar na moça que o usara. O mesmo vestido que eu tinha rasgado com tanto ódio e que havia jogado fora. Meus joelhos cederam, e caí no chão. Segurei a roupa junto ao rosto, tentando bloquear a imagem de Rafe da minha mente, mas tudo que eu conseguia ver era ele tirando o vestido dos arbustos espinhentos, enfiando-o na bolsa, se perguntando como eu seria, da mesma forma que eu tinha pensado nele.  Mas eu havia pensado em todas as coisas erradas.
Eu imaginara que ele fosse apenas um filhinho do papai e um covarde. Não um...
— Lia? Está tudo bem?
Ergui o olhar. Kaden estava parado no topo da escada. Eu me pus de pé e joguei o vestido para trás da manjedoura de novo.
— Sim, estou bem — respondi, continuando de costas para ele.
— Eu ouvi alguma coisa. Você estava...
Limpei as bochechas e alisei a frente da minha camisa antes de me virar para ficar cara a cara com ele.
— Tossindo. A poeira está intensa aqui em cima.
Ele veio andando até mim, com o chão rangendo sob suas passadas, e baixou o olhar para me encarar. Kaden passou o polegar ao longo dos meus cílios molhados.
— É só a poeira — falei.
Ele assentiu e deslizou os braços ao me redor, levando-me junto a si.
— Claro. Poeira. — Eu me deixei reclinar junto a ele, que fez carinho nos meus cabelos, e senti a dor no peito dele tão fortemente como eu sentia no meu próprio peito.

