16 de fevereiro de 2018

Capítulo 42

Calantha escoltou-me até a câmara de banho. Embora minha porta não estivesse mais trancafiada como se eu fosse uma prisioneira, minhas novas liberdades, ao que tudo indicava, ainda requeriam guardas postados na extremidade do meu corredor, apenas por precaução, clamava o Komizar, e eu não tinha dúvidas de que eles relatavam para ele todas as vezes em que eu até mesmo colocava a cabeça para fora da porta. Eu também tinha escoltas, que eram, em essência, outros guardas, para todas as partes aonde quer que eu fosse. Na noite passada, quanto Calantha havia caminhado comigo até meus aposentos, ela não havia falado uma palavra sequer. Esta manhã parecia trazer mais do mesmo tratamento.
Nós entramos na sombria câmara de banho, em que não havia janelas, que era iluminada apenas por umas poucas velas, mas, dessa vez, no lugar de um barril de madeira, havia uma grande tina de cobre, que estava cheia de água pela metade, e ondas de vapor brilhavam acima da superfície. Um banho quente. Eu não havia pensado que tal coisa existisse por aqui. O doce aroma de rosas enchia o ar. E óleos de banho.
Ela deve ter notado a hesitação nos meus passos.
— Um presente de noivado do clã — explicou-me ela com a voz inexpressiva, e sentou-se em uma banqueta, acenando para mim em direção à tina.
Despi-me do robe e entrei, aliviada, na água escaldante. Esse era o primeiro banho quente que eu tomava desde que deixara o acampamento dos nômades. Eu quase poderia ter me esquecido de onde estava, não fosse pelo olho azul feito de bijuteria de Calantha fixo em mim, e seu olho leitoso olhando, sem foco, nas sombras.
— A que clã você pertence? — perguntei a ela.
Isso chamou a atenção dela. Seus dois olhos estavam focados em mim agora.
— A nenhum — foi a resposta dela. — Eu nunca vivi fora do Sanctum.
Essa revelação me deixou confusa.
— Então por que você fez com que eu trançasse meus cabelos de forma a deixar exposto o meu kavah?
Ela deu de ombros.
Afundei na tina.
— É assim que você resolve todos os seus problemas, não é? Com indiferença.
— Eu não tenho problemas, Princesa.
— Eu sou um problema seu, isso é certo; no entanto, até mesmo isso é um mistério para mim. Você ao mesmo tempo me incita e me frustra, como se não conseguisse se decidir.
— Não faço uma coisa nem outra. Sigo ordens.
— Eu acho que não — contra-ataquei, e passei uma esponja embebida em sabão pela minha perna. — Eu acho que você está mexendo com um pouco de poder, mas não sabe muito bem ao certo o que fazer com isso. Você testa sua força agora, você a traz para fora de seu esconderijo, mas então a afasta de novo. Toda sua audácia fica do lado de fora. Por dentro, você se acovarda.
— Acho que você consegue tomar banho sozinha. — Ela levantou-se para ir embora.
Peguei um punhado de água e joguei nela, borrifando sua face.
Calantha se enfureceu, e sua mão voou até a adaga que estava em seu quadril. Seu peito erguia-se em profundas e raivosas respirações.
— Estou armada. Isso não a deixa preocupada?
— Estou nua e desarmada. Eu seria uma tola se não ficasse preocupada. Mas eu fiz isso mesmo assim, não fiz?
O olho dela ardia em chamas. Não havia qualquer indiferença em sua face agora. Seus lábios ergueram-se em um sorriso de desdém e condescendência.
— Eu já fui como você, Princesa. As respostas eram simples. O mundo estava nas pontas dos meus dedos. Eu era jovem, estava apaixonada, e era a filha do homem mais poderoso nesta terra.
— Mas o homem mais poderoso nesta...
— Isso mesmo. Eu era a filha do último Komizar.
Inclinei-me para a frente na tina de banho.
— Aquele que...
— Sim, aquele que seu noivo matou onze anos atrás. Eu o ajudei a fazer isso. Então agora você sabe, eu sou bem capaz de ser audaz. Planejar a morte de alguém não é tão difícil.
Ela se virou e foi embora, e a porta pesada fechou-se ruidosamente atrás dela.
Fiquei ali plasmada, sem saber ao certo o que pensar. Ela havia acabado de ameaçar orquestrar a minha morte? Eu era jovem e estava apaixonada. Pelo Komizar? O que será que ela pensou quando ficou sabendo do nosso casamento? Seria por isso que ela andava tão calada? Com certeza, agora ela teria mais motivos para me matar.
Terminei o meu banho, cujo luxo se fora agora. Esfreguei meus braços com a esponja, tentando pensar apenas nos banhos em que Pauline esfregava minhas costas e eu esfregava as dela, em como nós fazíamos jorrar jatos quentes de água de rosas em cima uma da outra, os banhos em que sorríamos e falávamos sobre amor, futuro e todas as coisas partilhadas por amigas... não assassinato. Eu não conseguia absorber isso muito bem. Calantha havia ajudado o Komizar a matar seu próprio pai.
E, ainda assim, ela não havia sacado sua adaga para mim, embora eu tivesse visto a fúria em seus olhos. Eu a havia forçado, exatamente como pretendia, mas não obtive a resposta que tinha esperado. Ainda assim, muita coisa foi revelada. No bater de um coração, em um segundo, por baixo de todo aquele escárnio que mascarava sua face, eu vi uma menina, uma Calantha mais jovem, sem o tapa-olho, eu estava aterrorizada. Um pequeno vislumbre da verdade.
Ela sente medo.
Medo e thannis eram as duas coisas que pareciam crescer facilmente neste reino.

