2 de fevereiro de 2018

Capítulo 40

Do lado mais afastado da morte,
Passando pela grande divisão,
Onde a fome come almas,
As lágrimas deles aumentarão.
— Canção de Venda —



Tunc.
Tunc.
Tunc.
Tunc.
Eu estivera parada, em pé, na campina, durante duas horas, jogando minha faca várias e várias vezes em um pequeno pedaço de tronco. Eu raramente errava. Já havia pisado na mostarda silvestre e descido em um belo caminho em linha reta para recuperar minha faca. Havia apenas uns poucos lances ao acaso, nos momentos em que permiti que minha mente vagasse.
Tunc.
Tunc.
E então o zumbido, o tilintar e o farfalhar da faca não acertando o alvo e desaparecendo na grama alta que havia atrás do tronco da árvore. As palavras de Walther, o rosto de Walther, a agonia de Walther… nada disso me deixava em paz. Tentei classificar tudo, tentando extrair sentido daquilo, mas não havia nenhum — não quando se tratava de assassinato. Greta não era um soldado. O bebê não havia nem dado seu primeiro suspiro. Selvagens. Fui procurar minha faca, perdida em algum lugar na grama.
— Lia?
Virei-me. Era Kaden, que estava descendo de seu cavalo. Eu soube pelo jeito dele que ficara sabendo de alguma coisa, provavelmente pelas vozes sussurradas na taverna.
— Como foi que me encontrou?
— Não foi difícil.
A campina fazia fronteira com a estrada que dava para fora da cidade. Deduzi que eu estava a plena vista de qualquer um que passasse por ali.
— Berdi disse que você e Rafe saíram cedo hoje de manhã. Antes do nascer do sol. — Ouvi a falta de expressão na minha voz. Ela soava como se pertencesse a outra pessoa.
— Não sei onde Rafe foi. Eu tinha alguns assuntos para cuidar.
— Os deveres de que me falou.
Ele assentiu.
Olhei para ele, cujos cabelos sopravam com a brisa, um dourado lustroso e quase branco no reluzente sol do meio-dia. Ele pousou os olhos em mim, com segurança e firmeza.
Beijei sua bochecha.
— Você é uma boa pessoa, Kaden. Leal e verdadeiro para com o seu dever.
— Lia, será que posso...?
— Vá embora, Kaden — falei. — Vá embora. Preciso de tempo para pensar em meus próprios deveres.
Virei-me e voltei a caminhar pela campina, sem esperar para ver se ele havia ou não me escutado, mas ouvi o trote de seu cavalo se afastando.
Recuperei minha faca da grama e joguei-a de novo.
O vestido dela era azul. O bebê estava se mexendo.
Eu tenho que fazer alguma coisa, Lia. Tenho que fazer alguma coisa.
Dessa vez, vi mais do que o rosto de Walther. Mais do que o rosto de Greta. Vi Bryn. Vi Regan.
Vi Pauline.
Eu tenho que fazer alguma coisa.

4 comentários:

  1. ISSO GAROTA VAI A LUTA!!!!

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  2. Agora é guerra mata os carinhas a grega não merecia morre nem o bebe

    Mirtiz

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  3. Agora ela botou sangue nos olhos...

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!