2 de fevereiro de 2018

Capítulo 4

Há apenas uma história verdadeira
E um futuro verdadeiro.
Escutem bem, pois a criança nascida da miséria
Será aquela que trará a esperança.
Do mais fraco virá a força.
Dos perseguidos, a liberdade.
— Canção de Venda —



O ASSASSINO

Eu ficaria feliz em fazer isso pessoalmente, mas preciso voltar aos meus afazeres em Venda. Você vai resolver tudo em um dia. Afinal de contas, ela não passa de um membro da realeza. Você sabe como eles são. E tem apenas dezessete anos. Quão difícil poderia ser encontrá-la?
Eu tinha sorrido com o resumo feito pelo Komizar da realeza, mas não era necessário responder. Nós dois sabíamos que seria fácil. Uma presa em pânico não se preocupa com esse negócio de deixar uma trilha bagunçada. O Komizar havia feito meu trabalho tantas vezes. Fora ele quem me treinara.
Se vai ser fácil, por que não posso ir?, Eben havia reclamado.
Esse não é um trabalho para você, eu havia dito a ele. O menino estava ansioso para provar seu valor. Ele era habilidoso tanto com o idioma deles quanto com uma faca, e, sendo pequeno e mal tendo doze anos, conseguiria passar por uma criança, especialmente com seus desolados olhos castanhos e sua face de querubim, que tinham a vantagem de desarmar suspeitas. Mas havia uma diferença entre matar em batalha e cortar a garganta de uma menina enquanto ela dormia. Eben não estava preparado para isso. Ele poderia vacilar quando visse os olhos alarmados dela. Aquele era o momento mais difícil, e não poderia haver hesitação. Nada de pensar duas vezes. O Komizar tinha deixado isso claro.
Uma aliança entre Morrighan e Dalbreck poderia tornar todos os nossos esforços inúteis. E ainda pior: dizem que a menina é uma Siarrah. Nós podemos não acreditar nessas coisas mágicas, mas outros acreditam, o que poderia encorajá-los ou deixar o nosso próprio povo com medo. Não podemos nos arriscar. A fuga dela é a má sorte deles e a nossa boa fortuna. Entrar sorrateiramente, sair sorrateiramente: nossa especialidade. Se você conseguir fazer com que isso pareça obra de Dalbreck, melhor ainda. Eu sei que você realizará seus deveres, isso é algo que você sempre faz.
Sim, eu sempre cumpri com meus deveres. Bem lá na frente, a trilha bifurcava-se, e Eben viu isso como a última oportunidade para recomeçar sua campanha.
— Eu ainda não vejo por que não deveria ser eu a ir. Eu conheço o idioma tão bem quanto você.
— E todos os dialetos de Morrighan também? — questionei.
Antes que ele pudesse responder, Griz esticou a mão e deu um tapa na orelha dele. Eben soltou um grito agudo, fazendo com que os outros homens caíssem na gargalhada.
— O Komizar quer que ele faça isso, não você! — gritou o homem. —Pare de choramingar!
Eben ficou em silêncio durante o restante da viagem.
Chegamos ao ponto em que nossos caminhos se separavam. Griz e seu bando formado por três homens tinham suas próprias habilidades especiais. Eles seguiriam à parte mais ao norte de Morrighan, onde, por tolice, o Reino havia concentrado suas forças. Eles criariam sua própria forma especial de caos. De uma forma não tão sangrenta quanto a minha, mas tão produtiva quanto.
Porém, o trabalho deles demoraria consideravelmente mais tempo, o que queria dizer que eu teria uma “folga”, como Griz descreveu, um dia de descanso enquanto esperava por eles em um acampamento designado no Cam Lanteux para a nossa viagem de volta a Venda. Ele sabia tão bem quanto eu que ficar no Cam Lanteux não tinha nada de folga.
Fiquei observando enquanto eles seguiam seu próprio caminho, com Eben de cabeça baixa, de mau humor, em sua sela.
Esse não é um trabalho para você.
Eu era assim tão ansioso para agradar o Komizar quando tinha a idade de Eben?
Sim.
Apenas alguns anos haviam se passado, mas parecia que foram duas vidas.
O Komizar não era nem mesmo doze anos mais velho do que eu, mal era um homem crescido quando se tornou regente de Venda. Foi então que me colocou sob sua tutela. Ele me salvou de morrer de fome. Ele me salvou de muita coisa que tentei esquecer. Deu-me o que minha própria gente não me dera. Uma chance. Nunca cessei de retribuir isso a ele. Há coisas que nunca se pode retribuir.
Mas isso seria uma primeira vez, até mesmo para mim. Não que eu nunca tivesse cortado gargantas na escuridão da noite, mas se tratavam de gargantas de soldados, traidores ou espiões, e eu sabia que as mortes deles eram sinônimo de que meus camaradas viveriam. Mesmo assim, cada vez que minha lâmina deslizava por uma garganta, os olhos alarmados da vítima roubavam uma parte da minha alma.
Eu mesmo teria dado um tapa em Eben se ele trouxesse o assunto à tona de novo. Ele era jovem demais para começar a se perder.
Entrar sorrateiramente, sair sorrateiramente. E depois, uma folga.

2 comentários:

  1. Não queria a narração do assassino. Não gosto muito de livros com muitos personagens narrando, apesar de amar Herois do Olimpo!

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  2. Prevejo ele mudando de lado por causa dela e um triangulo amoroso ai, se acertei, me deem os parabéns pela minha previsão do obvio pq a maioria dos livros romanticos bons são assim

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!