* * *

Quando saí da câmara de banho, Calantha havia deixado dois guardas mirrados e de bochechas macias como minhas escoltas em seu lugar. Aparentemente, ela havia tido o bastante de mim por um dia. Eu também tivera o bastante dela. Comecei a me virar em uma direção, e ambos os guardas deram um passo à frente para me bloquear.
— Eu não preciso da sua escolta — falei. — Estou indo...
— Fomos ordenados a levá-la de volta para seus aposentos — disse um deles, cuja voz soava irregular, e ele alternava-se de um pé para o outro. Os dois guardas trocaram um temeroso olhar de relance, e eu avistei um nó de couro no pescoço do mais baixo deles, sob seu colete. Ele usava um amuleto para proteção. Sem dúvida o outro também usava um. Assenti devagar, notando suas expressões cautelosas, e começamos a caminhar na direção que eles me indicaram, cada um deles a um lado meu. Quando cheguei à parte mais escura do corredor, parei abruptamente. Fechei os olhos, as mãos estiradas nas minhas coxas.
— O que há de errado com ela? — sussurrou um deles.
— Recue — disse o outro.
Fiz uma careta.
Ouvi ambos se afastando para trás.
Tremi as pálpebras e as abri até que meus olhos estivessem arregalados e com ares de loucura.
Ambos os guardas estavam colados na parede.
Abri a boca devagar, cada vez mais, até estar certa de que eu parecia um bacalhau boquiaberto.
E então soltei um grito de coagular o sangue.
Eles dois desceram correndo o corredor, desaparecendo tão rapidamente nas sombras que fiquei impressionada com sua agilidade.
Eu me virei, satisfeita porque eles não voltariam por este caminho novamente, e segui na direção oposta. Era a primeira vez em que eu havia feito do dom um engodo desde que eu estava aqui. Se não me seriam entregues de bandeja as liberdades que recentemente fiz por merecer, parecia que eu teria que agarrá-las à força. Havia segredos a apenas poucos passos de distância que eu tinha o direito de conhecer.

* * *

As cavernas bem profundas debaixo do Sanctum estavam silenciosas. Apenas um pouco de luz emprestada de uma lanterna do corredor do lado de fora me ajudava a passar por ali. Entrei em uma longa e estreita câmara que havia estado, isso era claro, em uso recentemente. Um pedaço de pão comido pela metade estava embrulhado em um tecido encerado. Havia livros abertos em cima de uma mesa. Números e símbolos que não faziam qualquer sentido para mim estavam rabiscados em folhas de papel e não davam uma pista sequer sobre de onde viriam os estranhos homens que trajavam robes. Vários e minúsculos frascos vedados cheios de um líquido claro ladeavam a parte de trás de outra mesa. Levantei um deles e ergui-o contra a luz. Seria o próprio estoque de bebidas alcoólicas deles? Recoloquei-o no lugar e procurei pelos cantos mal iluminados, mas nada consegui achar.
Esta câmara não tinha sido meu destino pretendido, mas, enquanto eu passava por seu estreito portal, fui repentinamente sobrepujada por um calafrio. Ali. Minha pele ficou arrepiada. A palavra pressionada pesadamente contra meu peito como se fosse a mão de alguém me detendo. Ali. Eu tinha certeza de que era o dom falando, uma corrente de ar dentro do aposento que me alcançava, mas, quando não conseguia achar nada, duvidei de mim mesma, perguntando-me se não seria apenas um dos ventos frios neste submundo cavernoso. Dei uma última e longa olhada para o conteúdo deste aposento e segui em frente.

* * *

Aster estava certa. O túnel dava somente para rochas molhadas e engrenagens, os movimentos ocultos da ponte. O rio rugia apenas a alguns passos de mim, e eu já estava molhada com sua neblina. Seu poder era incrível e assustador, e eu me perguntava quantas vidas haviam sido perdidas apenas na tentativa de construir um caminho que o cruzasse.
Meu ânimo afundou quando examinei as engrenagens. Elas faziam parte de um elaborado sistema de polias com rodas tão massivas quanto aquela que eu tinha visto mais alta no penhasco na entrada de Venda.
— Não tem jeito... — falei para mim mesma, E, ainda assim...
Eu não conseguia exatamente me arrastar para longe dali. A engrenagem inferior estava presa na rocha que a cercava. Tratava-se de uma descida escorregadia, e o rio que se revolvia abaixo fazia com que eu olhasse duas vezes onde pisava, mas minha curta ascensão nada revelou que me ajudasse. Na verdade, apenas confirmou que nós não sairíamos dali pela ponte.

3 comentários:

  1. 😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂

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  2. Sei não viu. vai acabar sendo pega.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!