* * *

Estava tarde. Natiya já estava enfiada na cama na cabana, e Enzo dormia no quarto de Berdi. Eu e Kaden estávamos sentados na cozinha enquanto eu o interrogava em relação a quaisquer outros detalhes que ele poderia saber sobre o plano do Komizar, mas sentia que ele estava ocupado com outros pensamentos. Fiquei grata por ele não ter trazido o assunto à tona de novo, mas sabia que o momento que passamos juntos no celeiro pesara sobre ele. Fora apenas um minuto passageiro e de cansaço em que ele me encontrara com a guarda baixa. Só isso. Depois de uma tigela de pescado, que surpreendentemente estava quase tão boa quanto o de Berdi, eu me sentia fortificada, pronta para seguir em frente.
Agora Kaden aguentava com paciência perguntas que eu já tinha feito. As respostas eram as mesmas. Ele só sabia do Chanceler. Talvez ele e o Erudito Real fossem os únicos traidores no gabinete. Seria possível?
Meus relacionamentos com todos os membros dos gabinetes eram, na melhor das hipóteses, instáveis, exceto talvez pelo Vice-Regente e pelo Mestre da Caça. Aqueles dois geralmente me ofereciam um sorriso e uma palavra bondosa quando eu entrava em um aposento, em vez de uma cara feia me dispensando. Contudo, o posto do Mestre da Caça no gabinete era na maior parte cerimonial, um vestígio de outrora, quando encher a despensa estava entre os deveres primordiais do gabinete.
Na maior parte do tempo, ele nem mesmo ocupava um lugar nas reuniões do gabinete. A Primeira Filha Real também tinha um lugar cerimonial nessas reuniões, mas minha mãe raramente era convidada à mesa deles.
Meus pensamentos voltaram para o Vice-Regente.
— Pauline vai falar com ele em primeiro lugar — falei a Kaden. — De todo o gabinete, ele sempre foi o que ouvia com mais empatia.
Mordi os nós dos dedos. Viagens frequentes, visitas a outros reinos, essas eram as coisas que faziam parte do trabalho do Vice-Regente, e fiquei preocupada que ele pudesse ter saído de Morrighan. Se assim o fosse, Pauline iria falar diretamente com o meu pai, sem compreender de forma completa o temperamento dele.
Kaden não estava respondendo ao que eu dizia; em vez disso, estava fitando de forma inexpressiva o outro lado do aposento. De repente, ele se levantou e foi até a despensa, remexendo em meio aos suprimentos.
— Eu tenho que ir. Não fica longe daqui. Uma hora a oeste de Luiseveque, no condado de Düerr. Não vamos perder tempo. — Ele indicou um ponto de encontro onde se encontraria comigo e com Natiya a norte no dia seguinte e me disse para pegar uma trilha em meio à floresta. — Ninguém vai ver você. Você estará a salvo.
— Está de partida agora? — Levantei e puxei um saco de carne salgada das mãos dele. — Você não pode cavalgar à noite.
— Enzo está dormindo. Esta é a melhor hora para confiar nele.
— Você também precisa descansar, Kaden. O que...
— Vou descansar quando chegar lá. — Ele pegou a carne de volta e começou a arrumar sua bolsa. Meu coração ficou acelerado. Isso não era algo típico dele.
— O que há de tão urgente no condado de Düerr?
— Preciso cuidar de uma coisa, de uma vez por todas.
Os músculos no pescoço dele estavam como que cordões estirados, e ele continuava com o seu olhar contemplativo desviado do meu. E, então, eu soube.
— Seu pai — falei. — Ele é lorde desse condado, não é?
Kaden assentiu.
Fui para o lado, tentando me lembrar dos lordes dos condados. Havia 24 deles em Morrighan, e eu não sabia os nomes da maior parte deles, especialmente não daqueles lá nos distantes condados ao sul, mas eu sabia que esse lorde poderia não ficar vivo por muito mais tempo.
Eu me sentei em uma banqueta no canto, na mesma em que Berdi havia uma vez cuidado meu pescoço.
— Você vai matá-lo? — perguntei a Kaden.
Ele fez uma pausa, e então, por fim, puxou uma cadeira e sentou-se nela com as pernas abertas junto ao seu espaldar, entornado.
— Eu não sei. Achei que só quisesse ver o túmulo da minha mãe. Ver onde eu vivi uma vez, o último lugar onde eu estava... — Ele balançou a cabeça. — Não posso simplesmente deixar isso de lado, Lia. Eu tenho que vê-lo pelo menos uma última vez. Isso é uma coisa inacabada dentro de mim, e essa poderia ser a minha última oportunidade de entender alguma coisa disso tudo. Eu não sei o que vou fazer até que o veja.
Não tentei dissuadi-lo da ideia com conversas. Eu não sentia qualquer empatia para com aquele lorde que havia chicoteado o seu jovem filho e que depois o vendera a estranhos como se fosse lixo. Algumas traições são muito profundas para serem perdoadas um dia.
— Tome cuidado — falei.
Ele esticou a mão, apertando a minha, e a tormenta nos olhos foi duplicada.
— Amanhã — disse ele. — Vou estar lá. Prometo.
Ele se levantou para ir embora, mas então parou à porta da cozinha.
— O que foi? — perguntei.
Ele virou para ficar cara a cara comigo.
— Há outra coisa que está inacabada. Preciso saber. Você ainda o ama?
A pergunta dele me cortou como uma faca. Eu não havia esperado por ela, embora devesse. Eu via a dúvida nos olhos de Kaden todas as vezes em que ele olhava para mim. Ele sabia, quando me abraçara no palheiro, que não era com poeira que eu tinha me engasgado. Eu me levantei e fui andando até a mesa de cortar carne, incapaz de olhar nos olhos dele, e me desfiz de migalhas imaginárias.
Eu não havia permitido sequer a mim mesma ficar muito tempo pensando nisso. Amor. Parecia tolo e indulgente à luz de todo o resto. Será que isso realmente importava? Eu me lembrava da risada cínica de Gwyneth quando disse a ela que queria me casar por amor. Ela já sabia do que eu ainda nem havia captado nem um pouco que fosse. Isso nunca terminava bem, para quem quer que fosse. Não para Pauline e Mikael. Não para os meus pais. Walther e Greta. Até mesmo Venda era prova disso, saindo em cavalgada com um homem que, no fim das contas, a destruiria. Pensei na menina Morrighan, roubada da sua tribo e vendida como noiva a Aldrid, o abutre, por um saco de grãos. De alguma forma, eles haviam construído um reino juntos, mas que não fora erguido com base no amor.
Balancei a cabeça.
— Nem mesmo sei mais ao certo o que é o amor.
— Mas as coisas entre nós são diferentes de como eram com... — ele deixou a pergunta pairando no ar, como se fosse doloroso demais falar o nome de Rafe.
— Sim, as coisas são diferentes entre nós — falei, baixinho. Ergui o meu olhar de encontro ao dele. — Sempre foram, Kaden, e se você for honesto consigo mesmo, verá que também sempre soube disso. Desde o começo, você disse que Venda vinha em primeiro lugar. Não sei explicar exatamente como os nossos destinos vieram a ficar entrelaçados, mas isso aconteceu... e agora nós dois nos importamos tanto com Venda quanto com Morrighan, e desejamos um final melhor para ambos os reinos do que o planejado pelo Komizar. Talvez tenha sido isso o que nos levou a nos unirmos. Não subestime o elo que partilhamos. Grandes reinos foram construídos com base em muito menos do que isso.
Ele me fitou, com inquietude nos olhos.
— Em nosso caminho até aqui, as coisas que você raspou na terra, o que eram?
— Palavras, Kaden. Apenas palavras perdidas e não ditas que resultaram em um adeus.
Ele puxou o ar, respirando lenta e profundamente.
— Eu estou tentando encontrar o meu caminho em meio a isso tudo, Lia.
— Eu sei disso, Kaden. Também estou tentando encontrar o meu.
Ele permaneceu com o olhar contemplativo fixo em mim. Por fim, Kaden assentiu e saiu. Fui andando até a porta, observei-o enquanto ele saia cavalgando, com a noite sem luar engolindo-o em segundos. Eu sentia a dor do desejo dele, a dor pelo que eu não poderia dar a ele, cuja necessidade era mais profunda e ia mais longe do que a minha.
Voltei à cozinha e soprei a lanterna para apagá-la, mas não consegui deixar que a noite se fosse. Eu me reclinei junto à parede onde havia papéis presos, listas que tentavam se prender à vida que Berdi havia trocado por outra havia décadas. Sob a luz fraca, as bordas indistintas da cozinha dela tornavam-se um mundo distante de voltas, viradas e escolhas não mapeadas, escolhas estas que haviam tecido e definido a vida de Berdi.
Você se arrepende de não ter ido?
Eu não posso pensar em coisas assim agora. O que está feito, está feio. Fiz o que tinha que fazer na época.
Pressionei as mãos na fria parede atrás de mim.
O que estava feito, estava feito. Eu não podia mais pensar naquilo.

