20 de fevereiro de 2018

Capítulo 41

Lições foram aprendidas; quilômetros, cobertos; mensagens, enviadas; dias de chuva, suportados; discussões, resolvidas; armas, dominadas. Natiya estava exausta, como deveria mesmo ter ficado. Eu tinha prometido a ela que isso não seria um passeio, e eu me certifiquei de que não fosse. Às vezes, ela olhava para mim com ódio, e em outros momentos eu a abraçava enquanto ela segurava, engasgando-se, soluços e choros. Ensinei a ela tudo o que eu sabia e me certifiquei de que o restante do pessoal fizesse o mesmo. Natiya tinha tantos ferimentos, tantos nós e tantas bolhas quanto eu. Os braços dela doíam por lançar uma faca. Fiz com que a menina usasse os dois braços até que a mira de um deles estivesse tão boa quanto a do outro: e então rezei para que ela não tivesse que usar nenhuma das suas recém-adquiridas habilidades.
Natiya fez as pazes de um jeito inquieto com Kaden, porque falei que ela deveria fazer isso se fosse cavalgar conosco. Eu via como isso o alfinetava. Para ele, a pequena parcela de tranquilidade e aceitação que ele encontrava no mundo dos nômades estava eternamente perdida. De vez em quando, ele parecia perdido para tudo, fechando os olhos, bem apertados, quando achava que ninguém estava vendo, como se estivesse ver onde ele se encaixava com um tipo de diferente de olhar, mas então falava sobre alguma parte de Venda, uma parte que não pertencia ao conselho nem ao Komizar, e eu via a força no seu olhar contemplativo novamente.
A morte de Dihara se deu quando estávamos fora havia duas semanas. Eu tinha acabado de falar as memórias sagradas quando a vi no topo de uma colina soprada pelo inverno. Ela estava sentada junto à sua roca de fiar, com o seu pedal clicando o ar, ramalhetes de pele e lã e linheiros girando, longos rebentos espiralando-se, erguendo-se com a brisa. Eles se tornavam as cores crepusculares do pôr do sol — cor de rosa, ametista e cor de laranja — estirando-se em leque acima de mim, um rubor cálido colorindo o céu, roçando a minha bochecha, sussurrando: Histórias mais grandiosas terão a sua vez.
Então, outros se reuniram na colina, observando-a. Aqueles que eu tinha visto antes, e o número crescia a cada momento em que vinham. Começou com o meu irmão e Greta. Depois, uma dezena de pessoas dos clãs de cada lado. Effiera e as outras costureiras. Um pelotão de soldados. Então, Venda e Aster... Não demore, senhorita... as faces que eu tinha visto e as vozes que eu tinha ouvido muitas vezes nas últimas semanas. Todos eles pouco mais do que um fio de ar, um lampejo de luz do sol perdida e um silêncio batendo e correndo pelas minhas veias. Uma loucura, um saber, circulando, repetindo-se, um feixe de espinhas cortando a fundo o meu coração.
Tinha que ser alguém. Por que não você?
Vozes que não me deixariam esquecer.
Eles estão esperando.
Uma promessa, um juramento saído dos meus lábios em resposta.
Ninguém mais os via. Eu não precisava perguntar para saber. Os sons rotineiros do acampamento sendo montado não perdiam qualquer batida. Ninguém virava a cabeça. Nenhum passo ficava hesitante.
Ah, você de novo, disse Dihara, virando-se para ficar cara a cara comigo. A roca de fiar ainda girava, os presentes espiralavam-se, os tendões esticavam-se. Confie na força que existe dentro de você e ensine-a a fazer o mesmo.
Olhei por cima do meu ombro, para Natiya, que estava acabando de tirar as botas, preparada para cair no saco de dormir. Fui andando até ela e peguei-a pela mão.
— Nós não acabamos ainda.
— Estou cansada — disse ela.
— Então vá montar acampamento em algum outro lugar. Deixe que os pachegos comam você agorinha mesmo.
— Não existe essa coisa de pachego.
— Quando eles estiverem mastigando e comendo os seus pés porque você não se preparou, pode ser que pense diferente.

* * *

Fiquei surpresa com o quão pouco Natiya entendia do dom. Como era possível isso quando ela havia vivido com Dihara? No entanto, eu me lembrei do que a velha dissera. Há aqueles que são mais abertos a compartilharem as coisas do que outros.
— O saber é uma verdade que você sente aqui e aqui — falei para Natiya. — É conexão. É o mundo se estendendo até nós. Ele passa como um lampejo por trás dos nossos olhos, curva-se nas nossas barrigas e, às vezes, dança pelas nossas colunas. As verdades do mundo desejam ser conhecidas, mas elas não vão se forçar para cima de nós da forma que as mentiras farão. As verdades do mundo vão nos cortejar, falar em sussurros conosco, entrar em nós de fininho, esquentar o nosso sangue e acariciar o nosso pescoço até nos dar calafrios. Essa é a verdade sussurrando para você. Mas você precisa aquietar o seu coração, Natiya. Dar ouvidos. Confiar na força que reside dentro de você.
Depois de uns poucos momentos em silêncio, ela gritou, frustrada:
— Eu não entendo!
Segurei-a pelo pulso enquanto ela se virava para sair, furiosa.
— Isso é sobrevivência, Natiya! Um sussurro que pode salvar você! Um outro tipo de força com que os deuses nos abençoaram. A verdade não precisa sempre vir na ponta de uma espada!
Ela me olhou com ódio. Eu podia ver nos olhos dela que, por ora, o aço com o gume afiado era o único tipo de poder que ela buscava. Senti algo ceder dentro de mim. Eu também podia entender aquele tipo de verdade.
— É bom ter muitas forças, Natiya — falei, em um tom mais gentil, lembrando-me da plenitude fria da faca na minha mão enquanto eu a enfiava nas entranhas do Komizar. — Não sacrifique um tipo de força em prol de outro.

