2 de fevereiro de 2018

Capítulo 42

Não havia muita coisa a empacotar. Tudo que eu tinha caberia em uma bolsa dupla de sela e ainda sobraria espaço. Eu não estava levando comigo as roupas novas que tinha comprado. Deixaria essas aqui, para Pauline, já que não poderia vesti-las em Civica de qualquer forma. Eu levaria um pouco de comida também, mas, dessa vez, ficaria em estalagens ao longo do caminho. Essa fora uma das concessões que eu fizera quando Pauline jogou na minha cara a bolsinha de joias que eu tinha dado a ela. Nós duas discutimos a tarde toda. Também troquei palavras com Berdi, mas, por fim, ela aceitou que eu precisava ir embora. Quanto a Gwyneth, acho que ela soube o tempo todo, até antes de mim.
Mas Pauline havia ficado feroz de um jeito como eu nunca vira antes. Por fim, ela saiu da taverna batendo os pés quando puxei minha bolsa do armário. Eu não podia dizer a ela que um dos rostos que eu vira na campina era o dela. Um rosto como o de Greta, de olhos abertos mas sem ver nada, mais uma pessoa morta se eu não fizesse alguma coisa.
Fosse a aliança acabar sendo eficaz ou não, eu não poderia arriscar a chance de mais uma pessoa que eu amava ser destruída. Olhei ao redor da pequena cabana para ver se eu esquecera alguma coisa e vi minha guirlanda de flores de lavanda pendurada na cabeceira da cama. Eu não poderia levá-la comigo. As flores secas só seriam esmagadas na sacola da sela. Ergui a guirlanda e segurei-a junto à minha face, sentindo o aroma que desaparecia. Rafe.
Cerrei os olhos, tentando fazer a ferroada sumir. Mesmo não havendo nada que ele pudesse dizer nem fazer para que eu mudasse de ideia, achei que ele pelo menos tentaria me convencer a desistir. Mais do que tentar... exigiria isso. Eu queria que ele me desse centenas de motivos pelos quais eu deveria ficar. Ele não tinha me dado nem mesmo um. Era tão fácil assim me deixar partir?
Eu entendo de deveres.
Limpei as lágrimas que rolavam pelas minhas bochechas.
Talvez ele tivesse visto isso no meu rosto. Talvez tivesse ouvido a determinação na minha voz. Era possível que ele estivesse tentando tomar as coisas mais fáceis para mim.
Era possível que eu apenas estivesse inventando desculpas para ele.
Lia, tenho que cuidar de um assunto logo de manhã, mas, lá pelas onze horas, vou me encontrar com você na cisterna azul para um último adeus. Você não deve estar muito mais longe do que isso a essa hora. Prometa que vai me encontrar lá.
Que bem traria dizer um último adeus? Aquilo apenas não prolongaria a dor? Eu devia ter negado o pedido, mas não consegui. Vi a angústia no rosto dele, como se batalhasse contra algo maior e cruel. Minhas notícias o haviam deixado abalado. Talvez fosse tudo que eu precisava, algum sinal de que ele não queria que eu fosse embora.
Ele me puxou para seus braços e me beijou com gentileza, com doçura, como da primeira vez em que me beijara, cheio de remorsos como estivera naquela noite.
— Lia — disse ele em um sussurro. — Lia. — E eu ouvi as palavras Eu te amo, mesmo que ele não as tivesse proferido.

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