* * *

Cedo, na manhã seguinte, ataquei o guarda-roupa de Berdi e encontrei apenas uma parte daquilo de que eu precisava.
— Natiya, você é boa com uma agulha?
— Muito boa — ela respondeu.
Eu havia suspeitado disso. Desfazer uma bainha, esconder uma faca em um manto e depois costurá-la de novo em uns poucos e preciosos minutos? Isso era algo que requeria uma habilidade que eu com certeza não tinha, para o grande desgosto de minha tia Cloris.
Pedi moedas a Enzo. Eu havia usado todo o dinheiro que Rafe colocara na minha bolsa para os mensageiros em Turquoi Tra. Enzo não hesitou e puxou um saco do barril de batatas na despensa. Ele jogou para mim a coisa toda. Não era muito, mas aceitei as moedas com alegria e enfiei-as na bolsa, assentindo em agradecimento.
— Direi a Berdi que você está fazendo um bom trabalho aqui. Ela vai ficar satisfeita.
— Você quer dizer que ela vai ficar pasma — disse ele timidamente.
Dei de ombros, incapaz de negar isso.
— Pasma também. Mas lembre-se, Enzo, de que você nunca pôs os olhos em mim.
Ele assentiu, um entendimento passou pelos olhos dele, e fiquei me perguntando sobre a sua transformação. As ameaças de Rafe sem sombra de dúvida haviam captado a atenção dele, mas eu sabia que era a magia da confiança de Berdi que o havia transformado. Eu só precisava rezar para que a mudança fosse duradoura.
Nós saímos de fininho, silenciosos como a noite, tomando cuidado para não acordarmos os hóspedes.

* * *

A funcionária na loja mercantil ficou feliz em nos ver. Nós éramos seus primeiros clientes do dia, e os únicos. Eu vi quando ela apertou os olhos, tentando espiar pela cobertura do lenço de pescoço branco a fim de olhar para o meu rosto. Perguntei se ela teria cetim vermelho, e ela não tentou esconder a surpresa. A maioria das viúvas estaria pedindo por tecidos mais sóbrios e respeitosos.
Natiya surpreendeu-me com a sua explicação rápida.
— Minha tia deseja fazer uma tapeçaria em honra ao seu falecido marido, cuja cor predileta era o vermelho.
Acrescentei um rápido soluço mesclado com choro e assenti para causar efeito.
Em poucos minutos, estávamos seguindo o nosso caminho, com um metro extra de tecido, colocado a mais pela solidária funcionária.
Nós tínhamos que fazer mais uma parada. Aquilo de que eu precisava já não poderia ser comprado com moeda corrente. Eu só tinha esperanças de que tivesse o tipo de moeda que se fazia necessário.

14 comentários:

  1. Queria q a lia ficasse com o Kaden. Ele é tão fofo

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  2. Eu ainda acho que ela vai ficar com ele...

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    1. Acho que Kaden vai ficar com Pauline

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  3. Gente, porque é tão difícil esses dois ficarem juntos??! Gente esse é um otpzão

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    1. O destino da lia já tá entrelaçado com o do Rafe

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    2. A Pauline vai ficar com o André o filho do vice regente e o Kaden com Lia é o que acho

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  4. Ah droga! O Kaden vai ficar com a Pauline, a Lia vai ficar com o Rafe e eu vou ficar puta que desfez meu ship!

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  5. Gente alguém me responda?
    Vejo muitos comentando que eles deveriam ficar juntos. Esse é o último livro. E já estamos indo pra metade.
    Do que adianta eles ficar juntos se a maior parte e se não quase tudo eles ficaram separados?
    Não mostrar o que viveram?
    Só casamento e filho?
    Não é o bastante

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  6. Desde que ele falou do bebê nos braços, eu acredito que ficará com Pauline.

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  7. Concordo que Kaden ficará com a Pauline, pois olha a reação dele quando chegou na taverna preocupado com a Pauline iria tratar ele.

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  8. Acho q a autora ja esta dando dicas q o kaden vai ficar com pauline..a lia vai continuar amando o rafe na minha opiniao..so nao sei se ela vai ser rainha dele ou do proprio povo

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  9. Admiro a Lia, ela supera muito rápido as maldades que outros fizeram a ela, já estou até me preparando para o momento em que ela vira confidente do Komizar, parece até exagero no livro. O objetivo da minha vida é ser como ela.

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  10. Aff... Perguntar se ela ainda ama Rafe com apenas alguns dias de separação? E ela ainda ter dúvida? Então nunca amou. Pra esquecer assim, rápido ou não ter certeza? Nunca foi amor. Quando é que os autores vão parar de usar o amor de forma tão fútil assim?

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  11. Kaden desencana meu anjo, a Lia não vai ficar com vc. Aceita que doi menos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!