* * *

Certa noite quando tanto eu quanto Natiya estávamos cansadas demais para praticar qualquer coisa que fosse, e depois de eu sentir que poderia ser o nosso último acampamento juntas antes de chegarmos às fronteiras de Morrighan, esvaziei o meu alforje para pegar os antigos textos que tinha empacotado. Estava na hora de ensinar a ela a respeito do que viera antes, não apenas sobre ao que estávamos nos dirigindo. Tudo que encontrei fora Os Últimos Testemunhos de Gaudrel. Remexi o conteúdo do alforje novamente, chacoalhando minha camisa e minha camisola dobradas. A Canção de Venda se fora. Entrei em frenesi, perguntando-me quem teria remexido a minha bolsa. Eu sabia que tinha colocado com cuidado ambos os finos livros no fundo dela.
— Você tem certeza de que os empacotou? — perguntou-me Tavish.
Olhei com ódio para ele.
— Sim! Eu me lembro de quando... — Prendi a respiração. A bolsa ficara em minha posse pela jornada inteira... exceto no início, quando eu havia a entregado a Rafe. Ele insistira em carregá-la. Haviam se passado menos do que uns poucos minutos enquanto caminhávamos, mas em algum momento eu desviara o olhar enquanto verificava o meu cavalo e os meus suprimentos. Ele tinha roubado aquilo? Por quê? Rafe achava que roubando a Canção de Venda faria com que as verdades desaparecessem também? Ou que isso fosse abalar a minha determinação?
— Lia? — Natiya olhou para mim com preocupação nos olhos. — Está tudo bem?
Roubar o livro não mudaria nada.
— Estou bem, Natiya. Venha me ajudar a fazer uma fogueira. Tenho várias historias para contar a você, e espero que se lembre delas, palavra por palavra, caso alguma coisa venha a acontecer comigo.
Jeb parou o que estava fazendo e ergueu o olhar, com a mesma expressão cheia de preocupação de Natiya no rosto.
— Mas não vai acontecer nada — disse ele, com os olhos travados nos meus.
— Não vai mesmo — respondi para tranquilizá-lo. — Nada. — Mas nós dois sabíamos que essa era uma promessa que não poderia ser feita.

* * *

Chegamos à fronteira ao sul de Morrighan, pelo menos de acordo com Kaden. Não havia qualquer símbolo ou sinal que indicasse isso. Ainda estávamos em um descampado.
Tavish olhou para baixo, para o chão.
— Não estou vendo uma linha. Você vê uma linha aqui, Orrin?
— Eu não.
— Acho que a fronteira fica mais um pouquinho à frente — disse Jeb.
Eu e Kaden trocamos um olhar de relance, mas viajamos com eles por mais vários quilômetros antes que eu decidisse expor as nossas dúvidas. Todos os três haviam feito súplicas nada sutis para que eu retornasse a Dalbreck quando estávamos a uma distância de Kaden em que ele não podia ouvir. Eles fizeram as mesmas sugestões austeras em particular para ele, no que parecia ser um esforço para dividir e conquistar. Parei o meu cavalo e olhei bem nos olhos de todos eles.
— Havia um outro propósito para a escolta de vocês além de proteção no Cam Lanteux — falei, e inclinei a cabeça em reconhecimento em direção a Orrin — e nos manter bem alimentados? Seu rei os encarregou de me forçarem a voltar se a longa jornada não me fizesse mudar de ideia?
— Nunca — respondeu Jeb. — Ele é fiel à sua palavra.
Não totalmente, pensei.
Jeb se sentou relaxado na sela e examinou as colinas inférteis à nossa frente, como se elas estivessem repletas de víboras.
— O que você planeja fazer quando chegar lá? — ele me perguntou.
Exatamente o que os traidores sempre temeram que eu fizesse. Eu tinha prática nisso, só que faria melhor dessa vez. No entanto, eu sabia que os meus planos não aliviariam as apreensões de Jeb.
— Planejo permanecer viva.
Ele sorriu.
— Está na hora de voltarem para casa. Posso lhe garantir que aqui é Morrighan — falei. — Estou vendo o limite, mesmo que vocês não consigam vê-lo, e não quero que seja um limite que cruzem e que possam se arrepender disso. Os senhores têm as ordens do seu rei.
Jeb parecia aflito, e eu estava com medo de que ele não fosse voltar.
Tavish olhou de relance para Kaden, e então me fitou com solenidade.
— Você tem certeza?
Assenti.
— Alguma mensagem que gostaria que levássemos ao rei?
Uma oportunidade para últimas palavras. Provavelmente as últimas que ele ouviria de mim.
— Não — sussurrei. Como o rei havia dito, era melhor assim.
— Maldição, vamos levá-la para Dalbreck, de qualquer forma.
— Cale a boca, Orrin — ordenou Jeb.
Orrin desceu da sela e prendeu na bolsa de Natiya uma lebre que ele havia pego em uma armadilha. Ele soltou xingamentos baixinhos e voltou para o seu cavalo.
E era isso. Nós nos despedimos uns dos outros e eles partiram. Agora, como Rafe havia apontado de forma tão ardente antes de partirmos, minha morte pesaria apenas sobre o meu próprio reino, não sobre o dele.
Certas últimas palavras nunca deveriam ser ditas.

4 comentários:

  1. Na boa não qria q a Lia ficasse cm o Kaden... Não confio nele :/

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  2. A Lia está seguindo o caminho dela! O Rafe precisa aceitar isso.

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